Os professores têm razão

manifestação professores

O PCP fornecia as camionetas e o maralhal que fosse preciso. Também ofereciam serviços de segurança. O BE encarregava-se das homilias e do teatro. Era uma demagogia de cortar à faca e disparar a pistola. Agora, o CDS diz que descobriu umas ideias muito católicas para resolver a cena. E o PSD acordou para a necessidade de fingir que vai ter algo a dizer, mandou para o ar 30 dias de nada e coisa nenhuma.

Que chatice, que sarilho, isto de termos em Portugal um Governo que ousou requalificar os professores. Estávamos tão bem na modorra da farsa, tão acomodados. E valeu a pena? Não. Os professores não querem mais chatices – querem é mais dinheiro e menos trabalho. E não faltam partidos para lhes dar apoio parlamentar. Até porque os professores têm razão, ou não estariam a educar o País.

68 thoughts on “Os professores têm razão”

  1. Os professores querem menos trabalho porque trabalham demais. Isto já era assim antes de Maria de Lurdes Rodrigues aparecer em cena e dizer, sabendo que mentia, que trabalhavam de menos. Agora o sobretrabalho, que já existia (para os professores como para a generalidade dos trabalhadores), ultrapassou largamente, nas escolas, os limites do suportável.

    Os professores rejeitam o modelo de avaliação porque é uma fraude (ao contrário do que diz a propaganda oficial, pune os melhores e premeia os piores), porque os submete à tortura de Sísifo, e porque segue uma lógica taylorista que todo o trabalhador tem o direito de contestar (contestação esta que todas as pessoas de esquerda têm o dever de apoiar).

    Quanto a mais dinheiro, fazia jeito, mas não é para já a prioridade.

  2. Sim, mas não. Porque não se conhece um modelo de avaliação alternativo. É só isso que está em causa, saber se os professores querem ser avaliados como professores – ou preferem ser avaliados apenas como funcionários, como até agora.

  3. José Luiz Sarmento,

    Os não professores não têm, por exemplo, o privilégio de ir diminuindo as horas de trabalho com a antiguidade, chegando a ter semanas de 12 horas e de 6 horas – felizmente esta é uma das tretas a que MLR pôs termo.

    Passar a ter semanas de 35 horas, quando a maioria dos trabalhadores trabalham mais de 40, é assim tão insuportável?

  4. Lamento, mas se não “se” conhecem modelos de avaliação alternativos é porque ninguém está interessado em conhecê-los. Eu próprio elaborei um – em que destaco, veja lá a coincidência, o direito dos professores a serem avaliados como profissionais e não como funcionários.

  5. Tens razão, José Luiz, mas não a tens. A opinião pública não conhece os variados modelos alternativos que entretanto surgiram. E tal desconhecimento não se deve à falta de meios de comunicação ou à curta duração da questão. Deve-se ao interesse político em não ter esse debate, apontando todas as armas para o boicote ao actual modelo e ficando à espera que nos próximos 35 anos nenhum outro Governo ouse incomodar os senhores professores.

  6. Senhor bloguista e apoiantes, vão experimentar, têm habilitações para tal, vão ser professores apenas 1 ano lectivo, e depois então venham falar do que já conhecem, porque de facto, vocês, aqui, nunca dão o “braço a torcer” seja pelo que for, mesmo quando bem esclarecidos, como agora, pelo José Luiz Sarmento.

  7. manutor, a minha licenciatura foi feita com especialização em ensino – portanto, com muitas cadeiras de pedagogia, psicologia, História da educação, didáctica. Tenho o estágio profissional feito e alguns anos de docência em várias escolas Secundárias: da Moita a Vila Franca de Xira, passando pelos Olivais, Alto de Santo Amaro e Linda-a-Velha.

    Que queres saber acerca do Ensino? Pergunta que eu ajudo-te a entender.

  8. manutor,

    quer dizer que só se pode falar dos assuntos do ensino sendo professor?

    A escola e a educação são pelouro dos professores? Julgava que era de toda a sociedade.

    Eu trabalho com modelos de avaliação, por necessidade profissional – há muitos anos – e afirmo que o papelito que foi apresentado pelos sindicatos depois de muitos pedidos de alternativas por parte do Ministério da Educação, é uma vergonha e, esse sim, uma fraude.

