Todos os artigos de Valupi

Deixa derreter

Se é ao aquecimento global que tenho de agradecer a perfeição das condições balneares que Outubro está a oferecer aos ricos e aos desempregados, então concluo que as ameaças de catástrofes ecológicas não passam de propaganda dos invejosos. Desafio qualquer verdusco a descobrir danos climáticos nesta situação:

– Ausência de trânsito automóvel para chegar à praia, evitando-se o poluente pára-arranca.

– Abundância de lugares para arrumar o bólide, sem gasto de combustível à procura da sombra.

– Areal sem alterações ambientais resultantes da pressão demográfica.

– Ar com temperaturas na casa dos 30º em meados de Outubro, avesso ao movimento, sequer caricia de brisa.

– Água do mar limpa e quase tépida, sem algas nem ondulação perigosa.

– A certeza de não haver professores por perto, só pessoas de altos rendimentos e uma concepção epicurista do ser, mas ainda mais do estar.

Se é para a fruição destas experiências que as calotes estão a ser derretidas pelas fábricas dos chineses e pela produção de Magalhães, só vejo vantagens. E se for mesmo necessário, podemos enviar para os pólos alguns dos calotes que temos conservado em investigações congeladas com todo o cuidado. Mas deixar de fazer praia em Outubro, e em breve Novembro e Dezembro, é que não.

Abyssus abyssum invocat

Ter assistido à metanóia do Pacheco, que de refugiado eleitoral passou a elogiador de Santana, não é memorável. Porque a sua plasticidade axiológica não tem qualquer interesse para mim. Memorável, para mim que trabalho na área, foi a razão apresentada: Santana tinha bons cartazes de campanha. Eis, afinal, ao que tudo se resumia, um arrufo de marketeiros.

Admitindo que não foi Santana a conceber tais peças, nem os militantes dos partidos da coligação, restam as agências de comunicação. Essas entidades proporcionaram boas estratégias e boas execuções, trabalharam as mensagens de modo a facilitar a adesão do maior número de eleitores. Lavagem cerebral? Sim, diria agora Pacheco, mas no sentido em que uma lavagem retira a sujidade às ideias que se querem transmitir. E elas ficam mais bonitas, mais atraentes, porque mais puras. Em suma, isto das agências de comunicação, desde que pagas pelo PSD, é um contributo para a qualidade da democracia e para a luta contra a abstenção.

Santana e Pacheco voltam a cair nos braços um do outro graças aos préstimos de uma agência de comunicação. O destino é sarcástico. Ninguém sabe onde essa queda os pode levar, posto que nenhum deles tem bom fundo. Na verdade, nada existe no seu interior capaz de suster o movimento de fusão iniciado nas Autárquicas, nem sequer um qualquer fundo perdido. Vai ser preciso voltar a contratar a tal agência para descobrirmos o que lhes aconteceu. Brevemente, num cartaz perto de si.

Que se passa com os gajos do Arrastão?

O Daniel Oliveira passou por cá para deixar uma enigmática pergunta:

Valupi, você nunca passa disto?

Pedi explicações, debalde. De que estará a falar? Mas, mesmo não fazendo ideia, será que ele tem razão, e não passarei nunca disso? E, nesse caso, deverei ficar preocupado ou aliviado? Afinal, será assim tão mau haver alguma contenção, ou pudor, quanto a isso que nisso o disto fala disso?

O Pedro Sales passou por cá para deixar este monumento à sua mundovisão:

Não peço desculpas a ninguém, só faltava. Era puramente retórico, como facilmente se percebe. Quem pediu desculpa, e bem, foi o PS que já retirou a lista encabeçada por esse senhor e assim se arrisca a perder a câmara de Mondim de Basto para o PP.

Sales gozou com um episódio de homicídio e transformou-o num caso político ainda a votação decorria. Nesta declaração, manifesta o seu regozijo por o PS poder vir a ser penalizado com prejuízos eleitorais à pala de uma tragédia pessoal que acabou em morte e desgraça. Eis um cinismo letal e granítico, imune a qualquer forma de empatia por alucinação ideológica. Este é o mesmo Sales que falou em escravatura para atacar a Patrocínio, naquele que fica como um dos mais ridículos momentos na vida de um adulto a ter chegado ao meu conhecimento.

