Gente como Nós

É um dos programas de rádio favoritos da minha alma lusitana. Um daqueles casos felizes em que o narcisismo nos leva para fora de nós. Conhecer as histórias dos que vieram para Portugal trabalhar, ou estudar, desperta uma curiosidade que ultrapassa os indivíduos em causa e só descansa quando chega às suas terras e suas gentes. Não há nada mais civilizador do que descobrir que o estrangeiro nunca existiu, era uma miragem. Somos todos patrícios de um Mundo grande e cheio de trajectos, cheio de locais onde podemos ter a nossa casa. Toda a gente é como nós, nós como toda a gente.

Quando, nestes programas de rádio ou noutras ocasiões, oiço o Português falado por alguns em Moçambique, Angola ou São Tomé, por exemplo, com uma clareza sonora e rigor gramatical já raros de encontrar em Portugal, ou quando oiço o Português falado com os sotaques timorenses, africanos, sul-americanos, romenos, ucranianos, ingleses, holandeses, alemães, indianos, chineses… sou puxado para um sentimento onde a Língua é, de facto, a minha pátria. Um Quinto Império feito das diferenças e dos diferentes, ilha dos amores.

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Selecção quase ao calhas:

Preparação para a nacionalidade portuguesa
Várias histórias. E um mundo em cada uma, em cada um.

Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina
A luta pela secularidade não se faz só contra a Igreja Católica. A cada ano, 3 milhões de raparigas em todo o Mundo estão em risco de serem vítimas deste crime tão violento e tão absurdo.

Estrangeiros em Lisboa
Um italiano, uma norte-americana e uma cabo-verdiana. O italiano, que criou um dos melhores restaurantes em Lisboa, veio a Portugal descobrir o seu amor pelo Brasil. Acaba a reportagem a servir um saboroso prato de cidadania. A americana conhece melhor Lisboa do que a enorme maioria dos alfacinhas. Diz que por cá a vida é tranquila, desculpem lá. Se quiserem saber o que é confusão, ide a Los Angeles. A cabo-verdiana deve ao engenheiro Sousa Veloso a descoberta da sua vocação profissional: agronomia. Dele recebeu dois beijinhos com amizade, para além de um destino que a chama para África.

Palco central: México
Como é que um português empreendedor vive a nacionalidade portuguesa lá fora? Com orgulho. Um orgulho que não tem origem na distorção sentimentalóide, antes na mais rigorosa lucidez comercial. É uma lição de inteligência.

7 thoughts on “Gente como Nós”

  1. Depois de ler o artigo do dr.Mário Soares de ontem no D.N.,como conpreendo o que você diz nesta sua introdução à Portugalidade. Nos meus 67 anos sempre tive a preocupação de ser o mais português possível ,e sempre que viajei lá fora,na cabeça estava sempre o Fernando Pessoa “a minha pátria é a lingua portuguesa”.Não compreendo como se pode abandalhar a nossa lingua, com vocábulos estrangeirados no pior sentido, matando o português e falando um linguajar abreviado que nada é. Não me esqueço, aqui à 45 anos,na Guiné Equatorial(antiga ilha de Fernando Pó), fui encontrar um refugiado do Biafra,trabalhador numa roça de cacau,estudante liceal na sua terra.No meu orgulho de falar,além do portugues ,do castelhano ,e do francês ,falei com ele em inglês, que era a lingua oficial da Nigéria.Com umildade,mas com orgulho, respondeu-me em Português , e disse-me que falava tambem francês, castelhano,e alemão, mas que a lingua de eleição para ele era o Português, pois o avô materno era Angolano, e tina muito orgulho na lingua de Camões, (e citou-me vários versos dos Lusíadas .Sabia mais do que eu:posso dizer que me deu uma lição de portuguesismo.Aprendi muito naqueles dias e nunca me esquecerei do “Portugues” natural do Biafra que encontrei em Fernando Pó.