  9. Muito bem, Edie. A Educação é assunto nacional, a Escola não é dos professores. Mas eles, porque o sistema sempre o permitiu, consideram-se donos das escolas.

  10. Edie, uma semana de 35 horas de trabalho seria perfeitamente suportável se não fosse de 35 horas só no papel. Torna-se insuportável, sim, quando na realidade vai para as 50, 60 ou 70 horas semanais, a maior parte delas desperdiçadas com trabalho improdutivo – ou seja, trabalho que não contribui em nada para que qualquer aluno aprenda o que quer que seja.

    O problema não está só na avaliação dos professores, está no fetiche da avaliação que infecta todas as esferas da economia de hoje, tanto no sector público, como no privado. Se a avaliação tivesse por fim seleccionar os melhores, obedeceria a modelos SIMPLES, cujos custos não excedessem os benefícios.

    Mas o trabalho por objectivos e a avaliação burocrática não se destinam a seleccionar os melhores. Destinam-se a contornar as leis e os contratos de modo a que as pessoas sejam obrigadas a trabalhar de graça e a prescindir de ter vida própria.

    Eu não devia ter que estar a explicar isto a pessoas que se dizem socialistas, mas infelizmente é este o estado a que chegámos.

  11. Val, num certo sentido a escola É MESMO dos professores. Deles e dos alunos. Onde houver um professor e um aluno, nem que seja debaixo de uma árvore, há uma escola; se um dos dois elementos faltar, não há. Todos os outros elementos são acessórios e dispensáveis.

    De quem a escola não é, certamente, é do lóbi dos editores de manuais, do das ESE’s privadas, nem dos milhares de tecnoburocratas que parasitam o Ministério da Educação – ou seja, das corporações para quem o Ministério trabalha ao mesmo tempo que invoca, mentirosamente, o interesse geral.

  12. E que pessoas são essas que se dizem socialistas, José?

    Entretanto, o que dizes confirma o teu postulado: a política está na mão dos maus. Com esse maniqueísmo, mais vale ir para a rua montar a barricada.

  13. A política não estás nas mãos dos maus, mas o poder político está nas mãos de gente que serve interesses particulares e se está nas tintas para o bem comum.

    O caso da avaliação dos professores é um bom exemplo disto: ao governo, tanto faz que cheguem ao topo da carreira os melhores professores como os piores – desde que sejam POUCOS. O dinheiro dos contribuintes não pode servir para pagar um sistema de ensino que realmente ensine: faz falta para subsidiar a banca.

  14. José Luiz Sarmento,

    Tenho vários amigos professores e já falámos sobre isso: nenhum deles faz 40, 50 e muito menos 70 horas semanais.

    A que chama trabalho improdutivo?
    Qual a sua alternativa à meritocracia?

    Na empresa onde trabalho actualmente, as pessoas pontuam a avaliação como um dos melhores suportes para a sua aprendizagem e evolução e participação nos objectivos mais gerais. É um modelo muito semelhante (nos seus fundamentos) ao proposto pelo governo, salvaguardando as adaptações do domínio. Levou mais de três anos a a convencer as pessoas. A resistência era mais que muita. Agora refilam quando há algum atraso na marcação das avaliações e apresentam ideias no sentido de melhorar o processo.

    É assim, ou deveria ser, no mundo real. A escola tem estado enfiada numa redoma…

  15. Pois, é que a tua visão impede qualquer forma de acordo, pois não consideras que a outra parte esteja de boa-fé. Assim, não pode haver diálogo, só luta.

    Quanto à delirante ideia da escola ser dos professores, como se não existissem famílias e Estado, essa é a raiz de muita disfunção docente.

  16. Até pode estar em sintonia com as posições do Partido Socialista, sejam elas quais forem, só que eu não sou socialista – nem sequer votei PS. Era só para esclarecer, mas não tens que pedir desculpa, ora essa.

