As declarações de Saramago acerca da Bíblia e religião têm a indisfarçável marca da senilidade. O seu cérebro regrediu ao infantilismo, mostra-se incapaz de discernir entre sentidos literais e figurados, denotação e conotação, sinal e símbolo, fantasia e realidade, histórias e História. Que fez Deus ao oitavo dia, pergunta um impaciente Saramago, farto de saber que o Barbudo esteve ocupado na criação dele próprio, o luciferino e rebelde Saramago. Ah, se lhe dessem metade, ou a metade da metade, ou a metade da metade dum cagagésimo do poder que Deus é, quanta actividade, tantos milagres… A semana não teria dias de descanso, ele não dormiria. E ai de quem recusasse alinhar na obra do Senhor Saramago, ai de quem se opusesse à Sua criação…
O registo alienado das suas declarações é equivalente a dizer-se que a Muralha da China é um atroz monumento à segregação étnica e racial, que as Pirâmides do Egipto nasceram da ociosidade da classe burguesa, que a destruição dos Budas de Bamiyan lhe poupou dinamite e que a empregada da Carolina Patrocínio vive em regime de escravatura por causa das putas das grainhas. Eis um anjo caído, furibundo com a tal avaria nos mecanismos celestes.
O fel de Saramago é primário e patético demais para merecer consideração. A sua visão materialista e biológica da divindade é grotesca, pois em nada corresponde aos significados dos textos, das práticas e das experiências dos religiosos. É enquanto cidadão que ele ofende os crentes, não enquanto pensador ou escritor. Como escritor, que escreva o que quiser. Como pensador, que pense se conseguir, o que não é o presente caso. Muito longe vai o tempo em que se deu a vida e o destino contra as tiranias de capa ou espada cristã – muitas e muitas vezes em nome dessa mesma Bíblia manipulada pelas feras e do sopro de liberdade que as suas palavras guardam. Muitos morreram para que Saramago pudesse ter nascido numa sociedade secularizada, científica e humanista. Essa guerra acabou, Deus morreu – não persigas o Deus ressuscitado, Saramago, pois ele esconde-se agora nos miseráveis e tu continuas a procurá-lo dentro do teu narcísico bestunto.
É impossível dizer que se leu o Antigo Testamento, ou a Tora, sem dizer que se encontra lá o exacto grito que Jesus lança em direcção ao Céu, nesse momento em que se transforma em nós:
Eloí, Eloí, lemá sabactáni?
Como sabemos, não vem dos que se sabem abandonados por Deus o mais leve perigo. O perigo vem dos que nos querem forçar a trocar de Deus. O perigo vem dos que alegam possuir a Verdade, mas não fazem o Caminho, nem celebram a Vida.