Todos os artigos de Valupi

Queridos velhos, queridos mortos

Já Aristóteles se queixava, ou meramente registava, que os velhos eram desprezados. E com razão, a velhice é um absurdo biológico. O velho custa, no duplo sentido do termo. Os avanços na medicina, e na higiene, agudizaram esse prolongamento da decadência do corpo. Um corpo incapaz de se reproduzir, provavelmente incapaz de produzir, talvez incapaz de contribuir. Com a migração para as cidades, veio o grande isolamento dos velhos; metidos nos lares, uns, abandonados, outros. À sua volta, o consumismo mediático celebra um erotismo cada vez mais precoce e agressivo. Esta é a história desde os anos 50, a década que inventou a juventude como ideal social. A libertação sexual e política dos anos 60 consumou a mudança de paradigma. Não ser jovem passou a significar ser velho, passou a ser visto como doença, passou a ser vivido como vergonha.

A Europa envelhece, Portugal envelhece. Os velhos aumentam de número e de anos de vida, aumentam em capacidades e apetites. Fala-se em prolongar a idade da reforma e actualizam-se as classificações. Hoje, morrer aos 60 é morrer novo. Morrer aos 70 é morrer cedo. A morte sempre a ser chutada para a frente. Para os 80, vá lá. Para os 90, está bem. Dentro em breve, para os 100, pronto. Mas ninguém se esquece da ambição primeva, a imortalidade. Menos do que ela será dano fatal. O animal que criou os deuses não irá parar enquanto não lhes fizer companhia.

Não dignificamos os velhos se fizermos das suas fragilidades um tabu. Pelo contrário, devemos usar da mais implacável lucidez no trato com esses seres que nos enchem de coragem ao suportarem as debilidades que irão ser as nossas. Pois as diferenças são ilusórias, somos todos velhos, todos jovens, todos outra coisa que não tem a idade do tempo – que é uma melodia, uma vibração. Como neste exemplo aqui em baixo, onde um jovem de 84 anos tenta ajudar um velho de 36. Não consegue, mas as lições continuam à disposição dos que não confundem a lata com a sardinha; como ensinava o meu querido velho, querido morto, Agostinho da Silva.

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Um adolescente cheio de força e sonhos

O marketing digital fez ontem 15 anos. Começou a dar bandeira com um banner. Hoje, confunde-se com a própria essência da Internet, como o Google poderá explicar a quem lá passa todos os dias, muitas vezes ao dia. E vai ultrapassando, em valores de investimento e conhecimento dos mercados, a publicidade e media tradicionais.

Ironia da História, este capitalismo 10.0 dá a todos a possibilidade de serem autores e produtores. Uma cultura comunitária cresce em ambiente democrático e igualitário, onde qualquer um pode discursar criativamente, sem os constrangimentos sociais e psicológicos das interacções presenciais. É confuso? Sim, mas só durante o período de adaptação. Depois, faz o que se espera de qualquer tecnologia: aumenta a nossa liberdade.

Quanto tempo falta para podermos agradecer ao Paulo?

Temos muito para agradecer a Paulo Bento. E desejamos que ele tenha uma carreira pejadinha de sucessos. Entretanto, Guimarães fica como o fim da linha. E o problema não está no resultado (ide falar com o Real Madrid, a equipa mais cara da Via Láctea, acerca do tópico “resultados”), nem na qualidade do futebol (o futebol é sempre lindo quando se ganha). O que assinou a guia de marcha foi esta declaração:

Fomos castigados pelo que não produzimos na primeira parte e pela forma algo irresponsável como encarámos o jogo.

Pelo que a questão é a seguinte: que leva moçoilos de sangue na guelra e muito dinheiro para gastar, cuja actividade laboral diária consiste em dar uns toques na bola e fazer ginástica, a serem irresponsáveis na gestão das benesses de que usufruem? Preferem trabalhar numa seguradora, na construção, num bar de alterne? Deram-se conta de que a sua profissão é fútil e vão recomeçar a estudar, vão para doutores? Há uma virose depressiva no balneário e estão de tal forma desanimados que deixaram de se responsabilizar no relvado? Qual a causa da abstrusa irresponsabilidade, pergunta um sócio com as quotas em dia desde 1980.