Desconfio que estes gajos estejam afectados do Bloco.

Força, força, companheiro Vasco

Há qualquer coisa na água do Porto que leva a serem tripeiros os mais pícaros autores da opinião publicada. Alguém podia estudar o assunto, não pode ser um acaso. É o que se passa com Vasco Graça Moura, um fanático e boçal cavaquista que ficou insano com a derrota de Ferreira Leite. Duas das suas últimas crónicas no DN, Mais do mesmo e Levar o mandato até ao fim, conseguem o feito de surpreender pela virulência e descontrolo num caceteiro inveterado, razão para terem o merecido destaque. Mas ficar encandeado pelo desvario emocional, que a prosa deliciosamente exprime, será perder o essencial que se oferece em bandeja: as entranhas da campanha negra.

A campanha negra é feita a partir de grupos económicos que perderam poder ao não conseguirem comprar Sócrates, por um lado, e a partir do estertor de uma geração decadente, a do cavaquismo. Assim, o que o Seven-up escreve desbocadamente corresponde, ipsis verbis, ao que se diz à porta fechada na Lapa e em Belém, locais onde há muito se trocou a realidade pela fantasia. Cercados por conjunturas internacionais assustadoras, e não conseguindo deter a erosão do valor político do PSD, estas pessoas fecharam-se na sala de pânico – também conhecida como Casa Civil. Daí tentaram a golpada, a qual teria sempre de começar com o afastamento de Sócrates. É até neste sentido que se pode interpretar a repetida acusação de ter Sócrates um projecto pessoal de poder – leia-se: como ele não alinhava nas jogadas das clientelas do PSD e fauna congénere, então era porque iria tentar comer o bolo sozinho. Sim, a hermenêutica da pulhice não é um exercício especialmente difícil, tamanha a previsibilidade dos interesses que se movem.

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Malta fraquinha

A nossa. Portugal é uma selecção em grandes apuros, de credo na boca. Neste jogo com Malta, vimos o óbvio: uma equipa nula a perder um jogo, e uma equipa medíocre a jogar futebol medíocre. Os próximos dois jogos serão pura lotaria.

Bosingwa é um dos melhores futebolistas profissionais portugueses. Joga no Chelsea, depois de ter jogado no Porto e no Boavista. É jogador de Selecção desde 2004, tem 27 anos e está na segunda metade da sua carreira. Então, como se explica que tenha entrado numa picardia de agressões com um jogador de Malta, a qual lhe valeu um amarelo? Que descontrolo é este, a este nível e nesta fase? Numa indústria que dispõe de tantos recursos financeiros, que trabalho psicológico é feito de modo a erradicar estas disfunções?

O problema também está em Queiroz. A imagem que passa durante os jogos, e nas declarações, não é de autoridade, é de nervosismo, insegurança. Se ele, o Professor, ele o técnico com currículo internacional de topo, não se dá conta das disfuncões que propaga, o aleatório fica cada vez mais decisivo.

Onde não há fraqueza é em Guimarães. O povo fez a festa, não há festa como a do povo.

Vai ao cinema

the_hurt_locker vai ver este filme

Para ver The Hurt Locker (Estado de Guerra). Deve estar quase a partir (de Lisboa, pelo menos, e a medir pelo número de salas e sessões), talvez esta semana mesmo. Numa daquelas coincidências em que a blogosfera é fértil, dois dias depois de o ter visto saiu este remoque da Ana Vidigal.

Kathryn Bigelow, derivado a umas cenas maradas que acontecerem minutos antes do Big Bang, não veio a casar comigo. Em vez disso, enrolou-se com o James Cameron, um dos realizadores mais brilhantemente americanos do coisa e tal. Mas só durou 3 anos, vá lá. Que têm estas peripécias biográficas a ver com o filme? Não faço ideia. É ir à Internet e pesquisar.

Filme de acção? Dois pares de túbaros? Pois. Contudo, Kathryn é nome só aplicável a representantes do gajedo. E nós sabemos, e bem, que o gajedo tem um conjunto de interesses muito limitado: gatos, supermercados, discussões na cozinha e putos. Ou seja, o amor. É disso que este filme trata. Mesmo que o tenha embrulhado num fato de protecção feito das melhores explosões de guerra que já se filmaram.

