Todos os artigos de Valupi

Onde está a direita?

We must not confuse dissent with disloyalty. When the loyal opposition dies, I think the soul of America dies with it.

Edward R. Murrow

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Há semelhanças incríveis, ou inevitáveis, entre Sócrates e Obama. Ambos se propõem reformar uma economia em crise estrutural. Ambos querem uma sociedade onde o Estado proteja os mais fracos e os mais inteligentes. Ambos têm que lidar com uma direita velhaca, paranóica, reduzida à infâmia. Ambos têm um passado que é alvo de ataques sórdidos. E, finalmente, ambos decidiram lutar contra o poder mediático pervertido sem recorrer à perversão, assumindo o combate político frontal contra quem usa o escudo jornalístico para fazer terrorismo político.

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Organizem-se, comecem por ir almoçar juntos

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A oposição reclama a maioria dos deputados e dos votos. Logo, o PS tem de se afastar e deixar a oposição fazer o que lhe apetecer. É lógico. Por agora, e só enquanto a oposição não tiver a equipa governativa pronta para apresentar ao Presidente da República, aquele Governo que foi empossado continuará com os seus actos de boa gestão. Por exemplo, mantendo a avaliação dos professores. Que é para ver se todos aprendem.

Bento enigma

Depois de um grupo de melancias ter sido corrido a tiro de Alvalade, Bento tem de ficar até ao fim da época, pelo menos. A sua permanência tornou-se numa causa leonina.

Quanto à equipa, toda a minha gente, do treinador ao presidente, passando pelos jogadores e pelo relvado, diz o mesmo: a situação está difícil. Não se diz é porquê. E talvez seja melhor assim, arriscavam a que a situação ficasse ainda mais difícil se mostrassem não saber como a explicar. Porque, de facto, não sabem.

O que ele queria era uma pirâmide

No último Câmara Clara, onde bem se fala dum português demasiado independente e brilhante para que alguma vez se torne popular, aparece Alegre a dizer que não entende quais são os critérios para ficar a repousar no Panteão Nacional. E, sem perder o embalo, pergunta por que não há um panteão dos poetas. É que tudo lhe pareceria mais fácil.

Eis o que proponho ao PS: ofereçam-lhe um mapa de Portugal e mandem-no procurar o local ideal para a construção do futuro Panteão Nacional dos Poetas. Isso irá ocupá-lo nos próximos 10 a 15 anos.

As armas e os barões assinalados

Tal como Marcelo aqui se esforça por dizer, o PSD vive em guerra civil irreversível. Os barões utilizam as suas armas uns contra os outros, desprezando o futuro do partido com o mesmo entusiasmo com que têm desprezado o futuro de Portugal.

A irrelevância do PSD é total. Nem conseguem fazer oposição, nem servem para governar. Mais valia que fossem até à Taprobana, sem pressa de regressar à ocidental praia lusitana.

Videotecas municipais

Cada município devia ter uma videoteca produtora. Podiam começar por copiar esta da minha cidade. É tão fácil, tão barato, recolher e criar imagens que só falta alguém mostrar aos poderes autárquicos as vantagens culturais – leia-se, políticas e económicas – do apoio municipal à produção vídeo. Seria um serviço de extraordinário valor histórico e científico encontrar o Michel Giacometti dos filmes em cada concelho. O acervo recolhido, para lá da importância documental, seria também um chamariz turístico. Igualmente no campo artístico, a produção municipal poderia gerar obras que unissem o mérito intelectual com o prazer estético, transformando memórias em esperanças. Como nesta lista. E como neste belíssimo exemplo:

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Ironia Oculta

Quatro dias antes da inventona de Belém ter sido lançada, 14 de Agosto, Aguiar-Branco deslocou-se ao Algarve para oferecer um discurso de quinze minutos à comunicação social. Levava propostas para o desenvolvimento do País, esperança para os portugueses? Se levava, nada disso subiu ao palco da Festa do Pontal. Mas os minutinhos foram bem aproveitados. O actual líder parlamentar do PSD fez o discurso mais nojento de toda a campanha, despejou vis insinuações à boca cheia. Insultou a democracia usando o caso Freeport, os contentores de Alcântara, o computador Magalhães, a Fundação das Telecomunicações, a TVI. Disse que o PS tinha uma visão sovietizada e que o Governo estava sob suspeição. Só não falou na mãe de Sócrates, e no apartamento dos mafiosos, por manifesto esquecimento. Depois deu um forte abraço ao Bota e ala de volta para a Manela. Estava feito o servicinho preparatório, o Zé Manel trataria do resto.

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Cineterapia

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How Green Was My Valley_John Ford

Nós, os fordianos, somos uns lamechas. Não resistimos a uma justa e longa greve, especialmente se for de mineiros galeses. E ficamos encantados quando se castiga o clérigo odioso. Derretemo-nos se alguém faz frente à hipocrisia, maldade e cobardia do puritanismo. E que dizer de uma boa sova num mestre-escola psicopata? Enche-nos a alma de entusiasmo e faz-nos soltar olímpicas gargalhadas. São assim os fordianos, perdidos de amor pelo divino coração do povo, pela humana justiça de Deus.

Este colosso de ternura luminosa cometeu o sacrilégio cinéfilo de ter roubado o Oscar de Melhor Filme a Citizen Kane, a obra-prima que estava destinada a tornar-se, décadas mais tarde, no cliché de ser o melhor filme de sempre. E Ford ainda se agarrou ao Oscar de Melhor Realizador, num páreo que incluía gabirus do tamanho de Orson Welles, Hitchcock, John Huston e Howard Hawks. Para o vexame ser completo, tratou-se de uma dobradinha nesta categoria, no ano anterior tinha ganhado com The Grapes of Wrath. Enfim, esperar que a Academia tenha os critérios de gosto dos Cahiers devia estar sujeito a pesada multa.

O Vale era verde, mas foi filmado a preto-e-branco. O Vale era em Gales, mas foi filmado na Califórnia. O Vale era uma adaptação de um romance, mas transformou-se no romance da adaptação de cada um à imortalidade do que ama e de quem ama. Mas se achas este paleio demasiado lamechas, contemplar os estonteantes 19 anos de Maureen O’Hara chega e sobra para entrar no Vale.

Rangel, um farol para o PSD

Paulo Rangel é o maior bluff do PSD, nesta época 2009/10. Fez uma campanha ridícula para as Europeias, cujo única força esteve nas prestações televisivas onde o terrorismo verbal, próprio das suas intervenções parlamentares, serviu como injecção de testosterona numa partido desvitalizado e depressivo. Mas quanto a relevância no discurso ou carisma na presença, zero. As sondagens eram o retrato fiel do que valia. Depois, aconteceu um imprevisto fenómeno de absentismo que castigou o PS e deu a vitória ao PSD. Os elogios que se fizeram a Rangel, o desvario dos festejos na Lapa, até o louvor a Ferreira Leite pela acertada escolha do candidato, foram reacções delirantes, próprias dos grupos que preferem a fuga à realidade.

Nesta entrevista, vemos somente um tecnocrata do carreirismo político. Não tem nada para dar a Portugal. Ainda por cima, está no PSD apenas por ser este maior do que o CDS em poder político, não por adesão ideológica seja a que projecto for. Acaso estes partidos trocassem de dimensão, Rangel trocaria imediatamente de camisola. O seu posicionamento já é de porteiro, com um pé dentro e outro fora, repetindo a agenda de Portas.

