Aconteceu na última sexta-feira. Aconteceu num semáforo. Elas teriam uma frescura qualquer entre os 15 e os 25 anos. Elas lá, eu cá. Olhei para a mais gira. A mais gira ficou a olhar para mim. A outra topou o meu olhar e o sorriso da companheira. De imediato a puxou e começou a beijar. Beijou-a até ao fim do encarnado, sôfrega de posse. Pelo meio iam verificando se eu continuava a olhar. Sim, mas também a olhar para mim e a desolhar delas. Até que o alcatrão ficou verde. Avançamos, umas contra o outro. A mais gira parece meio envergonhada, baixa a cabeça. E concentro-me, fogoso, na mandona. Esticamos dois sorrisos como lanças afiadas. Passamos em galope elegante. A estocada é certeira, os nossos olhos ferem-se de ternura. Ela orgulhosa da exibição de poder. Eu grato do poder da exibição.
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Assassin’s Creed II
Consta que há quem queira comprar esta máquina de viajar no tempo só para jogar. Néscios.
Conselho para a efeméride
Portugal à espera dos portugueses
Pessoas não identificadas, ocupando lugares de responsabilidade judicial, policial ou civil de topo, divulgam passagens de processos, ou processos completos, para alguns jornalistas. Os meios de comunicação social divulgam essas informações segundo o calendário das fontes ou a oportunidade de aquisição desses conteúdos. Não sabemos como se paga esta troca de favores entre a parte que corrompe o segredo de Justiça e a parte que aproveita a corrupção. Sabemos é que são obtidos ganhos nas tiragens ou audiências, logo na publicidade que esses órgãos vendem. Estamos perante um mercado da difamação disfarçado de legitimidade jornalística e interesse público.
Ora, quem transmite a parte pode transmitir o todo. Por exemplo, quem transmite que Sócrates falou da TVI com Vara pode transmitir exactamente o que foi dito e a data, de modo a acabar com as suspeitas ou a dar-lhes matéria factual. Não o fazendo, tanto pode estar a fatiar o fiambre como a prometer um presunto que não existe. Seja como for, está a inquinar a política ao mais alto nível, assim como a denegrir a honorabilidade dos envolvidos. Por fim, o espectáculo da corrupção grassar algures nos tribunais, polícias e Ministério Público provoca alarme social, revelando um Estado onde as instituições pilares do Regime se atacam e degradam perante a passividade do Parlamento.
O que acontece a Sócrates, então, pode acontecer a qualquer um. Basta haver interesse. Eu poderei ser escutado a falar com um amigo, apenas porque esse amigo está a ser investigado pela Judiciária. Nas conversas calha dizer que me está a apetecer muito comer uma francesinha, que gosto de italianas bem quentes, que detesto cariocas e que não suporto galões. Meses mais tarde, o cabrão do 2º F, que se dá com a malta certa para conseguir as coisas erradas, distribui pelas caixas de correio do prédio um panfleto onde bufa que eu fui apanhado em escutas a falar da minha vida sexual promíscua, do meu xenofobismo e da ameaça que represento para as chefias militares. E lá vai por água abaixo o noivado com a vizinha do 4º andar, filha de coronel.
É neste país de cobardes que queres viver? Creio que Portugal está a precisar de ajuda dos portugueses.
Aprender com o Sporting
O futebol é um laboratório de psicossociologia das organizações. Na aparência apenas uma actividade lúdica, na realidade a tentativa de dominar a complexidade dos grupos na produção de bens e serviços. Visto assim, cada jogo é uma aula com ensinamentos que podemos aplicar noutras áreas da actividade humana. Contra o Rio Ave, o Sporting ofereceu três lições:
– Um indivíduo pode condicionar o destino de todo o grupo. Foi o que provou Caicedo quando se recusou a marcar o golo da vitória. Qualquer outro jogador teria chutado a bola para dentro de uma baliza que estava escancarada a 1 metro de distância. Não Caicedo, que optou por manifestar o seu desagrado face ao actual comando técnico da equipa, assim repetindo o protesto que já tinha exibido no jogo com o Marítimo.
– O sucesso está nos detalhes. A evidência é a de que João Moutinho está a ser desperdiçado como médio direito, quando o seu potencial de abertura e distribuição de jogo pede que jogue a médio defensivo. Depois a questão de saber onde jogaria Veloso, ou sequer se jogaria, não passaria de um detalhe.
– Uma organização depende dos seus princípios para se desenvolver. Por princípio, Vukcevic não deve ser substituído em caso algum, mesmo que se lesione. Porque a qualquer momento fará uma jogada genial. No caso de ser substituído ao intervalo, e logo por uma nulidade indescritível chamada Angulo, a violação dos princípios atinge foros de escândalo ético.
