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Maneiras que estamos nisto

Enquanto Sócrates volta a repetir o brilhantismo de ter feito convites para o Governo sem que se tivesse ouvido uma pena a cair no chão após a passagem do anjo, o PSD vive num estado de permanente gritaria, intriga e peixeirada.

Enquanto Sócrates volta a surpreender com a inteligência dos seus convites (e nem sequer sabemos, nem temos de saber, quais os que eventualmente terão sido recusados), o PSD não faz a menor ideia de quem quer na sua liderança, nem para quê, nem por quanto tempo.

Enquanto o PS volta a mostrar que é a única escola de boa governação no actual Parlamento, o PSD é um albergue de anarquistas espanhóis.

A carroça precisa do teu empurrão

Ricardo Sardo aproveitou o meu comentário às declarações de Marinho Pinto para partilhar a sua experiência. E o retrato que faz é simultaneamente realista e optimista. De facto, a dança da sociedade com a cultura, havendo desenvolvimento económico, produz gerações mais inteligentes, mais preparadas, mais humanistas. Tem sido assim em Portugal, onde as consequências das sucessivas crises económicas foram sempre inferiores ao desenvolvimento, tamanha era a miséria do País aquando do 25 de Abril. Hoje, o número de alfabetizados, finalistas da escolaridade obrigatória e licenciados, ficando por estes indicadores simples, é enorme por comparação com os resultados do Estado Novo; e mesmo tendo em conta a sua aposta na educação básica. Tal como o quadro moral, legal e intelectual também sofreu alterações que em certas dimensões correspondem a cortes radicais com o passado. Então, sim, a renovação das corporações na área da Justiça está a ser feita inevitavelmente, o futuro é risonho. Mas, e quanto ao presente?

Ocasião para repescar um comentário do Ricardo aqui no Aspirina:

Há muita coisa que aqui poderia escrever, muitos problemas que poderia elencar, mas tudo se resume a uma questão: mentalidade. Temos muitos Velhos do Restelo na nossa Justiça e os problemas só poderão ser ultrapassados com uma nova atitude e uma mentalidade mais aberta e menos conservadora e corporativista. Como já disse o Bastonário Marinho Pinto, a Justiça deve servir as pessoas e não estas a servir a Justiça e os seus operadores.

Neste diagnóstico, falando-se do mesmo, a mentalidade, pressinto uma urgência que não se compadece com a lenta e secreta renovação das águas. Mais: vejo nestas palavras do Ricardo um convite a uma participação dos cidadãos no processo de renovação em curso. Porque não o temos feito, a sociedade tem sido de uma passividade conivente ou autodestrutiva. Ainda não há um clamor suficientemente forte que comprometa os partidos nesta causa.

Entretanto, a referência aos 27 anos veio do mesmo Marinho Pinto, e ele deu-a como exemplo das disfunções do sistema, pois o recrutamento estaria a preencher as magistraturas com pessoas experientes em conhecimentos teóricos, e cultura pop, mas inexperientes nos outros e em si mesmas. Era este o sentido da sua observação, tocando num aspecto para todo o sempre melindroso e inescapável: a aplicação da Lei é uma actividade de interpretação e justificação, mais do que de cálculo ou identificação – logo, encontra na subjectividade do juiz um dos seus fundamentos.

A mera discussão aberta das características cognitivas, psicossociológicas e antropológicas dos profissionais que nos servem pode ser um contributo para a Justiça a que temos direito. Não ambicionava a mais a minha displicente nota, a que o Ricardo, para nosso benefício, deu atenção.

O evangelho de Saramago

Saramago diz que as suas declarações em Penafiel foram retiradas do contexto, o que muito o chateou – até porque ele já tinha descontextualizado magistralmente o que havia para descontextualizar ao falar da Bíblia, não havia necessidade de andarem para aí armados em macaquinhos de imitação. O contexto, explicou com paciência, era a promoção de um livro. O seu. Lamentavelmente, os Torquemadas de serviço quiseram discutir umas coisas sem interesse nenhum.

Saramago queixa-se de que anda tudo a falar do que ele disse ou não disse, mas ainda ninguém leu o livro. O seu. E há muitos à disposição para serem lidos. Muitos.

