O PSD também precisa de um bailout

O estranho abandono de Cavaco Silva, em 1995, ainda não deixou de provocar estragos no PSD. Fernando Nogueira foi logo apontado como uma péssima escolha para sucessor, mesmo antes da sua eleição. Marcelo Rebelo de Sousa mostrou ter jogo de pés, mas não ter força de braços. Durão Barroso fazia da ocupação do cargo de primeiro-ministro a realização messiânica da sua vida. Ele sabia que um dia chegaria lá. Assim que chegou, traiu o compromisso eleitoral a meio da legislatura e deixou o País entregue a Santana Lopes. Santana foi um desastre como governante e estadista, desperdiçando infantilmente o poder máximo que lhe foi cair nas mãos. Marques Mendes prometia um cavaquismo renovador e puro, tendo começado muito bem ao tentar limpar a casa. Nem chegou a ser Sol de pouca dura, foi apenas uma lâmpada que se fundiu assim que foi ligada à corrente. Com Luís Filipe Menezes, e pela primeira vez na História do PSD, alguns temeram que o partido não sobrevivesse à super-humana ciência de Gaia. Finalmente, Manuela Ferreira Leite, por mérito próprio e alheio, confirmou o diagnóstico: o PSD está moribundo.


Até 2006, persistiu a ideia de que o PSD era um partido vocacionado para o poder, por aí se explicando as suas dificuldades na oposição. 2007 acabou com essa eufemística explicação. Desde Março, início do caso da licenciatura, Sócrates e o Governo estiveram sob ataques constantes e crescentes. Ainda em 2007, veio o caso do aeroporto de Lisboa, criminalidade no Porto, problemas no BCP e a turbulência na Saúde. Já em 2008, todos os meses sem excepção foram de inaudita convulsão social com Lei do Tabaco, caso dos projectos de edifícios na Guarda assinados por Sócrates, ASAE, Educação, Código do Trabalho, preços dos combustíveis, bloqueio dos transportadores, criminalidade no Verão, crise financeira e intensificação do problema na Educação a obrigarem o Governo a dar o melhor de si na gestão das sucessivas crises. Durante este período o PSD conheceu 3 lideranças, nenhuma capaz de convencer os críticos internos, quanto mais o eleitorado. O problema dos sociais-democratas não tem origem no facto de estarem na oposição, deve-se pôr ao contrário: é por estarem na oposição que o problema é visível.

A causa da decadência do PSD é agora óbvia: não ter ideias. Para além da polaridade Estado-Sociedade Civil, não se encontra no discurso deste partido qualquer afirmação teórica que dê sentido à experiência quotidiana dos cidadãos. Tal como não se conhece dirigente que apresente, ou indique, modelos de realização comunitária passíveis de serem pensados, já nem digo que valesse a pena serem discutidos. O partido é portuguesinho da Silva nisso de ser anti-intelectual até ao tutano, estando muito mais à vontade na companhia de empresários da construção civil e reformados nostálgicos do que na de investigadores em Ciências Humanas e artistas. Se a elite intelectual do PSD se resume ao Vasco Graça Moura, Pacheco Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa, cada qual mais enfadado do partido do que o outro, não admira que os sucessivos presidentes sejam o refugo da inteligência política.

O PSD está falido e precisa de ser salvo. Ou talvez seja preferível deixá-lo fechar portas segundo as leis do mercado, dado que os seus produtos estratégicos são tóxicos e não tem liquidez eleitoral. Uma coisa é certa: quem está a criar riqueza em Portugal não encontra nenhuma razão para depositar o seu voto no PSD. Porque este partido insiste em desviar a esperança dos portugueses para longínquos e mui suspeitos offshores .

11 thoughts on “O PSD também precisa de um bailout

  1. brilhante Valupi, e que memória de Elefante! adoro elefantes pá, vou-me oferecer o último Saramago,

    pois eu também não sei, eles que se esgatanhem uns aos outros a ver se sai luz, eu prefiro olhar para outro lado,

    eu o que gosto mais é o Menezes porque rio muito com ele e depois percebi que além de ganzado é corajoso, e é médico também acho graça a isso, de alguma maneira jurou Hipocrates,

    mas o conteúdo do psd é isto do baile e queda das bolsas, a mediocridade, dissimulada e falsa no poder em derrapagem, o teu retrato está Miro

  2. mas se tu quiseres eu agora fico quietinho, já me chega de morder, espero que muitas famílias possam ter natais mais leves e já agora por favor não se matem uns aos outros nas estradas, tá? Não gosto de notícias tristes.

