A tarde em que me apaixonei pela Maria Valupi

Maria Valupi

[toca na imagem se te queres apaixonar]

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Como não guardei, posso escolher. Escolho Junho. Foi em Junho, então. E princípios dos anos 90, isso garanto. Universidade Católica, Lisboa, biblioteca ainda a cheirar a edifício novo, ainda sem o outro edifício novo ao lado, construído no que foi um gigantesco relvado. A biblioteca da Católica é o melhor local do mundo, descubro por comparação. Enquanto na Biblioteca Nacional, ou na Faculdade de Letras, os livros estão cativos em armazéns, protegidos por esterilizante burocracia que obriga ao preenchimento de requerimento para cada leitura, ali esperam por nós nas prateleiras. Passamos, paramos, agarramos, lemos de pé, nas mesas ou aceitamos o teimoso convite da gravidade e descemos à alcatifa. Lemos o que queremos, o que procuramos, o que nos vem parar aos olhos, o que salta para as mãos, o que encontramos na gana de conhecer e mesmo que não tenha relação alguma com estudos, cadeiras, exames. A vida no edifício da biblioteca é helénica, com bar em baixo, gabinetes em cima, corações juvenis em ebulição, o futuro quieto a ver-nos passar.

O acaso levou-me gentilmente à revista Colóquio/Letras, n.º 41, Janeiro de 1978, página 62. A leitura do último poema é um nascimento, epifania de uma mulher que me conhece sem poder saber da minha existência. Acordo para o sonho e estou nessa praia onde o amor passou por entre um piscar de olhos. Eu era aquela espera, e aquela desatenção, mas também aquele mar e o que nele passa uno com a espuma. Um brilho, uma onda, talvez um certo reflexo do céu, e que não volta mais, mas que esteve à minha frente.

Que Maria Valupi foi um enigma esquecido por todos, mesmo dos especialistas de literatura, era para mim uma graça que aumentava a magia do encontro. A Internet até 2006 quase nada tinha de obra ou biografia. Isso permitiu-me questionar alfarrabistas, e animais exóticos que crescem nesses meios, só para tropeçar em ignorâncias e histórias fantásticas que começavam invariavelmente por Não tenho a certeza, mas acho que ela era/foi/estava… Só ganhou notoriedade nestes últimos dois anos, culminando com a edição da Antologia Poética em 2007. E agora apeteceu contar esta história para celebrar a lançamento na Internet do arquivo da Colóquio/Letras, aberto a todos os utilizadores e sem necessidade de qualquer registo. É o acontecimento cultural do ano, digo eu que sou um apaixonado.

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Nota: já aqui no blogue foi assinalado o lançamento do arquivo, pelo José do Carmo Francisco.

31 thoughts on “A tarde em que me apaixonei pela Maria Valupi”

  1. Obrigada pela «pérola» que apresentas aqui. As bibliotecas nem sempre são locais de fácil acesso aos livros, embora hoje em dia o conceito tenha evoluído, transformando-as em espaços convidativos; no entanto, nem sempre o conteúdo dá resposta às nossas expectativas.
    Felizmente que a internet é esta rede de conhecimento de mais fácil acesso!

  2. O mais curioso neste acontecimento cultural é que eu cheguei a pensar que ele nunca iria acontecer. Tenho um amigo que trabalhou duramente para isso e já visitei o «site». Há uma certa comoção em ler um poema que escrevi intitulado «A relva em frente» e lembrar as circuntàncias: Jacinto do Prado Coelho nunca tinha reparado que do seu gabinete só se via relva e sapatos de quem passava. Entrava sempre dobrado pelo peso dos livros que nem tinha tempo para essas divagações. Num certo sentido este poema estar no site é um pouco essa memória feliz que não morre.

  3. claudia, tens razão: lá tinha que vir a prosápia de sempre «embrulhada» num pretexto sem a mínima importância. Agoniativo, para não dizer outra coisa…O homenzinho não deixa escapar uma!

  4. Tu não és ninguém para me tentar chamar homenzinho. Pelo contrario; o facto de ter convivido com Jacinto do Prado Coelho nesses anos de 1981 a 1984 fez de mim o contrário de um homenzinho. Isso não vais conseguir tu desmentir por mais voltas que dês. Assim nunca vais passar da cepa torta.

  5. jcf, o facto de JPC ter-te aturado durante anos faz dele um homem muito paciente. O “My name is” tem razão, és um homenzinho que passa o tempo a pôr-se em bicos de pés.

  6. jcfrancisco e demais, este é um post demasiado bonito e delicado para esta onda sado-masoquista. por isso façam-me o favor de não continuarem.

    de facto, jcf, tens dificuldade em comentar alguma coisa sem falares de ti mesmo. quando isso acontecer ganhas um prémio, prometo.

