O pudor dos amigos pessoais

Mário Bettencourt Resendes é mais um daqueles casos misteriosos em que o público não percebe por que raio lhe pedem opinião sobre política. Mas pedem, com regularidade. E com regularidade ele provoca crises de amnésia: depois de o ouvirmos, não conseguimos fixar nada de nadinha que tenha dito. Há uma explicação corrente para o desconcertante efeito, a qual defende a tese de que nada chegou a ser dito, daí nada poder ser lembrado. Contudo, aparelhos de gravação de som, e dos mais baratinhos, registam sinais sonoros cuja fonte só pode ser o próprio Mário. Pois bem, na última edição do Expresso da Meia-Noite, Bettencourt introduziu uma radical inovação no seu desempenho e disse algo que ainda não consegui esquecer. Primeiro, anunciou ser amigo pessoal de Dias Loureiro, seguiu para o ataque aos que o condenavam na opinião pública sem esperar pelas provas e depois referiu não ter visto a sua entrevista, dada 170 horas antes. Vamos recapitular: um marmanjão que é jornalista, comentador político e amigo pessoal de Dias Loureiro, vai para um programa de informação onde se discute a crise do BPN dizer que não teve tempo para encontrar um computador com ligação à Internet para ver a entrevista mais importante dos últimos 30 anos. Eis uma daquelas cenas em que mesmo a lobotomia não seria capaz de apagar a recordação de tão espantoso fenómeno ocorrido com o senhor jornalista convidado a falar da actualidade.


Dias Loureiro é um labrego. Não sabe falar, tem a finesse de um carroceiro. E é muito duvidoso que saiba pensar, a fazer fé nas declarações do próprio na entrevista. Os boatos sobre o modo como subiu na vida, e o que fazia em Coimbra antes de entrar na política, correm soltos há décadas. Foi o ministro mais odioso do cavaquismo, o tipo acabado do provinciano vindo para a Capital e a ficar ofuscado com o poder. Como agora sabemos cada vez melhor, Cavaco é outro provinciano que terá encontrado no Loureiro um exemplo particularmente eficaz da sabujice que alimenta a vaidade. O cavaquismo funcionava exactamente por cima da matriz salazarista, repetindo-se fórmulas que já tinham provado a sua viabilidade durante 40 anos: o chefe permanecia intocável, santo, enquanto os anjos se deixavam tentar pela luz e caiam desamparados em cima de negócios que ficariam por esclarecer. É bem possível que Cavaco acredite ter tido Governos onde não terão existido casos de corrupção, fossem eles quais fossem; e ai de quem lhe pedir opinião sobre o assunto, porque o tomará como afronta. É que Cavaco vive na ilusão farisaica de se ter tornado num exemplo de perfeição moral. Quem o rodeia é solícito a proteger essa balela, ninguém tendo coragem para gritar que o rei vai nu. Porque os factos são outros: o cavaquismo é um pardieiro de corrupção. A boa gente que o constitui foi quem, afinal, escolheu e manteve Cavaco no poder. Fosse nas suas costas, ou debaixo dos seus olhos, os casos aconteceram, deram que falar e nunca suscitaram de Cavaco qualquer reflexão ou assunção de qualquer tipo de responsabilidade, nem que fosse por omissão. Mas saiu a terreiro para defender o amigo pessoal que está desacreditado perante o País.

Mário Bettencourt Resendes ainda conseguiu acrescentar outra ideia para memória futura. A de que Dias Loureiro, no caso de ser arguido, iria demitir-se do Conselho de Estado. Disse isto como prova de carácter do seu amigo. Também invocou a declaração de Cavaco quanto à palavra dada, como que a mostrar que o caso já teria sido resolvido entre amigos em Belém. Estava seguro do que dizia, porém repetia não ter visto a entrevista do seu amigo pessoal. Enfim, são declarações que nascem de um tipo de amizade especialíssimo, onde o pudor é tanto que já nem se consegue olhar para o amigo.

14 thoughts on “O pudor dos amigos pessoais”

  1. Os teus textos estão a tomar proporções bíblicas! No entanto, aconselho-te a tomar cuidado, que esses gajos andam por todo o lado e têm bons advogados! :)

  2. até me puseste a ver televisão de manhã, entubada, mas só consegui ver a primeira intervenção do Duque, só se tiver mesmo de ser,

    no limite, engenharia financeira, inshore e offshore: caem pontes

    está por julgar este modo de pensar que começou com o elogio da gestão racional

    (depois para variar se puderes pôr um dia um daqueles trailers desses jogos que descubrias e que eu gostava tanto)

  3. ou seja: na prática estão a emitir dívida pública para salvar os bancos e as fortunas que lá estão, desses senhores

    e eles pagam como?

  4. Z, ontem lembrei-me de ti, uma amazing notícia. No Expresso, acho.

    Um bichinho marítimo qualquer do Atlântico Norte (ai que já não me lembro qual! Estou a vê-lo ali espalmadinho na foto, mas grupo o taxionómico varreu-se-me.
    Amiba? Protozoário?) que fotossintetiza depois de comer uma alga.

    Tu também comes algas? É preciso cuidado, quando menos esperamos estamos a adquirir propriedades de espécies alheias.

    Acho que saí do tema do post mas o bichinho também não devia andar a vestir o que não lhe pertence.

  5. algas só aquelas chinesas que são um bocado pastilha elástica, mas não me importava nada de adquirir propriedades de outras espécies, no me gusta ser sapiens, acabei de ver os Bórgias,

    e tá de chuva até amanhã

  6. Z, escrever num blogue não pede coragem, apenas tempo. Já assumir o nosso estatuto de cidadãos. isso sim, é corajoso.
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    Raul P. desconfio que os gajos têm mais com que entreter os advogados.
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    Tony Vieira, “temos o Portugal que votamos”, sábias palavras.
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    M, as caixas de comentários, nesta casa, são espaços de ocupação livre.
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    Aires, toma lá outro.

  7. magnifico. Foi exactamente isso que senti quando o ouvi falar. Será que ninguém nos explica os critérios dos convidados.Porque razão se convida este fulano, assim como o Delgado e tantos outros. Já não se podem ouvir os disparates que dizem.
    abraço

  8. joão, o Delgado, então, é o mais denso mistério no universo dos comentadores. É um gajo que faz Bush parecer uma intelectual francês.

    Toma lá outro.

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