  17. «E que pessoas são essas que se dizem socialistas, José?» Ora até que enfim que os Pinto de Sousistas se assumem! Não é que fosse preciso, mas há sempre idiotas úteis que acreditam nas conversas da treta do sr. «inginheiro» e seus propagandistas. O equívoco do Sarmento foi pensar que estava a falar com um desses idiotas úteis, quando está a falar, sim, com um assessor útil. Um assessor que reproduz os chavões vazios de conteúdo e de fundamento do «inginheiro» como são o caso de «modernidade», «reformismo», «sociedade progressista», «corporações», «esquerda moderna» e que apenas pretendem esconder o ataque que os tecnocratas e neoliberais disfarçados de socialistas ou social-democratas estão a fazer às conquistas sociais, estas sim, modernas; às leis laborais, promovendo o retorno às regras económicas e sociais dos princípios do século XX; e aos ideais de sempre da esquerda. A «esquerda moderna» é antes pós-moderna: é a «esquerda» que relativizou certos conceitos, que inventou uma novilíngua capaz de aldrabrar e manipular a consciência dos idiotas úteis. E depois ainda têm a lata de falar em farsas! Farsa e embuste é o que estes vendedores-da-banha-da-cobra andam a vender.

  18. Val, não considero que estejas de má-fé: se considerasse, nem sequer me dava ao trabalho de comentar no teu blogue. Considero que funcionas um bocado por clubismo, mas deste vício nenhum de nós está livre.

    Quanto à escola ser dos professores e dos alunos, repara que eu escrevi que o era num certo sentido. E até explicitei qual era esse sentido: o de que os professores e os alunos são os únicos elementos constitutivos essenciais das escolas.

    As famílias e o Estado podem ser partes interessadas, e até legitimamente interessadas, mas não são partes constitutivas da escola. Neste sentido, são entidades acessórias.

  19. Certo, José. E teres aparecido por aqui deu azo a esta conversa que muito me interessa, pelo que estás a enriquecer o debate. Quanto ao clubismo, talvez, mas terias de explicitar a coisa. Por exemplo, nesta temática do ensino, as minhas ideias foram geradas no terreno. Eu conheci as escolas por dentro, tanto com Cavaco como com Guterres. Daí, não precisar do actual PS para ter ideias a respeito, mas também daí a minha admiração pela tentativa de reformar a carreira dos professores.

    Não, a escola não é essa ilha de professores e alunos. Nunca o foi e nunca o será. E bem pelo contrário: os professores sempre se queixaram das famílias, por estas não educarem os seus filhos, e do Estado, por este não dar mais aos professores. Foi só quando lhes interessou que os professores se lembraram de que não precisam das opiniões das famílias e do Estado.

  20. Edie, chamo trabalho improdutivo, no caso dos professores, ao trabalho que não contribui para que os alunos aprendam.

    Se os seus amigos professores não trabalham 50 ou 70 horas semanais, então:

    1. Não têm CEF’s.
    2. Não têm turmas dos Cursos Profissionais.
    3. Não dão testes, ou dão só um por período, ou só os dão de cruzinhas.
    4. Não estão a avaliar nem a ser avaliados.
    5. Dão sempre nota positiva a todos os alunos.

    Ou então são professores do ensino superior, ou do 1º ciclo do básico.

  21. Os professores têm razão
    Concordo consigo Val, o PC para qualquer manifestação convida reformados e desempregados para ir a Lisboa assistir às várias manifestações ali realizados. Fui convidado mas como não alinho neste tipo de coisas e não aceitei mas colegas meus foram a várias. Além do transporte ser gratuito (autocarros alugados para o efeito) ainda recebiam quinze euros para almoçar. Era-lhes distribuída uma bandeira e eram controlados para não se desenfiarem se assim não fosse julgo que muitos iam visitar o estádio da Luz. Como já disse aqui no Aspirina B se estivesse no lugar de José Sócrates, a ministra da Educação era Maria Lurdes Rodrigues, mas tive hoje uma alegria com o discurso do 1º. Ministro, ao dizer que o modelo de avaliação não é para mexer. Tenho dois netos no ensino básico da escola pública e sei a diferença entre eles e os seus pais quando estes a frequentavam e a diferença é abismal. Antes só tinham aula no período da manhã ou da tarde, hoje têm nos dois períodos, quando um professor faltasse não havia aulas pelo motivo de não haver professor de substituição, agora não acontece. Tem ginástica, aula de música e actividades tanto de canto como de teatro, se isto não é melhorias em relação aos meus filhos, então o que é. Já para não falar do meu tempo. Os professores o que querem é ter menos horas de trabalho para terem tempo de dar explicações em sua casa e uma parte não quer ser avaliada porque sabem que não tem qualidades para tal. Em todas as raças, há classes e categorias, porque motivo não haver nesta. Ganha a maioria dos portugueses, pais, alunos, escolas e uma maioria dos professores, perdem os que não têm qualidades.