Estas foram as lições que uma equipa de meio da tabela ofertou no campo do Rio Ave. Novos ensinamentos esperam o estudioso do trabalho colectivo caso continue a seguir o Sporting, com especial enfoque na temática da reengenharia.
Alarguem o serviço à Loja do Cidadão
Uma vez que as fugas ao segredo de Justiça são agora parte do quotidiano político e mediático, acontecendo impunes e festejadas, é justo que se alargue o acesso de todos os cidadãos aos processos que lhes interessem, acabando com o actual exclusivo dos órgãos de comunicação social. Elaborem um preçário à página, linha, palavra e caracter. Num país onde a inveja e o provincianismo moldam a praxis da elite, dos partidos e dos populares, o sucesso do negócio talvez acabe com o problema do défice.
Novo desporto Público
Adivinhar quem escreve o quê nos editoriais. Por exemplo, neste. A minha aposta: a parte em que Sócrates é apresentado como o culpado das fugas ao segredo de Justiça e das andanças do Regime nos 35 anos passados, vem do Manuel Carvalho; a parte dos imigrantes, da Bárbara.
Caicedo versus Caitarde
Se Caicedo tivesse marcado nesta jogada, Paulo Bento ainda seria treinador do Sporting neste domingo. O jogo estava no final dos descontos, o equatoriano apanhou-se com a bola em andamento na zona da marca de grande penalidade. Entre ele e o guarda-redes havia um só obstáculo: ele próprio. As opções incluíam o remate para qualquer um dos quatro cantos da baliza, uma bola picadinha, o drible ao guardião e a assistência para Liedson. Ainda na opção remate, podia sair em jeito, em velocidade ou à padeiro. Pois bem, acabou a mandar a bola para o lado onde estava o guarda-redes, o que fez com que ela acabasse por bater no poste, assim mandando embora o treinador que conhecera três meses antes. Que leva um avançado profissional, com 185 cm e 78 kg, a não querer marcar golos de baliza aberta que dariam a vitória? A resposta é: Paulo Bento.
Como revelou agora, Bento errou ao ter ficado no Sporting para esta nova época. Disse que já caía tarde. O que significa que o erro só poderia aumentar caso continuasse. Então, está de parabéns Caicedo que, num gesto técnico notável, conseguiu ajudar o treinador num momento difícil da sua carreira. Isso significa que vamos ter um avançado goleador daqui para a frente; como se irá ver logo no próximo jogo, é mais do que certo.
Quanto ao Paulo, e mesmo sendo lampião, foi um dos treinadores que mais agrado colheu no clube. Como jogador era uma referência de carácter e maturidade, o seu futuro como treinador não será diferente. Apenas se deu o caso de o termos apanhado verde, mas não tão verde como gostaríamos. Quem sabe, voltará. Com outras formas geométricas na cachola. E sem o Veloso para dar cabo da equipa.
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Associo-me a este obrigado, paulo
Câncioneiro
Vale muito a pena, e friso pena, ler este vómito do Vasco Lobo Xavier. A tese é um espelho de quem a enuncia: o PS incluiu no seu programa eleitoral a promessa de legalizar o casamento homossexual porque Fernanda Câncio obrigou Sócrates a tal por via da sua relação de intimidade.
Do tanto que se poderia analisar num exercício de tamanha perfídia moral, e onde o autor se compraz no registo canalha do princípio ao fim, fico-me por uma constatação: a falta de hombridade não é boa conselheira.
Clichés da pulhice
A nacionalização do BPN deixou Louçã histérico de felicidade. Descia do céu a indesmentível prova da aliança do PS à banca, ao grande capital, às manigâncias e crimes nos offshores. Era o ingrediente que faltava na caldeirada que misturava desempregados, professores e revoltados de todas as causas e proveniências. A cada um deles, Louçã repetiu à exaustão a má nova: Vês, a ti o Governo não dá nada, e ainda quer tirar o pouco que tens, mas aos ricos Sócrates dá milhões e milhões do Estado só para salvar as suas fortunas.