  7. susana, quem provocou esta onda, que não vem a propósito da qualidade do post do Valupi – bem elaborado e algo sentimental – , não foram os comentadores deste blog: foi o seu colaborador JCF, sempre com as mesmas baboseiras. A claudia acusou o toque, eu acusei e o Zeca Diabo fez o mesmo. Já li aqui suficientes posts, bonitos e bem escritos, serem abandalhados por muitos comentadores e de forma muito menos elegante. Nunca notei que a susana viesse «ralhar» fosse com quem fosse. Não me parece que deva tratar os comentadores do aspirina com essa autoridade do «façam-me o favor de não continuarem.»! Lembre-se, susana, que não está na aula a repreender os seus alunos ou em casa a repreender os seus filhos. Não foi feliz com o «tom de dona do blog». Não lhe ficou bem. Melhor seria tentar que o jcf, futuramente, mudasse de atitude para evitar estas desagradáveis situações. Se Jacinto do Prado Coelho teve paciência para aturá-lo, a nossa não é menor – a vantagem é que podemos falar. Pelo menos, até agora podíamos…

  8. my name is, tens alguma razão. no entanto eu pedi, não mandei. e com um riso atrás das palavras, estava a brincar, ou não teria falado de sado-masoquismo. foi um desabafo. como imaginas é cansativo assistir a esta cena macaca, mesmo que aparentemente simbiótica.
    quanto a uma parte do que dizes, creio que concordarás que uma coisa é o comentário ser relativo ao post (mesmo que do ponto de vista de alguém o “abandalhe”) ou ser completamente extemporâneo. nada de mal, mas também penso que posso acusar o toque, ou achas que não?

  9. «…por isso façam-me o favor de não continuarem.» Desculpe-me, susana, mas é assim que está escrito. Autoridade a mais. Não houve pedido. Sim, é cansativo «assistir a esta cena macaca» quase diariamente. Com isto tudo, pode ser que jcf ainda se inspire e encontre alguma saída, noutro dos seus mal-trajados comentários, para nos contar mais um episódio da sua «alta patente» biográfica/literária…
    Quanto ao «acusar o toque», tem todo o direito! E ainda bem.

  10. então discordamos do que é um favor. uma ordem seria, para mim, «por isso não continuem». a implicação de ser um favor que me fariam contém em si o pedido.

  11. Um sorriso imenso para ti, primo (frase meio gay, admito). Gostei muito do que lá li (lali-lala). Vou comprar essa antologia.

  12. Duas perguntas:
    Tu apaixonaste-te pela senhora nos anos 90?
    E assumiste o nome Valupi por causa dela e dos poemas dela?

  13. Susana, é um bocado doloroso ler numa página indicada pelo autor do post que uma tal Poetisa Maria Valupi foi “ignorada por editores e críticos da sua época” e topar nos comentários com a vaidade farronqueira de um pseudo-poeta que não cessa de se auto-elogiar só porque certas cumplicidades noctívagas abundantemente regadas a álcool lhe abriram as portas do prelo.

  14. zeca, por aí vais bem, é doloroso saber-se que estes poemas foram ignorados na sua época, não sendo propriamente uma novidade ou caso isolado na história da produção artística e cultural. e também alinho na incompreensão do que leva o jcf a puxar a brasa à sua sardinha de modo sistemático.
    do resto que dizes, gosto de alguns textos e de alguns poemas que aqui tem mostrado e pela parte vale a pena o todo. sobre a outra fatia não posso pronunciar-me, desconheço as circunstâncias e são-me indiferentes: o que está mal é que a maria valupi não tenha sido publicada, e não que outro autor o seja.

  15. (Desculpa, Susana. O post é muito bonito, sem dúvida alguma. E fico aqui à espera da resposta à pertinente questão que o Nik colocou porque acredito que a parte mais sumarenta ainda está por desabrochar aqui – e isto não é outra boca ao Costa, embora possa soar.)

  16. mas claro, claudia. o zeca diabo é boa onda. como, ao que parece, era o seu referente (eu não sei, porque não vi essa novela, mas o personagem foi muito falado).

    (na boa, shark. mas shark, o valupi já aqui disse mais do que uma vez, quiçá duas, que tomou de empréstimo o nome da maria valupi por se ter apaixonado pela sua poesia…!)

  17. Pela poesia? Ohhhh.
    E eu a ansiar pelos detalhes íntimos de uma aventura amorosa tão intensa que o protagonista até adoptava o nome da sua amada e tal…
    Sou um romântico frustrado nas expectativas, embora continue a achar bonita a homenagem inerente.
    O Valupi é boa malha. A mim nunca enganou.

  18. :-) susana, zeca, os seres endiabrados são necessários.
    shark, não deixo de sorrir ao ler coisas tuas. Encaixas as palavras certas, és um bom de malandreco.

  19. Pessoal, estive ausente, daí a demora.
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    irene, obrigado eu pelas tua palavras.
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    claudia, estragas-me com mimos.
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    susana, e eu gosto do teu gosto.
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    jcfrancisco, obrigado pela história.
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    primo, de gay, médico e louco todos temos um pouco.
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    Nik, sim e sim. Para ser mais preciso, e me repetir, apaixonei-me por causa do poema supra. Ou apaixonei-me pelo poema, para ser exacto.
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    z, especialmente, para o meu gosto, e por felicidade, aqueles reunidos na página.
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    Karin, ainda bem que o Brasil também gosta da Valupi.
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    shark, a senhora morreu em 1977, com 72 anos. E em 77 eu passava o tempo livre a jogar à bola e a andar de bicicleta, lá na rua. Donde, tens toda a razão em suspeitar de uma aventura amorosa intensa. Na verdade, escandalosa.

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