O que ele queria era uma pirâmide

No último Câmara Clara, onde bem se fala dum português demasiado independente e brilhante para que alguma vez se torne popular, aparece Alegre a dizer que não entende quais são os critérios para ficar a repousar no Panteão Nacional. E, sem perder o embalo, pergunta por que não há um panteão dos poetas. É que tudo lhe pareceria mais fácil.

Eis o que proponho ao PS: ofereçam-lhe um mapa de Portugal e mandem-no procurar o local ideal para a construção do futuro Panteão Nacional dos Poetas. Isso irá ocupá-lo nos próximos 10 a 15 anos.

6 thoughts on “O que ele queria era uma pirâmide”

  1. Podes crer que não era tarefa fácil.Arranjar um Panteão Nacional dos Poetas num país com um potencial de 10 milhões de candidatos.

  2. O Panteão Nacional Dos Poetas- ora aí está uma bela ideia do Manuel Alegre.E já agora podíamos enfiar lá os investigadores do ministério público que teem andado embrulhados no Freeport,no BPN,no Casa Pia, no Furacão, etc etc etc-porque só podem ser poetas, com as embrulhadas que teem feito,só podem estar a pensar nos poemas que vão compor-e á, é verdade , tambem os jornalistas dos pasquins que teem aldrabado e mentido em tudo quanto é sítio.Podiam ir para o Panteão e ficar por lá, pois a falta que fazem é nenhuma.

  3. A PORTUGAL

    Jorge de Senna

    Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
    Nem é ditosa, porque o não merece.
    Nem minha amada, porque é só madrasta.
    Nem pátria minha, porque eu não mereço
    A pouca sorte de nascido nela.

    Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
    quanto esse arroto de passadas glórias.
    Amigos meus mais caros tenho nela,
    saudosamente nela, mas amigos são
    por serem meus amigos, e mais nada.

    Torpe dejecto de romano império;
    babugem de invasões; salsugem porca
    de esgoto atlântico; irrisória face
    de lama, de cobiça, e de vileza,
    de mesquinhez, de fatua ignorância;
    terra de escravos, cu pró ar ouvindo
    ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
    terra de funcionários e de prostitutas,
    devotos todos do milagre, castos
    nas horas vagas de doença oculta;
    terra de heróis a peso de ouro e sangue,
    e santos com balcão de secos e molhados
    no fundo da virtude; terra triste
    à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
    cheia de afáveis para os estrangeiros
    que deixam moedas e transportam pulgas,
    oh pulgas lusitanas, pela Europa;
    terra de monumentos em que o povo
    assina a merda o seu anonimato;
    terra-museu em que se vive ainda,
    com porcos pela rua, em casas celtiberas;
    terra de poetas tão sentimentais
    que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
    terra de pedras esburgadas, secas
    como esses sentimentos de oito séculos
    de roubos e patrões, barões ou condes;
    ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

    eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
    és mais que cachorra pelo cio,
    és peste e fome e guerra e dor de coração.
    Eu te pertenço mas seres minha, não.

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