  22. Val, a escola não é uma ilha porque não está isolada. Como escrevi acima, há outras partes, além dos professores e dos alunos, legitimamente interessadas nela. Mas é constituída por professores e alunos, e por mais ninguém. Tudo o resto – famílias, empresas, estruturas administrativas, tutela política, programas e currículos, e até o próprio edifício, são apêndices mais ou menos indispensáveis, mas acessórios.

    Ficarás talvez escandalizado ao ler que as famílias são apêndices das escolas, mas sossega: isto é assim apenas no que diz respeito ao ensino. No que diz respeito à educação, as escolas é que são apêndices das famílias.

  23. José Luiz Sarmento, acertou na “mouche” ao diferenciar o ensino da educação Por exemplo, eu fui professor do ensino secundário, já há uns 20 anos e, mesmo nessa altura sem toda a burocracia da avaliação actual, só lá aguentei 5 anos, porque felizmente tinhas outras opções. De facto, mesmo nessa época, eu não era só professor, era também e talvez mais, educador e disciplinador e, mais importante, interlocutor entre alunos e pais. Portanto, ser professor de crianças com a idade própria do secundário é uma profissão muito específica e não se pode vir para aqui comparar como se fosse trabalho numa empresa ou noutros níveis de ensino. Não vale a pena estar aqui a divagar mais num espaço que, além do mais, submete os assuntos à política pura e simples!

  24. Manuel Pacheco, o caso que vou contar não só é real, como se está a tornar regra geral nas escolas.

    O professor A (chamemos-lhe Abílio) é professor de Português. Quando era aluno, fez o 12º ano com média de 11. Depois matriculou-se numa Escola Superior de Educação privada de onde saiu com média de 17. Escreve com erros, nunca leu um livro de ponta a ponta, não é capaz de articular dois pensamentos seguidos. Os alunos zombam dele e não lhe têm respeito.

    Mas o Abílio sabe muito bem fazer uma apresentação em Powerpoint. Sabe organizar um portefólio e tem paciência para isso. Entrega todas as planificações que lhe pedem, escritas num eduquês capaz de fazer suspirar de prazer uma Ana Benavente – afinal, o eduquês foi tudo o que aprendeu na ESE, e se mesmo assim não for capaz de as elaborar, pode sempre copiá-las. Ele sabe, e os avaliadores sabem, que essas planificações não são para pôr em prática; mas o que interessa é que elas existam. O Abílio “dinamiza” a escola: organiza muitas actividades, com muitos cartazes coloridos, de preferência envolvendo muitos notáveis locais, com quem vai construindo a sua rede de influências. Tem o cuidado de envolver nestas actividades todos os possíveis intervenientes na sua avaliação.

    O professor B (chamemos-lhe Belmiro) também é professor de Português. Formou-se numa universidade idónea com uma boa nota, mas inferior à do Abílio. Exprime-se bem, é uma pessoa culta, escreve com elegância. É um leitor apaixonado, e por vezes contagia com esta paixão algum aluno. Sabe sempre tirar uma dúvida, mesmo que esta incida sobre matéria exterior ao programa. Os alunos, de um modo geral, respeitam-no.

    Mas é um bocado tecnófobo, não tem paciência para burocracias e abomina o eduquês. É honesto: nunca seria capaz de entregar uma planificação que não tivesse sido elaborada por ele próprio ou que não fosse para cumprir. Não se sente obrigado a documentar nem a justificar nos mínimos pormenores a sua actividade, e muitas vezes não o faz. Se organiza alguma actividade extra-curricular, é porque vê nela utilidade; e aplica o mesmo critério à utilização das novas tecnologias.

    É claro que o Abílio quer ser avaliado pelo modelo de Maria de Lurdes Rodrigues. É um mau professor e sabe que o é, mas também sabe que tem boas hipóteses de conseguir uma menção de “muito bom” ou mesmo de “excelente”.

    O Belmiro, esse, é pelos cabelos que se sujeita à avaliação. Sabe que é bom professor, mas não conta com que isto se reflicta na sua classificação. E é melhor assim: uma menção de “excelente” só o envergonharia.