O modo febril como Louçã expelia o seu populismo justificava-se como técnica demagógica, mas também à luz de uma desvairada fantasia que o tomou de assalto graças à decadência social-democrata e poesia Alegre, aquela em que se via a ficar à frente do PSD, ou até do PS, nas Legislativas. Por isso, de cada vez que saía mais uma notícia relativa ao BPN ele salivava e esfregava as manápulas. Esta postura lesiva da racionalidade do debate político já era grave, mas muito pior ficou quando o PSD e CDS começaram a imitar a esquerda imbecil repetindo que o Estado estava a meter dinheiro a fundo perdido no banco nascido no, e do, cavaquismo. Aquela instituição bancária – ligada à direita tanto pelos dirigentes como pelo tecido sociológico dos clientes – era agora chutada por essa mesma direita para o centro da luta partidária. Valia tudo para estes ranhosos, até sugerir que o Governo devia ter deixado falir o banco que tanto dinheiro lhes deu a ganhar e que sabiam ter importância económica relevante para o sistema.
Teixeira dos Santos explicou fora e dentro do Parlamento, desde a nacionalização, que nem 1 cêntimo tinha sido ainda perdido pelo Estado com o BPN. A oposição riu-se e continuou a envenenar a opinião pública. Havia eleições, havia a irresponsabilidade, havia o ódio. Havia milhares de milhões de euros e de razões para atacar Portugal.
Mas o que escrevi foi apenas o modo barroco de sugerir este texto do João Pinto e Castro.
No Reino de Pacheco
Foi feio, Sócrates
Pacheco Pereira levou ao Parlamento a seguinte questão: que espera o Governo para considerar já culpados os arguidos do caso Face Oculta, sem esperar pela Justiça, assumindo as consequências políticas dos supostos actos ilegais de terceiros?
Esta pergunta não é feita para ter resposta, é feita para ser pergunta que fica sem resposta. Ao que se pode responder é ao carácter de quem a faz. Como o fez Sócrates. Sem esforço aparente. E com bonomia.
Mas estamos a falar do Pacheco, um vórtice de empáfia. A sua presença vai ser de permanente intoxicação, podendo provocar vítimas em qualquer partido. Desta vez, foi Ribeiro e Castro a ter sido apanhado no turbilhão e a ser arrastado pela força negra. Fez figura de parvo não se sabe porquê nem para quê. Amanhã será outro qualquer.
Horas depois, podemos ler nos blogues alucinados que Sócrates se portou mal com o Pacheco. Pudera, eu também diria o mesmo se fosse do PSD. É feio ver alguém bater nos nossos, ainda por cima nos mais fracos.
Para quando uma mulher a treinar uma equipa de futebol?
Se calhar, já existe. O que não existe é uma qualquer razão para que não venha a acontecer no futebol profissional. Enfim, não é preciso ser um macho especialmente valente para passar 90 minutos sentado vendo a rapaziada dar uns pontapés na bola.
O Sporting podia aproveitar o resto da época para fazer essa experiência. Pior não ficaria.
Só têm de paginar, está pronto para entrega
O nosso amigo assis não podia ter sido mais relevante na pergunta: para quando um livro com os panegíricos a Sócrates que tenho lançado aos bits com invejável entusiasmo e denodo? Ou melhor, que forças de bloqueio foram mobilizadas para atrasar o feliz enlace entre a futura obra e o seu vastíssimo público? Como ele refere no comentário, trata-se dum presente natalício ideal para amigos e familiares. Os que admiram Sócrates ficariam aliviados ao descobrir que não estão abandonados num quotidiano persecutório onde têm de esconder a sua adoração, e os que o odeiam ficariam deslumbrados com a ousadia da ficção e respectivos excessos literários.
Editoras do meu país, a coisa está escrita, é magnífica e já só espera os vossos cheques. Bute lá fazer dinheiro com o Engenheiro enquanto é tempo, antes que os maluquinhos da oposição comecem a governar esta merda com a sua maioria de uma irresponsabilidade absoluta.
Seculo seculorum
Os crucifixos devem sair das salas de aula na Escola Pública, os homossexuais devem poder casar pelo Civil. E tudo e tudo. E tudo o mais que a sociedade escolha em liberdade. Inquestionável. Mas a Igreja deve estar calada?
A perseguição à dimensão política da Igreja assinala uma cidadania imatura. Os preconceitos de origem religiosa são tão legítimos como os preconceitos de origem ideológica. E temos a ganhar com essa diversidade intelectual. A latente, eventual ou ocasional conflitualidade entre valores religiosos e seculares está ao serviço da própria secularidade.
A democracia tem a sua força na sua fraqueza. É contra-intuitiva.
Fuck you – and your – blog
A Namorada de Wittgenstein sugere.