  2. Um saudoso
    Sou frequentador assíduo da TPA, julgo querer dizer, Televisão Popular Angolana, no canal MEO, e delicio-me a ver os seus programas, Janela Aberta, Noticias em directo, Grande Entrevista e fico delirado como se fala tão bem o português, quer os entrevistadores assim como os entrevistados ou nos directos na rua. A maioria das vezes prefiro ver este canal do que certos canais nacionais sei que tenho um certo fraquinho por este país, deixei lá dois anos dos melhores anos da minha vida, que foi no serviço militar. Sinto bastante alegria pelo desenvolvimento que se tem operado e que saudades tenho de Luanda. Se tivesse possibilidades a primeira coisa que fazia era uma visita e tentar encontrar certos colegas, antigos militares africanos, que como eu serviram o exército Português. Mais uma vez refiro que fico surpreendido com a maneira como falam bem o Português, melhor que em certos distritos e ilhas portuguesas.

  3. Já agora António Manso, não leve a mal, perdoe-me, mas as suas frases seguintes estão certas ortograficamente como eu vou transcrever: “… aqui há 45 anos…” e “Com humildade”. Estou certo que foram lapsos ortográficos. Contudo, deixe-me dizer-lhe que, para mim, quase da sua idade, as línguas têm de ser flexíveis, pisar o risco até para lá dos acordos ortográficos, o que é preciso é comunicar e lembre-se que há dialectos de certas franjas sociais, que usam o calão próprio que é preciso respeitar. Eu até gosto da musicalidade do linguarejar dos emigrantes, cheio de de vocábulos, como você diz, estrangeirados e abreviados e não se esqueça que alguns vocábulos estrangeirados têm tanto valor na nossa língua como os outros, as línguas devem ser feitas disso mesmo, estão em evolução constante ao sabor da necessidade dos povos se entenderem o melhor possível e sabe também que a nossa língua de hoje nada tem a ver com a “pátria” lusa de há séculos atrás, nada mesmo!

  4. antónio manso, muito obrigado por essa memória tão rica de significados.

    Ali para baixo, trataste-me por tu. É isso mesmo que deves fazer, se tal te apetecer. É o que eu faço com todos, sempre. Jesus também falava com Deus por tu, portanto…
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    Manuel Pacheco, exactamente. A língua está muito bem tratada nos PALOP, até nos podem dar lições.

  5. só tu meu querido irmão – também te derretes todo com as cambiantes da lusofonia por aí ao fora, e seus actores. Uma vez um negro de Moçambique perguntou-me: veio cá aprender a falar português? Os negros de Moçambique são bem bonitos. Não é só Jesus que trata Deus por tu, todos podemos fazê-lo, acho que ele gosta, e aliás se Ele é essa transcendência absoluta que tudo abrange então também nos abrange a nós, somos parte, e vai junto…

    (Oh Pá, olha lá o solzinho para secar a minha roupa!)

    estou de partida para a semana Val, mas é só uma semana e pouco, mata atlântica, quero falar com tupis,

    e tenho que ir ver o Birdwatchers e vou sair desfeito mas paciência.

  6. Já agora vejam a revista «Ler» deste mês que traz duas cartas de Vinicius de Moraes – uma sobre Oxford outra sobre Portugal. Vale a pena ler porque dá lições a todos nós e até fala no «acordo» ortográfico. Mas atenção, as cartas são antigas só que ele já tinha razão há muito tempo… A de Oxford é de 1938 a de Portugal é de 1969.

  7. z, e que me dizes da inversa, o facto de ao falarmos uma língua estrangeira nos darmos conta de que o nosso mundo ficou muito maior, que é quase como se estivéssemos livres de um lastro que nos impedia de voar? Também pode ser visto como usar uma máscara mágica e, súbito, descobrirmos poderes mágicos.

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    jcfrancisco, essas cartas prometem.

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