  25. José,

    Pensava que a função da escola há muito tinha deixado de ser simplesmente ensinar a matéria aos alunos e muitas das “tarefas” que enunciaste como trabalho inútl que provoca excesso de horas de trabalho são indispensáveis numa escola que não se limite a dar aulas.

    O modelo de avaliação valoriza muito mais do que isso e talvez seja essa uma das razões da aversão que provoca em muitos professores.

    Mas não obtive resposta à segunda pergunta: qual a alternativa à meritocracia que mencionas como mal geral da sociedade? Porque referes toda a avaliação como um fetiche maligno que afecta a sociedade em geral. A ideia é interessante e merecia desenvolvimento.

  26. Ah, esqueci-me de acrescentar: as pessoas que referi preenchem todos os tópicos enunciados, excepto as turmas de cursos profissionais.

  27. Edie, pensavas que a função da escola há muito tinha deixado de ser ensinar os alunos. Pois deixou, e aí é que está o mal. Exige-se à escola que responda sozinha pela sociedade, e agora exige-se aos professores que respondam sozinhos pela escola. Nem uma coisa nem outra é exequível. Sacrificámos 30 anos a uma utopia sem pés nem cabeça, e o resultado é o que se está a ver.

    O meu problema com a meritocracia é que aguém tem que definir o que é meritório e o que não é – e geralmente esse alguém decide em função de interesses particulares. O capitalismo pós-moderno considera meritório que as pessoas sacrifiquem a vida ao trabalho (como diz a velha piada, na Microsoft o trabalho é flexível: cada um escolhe o turno de dezoito horas que muito bem entende). Isto não foi sempre assim e não será sempre assim.

    No caso do ensino, e para me referir a um comentário meu anterior, considero mais meritório o Belmiro do que o Abílio, e imagino que o mesmo consideraria a maioria dos professores, dos pais e dos alunos. O modelo de avaliação de Maria de Lurdes Rodrigues considera mais meritório o Abílio. Por isso, quando falas de meritocracia, tenho que te perguntar que mérito tens em mente.

  28. José Luís Sarmento
    O que vou contar também é um caso, de muitos casos, que conheci e que sempre fui contra. Fiz parte da direcção do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional, quando foi criada uma categoria na carreira de guarda prisional. Foi criado um tipo de classificação e eram promovidos os melhores classificados. Findo o concurso e se houvesse algum guarda que não concordasse com a sua classificação, podia recorrer para a comissão paritária que existia em cada Estabelecimento Prisional. Acontece que havia mais guardas do que vagas para esse posto, há medida que eram aposentados era promovido o que estava a seguir na lista de classificação a nível nacional.
    Também concorri, recebi uma classificação de muito bom e passado pouco tempo fui promovido, sendo eu e outro guarda do meu curso, a prestar serviço noutro Estabelecimento Prisional, a ser os mais novos a nível nacional em tempo de serviço. É evidente que houve várias contestações, nada é perfeito e por força disso o Sindicato tudo fez para as promoções serem pela antiguidade no serviço. Fui contra esta situação, fui vencido e assim passou a ser.
    Acontece que entre esses mais antigos, havia muitos com várias dificuldades quer escritas, em personalidade, chegando muitas vezes a ter-se que delegar num guarda com posto mais baixo para chefiar essa diligência. Acontece que os guardas mais novos quando os responsabilizávamos nos diziam que eram os mais velhos que tinham posto superior, que ganhavam mais, que eram eles que deviam ser os responsáveis. Entre uma coisa e outra se esse serviço desse para o mal era a chefia que era chamada à responsabilidade e era uma vergonha para o Estabelecimento Prisional. Os guardas mais novos diziam que não valia a pena mostrar interesse se sabiam que passados uns catorze anos é que eram promovidos.
    Fez no seu comentário comparações, mas esqueceu-se de dizer que actualmente a classificação é a mesma e que ambos ganham o mesmo. Será que assim é justo? Entendo que não. O que mostra melhor serviço deve ser compensado e essa compensação é a promoção
    Não sei se concorda que deve de haver uma classificação, até para haver alguém a quem se peça responsabilidades, não é andar tudo ao monte e fé em Deus. É natural que no princípio surjam imperfeições, nada é perfeito, mas com o tempo a maioria vai ver que valeu a pena, e quem ganha é a nossa juventude e o País.