Saramago diz que a Bíblia deve ser lida literalmente, sem carência de padrecos a bichanar a diabólica exegese que nos hipnotiza. Tal como se fazia nos primórdios, afiança, e tal como ele faz num livro. O seu.

Cheira a catinga

O que os ranhosos se têm rido à pala dos bacanos do Mali, só porque alguns jornalistas portugueses responderam a um questionário e deu nesta esfrega, nós e os pretinhos ou nós e os pobrezinhos. É escolher – mas o cheiro, esse, é inconfundível.

Tem razão Marinho Pinto?

No Prós e Contras, Marinho Pinto hierarquizou os males da Justiça e colocou na base, ou no topo, o poder irresponsável e vitalício dos juízes. A solução passaria por lhes pagar mais e responsabilizar melhor. Também aludiu à excessiva juventude, e inevitável imaturidade, em começo de carreira; pessoas que aos 27 anos, por exemplo, podem estar a exercer um poder absoluto sobre terceiros e nas matérias ética e antropologicamente mais complexas e melindrosas.

Quem conhece pessoalmente juízes, seguramente que reconhece neles traços de soberba. É inevitável, o sistema assim o promove ou acentua. E até há pouco tempo ninguém na sociedade portuguesa, civicamente atrofiada por razões históricas, ousava levantar a voz contra a qualidade do trabalho dos magistrados judiciais. O mesmo que maldizer o médico antes da consulta, nem um louco seria tão louco ao ponto de apelar a que se fizesse injustiça. Mas será bonito este respeitinho? Muito feio, é fonte de disfunções sociais tão graves que afectam a economia, e de perversões psicológicas tão trágicas que destroem vidas.

Se os partidos, que existem no pressuposto de serem representativos e responsáveis, continuarem a permitir esta monarquia judicial, competirá aos cidadãos livres organizarem-se para defenderem o seu direito a uma Justiça verdadeiramente republicana. Ou vai Marinho Pinto continuar a ter razão nos próximos 100 anos?

Pilas e pilares

Parece que chegou ao fim o caso que opôs Sócrates a João Miguel Tavares, com base no texto José Sócrates, o Cristo da política portuguesa. Ao tempo, e ainda antes de saber da existência do processo, revoltou-me a violência moral do que o João fizera. Aquele registo obscenamente juvenil e ressabiado, apenas para dar nas vistas e brincar aos machos Alfa, era injusto. Vindo da nova geração de cronistas, era triste. Especialmente, estas duas passagens:

o apartamento de luxo comprado a metade do preço

À medida que se sente mais e mais acossado, José Sócrates está a ultrapassar todos os limites. Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser “terreno propício para as campanhas negras”; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático. Como político e como primeiro-ministro, não faltarão qualidades a José Sócrates. Como democrata, percebe-se agora porque gosta tanto de Hugo Chávez.

Na referência à compra do apartamento, reproduzia-se insidiosamente uma notícia que carecia de posteriores informações para sequer se saber da sua verdade objectiva. No entanto, ela aparecia num elenco de suspeitas confirmadas, ao lado de casos já fechados e outro em investigação, enquanto este nem sequer era um caso fora da zona de influência do Zé Manel.

No referência aos predicados democratas de Sócrates, expelia-se uma bisonha e parola comparação com Chávez, misturada com a pior cegueira de não querer ver como a postura do Primeiro-Ministro, até quando nomeou a TVI e o director do Público no Congresso do PS e numa entrevista na RTP, foi sempre de exemplar lealdade para com a democracia. Em todas as ocasiões foi salvaguardada a autoridade da Justiça e das equipas de investigação, tal como foram dadas explicações aos portugueses do que se podia assumir: a inocência. O resto, tinha de esperar – apesar dos pulhas não terem dado uma semana de tréguas nos ataques soezes. Aquele quem não deve, não teme no enfrentar a campanha negra, atitude galharda e rara em Portugal, surgia como deves, porque és temido, no subtexto canino de mais um Tavares assanhado.

Os publicistas podiam acompanhar as suas rábulas com anexos, apêndices ou entradas na Wikipidea. Quais serão os pilares essenciais de um regime democrático segundo a sapiência do plumitivo? Não faço ideia, mas ter depositado nas mãos dos tribunais uma queixa em matérias de honra faz de Sócrates alguém que se dispôs a receber do Estado uma lição de moral. Não estou certo de que o João Miguel Tavares tenha facilidade em perceber quão essencial para a democracia é o carácter de quem assim procede.