Esta moda dos treinadores dialogarem com a equipa através da comunicação social não ajuda ninguém. Nem os jogadores, tratados como cachopos, nem o treinador, que se transforma num comentador em vez de assumir-se como o chefe, nem os adeptos, que se alimentam de mística, não de psicanálise. Haja alguém que institua esta escola de ser sportinguista ao serviço do Sporting, e outro leão rugirá – isto é, finalmente o leão rugirá.

Bento, gostámos de ti, mas tu não gostaste de nós. Obrigadinho e felicidades.

Destravados

Ricardo Schiappa entalou-me entre António Vitorino e Jorge Sampaio, dois rapazolas com algum valor; mas em clara vantagem para o entalado, cujas negritadas frases levam um avanço de 6 dias. Creio que fica claro quem anda a copiar quem na fina-flor da política nacional.

Ora, aproveito o insólito críptico do Ricardo para convidar à recordação, ou descoberta, deste O Expresso da Meia-Noite, de 21 de Julho de 2009. Trata-se de uma discussão que não pode ser mais actual, que é uma excelente aula de doutrina constitucional – e que ainda conta com o bónus chamado Eduardo Catroga, um dos aríetes da nova, e última, fase do cavaquismo.

Rever este programa é viajar no tempo e transformar a opacidade em transparência, vendo-se como a estratégia de boicote ao Governo e difamação de Sócrates, em várias frentes, tinha como objectivo entregar o poder a Cavaco através de uma alteração constitucional. Catroga, lembremo-nos, foi nome avançado para chefiar um eventual Governo PSD ou de iniciativa Presidencial.

Cavaco, Ferreira Leite, Catroga, Deus Pinheiro, Pacheco, Santana. Este, aquele e o outro. O refugo que não desiste. Estão caducos demais, nem força têm para travar.

Denial – Not a river in Egypt

Tenho mantido, ao longo do meu mandato, uma rigorosa imparcialidade perante as diversas forças políticas. Como afirmei na minha tomada de posse, sou e serei o Presidente de Portugal inteiro. Enquanto Presidente da República, sou um observador atento da realidade e tenho, perante todos os Portugueses, o dever de dizer o que penso nos momentos que considerar oportunos.

Não me movo por cálculos políticos. É a consciência que me interpela todos os dias no exercício das minhas funções. Os cargos públicos são efémeros, mas o carácter dos homens é duradouro. Não são os cargos que definem a nossa personalidade, mas aquilo que somos em tudo aquilo que fazemos.

Discurso do Presidente da República na Tomada de Posse do XVIII Governo Constitucional

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Cavaco voltou às justificações, à lamúria ressabiada. Ele repete e repete e repete que é um homem de carácter, de palavra, de inatacável e impoluto sentido de Estado. Logo, se algo corre mal no País, a culpa não é dele. A culpa é dos que se movem por cálculos políticos. Desses, os políticos. Aqueles cuja consciência fica adormecida, preguiçosa, não os interpelando diariamente. Talvez nem sequer mensalmente.

E, ó Povo, não são os cargos que definem a personalidade. Por isso, aconteça o que acontecer em Belém, o carácter de Cavaco passará por essas efemeridades como cão por vinha vindimada. Aliás, nem adianta tentar pedir-lhe explicações pelo que se conspira na Presidência, o seu carácter não dá qualquer importância às vicissitudes do exercício de cargos públicos. Interessa-lhe é estar rodeado por pessoas de carácter igual ao seu. E, quanto a isso, já não restam dúvidas.

Do salazarismo que ficou

Os largos anos em que temos vivido sem que se exerça sobre os homens públicos e os seus actos uma crítica independente e salutar, morigeradora dos costumes e sentinela vigilante da moral administrativa, missão que só pode ser exercida por uma imprensa livre; os hábitos e os vícios adquiridos durante esse longo período da nossa história contemporânea, em que uma censura implacável calou as vozes que não afinam pelo diapasão oficial criaram uma hipersensibilidade que se manifesta à mais pequena beliscadura no amor próprio de cada um, ao mais leve toque de florete, ao mais inocente gracejo com que se pretende alvejar seja quem for, desde os mais modestos servidores do Estado aos mais altos dignitários do Regime, pois todo o mundo se considera intangível neste país. Perdeu-se a elegância antiga do torneio dialéctico, o poder de encaixe, o gosto pelo dito de espírito que diverte e não ofende. Não se faz jogo franco e à luz do dia. Ataca-se na sombra. Não se respeitam as regras do jogo. Desferem-se golpes baixos, golpes proibidos. Luta-se com armas desiguais. Concede-se a uns a liberdade que a outros se recusa. Em nome de princípios que se julgam eternos, num mundo em permanente mutação e em plena florescência de ideias.