  29. Caro José Luiz Sarmento, vou tentar dizer-lhe que a escola não é prioritariamente o professor e o aluno eu como pai responsavel identificaria de imediato o professor A e o professor B, aliás coisa que o fiz muitas vezes, e encontrei alguns A que considero serem e terem sido criminosos públicos, pela maneira como deseducam e deseducaram e tenho a certeza que o J L Sarmentot também conhece alguns.
    O papel do pai seria obviamente defender os B e daí o seu papel ser fundamental neste processo.
    Queria tambem lembrar-lhe que nenhuma reforma foi levada a cabo no ensino até hoje, porque desde sempre e não só de agora os sindicatos se opuseram com o beneplácito das oposições e o aplauso dos professores que estão financeiramente entre os mais bem pagos da Europa.
    Claro que o actual processo está aberto a contribuições para uma melhoria do mesmo, estas deveriam corrigir o que poderia levar a que se cometessem injustiças como aquelas que mencionou, só que o sindicato não aceita isto sequer, pondo no mesmo saco os A e os B.
    Eu tenho na família um familiar directo que ocupou um cargo bastante significativo a nível nacional durante muitos anos e sei muito bem do que estou a falar.
    Em relação aos horários eu tenho três irmãs professoras e sei muito bem ao fim de alguns anos o tempo que elas usam para prepararem as suas aulas.
    No meu caso pessoal o que eu pretenderia seria sempre valorizar os normais , os bons e muito bons e não permitir sequer que os que não tivessem condições mínimas pudessem sequer «des»ensinar e ainda terem a possibilidade de ultrapassar os mais sérios e habilitados nas suas carreiras.

  30. Caro jv, acredito, como você, que os pais escolheriam o professor B. Por isso é que proponho aqui que os pais, e os próprios alunos, tenham um papel a desempenhar na avaliação dos professores.

    O problema é que o modelo de avaliação de que estamos a falar privilegia claramente o professor A.

    Também partilho da sua opinião que os sindicatos têm culpas (uns mais do que outros) no estado actual das coisas. Por isso fiquei contente com a entrada em cena de vários movimentos de professores que estão a exercer pressão não só sobre o governo, como sobre os sindicatos.

    Não é verdade que os professores portugueses estejam entre os mais bem pagos da Europa. Para propalar esta mentira, o governo manipulou os números da seguinte maneira: comparou o vencimento do escalão mais alto dos professores do 1º ciclo do ensino básico com o dos seus colegas no resto da Europa. Ora, como Portugal é o único país da Europa em que os professores do primeiro ciclo do básico ganham o mesmo que os do ensino secundário, voilà: eis a mentira fortemente enraizada na opinião pública. Eu sou professor do secundário, estou no escalão mais alto, e posso garantir-lhe que não ganho nada que se pareça com o que ganha um meu colega suíço, austríaco ou alemão. Também nesta história da carreira única os sindicatos têm responsabilidades, e pode ter a certeza que cada vez mais os professores lhes estão a pedir contas.

    Quanto ao afastamento dos verdadeiramente maus, o link que lhe indiquei acima levá-lo-á a um texto do meu blogue em que faço precisamente esta proposta. Mas não será com o modelo de avaliação que o governo quer impor que conseguiremos isto.

  31. PS: A minha proposta de avaliação suscitou um vivo debate não só no meu blogue, mas noutros blogues de professores, nomeadamente no ProfAvaliação de Ramiro Marques. A ideia de que os alunos pudessem intervir na avaliação dos professores não caiu bem em muitos dos meus colegas, assim como não caiu bem a ideia de sujeitar os professores aos mesmos exames que os alunos do 12º ano; mas como estas propostas tinham o seu quê de provocatório e se destinavam mais a suscitar o debate do que a ser aplicadas, tudo bem.

    Curiosamente, não houve ninguém entre os meus colegas que contestasse a necessidade de afastar os maus professores. O que não temos, é a mesma noção de “mau professor” que tem a tecnoburocracia “eduquesa” que manda (mais que qualquer ministro) no Ministério da Educação.