Escuta, Israel

As declarações de Saramago acerca da Bíblia e religião têm a indisfarçável marca da senilidade. O seu cérebro regrediu ao infantilismo, mostra-se incapaz de discernir entre sentidos literais e figurados, denotação e conotação, sinal e símbolo, fantasia e realidade, histórias e História. Que fez Deus ao oitavo dia, pergunta um impaciente Saramago, farto de saber que o Barbudo esteve ocupado na criação dele próprio, o luciferino e rebelde Saramago. Ah, se lhe dessem metade, ou a metade da metade, ou a metade da metade dum cagagésimo do poder que Deus é, quanta actividade, tantos milagres… A semana não teria dias de descanso, ele não dormiria. E ai de quem recusasse alinhar na obra do Senhor Saramago, ai de quem se opusesse à Sua criação…

O registo alienado das suas declarações é equivalente a dizer-se que a Muralha da China é um atroz monumento à segregação étnica e racial, que as Pirâmides do Egipto nasceram da ociosidade da classe burguesa, que a destruição dos Budas de Bamiyan lhe poupou dinamite e que a empregada da Carolina Patrocínio vive em regime de escravatura por causa das putas das grainhas. Eis um anjo caído, furibundo com a tal avaria nos mecanismos celestes.

O fel de Saramago é primário e patético demais para merecer consideração. A sua visão materialista e biológica da divindade é grotesca, pois em nada corresponde aos significados dos textos, das práticas e das experiências dos religiosos. É enquanto cidadão que ele ofende os crentes, não enquanto pensador ou escritor. Como escritor, que escreva o que quiser. Como pensador, que pense se conseguir, o que não é o presente caso. Muito longe vai o tempo em que se deu a vida e o destino contra as tiranias de capa ou espada cristã – muitas e muitas vezes em nome dessa mesma Bíblia manipulada pelas feras e do sopro de liberdade que as suas palavras guardam. Muitos morreram para que Saramago pudesse ter nascido numa sociedade secularizada, científica e humanista. Essa guerra acabou, Deus morreu – não persigas o Deus ressuscitado, Saramago, pois ele esconde-se agora nos miseráveis e tu continuas a procurá-lo dentro do teu narcísico bestunto.

É impossível dizer que se leu o Antigo Testamento, ou a Tora, sem dizer que se encontra lá o exacto grito que Jesus lança em direcção ao Céu, nesse momento em que se transforma em nós:

Eloí, Eloí, lemá sabactáni?

Como sabemos, não vem dos que se sabem abandonados por Deus o mais leve perigo. O perigo vem dos que nos querem forçar a trocar de Deus. O perigo vem dos que alegam possuir a Verdade, mas não fazem o Caminho, nem celebram a Vida.

Guerra ao Nobel da Paz V

Qualquer Nobel é uma consagração. Pressupõe obra feita. Mas não obra acabada. Acaso se espera que um cientista largue a investigação por ter recebido o Nobel? Ridículo. O contrário, sim. Aplicar o dinheiro na investigação, também. E quanto aos escritores? O Nobel será o certificado do fim da inspiração e da gana de escrever? Absurdo. Então, por maioria de razão, para um político o Nobel não será mais do que farol.

Explicar a escolha de Obama como fenómeno de moda é preguiça ou cinismo. Porque o fenómeno da moda é sociologia inevitável em qualquer das categorias. Há modas na Física, na Química e na Medicina. Há modas na Economia, tantas. E sem modas, ou o seu exacto reverso, não seria sequer possível atribuir o Nobel de Literatura, não se formaria quórum.

Assim como um Oscar não é um Nobel, e ninguém se baralha, assim um Nobel pode ser um Oscar, e muitos ficam baralhados. Precisam de ir mais ao cinema, precisam de maravilhas.

O mercado é sagrado

A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana.

Sobre o livro sagrado, eu costumo dizer: lê a Bíblia e perde a fé!

Na Igreja Católica não vai causar problemas porque os católicos não lêem a Bíblia, só a hierarquia, e eles não estão para se incomodar com isso. Admito que o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa.

