Assim se vê a força do PC

Um grupo de delegados ao XVIII Congresso Nacional do PCP, querendo seguir fielmente os ensinamentos dos camaradas mais aplaudidos, tentou entregar a Jesus Martinez Valladares, representante do Partido Comunista de Cuba, uma fotografia dos irmãos Castro, mas, infelizmente, acabaram acusados de divisionismo pela ala mais vermelha do Comité Central, conhecida como Lampiões de Abril.


Assim se vê a força do PC:

O funcionamento do próprio Congresso, a permanente e elevada presença de delegados durante os nossos trabalhos, ouvindo a intervenção mais singela que fosse, é prova que, respeitando o colectivo partidário, respeitamos o indivíduo. É uma marca da diferença. Aqui não se está para ouvir falar os chefes ou os candidatos a chefe, a apoiar ou desapoiar a pensar num lugar ou no poder. O nosso Congresso significou o que de mais nobre e digno tem a política. Foi a luta, o trabalho, a força de um ideal, as opiniões e contribuições, a participação dos militantes e a militância que estiveram na base do êxito do nosso Congresso.


É, sem qualquer dúvida, uma marca da diferença. É tão diferente que tamanho bom comportamento da assistência só se encontra, em Portugal, numa outra organização cujo ideal, organização e métodos de propaganda não diferem muito dos do PCP: as Testemunhas de Jeová. Muitos estão a relacionar o Congresso à temática litúrgica porque não temos outro exemplo na democracia. Talvez por a democracia implicar essa paixão pelos chefes ou os candidatos a chefes. Talvez por a democracia ser esse permanente apoio ou desapoio a pensar num lugar ou no poder. Talvez porque o que de mais nobre e digno tem a política se chame liberdade.

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Assim se vê a força do PC:

Sim é possível uma vida melhor para quem trabalha, lutando em defesa de direitos individuais e colectivos, contra o desemprego e a precariedade, por melhores salários e condições de trabalho.
Sim é possível: reformas e pensões mais dignas, melhor protecção na doença e na velhice e às pessoas com deficiência; reforçar o sistema de segurança social público e universal.
Sim, é possível uma outra política para a juventude no trabalho, na escola, na habitação, onde possam construir com estabilidade e felicidade o seu futuro.
Sim, é possível um ensino democrático, uma escola pública determinada pela formação integral do indivíduo e não sua formatação para mercantilizar em conformidade com os interesses do capital.
Sim, é possível um Serviço Nacional de Saúde universal geral e gratuito ao serviço dos portugueses e não ao serviço dos privados e do lucro.
Sim, é possível defender o nosso aparelho produtivo e a produção nacional, dinamizar o mercado interno, apoiar a nossa indústria, a nossa agricultura e as nossas pescas, o pequeno comércio pondo fim à liberalização e às privatizações e à economia de casino.
Sim, é possível acabar com o domínio do poder económico sobre o poder político.
Sim, é possível recuperar a nossa soberania económica e manter a soberania nacional dando combate e recusando uma Europa neoliberal, monetarista, federalista, propondo uma Europa de nações livres e iguais, uma Europa dos trabalhadores e dos povos.
Sim, é possível um país defensor da paz e da cooperação com todos os povos e países.


Já se gozou com a obamamania que não poupa ninguém, nem o PCP. Mas o que há de notável nesta passagem é o facto de ter ido beber o seu sopro místico ao Sermão da Montanha. Estamos perante uma listagem de subidas bem-aventuranças que o profeta Jerónimo declamou no seu registo vetero-testamentário. Sim, é possível que estas promessas sejam apenas delírios de quem imagina a História e o Mundo a caberem inteirinhos no redondel de um Campo Pequeno. Sim, é possível que os militantes comunistas dependam da fé para continuarem no rebanho. Sim, é possível que o PCP seja menos um partido e mais uma seita.

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Assim se vê a força do PC:

A força e o reforço do PCP são do interesse não apenas dos comunistas, mas de todos os trabalhadores, e todo o povo, de todos os verdadeiros democratas e patriotas.