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Vai ao cinema, tu precisas e mereces.

Mas tu não és parvo como a Maitê, tu és parvo como só tu consegues ser

Maitê fez uma peça de humor em Portugal, convencional para os códigos brasileiros e do programa onde foi emitida. E fê-la de forma amadora, iconoclasta, feminina. Amorosa, brincando com os estereótipos, mas até cultural e politicamente relevante. Em 2007.

Alguém faria um valiosíssimo serviço à comunidade se recolhesse as reacções bácoras, como esta, que exibem o pior dos portugueses. Estes parvalhões merecem ser ridicularizados sem piedade.

Solução madura

Era o filho pródigo do Regime.
Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico.
Estava talhado, calibrado, destinado.
Não era um acidente – era uma raça.
Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam, com um olhar terno.
Era Marcello.
Era Rebello.
Era de Souza.
E, excessivamente, Nuno.

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Portela Filho, Janeiro de 1974

Guerra ao Nobel da Paz III

Uma antiga questão académica, subitamente actual, desafiava a que se escolhesse o mais filantropo destes dois homens: Albert Schweitzer ou Louis Pasteur. O primeiro largou uma vida de conforto e prestígio, tendo ido para África tratar dos absolutamente miseráveis. As condições em que começou a exercer medicina e a educar foram heróicas, ele nem sequer a língua nativa dominava. E o destino reservava-lhe outros martírios. Ficou como um dos maiores testemunhos de entrega ao próximo, aos mais necessitados. Foi Nobel da Paz em 1952. O segundo passou a vida fechado numa sala a olhar para um microscópio.

Que pensas, qual deles fez mais para acabar com a miséria, as guerras, o sofrimento da Humanidade?

A fonte e a nascente

O Prós e Contras de 12 de Outubro vale por uma licenciatura em jornalismo. Abençoado situacionismo, e completa asfixia democrática na RTP, que permitiram momento tão clarividente e cru. Parabéns a todos os intervenientes, em especial a José Manuel Fernandes. Digo-o sem um grama de cinismo ou ironia, pois sem ele não teria sido possível a produção daquele espectáculo.

A figura da noite, contudo, é Henrique Monteiro. Ele representa a decadência portuguesa. Explicou que o Expresso não quis publicar o mesmo email divulgado no DN porque essa publicação era exactamente o que a fonte do material pretendia – naquela que foi a primeira das suas grandes revelações, isso das fontes terem desejos e vontades. Depois, detalhou: como a sua fonte era um político, ter feito notícia implicava estar a fazer política. E ele isso não fazia, apenas jornalismo. Tivesse a fonte sido um carvoeiro, talvez o problema fosse o mesmo, pois ele também não andava ao carvão. E por aí fora, consta haver outras áreas de actividade profissional passíveis de multiplicar os exemplos, mas a falta de tempo impede que sejam agora recordadas.

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António Costa vintage

A seguir à decisão de ter abandonado o Governo para concorrer em Lisboa, o discurso de vitória nestas Autárquicas é o melhor momento na carreira de António Costa, para mim. Estava feliz. Orgulhoso, claro. Ou seja, embriagado de alegria. Revelou ter muito bom vinho, mantendo-se focado no essencial e sabiamente contido. Pose de Estado, mas descontraída. Castigador, mas não violento. Modo festina lente.

Enquanto no PSD se recorre invariavelmente ao truque de meter os putos da JSD – grupos que consistem tão-só nos excitados filhos dos dirigentes e amigos de ocasião – a berrar a cada 30 segundos, acreditando-se que chega para enganar o patego televisivo, no PS tal deboche não existe. Pelo contrário, sente-se um genuíno sentimento de realização colectiva nos momentos de celebração. Nesta noite, foi comovente a lembrança de Armando Rafael e Raul Solnado. E comoventes os cumprimentos a Roseta e Sá Fernandes, especialmente ao choramingas do Carlos do Carmo. Só faltou que Sócrates, o qual deixou todo o espaço livre para Costa brilhar, tivesse dado o abraço no palco onde se discursou e estava a equipa vencedora, em vez de ter sido dado depois de acabar o momento e quando a grande confusão já estava instalada. Todavia, essa falha só vem em abono de Sócrates e não fica em desabono de Costa. O PS tem mais o que fazer do que andar a brincar ao poder.