  3. Exactamente! O PSD anda pelas ruas da amargura! Afinal, quem já esteve no poder e não foi capaz de fazer, por que carga de água surgiria, agora, logo agora, com o mundo mergulhado numa crise de consequências ainda desconhecidas, iluminado com soluções infalíveis que, note-se, também não sabemos quais são, e resgatar Portugal das garras da feia crise! Valupi, quando se referiu ao Durão Barroso e da forma como o fez, até sorri! Veio ao encontro daquilo que sempre pensei dele! No momento em que se soube da sua vitória como primeiro ministro, viu-o na televisão de semblante deslumbrado e olhos brilhantes, feliz como uma criança a quem presenteiam com a sua primeira bola de futebol! De imediato, pensei para mim… Temos merda! E tivemos! Esperava ver, nem que fosse por breves momentos, aquele semblante deslumbrado, toldar-se um tanto, pela preocupação e pelo peso da responsabilidade, por lhe ter caído nas mãos o destino de milhões de pessoas!… Mas não! Ele ali estava sorridente, parecia um garoto feliz. As recentes escandaleiras e ainda a procissão vai no adro, também vão ajudar num último empurrãozinho em direcção ao fundo da sarjeta. Adeus PSD…

  4. O PSD nunca teve ideias nenhumas, a não ser a conquista do poder (“finalidade” do partido de acordo com o art.º 1 dos Estatutos do PPD de Sá Carneiro).

    Agora optaram pela mentira:

    1. O Partido Social Democrata (PPD/PSD) tem por finalidade a promoção e defesa, de acordo com o Programa do Partido, da democracia política, social, económica e cultural, inspirada nos valores do Estado de Direito e nos
    princípios e na experiência da Social-Democracia, conducentes à libertação
    integral do homem. (Estatutos actuais do PSD)

    A verdade é que, não estando no poder, o PSD esfrangalha-se em lutas internas e dá o triste espectáculo a que assistimos em 1975-1979, em 1995-2008, com o intervalo do Barroso, e desde 2005. O PSD não foi feito para estar na oposição, porque nunca foi essa a sua “finalidade”.

  5. Porque abandonou Cavaco em 1995 o PSD?

    Em 1985, toma conta do PPD/PSD, depois de ter ido à Figueira da Foz apenas para fazer a rodagem ao carro que havia comprado à pouco tempo.

    Claro, que a primeira coisa a fazer foi acabar com a coligação com o PS, pois o dinheiro fresco chegava de Bruxelas e os anos de apertar o cinto já se estavam a afastar…

    Eanes, dá uma ajuda com a criação do Partido da balança.

    Opotunismo político? Não senhor, é mentira!

    Em Outubro de 1986 chegavam os primeiros dois milhões de contos para o FEDER.

    Pois é…

  6. Quando Cavaco chegou ao poder via rodagem do carro (só tomou posse em Novembro) a taxa de inflação tinha descido com o governo do Bloco Central de 35% em 1984 para 15% em 1985. Além disso, o preço do barril do petróleo tinha caído recentemente para US$ 15, o dólar baixado de 189 para 160 escudos e as taxas de juro do dólar para quase metade do ano anterior. Os preços das matérias primas quase todas acompanhavam a tendência. Cavaco, que conhecia bem as tendências, saltou para o comboio do poder no momento ideal, ajudado também por um tal Hermínio, que tinha atamancado um partido mancomunado com essa brilhante inteligência chamada Eanes. O PRD roubou em 1985 ao PS cerca de 40% dos votos, o que permitiu a Cavaco ganhar as eleições e dispensar o Bloco.

  7. 1. Curioso!

    dez anos foi o tempo que os CS’s pretenderam remover da memória dos portugueses,

    e sobretudo dos novos eleitores,

    cuja imagem dele é mui diluida…

    2. Dez anos, em que os fundos da então CEE

    aliás negociados pelo governo anterior, do bloco central,

    que também foi quem fez a politica de austeridade imposta pelo FMI,

    vieram para Portugal e foram esbanjados por essa maioria iluminada dos vários loureiros que aqui germinaram

    3. Agora, com BPN vem tudo à tona desses tempos magnificos

    quando os investimentos eram “reprodutivos”,

    as “reformas” se faziam com as corporações,

    etc., etc., etc.

    4. Depois de ter visto preço petroleo a disparar ate aos $140, e agora cair para os $50, já espero tudo …

    abraço

  8. Z, esse retrato do Menezes ganzado é que é Miró. Ele, de facto, alucina como poucos.
    __

    Milu, essa tua recordação do Barroso feliz como um petiz é preciosa. Ele, realmente, apenas estava interessado em poder gritar “Também cheguei lá!”. É nisto que a vaidade é venenosa, por ser totalmente oca.
    __

    MFerrer, sellout, bem visto.
    __

    Nik, toda a razão: o PRD é que está na origem do fenómeno Cavaco. O resto foi o dinheiro da Europa a entrar e o apelo salazarista da figura e do partido.
    __

    Aires, toma lá outro. Faço minhas as tuas palavras.

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