Um militante deste calibre nada quer arriscar, é tudo pela certa. Não? Foi para líder de bancada em situação de desespero da mesma, depois desta ter sido reduzida a escombros por Sócrates. Se ele falhasse, ninguém reparava nem lhe pediria contas. Se meramente conseguisse não ser humilhado, o partido gritaria vitória. Foi para as Europeias como último recurso, se falhasse a culpa era de quem o tinha escolhido em cima da hora, não do pobre coitado. Agora, este exemplar de raça barrosã prefere ser assalariado lá fora a ganhar a vida ajudando Portugal. Por uma razão demasiado óbvia: ele tem primeiro de queimar Marcelo e Passos Coelho antes de avançar. Espadas de Dâmocles só de plástico.

Rangel corporiza o modelo clássico do político à portuguesa, paradigma que o PSD exemplarmente cultivou: licenciados em Direito, cínicos, sanguíneos, de chã ambição. A sua agressividade verbal simula uma capacidade de liderança que a intuição não confirma. A facilidade com que mente, e a grosseria das mentiras, é demasiado obscena para sequer ter direito a um período de dúvida expectante. Mas ele pode ser muito útil para a politica nacional: basta vê-lo como farol, faiscando no breu tempestuoso onde navega o PSD, e saber que ir na sua direcção é ter a certeza de acabar naufragado ou encalhado.

Varados

Ranhosos e imbecis rejubilam com as fugas ao segredo de Justiça e chafurdam no facto dos cidadãos poderem ser constituídos arguidos sem terem de passar pelas demoradas condenações.

Ah, que pena a vara ser tão curta.

Plano Nacional de Vacinação anti-Pacheco

Uma vacina é feita com o agente patogénico. Neste caso, vamos usar esta sequência genética: POIS É, JÁ HÁ MUITO TEMPO QUE SÓ SE TRANSMITE FOLCLORE TRANSMONTANO.

E comecemos pelo fim:

Mas seria profundamente errado pensarmos que é aqui que a “claustrofobia democrática” é mais grave. É no homem comum, que tem medo de perder o emprego, no pequeno empresário que teme perder uma encomenda porque refilou com as dívidas do Estado ou o fisco ou a ASAE, no funcionário público que sabe que tem que agradar ao chefe do PS, no jornalista que questiona o pack journalisme é logo afastado da “política” por se suspeitar que “está feito com o PSD”. É no homem que tem o direito de viver num país livre, com uma comunicação social crítica, com uma informação equilibrada, e nem sequer se pode aperceber até que ponto está a ser, todos os dias, manipulado com “folclore transmontano”.

Assim termina o milionésimo manifesto anti-situacionista do agent provocateur da Marmeleira, agravando uma situação pessoal repetitiva cada vez mais desgraçada; especialmente por estarmos em período pós-eleitoral e ainda ninguém o ter avisado. A novidade é ver Pacheco assumir que fala em nome do homem comum. E o que é o homem comum, para um homem tão incomum? É alguém que está paranóico, explica. Um ser que vive atemorizado, silenciado, olhando com pavor para os cantos e as sombras nocturnas. Um leitor regular da Helena Matos e do João Gonçalves, inevitavelmente. Teme ser seguido por operacionais da ASAE especialistas em comentários contra o Governo, comunica com os amigos e colegas por gestos, vai para a cama calçado e mete a caçadeira debaixo da almofada. Deste cenário de terror salta a provável fonte da inesquecível denúncia da Manela no final da campanha para as Legislativas, quando alertou os eleitores para o facto de poderem ter a sua correspondência violada pelo Governo. É uma imagem que faz jus ao génio intelectual do Pacheco, essa de imaginarmos Sócrates, trémulo e alucinado, a rasgar envelopes numa cave dos CTT. Foi deste material que se fez a psicose chamada Política de Verdade, a tal salvação anunciada com a passagem de uma estrela decadente pelos céus de Belém.

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Carambolas

O Filipe integra-nos num novo grupo chamado blogues agregados e regista que em nenhum deles se falou da notícia do dia. Porém, não identifica a dita. Qual terá sido? Fazes alguma ideia?

O mais engraçado nestas três tabelas, et pour cause, é a certeza de o Filipe também não ser capaz de revelar qual foi, afinal, a notícia do dia 29 de Outubro de 2009.