O estudo que revela serem os portugueses mais desconfiados do que quase todos os outros europeus não tem qualquer utilidade. Porquê? Por causa dos polacos. Esses amigos vivem numa economia em explosão, têm níveis educativos excelentes, um amor à pátria que não será menor do que o nosso, são católicos e também não confiam no vizinho. ‘Pera aí, será do catolicismo?… Hum…
Em Portugal não faltam princípios e leis, direitos e garantias, instituições e oportunidades para exercer a cidadania. Mas não somos educados para ela, nem em casa, nem na escola, nem na rua. Vivemos em colectiva depressão desde Alcácer Quibir, ainda banzos com a estupidez daquele puto-Rei. Por pouco não fez desaparecer a Pátria debaixo da pata castelhana, desejo que tem ganho popularidade nos últimos anos. Em consequência sebastianista, um português só se consegue alegrar na sua portugalidade quando está no estrangeiro. Aí, é tomado por uma exaltação sentimental que não tem parecença no Mundo. Eis a costela judaica, oferecendo à diáspora a visão de uma terrinha-prometida. Quando se volta ao rectângulo, chora-se, bebe-se e diz-se mal desta merda que está sempre na mesma, mesmo que já pouco se reconheça da paisagem. Parte-se com alívio escondido ou exagerado. Afinal, continuamos sem Rei.
Não confiamos nos outros porque não confiamos em nós, estamos desvitalizados e órfãos. Somos um país de cobardes, fugimos das responsabilidades, odiamos os que são melhores. Que fazer? Fazer política. Mas não a política dos actuais partidos, essas agremiações que são escolas de corrupção legal, servindo apenas para afastar os cidadãos do poder. O tempo está maduro para novos partidos, livres da cultura tribal que promove conflitos estéreis. Temos de saltar do século XIX para o XXI, recorrendo à inteligência como único valor ideológico. A política pode voltar a ser uma actividade integral e integradora. Começa em casa, no prédio, no emprego, em qualquer lado onde somos comunidade. É uma via de realização, convocando a nossa coragem como virtude fundamental. Porque só aquele que for corajoso consegue confiar. E só aquele que confia consegue amar – e essa é a mais completa realização política para mim e para ti.