Caim matou o irmão porque não podia matar Deus. É uma história horrível de crime e violência e, mostra um Deus cruel, porque deixa que isso aconteça.

A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!

O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!

No Catolicismo os pecados são castigados com o inferno eterno. Isto é completamente idiota! Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer.

Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?

Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca.

Saramago

*

Uma figura da Bíblia serve como fonte de inspiração para um escritor. Esse escritor odeia os outros escritores que criaram a tal figura. E odeia os leitores desse livro cheio de livros e de histórias inventadas, umas, e registadas, outras, onde foi roubar o material literário. Acontece que o escritor vende os seus livros, não os oferece nem guarda no baú. O escritor está velho e gasto, fragilizado, mas não pára. Pode estar xexé, não está gagá. A seguir a este, virá outro livro. Outro negócio. Agora é só o tempo de ofender os católicos, os cristãos e os judeus. Porque o mercado é sagrado.

Delenda Cavaco

Parece que se instala antes a lei da selva no jornalismo, que acabará por sair prejudicado, pois as fontes confidenciais perderão a confiança nos jornalistas e deixarão de lhes transmitir informação.

Provedor dos Leitores do Público

*

Espectacular sofisma de Joaquim Vieira, o último de quem se esperaria tal erro dada a sua função e correctas tomadas de posição neste imbróglio. Realmente, se tudo se resumisse à categoria informação, o DN teria violado a deontologia ao publicar as tais informações que lhe chegaram por fonte que pretende ficar anónima. É óbvio, não mereceria qualquer discussão. Só que estamos noutro campeonato, o da intensa discussão. Ou seja, o que aconteceu não é óbvio. Melhor, a publicação de emails entre jornalistas do Público, onde se descreve uma conspiração tentada, apresenta uma óbvia antinomia: entre os interesses do Público e os interesses do jornalismo. É que eles não correspondem, e espanta que Vieira não só ignore, como perverta a lógica do caso.

A tese que defende é a que José Manuel Fernandes tem usado desde a publicação das noticias em Agosto – sustentar que as suspeitas de vigilâncias eram reais e que a sua divulgação tinha sido permitida pelas autoridades da própria Casa Civil. Visto assim, o Público tinha feito muito bem em dar à estampa a novidade, pois havia no paranóide clima psicológico uma legítima, relevante e urgente matéria jornalística. Problema fundamental nesta questão toda: há uma contradição insanável entre as responsabilidades da Casa Civil, sob tutela unipessoal do Presidente da República, e a utilização anónima de um órgão de comunicação social para uma sua intervenção institucional. Pura e simplesmente, e logo na origem, a notícia do Público transcendia os códigos jornalísticos e constituía-se como acção política. A neutralidade era impossível, sequer foi tentada. Por um lado, a notícia garantia estar autorizada, por outro lado, impedia uma directa responsabilização ao manter anónima a sua fonte. Em termos institucionais, portanto, estávamos numa esquizofrenia. A notícia era e não era para levar a sério. Dava para todos os gostos e usos, mas só até ao momento em que Cavaco a confirmasse ou desmentisse. Ora, nem uma coisa nem outra ele fez, antes pelo contrário.

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A moral da amoralidade

Estratega partidário que se preze não vê nas vitórias de Isaltino Morais e Valentim Loureiro o triunfo dos porcos, nem antecipa na derrota de Fátima Felgueiras e Ferreira Torres a regeneração da Grei. Basta ter o hábito de tomar café no café para ser especialista em corrupção. Não se fala de outra coisa, da corrupção no desporto à corrupção na política, passando pela corrupção que melhor e mais profundamente se conhece: a da vidinha, a nossa. Assim, votar num político acusado de corrupção, ou deixar de votar, não é assunto de moral. Muito menos da moral de plástico utilizada para brincar aos politólogos.

Talvez Isaltino tenha vencido porque é mesmo um excelente gestor autárquico, pouco interessando ao eleitor que tenha tido o azar de se deixar apanhar a roubar. Talvez Fátima tenha perdido por já não conseguir roubar, pouco interessando ao eleitor a qualidade da sua gestão autárquica.

É preciso ter sempre presente uma noção ancestral: é a lei que faz o criminoso.