Norberto Lopes in: A FUNDA, 4º Volume, Portela Filho

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Escrito hoje, numa tentativa de explicar as inventonas de Belém? Escrito mesmo em cima da Revolução e tendo sido publicado dias antes da mesma, em Abril de 1974. Norberto Lopes já merecia ter 3 biografias, 2 romances e 1 filme, ou 1 biografia, 3 romances e 5 filmes, feitos a partir da sua memorável carreira e vivências, caso tivéssemos, cá pela terrinha, uma indústria de conteúdos competitiva tal como a têm os irmãos brasileiros. A sua vida acompanha o século XX, ele que nasceu em 1900 e deu admirável proveito à longa existência. Aqui, aos 73 anos, é de uma acutilância que permanece relevante e actual em 2009. Foi contra os hipócritas da seriedade e da verdade que o Norberto escreveu luminosamente; estando longe de imaginar que Salazar continuaria a influenciar a cultura portuguesa, e parte da sociedade, 40 anos depois de ter caído.

Todos os nomes

não sei se se chegou à parte em que ele enrola e não explica como é que daquelas narrativas alegórico-metafóricas se chega às verdades absolutas da ICAR nem porque cargas de água nestes debates a Bíblia não deve ser levada literalmente mas depois se usa literalmente a Bíblia, cherry-picked, para «justificar» o que interessa…

Comentário de Palmira F. Silva em O não-crente Saramago versus o crente padre Carreira das Neves (ou, refiro-me à crença, será ao contrário?), hoje à noite na SICN

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Muitas pessoas recusam discutir temas de religião, política e moral para evitarem a agressividade verbal que, invariavelmente, nasce incendiária. Essa agressividade ameaça as relações pessoais, ou sociais, ou profissionais. E com razão, pois o mundo profissional, social e pessoal é condicionado pelas ideias que se perfilhem acerca da moral, da política e da religião. Contudo, o preço a pagar por esse absentismo dialógico pode ser, faltando esse outro tipo de discussão que consiste na leitura, o atrofio do pensamento. E com o pensamento atrofiado, é a vida que mirra. Pelo que o melhor é perder o medo às emoções e à má cara das feras, e dos censores, e tratarmos do que mais importa – a vida abundante, a vida viva.

A Palmira faz um excelente trabalho de levantamento, e marcação cerrada, das formas perversas do religioso, esse inevitável confronto da vontade de poder dos credos com a secularidade e seus valores. E, dada a sua formação científica, não poderá ser acusada de carências lógicas. Contudo, este seu comentário permite apelar para o seu treino epistemológico, e pedir-lhe que dê uns passinhos para um território que, aparentemente, conhece mal: a identidade. Para mais, está num blogue que é uma referência nessas matérias, até pode pedir ajuda aos generosos colegas de prosa e reflexão.

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Ó PSD, finge que vais cagar e desaparece

João Pinto e Castro deixou a sugestão óbvia: acabar de uma vez por todas com o PSD. Pelo menos, haveria alguma nobreza nessa higiene. Mas tal não vai acontecer, claro, porque aquela rapaziada é alérgica à autocrítica, por um lado, e dada à mania das grandezas, pelo outro. Isso gera as aberrações que temos visto, e que continuam a piorar no diagnóstico e no prognóstico. Neste momento, já nem o reservista Marcelo é capaz de salvar um partido muito mal frequentado e onde terceiras e quartas figuras se vão aproximando, em frenesim de cobiça, do trono vazio.