O Zé, afinal, fazia-lhes falta

Votei Bloco para eleger o Sá Fernandes, no passado. Tal como votei Alegre para as Presidenciais. Depois vi os meus votos serem agitados no ar longo tempo após essas eleições, como se pertencessem a Louçã e Alegre. Ainda hoje os vejo com os meus votos na mão, os cabrões.

Fazenda, um tipo impecável e trabalhador que calha ser também um retinto imbecil no que à ideologia diz respeito, avançou para as Autárquicas com o lema Lisboa não é negócio. Os carolas do BE tinham decidido continuar a usar a manha que tão bons resultados produzira nas Europeias e Legislativas: difamar o PS, chamar bandidos aos socialistas. Era este o programa, nada mais. Sempre que o Fazenda se descosia, falava dos contentores, da Mota Engil e do Coelhone. Acontece que não havia professores a votar em Lisboa num número suficiente para sequer eleger 1 vereador, pois essa fauna habita em tocas nos subúrbios, e o BE fodeu-se.

Que bom, ver a pulhice castigada.

The one-man show

Santana não sabe perder. As derrotas derrotam-no. Ora, quem não sabe perder também não sabe ganhar. E Santana tem mostrado isso ao longo da sua carreira. Uma carreira feita de simulacros: o de ser brilhante, de representar o espírito fundador de Sá Carneiro, de ser o futuro do PSD, de vir a ser o líder máximo em Portugal, de dar a volta a qualquer audiência assim que abre a boca, de resistir a qualquer desaire. Por isso, vê-lo a desculpar-se com asininas teorias de conspiração, repetir comentários acabadinhos de ouvir aos politólogos, fazer ele próprio de politólogo à maneira de Cavaco, invocar o apoio do Pacheco, lançar um ataque populista e bronco contra as sondagens e gozar com os lisboetas que votaram nele deixando no ar a possibilidade de assumir o cargo de vereador, é ver o sentido único da figurinha: eu, eu, eu.

Santana a trabalhar na Câmara, manhãs e tardes preocupado com Lisboa e seus cidadãos, procurando ajudar no que puder e dando um magnífico exemplo de responsabilidade e generosidade? Mas desde quando é que um artista prefere os bastidores ao palco? Neste momento, aposto que Santana já está a ser disputado pelas televisões. The show must go on e there’s no business like show business, etc.

Peripateta

Santana tinha a certeza de ir perder. Se calhar, por muitos votos. Na sua criatividade, descobriu uma forma de anular o dramatismo e dissipar a angústia: saturar as televisões com a sua presença. Começou logo com a originalidade de assistir em público ao anúncio das primeiras sondagens após o fecho das urnas. Continuou com o adiamento do discurso de derrota. E teve um golpe de génio nas saídas à rua, andando feito louco de um lado para o outro entre dois prédios, como se ainda não tivessem inventado o telefone e ele tivesse sido abandonado pela equipa da candidatura.

Um repórter da SIC quis consagrar a genialidade do momento com uma pergunta bem canalizada, perguntou-lhe se as constantes andanças se deviam à necessidade de ir à casa de banho. Cheirava-lhe a candidato borrado?

Sanguinários

Ranhosos e imbecis voltam a juntar forças contra o inimigo comum: PS. Vale tudo, até a abjecta exploração de uma tragédia:

Helena Matos diz que a Lusa está ao serviço dos matadores de cônjuges dos candidatos pelo PSD. Na caixa de comentários, João Miranda goza o prato.

Pedro Sales diz que o PS candidata homicidas. E goza o prato.

Isto foi feito com as urnas abertas. As famílias e amigos dos atingidos pelo acto tresloucado, tanto do lado da vítima como do responsável pelo disparo, foram lançados para a vala comum deste ódio.

Locals only

Ontem, num casamento, ouvi uma explicação taxativa para o sucesso de Moita Flores: Santarém passou a ser cenário de telenovelas.

Quem não perceba nada de política – nem de economia, nem de psicologia, nem de antropologia, nem de História – que mande a primeira piada.