Será só comigo, ou isto de alguém falar em nome de todos os trabalhadores, todo o povo, todos os verdadeiros democratas e patriotas é, para além de assustador, ofensivo?…

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Fontes: I e II

17 thoughts on “Assim se vê a força do PC”

  1. é engraçado não é? Ficaram fossilizados naquilo e o Jerónimo estica o queixo a arreganha as fuças quando fala dos trabalhadores,

    feito grande pai unânime, grande pastor

    agora contribuição teórica que ficasse alguma coisa: pêva

  2. aliás é mas é o avô cantigas como disseste uma vez,

    Como serão um dia os partidos digitais?

    deve ser uma trabalheira de emails que não vos digo nada

  3. Sim, é possível viver com o salário mínimo como o fazia o camarada Álvaro Cunhal,
    Sim, é possível que o método de votação mais democrático seja o de braço no ar;
    Sim, é possível de que aqueles que não levantem o braço na tempo adequado sejam apelidados de revisionistas e divisionistas e outros istas do género;
    Sim, é possível que 40% de membros do Comité Central fiquem no intervalo dos 51/60 anos de idade;
    Sim, é possível que existam operários que não sabem o que é trabalhar como tal desde 1974, mas que se continuem a intitular como tal;
    Sim, é possível que o marxismo-leninismo tenha uma nova oportunidade de salvar a sociedade;
    Sim, é possível que o conhecimento seja nefasto para as classes trabalhadoras;
    Sim, é possível que as greves em tempo de escassez, só tragam a fome à mesa do capitalismo;
    Sim, é possível a quadratura do círculo…

  4. Teófilo m. (Ama(s)deus muito?)

    Metes, pelo teu comentário fora, tantos “sim, épossível” que acabei por ficar mordido pela curiosidade de saber onde acaba a tua ironia e começa o caudal das acusações, aceito que bem fundadas.

    Mas quero que saibas que fiquei muito intrigado com essa alusão aos 40 por cento de gente de meia-idade que compõe o Comité Central do PC. Algo relacionado com incapacidades de meias-idades? Por pouco quase me fizeste desistir da minha teoria, muito querida, segundo a qual todos os PCs e seus derivados mais à esquerda ou à direita foram criados pelos mesmos corvos negros que criaram as democracias modernas e os capitalismos das grandes e intermináveis oportunidades e liberdades.

    A política é um investimento como qualquer outro, tem de se mentir a alguém para beneficiar outrem. O Capital e o Trabalho completam-se e a realidade é que, apesar de tudo, o lucro dum é tão visivel como a exploração do outro.

    Menos visivel é o papel (e o lucro) do Intermediário. Quem será esse rapaz? Não procures nos jornais, vais perder o teu tempo.

  5. Caro Chico Estaca,

    isso dos 41 aos 50 ser gente de meia idade, está um bocado forte, porque cá neste país a meia-idade fixa-se entre os 35/40 anos.

    E não estou a falar na meia-idade produtiva que se situará ligeiramente mais acima (35/44) actualmente embora tenda ainda crescer em ambos os extremos.

    Por outro lado, verifica-se nos orgãos dirigentes do PC um forte tendência para o avançar das idades, culminando com uma linda média de 64 aninhos na Comissão Central de Controlo, que é uma espécie de censura interna.

    A democracia, infelizmente, tem um grande problema, é que todos os sistemas a reclamam como sua, desde a extrema-esquerda até à extrema-direita e a pobre coitada lá se vai arrastando pela lama de onde foi tirada pelos gregos.

    A política não é um investimento, se formos à sua génese será uma arte e como tal só deveria ser exercida pelos que têm uma real vocação para a executar, daí o ser natural a existência de bons e maus políticos, da mesma forma que os artistas não são igualmente agradáveis a todos.

    Se, por outro lado, formos ao seu fim, destina-se a ser a manutenção de um equilíbrio estável numa sociedade em permanente mutação, o que é um desafio permanente de muito difícil realização.