Olhe-se para esta juliana: Cavaco, Dias Loureiro, Oliveira Costa, Jardim, Barroso, Santana, Ferreira Leite, Deus Pinheiro, Menezes, Paulo Rangel, Aguiar-Branco, Sarmento, Catroga, Arlindo Cunha, Amílcar Theias, Cadilhe, Negrão, Arnaut, Paulo Mota Pinto, Macário Correia, Mendes Bota, Gomes da Silva, Pacheco Pereira, Valentim Loureiro, Isaltino Morais. Faltam aqui muitos outros nomes, claro, mas chegam estes para fazer a pergunta: que lhes deve Portugal? É que estes passarões da política, da finança, dos negócios e da comunicação social representam os últimos 25 anos do PSD. E o cheiro que tresanda dos seus percursos profissionais e/ou intervenções políticas é nauseabundo.

Depois temos os jovens e os outros. Os jovens como Pedro Duarte, que se reclamou vítima de invasão da sua conta de Twitter só para não ter de assumir que tinha um talento especial para detectar mulheres com falta de homem. Ou os jovens como José Eduardo Martins, que em plena Assembleia manda outro deputado para o caralho e lhe oferece porrada, nunca lhe tendo pedido desculpa e passando a exibir vaidoso o novo estatuto de rufia. Eles são um exemplo acabado da cultura de taberna e bordel que faz o encanto dos bastidores do PSD. E temos também os outros, o tecido sociológico de apoio, aqueles que corporizaram no Jamais uma confrangedora reunião de ódio e indigência politica e intelectual. Todos eles alinharam sem um pingo de vergonha nas campanhas de difamação contra Sócrates e Governo, ao mesmo tempo que proclamavam possuir a Verdade. Agora, andam a bicar-se espasmodicamente até que chegue a ração, galinhas tontas que sempre o foram.

Já só falta fechar a porta e mandar fora a chave. Portugal não precisa de vocês, precisa é do espaço que ocupam e dos recursos que abarbatam.

Pecaminosa trindade

Três erros de casting: Crespo, que não sabia o que perguntar porque não entendia o que ouvia; Carreira das Neves, que não sabia o que dizer porque não entendia o problema; Saramago, que não sabia dialogar porque não se entendia a si próprio. Felizmente, havia Saldanha Sanches, que soube lançar um anátema fiscal sobre um ilustre habitante de Lanzarote, assunto sobre o qual dizem ser um dos maiores entendidos.

A posição de Saramago, fazendo agora uma epoché que nos liberte do seu corpo, resume-se a duas crenças: (i) a de que Deus existe, e que existe como natureza antropopática, e (ii) a de que in illo tempore existiram seres humanos capazes de ler sem pensar. Pela primeira, Saramago mostra-se agastado e denuncia, censura, ofende e castiga o comportamento, personalidade e falta de carácter de Deus. Pela segunda, Saramago imagina ser possível a interacção com um qualquer texto sem um texto prévio (cultura), um texto paralelo (sociedade) e um texto futuro (história), tal e qual como fazem hoje as máquinas, que lidam com arranjos de letras e não com a arrumação das ideias.

Para quem tenha o infortúnio de tentar discutir com ele esta aporia senil, um, e só um, deve ser o repto: que Saramago escreva, ou descreva, o manual de bons costumes para a Humanidade.

Vícios que libertam

Mezzo TV

Imagina a MTV antes de ter sido transformada num canal para donas de casa com 13 anos e troca a democracia das tabelas pela aristocracia dos clássicos. O resultado são 24 horas de escapismo, com tudo aquilo que faz do escapismo uma das mais inteligentes respostas que 3,7 mil milhões de anos de evolução produziram neste planeta e redondezas.

Como escreveu um chinoca, quem foge vive para fugir mais uma vez. Se for com música, muito melhor.

Pelos frutos os conhecereis

De um lado, a nova coqueluche do BE, José Manuel Pureza. Do outro, Frei Fernando Ventura, biblista capuchinho. Um deles, pese embora a sua simpatia e urbanidade, não justifica o esforço de ligar dois neurónios para conservar qualquer pedaço do que disse. O outro é tão rico de saberes e sabedoria que até o espaço entre as palavras se aproveita.

Eis 28.42 minutos que enterram uma polémica que nasceu morta. Mas da qual podem vir bons e sumarentos frutos. Olha um cesto deles aqui dentro.

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Só nesse caso

Só aqueles que saíram de Portugal em 2007, e passaram os dois anos seguintes isolados e a tentarem ligar-se à Internet com um Spectrum 16k , é que têm desculpa para não perceber o que está Santos Silva a fazer na Defesa.

E, mesmo assim, será uma desculpa esfarrapada.