Os professores têm razão
O PCP fornecia as camionetas e o maralhal que fosse preciso. Também ofereciam serviços de segurança. O BE encarregava-se das homilias e do teatro. Era uma demagogia de cortar à faca e disparar a pistola. Agora, o CDS diz que descobriu umas ideias muito católicas para resolver a cena. E o PSD acordou para a necessidade de fingir que vai ter algo a dizer, mandou para o ar 30 dias de nada e coisa nenhuma.
Que chatice, que sarilho, isto de termos em Portugal um Governo que ousou requalificar os professores. Estávamos tão bem na modorra da farsa, tão acomodados. E valeu a pena? Não. Os professores não querem mais chatices – querem é mais dinheiro e menos trabalho. E não faltam partidos para lhes dar apoio parlamentar. Até porque os professores têm razão, ou não estariam a educar o País.
Ir a jogo
A Regra do Jogo passa a contar com o Tomás Vasques. É uma excelente entrada naquela que já era uma excelente equipa.
Gente como Nós
É um dos programas de rádio favoritos da minha alma lusitana. Um daqueles casos felizes em que o narcisismo nos leva para fora de nós. Conhecer as histórias dos que vieram para Portugal trabalhar, ou estudar, desperta uma curiosidade que ultrapassa os indivíduos em causa e só descansa quando chega às suas terras e suas gentes. Não há nada mais civilizador do que descobrir que o estrangeiro nunca existiu, era uma miragem. Somos todos patrícios de um Mundo grande e cheio de trajectos, cheio de locais onde podemos ter a nossa casa. Toda a gente é como nós, nós como toda a gente.
Quando, nestes programas de rádio ou noutras ocasiões, oiço o Português falado por alguns em Moçambique, Angola ou São Tomé, por exemplo, com uma clareza sonora e rigor gramatical já raros de encontrar em Portugal, ou quando oiço o Português falado com os sotaques timorenses, africanos, sul-americanos, romenos, ucranianos, ingleses, holandeses, alemães, indianos, chineses… sou puxado para um sentimento onde a Língua é, de facto, a minha pátria. Um Quinto Império feito das diferenças e dos diferentes, ilha dos amores.
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Selecção quase ao calhas:
Preparação para a nacionalidade portuguesa
Várias histórias. E um mundo em cada uma, em cada um.
Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina
A luta pela secularidade não se faz só contra a Igreja Católica. A cada ano, 3 milhões de raparigas em todo o Mundo estão em risco de serem vítimas deste crime tão violento e tão absurdo.
Estrangeiros em Lisboa
Um italiano, uma norte-americana e uma cabo-verdiana. O italiano, que criou um dos melhores restaurantes em Lisboa, veio a Portugal descobrir o seu amor pelo Brasil. Acaba a reportagem a servir um saboroso prato de cidadania. A americana conhece melhor Lisboa do que a enorme maioria dos alfacinhas. Diz que por cá a vida é tranquila, desculpem lá. Se quiserem saber o que é confusão, ide a Los Angeles. A cabo-verdiana deve ao engenheiro Sousa Veloso a descoberta da sua vocação profissional: agronomia. Dele recebeu dois beijinhos com amizade, para além de um destino que a chama para África.
Palco central: México
Como é que um português empreendedor vive a nacionalidade portuguesa lá fora? Com orgulho. Um orgulho que não tem origem na distorção sentimentalóide, antes na mais rigorosa lucidez comercial. É uma lição de inteligência.
Claude, o maestro
Nesta entrevista vemos um homem de 90 anos cansado da vida. Uma vida de excepção, tanto pelo que nela realizou, como pelos protagonistas da História com quem privou, como pelo longo e largo trajecto existencial que lhe deu inumeráveis e tão díspares descobertas num século feérico e em constante aceleração civilizacional.
Mas mais do que estar cansado, ou talvez por isso, o que nos atinge com maior força é a sua derrelicção. Ele chega ao fim do trajecto sem saber para onde leva o caminho, sequer acreditando que valha a pena caminhar. Olhou para a escuridão com uma lupa, a escuridão pareceu-lhe ainda mais densa.
E, súbito, faz uma revelação:
Imagine que podia começar tudo de novo. Repetia tudo o que fez ao longo da sua vida?
Nem por sombras. Gostaria de fazer coisas completamente diferentes do que fiz.O quê?
Gostaria imenso de ser compositor e maestro. Sobre isso, não tenho quaisquer dúvidas!
Ah, a música… Estamos num universo onde, dando tempo ao tempo, os átomos transformam-se em compositores. Os sons espalham-se pelo espaço levando mamíferos seleccionados para dimensões fora desse espaço, fora de todo o tempo. E enquanto tocar a música, o nosso barco não vai ao fundo.
Cantemos, pois. Espantemos o mal.