    A mentira é a pior forma de se lidar com o problema, mas convenhamos que muitas das vezes é extremamente difícil falar a verdade porque poucos a querem ouvir.

    Todos nós, na generalidade gastamos demais, consumimos demais, exigimos demais, vivemos acima das nossas posses, somos pouco solidários, reclamamos muito, mas quando somos chamados à atenção não gostamos, ou gostamos muito pouco, e geralmente arranjamos sempre maneira de defender o nosso ponto de vista.

    Talvez esteja a generalizar em demasia, mas é assim que eu vejo as coisas cá pela nossa terrinha, e basta olharmos um pouco à nossa volta para vermos que a realidade não é muito diferente do que eu acabei de escrever.

  6. Não haja duvida “GENTE ESPERTA E MERDOSA “, Só com o MERDIUM,OPS!!O VALIUM!!!Gente que sofreu e que foi proibida de bater á PUNHETA!!!!Hoje passados mais de trinta anos, são o que EXISTE DE MELHOR DA “DEMOCRACIA”!!!Lindos, arrogantes e cinicos ,tipo britanicos….acreditam em TUDO e NADA!!!Não passam de merdosos, agarrados ás calcinhas dos PAPÁS!!!
    Nunca “vergaram a mola”,em nenhuma fabrica, nenhum navio,nada….o que esta
    GENTALHA AÕ SABE É QUE CHEIRA A “CHULÉ”!!!!!E PENSA QUE É “ARMANI”!!!!!

  7. Teófilo,

    35-40 anos. Tens razão, não me tinha lembrado que anda por aí muita gente a morrer aos 40 com cancro na bexiga. E mais razão ainda tens na meia-idade produtiva. Também acredito nos 54 de média da comissão interna de censura. Fala-me da comissão de censura externa, se existir.

    Eu também acho que a Democracia tem um grande problema – e não pode ser o que tu apontas, o de todos a reclamarem, porque a gorjeta já está incluida no preço do prato para não deixar ninguém mal visto quando se pagar a conta.

    No meu entender, a Democracia tem vários e grandes problemas, o maior dos quais é não ter beneficiado das “mutações” de que me falas. O resto das dificuldades é pasto diário da pasquinada que as discute com muita superficialidade em português de encher papel.

    Tens que me explicar melhor esse passo dos gregos terem tirado a Democracia da lama. Mas aviso-te que também não acredito em gregos, porque nunca os vi mais gordos nem mais magros. Santa ignorância, talvez.

    Na génese, era a Senhora uma arte. Pois. Na tua opinião e na de muito boa gente. Mas, acrescento eu, quando a arte não resultava com a vocação de nascença de muito filho da puta, havia sempre outros meios e remédios. Arrisco cicuta, só para te lembrar duma das alternativas ao habilidoso verbo do tribuno.

    Que a consideras, a Ela, um desafio permanente de muito difícil realização, só me ajuda a calcular ads tempestades que nos esperam e a concluir que sabes tanto do passado como sabes do futuro.

    Por fim, não acho nada difícil falar a verdade. Já com o SABÊ-LA, inteira e sem manchas, é que tenho tido alguns problemas. Temos tido, vamos lá, para democratizar esta conversa.

    Desculpa não ter respondido como mereces aos aspectos político-filosóficos levantados no teu comentário, mas já estou a ficar muito ancião para estes debates sobre a frescura e velhice respeitável da Democracia. Se ao menos me levantassem a reforma um pouquito mais….

  8. “O nosso Congresso significou o que de mais nobre e digno tem a política.”

    Eu penso que os comunistas acreditam mesmo nessa treta. A política nobre para eles é não haver discussão, nem diferenças de opinião, nem muito menos candidatos autopropostos.

    É a negação da individualidade, da liberdade e da dignidade do ser humano. Sempre foi assim. Não tenho absolutamente respeito nenhum por estes gajos! Conheço-os muito bem há muito tempo.

