Portugal à espera dos portugueses

Pessoas não identificadas, ocupando lugares de responsabilidade judicial, policial ou civil de topo, divulgam passagens de processos, ou processos completos, para alguns jornalistas. Os meios de comunicação social divulgam essas informações segundo o calendário das fontes ou a oportunidade de aquisição desses conteúdos. Não sabemos como se paga esta troca de favores entre a parte que corrompe o segredo de Justiça e a parte que aproveita a corrupção. Sabemos é que são obtidos ganhos nas tiragens ou audiências, logo na publicidade que esses órgãos vendem. Estamos perante um mercado da difamação disfarçado de legitimidade jornalística e interesse público.

Ora, quem transmite a parte pode transmitir o todo. Por exemplo, quem transmite que Sócrates falou da TVI com Vara pode transmitir exactamente o que foi dito e a data, de modo a acabar com as suspeitas ou a dar-lhes matéria factual. Não o fazendo, tanto pode estar a fatiar o fiambre como a prometer um presunto que não existe. Seja como for, está a inquinar a política ao mais alto nível, assim como a denegrir a honorabilidade dos envolvidos. Por fim, o espectáculo da corrupção grassar algures nos tribunais, polícias e Ministério Público provoca alarme social, revelando um Estado onde as instituições pilares do Regime se atacam e degradam perante a passividade do Parlamento.

O que acontece a Sócrates, então, pode acontecer a qualquer um. Basta haver interesse. Eu poderei ser escutado a falar com um amigo, apenas porque esse amigo está a ser investigado pela Judiciária. Nas conversas calha dizer que me está a apetecer muito comer uma francesinha, que gosto de italianas bem quentes, que detesto cariocas e que não suporto galões. Meses mais tarde, o cabrão do 2º F, que se dá com a malta certa para conseguir as coisas erradas, distribui pelas caixas de correio do prédio um panfleto onde bufa que eu fui apanhado em escutas a falar da minha vida sexual promíscua, do meu xenofobismo e da ameaça que represento para as chefias militares. E lá vai por água abaixo o noivado com a vizinha do 4º andar, filha de coronel.

É neste país de cobardes que queres viver? Creio que Portugal está a precisar de ajuda dos portugueses.

20 thoughts on “Portugal à espera dos portugueses”

  1. Val,

    sem a ajuda da comunicação social vai ser difícil. E não me parece que, como parte interessada, queira denunciar o esquema.

    Da presidência da república, que devia zelar pelo bom funcionamento das instituições, como Cavaco não se cansa de dizer, ainda menos se espera. Já demonstrou que além de parte interessada é parte actuante (vd. pseudo-caso das escutas).

    O procurador geral da república não mostra interesse em promover a investigação, antes vai dizendo que está a ler as declarações que de facto confirmam que Sócrates falou com Vara…

    Queixamo-nos ao Totta? Já não existe…

  2. Agora li que o João Palma, presidente do Sindicato dos Magistrados do MP alerta para a “perigosíssima governamentalização da investigação criminal”. (Livra, se isto é quando a investigação está governamentalizada…)

    Vi no site do sindicato do MP, onde se pode ver uma longa série de artigos anti-sócrates e anti-governo e outros assim a dar para o ambíguo, mas a gente sabe onde eles querem chegar…

    Independência das instituições “my ass”!

  3. Isto para mim não passa de uma guerra do PSD que não perdoa o caso BPN mas é para mim modesto cidadão que há tempos ouviu o desabafo de uma pessoa importante deste país cheio de pressa para apanhar o avião por causa de umas eleições para uma Misericórdia. Ia tentar serenar os ânimos… Mas então não são todos irmãos, perguntei eu. Pois mas há duas listas em guerra para a mesa da Misericórdia de uma cidade. Não se podem ver…

  4. Só no caso BPN não puseram umas escutas a funcionar… Que conversas agora o Correio da Manha não transcreveria!

  5. Vim aqui ver como é que Valupi se desenvecilhava do “Face oculta”. Reduziu-o à questão do segredo de justiça e esqueceu a sustância.

  6. Num país aonde existiam dezenas de milhares de pides e bufos há menos de 30 anos, seria um milagre se certas práticas tivessem desaparecido.

  7. Há “algumas coisas”, como bem nos remete Z para um link, que já fedem. Há, por acaso, “almoços grátis”, para a Comunicação Social? Quanto pagam para arranjarem os “bufos”?
    Será desta forma que a corrupção é combatida? Não se vê, a olhos vistos, que a “necessidade, aguça o engenho”? Eles sempre conhecem um primo, que tem um tio, que é amigo do amigo, que mora no sexto direito, que conhece um “gajo” que trabalha no Tribunal…e em vez de lhe darem fiambre… dão-lhe logo o presunto e o porco e tudo…
    Por acaso quer o Sindicato dos Jornalistas, quer o dos Juízes (que grande aberração é esta de um órgão do Poder ter Sindicato, ou Associação Sindical ou o que seja…) já se manifestaram contra esta pocilga (já que se falou em porcos…)? Acabaram mesmo as Corporações em 25 de Abril de 1974?

  8. Infelismente tive que sair ontem à noite, e só agora é que liguei o computador.Cheguei à aspirina b e que vejo eu! O subversivo Valupi a apelar á revolta popular, contra os bufos,os jornalistas de pasquim,os sindicatos de magistrados(o que será isto, é que eu não sei) e as comissões de ética dos jornalistas que devem estar a assobiar para o lado ou a ganhar algum. Pelo caminho,a procuradoria finge que nada se passa e guarda para as calendas a revelação do conteúdo das escutas que “apanham” o Sócrates.Será que está com medo que nada digam e que as reacções da bufaria e do sr Palma e sus muchachos sejam violentas, ou será que aquilo que dizem vai isentar o Eng.º e provocar uma reacção muito pior de todos os intriguistas ?

  9. Pois é, antonio manso, e agora o Supremo TRibunal de Justiça dá como nulas as escutas a Sócrates , porque parece que foram feitas por forma a serem nulas, isto é, sem a validação de um Tribunal Superior. No entanto, já circularam por todo o pasquim e mais algum, a suspeita está lançada e agora ainda mais, porque se anula a validade da escuta por um “pormenor” processual…

    Quem está por detrás disto, sabe como mexer-se, não há dúvida…

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