Oposição à oposição

Desde a maioria PS, em 2005, o maior obstáculo ao aproveitamento dos talentos nacionais, inteligências e vontades, tem sido a crise da oposição. À esquerda, temos duas forças que não podem ambicionar a mais do que aos 15-20% nos ciclos em que recolham extraordinário voto de protesto. Para crescerem acima dos 20%, teriam de abandonar o radicalismo lunático, alteração que, por sua vez, os faria perder o estatuto de contrapoder. À direita, a paupérrima qualidade dos seus quadros dirigentes conduziu o PSD para um progressivo terrorismo político, onde o labor programático foi substituído pela fúria caluniosa e conspirativa. O CDS assumiu o nicho e ficou a ver como paravam as modas, especializou-se em fiscalizações farsantes.

Eis o cozido à portuguesa que acaba de engrossar com um Parlamento onde não há garantia de governabilidade. Os partidos da oposição não querem assumir responsabilidades para além daquelas que considerarem de modo avulso, e chamam a esse oportunismo merdilheiro fidelidade ao voto recebido. Acontece que o voto se esgota na eleição. Nada mais diz. Não condiciona o eleito. Não pode. Apenas o responsabiliza, o que é algo que apela à sua acção, não à sua inacção. O voto assume que o eleito é capaz de representar o votante numa situação que já não é eleitoral, mas deliberativa, governativa. Continuar a invocar o voto recebido para não governar, ou impedir que outros governem, é estar a perverter o sistema democrático e seus ideais. A questão é de uma evidência confrangedora: caso um qualquer partido da oposição tivesse sido o mais votado, mas sem maioria, desistiria de tentar governar? Ou será que alinharia com a lógica boicotadora da democracia e recusaria qualquer tipo de negociação com a oposição alegando que os votos não lhes foram dados para andarem a fazer cedências aos interesses dos outros partidos? Estamos no reino da estupidez, o reino de Pacheco.

A crise da oposição prejudica gravemente a comunidade, cria disfunções e atrasos, até retrocessos. Não é no PS que está o problema da nossa democracia, bem pelo contrário. O actual PS ousa ser reformista, é uma força de crescimento da riqueza. O problema está naqueles que não conseguem ajudar-se a si próprios ajudando o País. Esses fazem-nos mal, muito.

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Quem se mete com o Coelhoni, ri

Jorge Coelho foi o alvo preferido dos caluniadores, à esquerda e à direita, durante as campanhas para as Legislativas e Autárquicas. Parece que é ilegal ter vida profissional depois de sair do Governo e alguém esqueceu-se de avisar. Passou automaticamente a corrupto, acusação que espelha o carácter de quem a faz, saindo a sorte grande à oposição com o caso do Terminal de Contentores. Só faltou Louçã ter dado ordens para se formarem piquetes de rua, o PC fornecer camionetes de estivadores e gajos de bigode, o PSD oferecer-se para ficar nas esquinas a vigiar, o CDS aproveitar para vender umas mocas de Rio Maior e, justiceiros, partirem para a caçada ao felpudo mamífero.

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Guerra ao Nobel da Paz IV

Obama está apenas nos primeiros 10 meses de contrato, mas já tentou impressionar o patrão com o seguinte:

– Começo da normalização das relações diplomáticas com Cuba.

– Histórico discurso no Cairo, dirigido às comunidades muçulmanas de todo o Mundo, a marcar o início de uma postura dos EUA que é radicalmente nova, ecuménica e pacificadora.

– Operação de Clinton na Coreia do Norte, libertando as prisioneiras e dando um surpreendente sinal de ser possível negociar com o bizarro tirano.

– Fim do conflito com a Rússia relativo ao Escudo Antimíssil. Possibilidade de inversão completa da situação herdada, resultando numa aliança defensiva com a Rússia.

– Papel crucial no acordo de paz entre a Turquia e a Arménia, acabando um dos mais antigos conflitos internacionais.

Portanto, se Obama, até Janeiro, ainda conseguir marcar pontos na Palestina ou no Irão, creio que os noruegueses não terão outro remédio senão fazerem a primeira dobradinha na história dos Nobel. E, estando em causa o que está em causa, o feliz dono de um Cão de Água Português até que merecia esse absurdo cheio de sentido.