    Os fascistas eram (são) iguais. E os nazis. É ver as fotos dos respectivos congressos da sua época dourada.

    Os gajos não têm cura. Pela gravidade e incurabilidade da doença já deveriam ter morrido. Facto é que continuam vivinhos e saudáveis em 2008. Precisão importante: em Portugal! E em Cuba, embora lá só tenham uma refeição diária com proteínas. Há-de haver um mistério qualquer nestes dois países. Será da água?

  9. Ó bombom, não ficas sem resposta, meu. Eu trabalhei em fábricas do teu paraíso comunista e digo-te: tenho pena de ti. Só isso. Pena.

  10. NIK,

    Ler-te é aprender, meu chapa. Agora já sabemos que trabalhaste em fábricas do paraíso comunista. No meu mapa de classificação de valorosos passados, isso, sem mais enfeites nem molhos, aconchega-te naquele nicho etário dos fulanos que já andam com as pintelheiras ruças. Envergonhado, retiro aquela graça de há tempos atrás onde te acusava de seres descendente de intelectuais republicanos com conexões financeiras com a indústria de aproveitamento do trapo.

    E, talvez por razão das três refeições de proteínas que engoles todos os dias, constato que nunca mais aprendes a ser anal-itico nas tuas presunções e cálculos sobre de quem são os verdadeiros e únicos inimigos da tua pátria das caldeiradas democráticas. Continuas a ser a carne e osso que não verga perante as novas arrancadas do espírito malodoroso dos nazis-fascistas. Salpicas isso com canelas anti-comunistas para eliminares possiveis ressaibos que possam sugerir na tua propaganda algo que ponha a claro esse outro aspecto do teu passado de leitor ávido de vários livros da Colecção Condor.

    Da diversão vive o Homem.

  11. shark, quando é que o teu Benfica se chega à frente? Estou com saudades de alguma normalidade pré anos 80, foda-se.
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    Z, é como dizes: o bom pastor do rebanho.
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    teofilo m., sim, é possível que estejas mais do que certo.
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    CHICO, estás em grande forma. É um gosto.
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    BOM-BOM, larga o vinho.
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    Nik, é o que dizes: para o PCP, a política é boa só quando desaparece, substituída, lá está, pela ditadura do proletariado.

  12. Nem me digas nada, pá…
    Actualmente ser do Benfica é como ser do Sporting, mas sem o espírito de sacrifício.
    Dá cabo da auto-estima duma pessoa.

  13. Estaca, é, de facto, um prazer ler as tuas simpáticas linhas. Nunca desiludes.

    Quanto à pintelheira, sossega que ela está bem preta, tal como o cabelo propriamente dito. Os colhões são escuros, mas não pretos. Também ainda não me socorro dos comprimidos azuis, digo isto para tua tranquilidade anal-ítica.

    Não vejo, realmente, nenhuma diferença essencial entre fascistas e comunistas. Sei do que falo, porque infelizmente tive que aturar a uns e a outros. Mais te garanto que as fábricas que conheci em Portugal não eram piores do que as que vi num país comunista, e nas quais trabalhei sem ser pela glória de que falas. Cá, pelo menos, sempre havia algo que comprar com o dinheiro que em ambos os lados não se ganhava. E os PIDEs eram mais incompetentes do que os bufos vermelhos, o que também abona a favor daqui. Duma singela coisa me posso vangloriar e realmente me vanglorio, caro Estaca: nunca fui comunista, nem fascista, nem bufo, nem ladrão. E nunca andei às ordens de ninguém, imagina só. Isso conforta-me muito.

  14. “Cá, pelo menos, sempre havia algo que comprar com o dinheiro que em ambos os lados não se ganhava. E os PIDEs eram mais incompetentes do que os bufos vermelhos, o que também abona a favor daqui.”

    Absolutamente. E quem quiser confirmar esta verdade Nik(iana) com fotografias a mexer, veja o melhor filme do ano, Das leben der anderen…

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