  32. O Valupi é um brincalhão que brinca com coisas sérias. Que se saiba, o melhor organizador de camionetas e serviços correlativos para manifestações, comícios e actividades semelhantes é o PS, de tal modo que os viajantes até informavam que nem saber ao que vinham.

  33. só para dar um abraço a Edie e Val…

    viva todos professores que trabalham,

    vivem o sacrificio do ensino com estoicismo
    sem se deixarem intoxicar por estes profissionais da intriga
    conspiração,
    vulgo “sindicatos”…

    lembro sp com saudade
    sindicatos e professores
    q tinham do pais e da democracia
    conceitos praticos reais

    onde alunos liberdades ensino economia cultura produtividade
    bem estar relativamente “colectivo”
    eram realidades comportamentais quotidianos

    estes sindicatos politicos
    e esta instrumentalização dos “teachers”

    faz-me mui angustia…

    abraço

  34. José,

    Antes de mais considero que alterar a frase do interlocutor para servir os argumentos próprios não é argumento, é desonestidade. Quando eu digo que a função da escola “não é SIMPLESMENTE” passar matéria, não me parece bem que depois transcrevas como “pensavas que a função da escola tihna deixado de ser ensinar os alunos”.

    Espero que não andes a passar este tipo de postura aos alunos :)

    Quanto à meritocracia, parece-te mal que equem empreaga avalie, é isso?
    Os interesses particulares dos avaliados também são tidos em conta na avaliação, ao contrário do retrato diabólico e deturpado (mais uma vez) que pintas da realidade.
    E que interesses públicos serve um sistema não meritocrático?

    Trabalho com avaliação de desempenho há muito tempo, quer como avaliada, quer como avaliadora, quer como autora e gestora de modelos de avaliação e chego sempre à mesma conclusão: as pessoas preferem regras de avaliação claras à pura arbitrariedade. As que não preferem é porque não se sentem seguras da sua capacidade ou preferem um sistema de favoritismos e privilégios puco claros.

    Porque a questão é esta, José. não há que ter ilusões, seja o sistema malvado e capitalista ou angélico e comunista, as pessoas são sempre avaliadas. A questão é saber se o sistema pelo qual o são, é mais ou menos sujeito a subjectividades e discricionaridades.

  35. exactamente Edie: as pessoas preferem regras de avaliação claras à pura arbitrariedade,

    claras, incisivas e simples, para evitar ambiguação.

  36. mas o que diz o José Luiz Sarmento também é relevante, o ‘sistema’ pela sua economia de meios intrínseca tende a promover mais os burocratas do que os professores, tende a promover mais os que frequentam acções de formação e vão para os orgãos de gestão do que os que dão aulas com empenho, é o que me dá idéia.

  37. z,

    dá-me a impressão que a qualidade das aulas e os resultados dos alunos também são observados,mas se existem os tais enviezamentos de critério, que tal propôr que estes sejam revistos, em vez de meramente exigir a suspensão da avaliação?

    Com base no tudo ou nada é que não …

  38. Edie, acusas-me de desonestidade intelectual por ter ignorado o teu “simplesmente”, mas mesmo com o “simplesmente” o meu argumento permanece válido: a raiz do que está mal na escola é ter deixado de dar uma clara prioridade ao ensino. Uma das razões por que os professores lutam contra o Estatuto da Carreira Docente é precisamente esta: entre as 29 funções que se atribuem ao professor nem sequer se conta a de ensinar – muito menos se lhe dá prioridade. Se não acreditas, vai lá ver.

    Também eu te poderia acusar de desonestidade intelectual por teres usado a expressão “passar matéria” (cheia de conotações ideológicas e emocionais) em vez da expressão “ensinar” (que, não sendo ideologicamente neutra, está muito mais perto de o ser do que a que usaste).

    Já que falaste em deturpações, o que dizes dessa história de me parecer mal que quem emprega avalie? Não só não me parece mal, como nem sequer me parece mal que avalie em função do seu interesse. O problema só surge quando o empregador é o Estado, que tem que avaliar em função do interesse público. No caso específico desta avaliação dos professores, o Estado mente quando diz que está a avaliar em função do interesse público. Está, sim, a avaliar em função de interesses particulares inconfessados, sendo o principal, de entre estes, os da nomenklatura tecno-burocrática que domina o Ministério da Educação.

    Escreves ainda que “as pessoas preferem regras de avaliação claras à pura arbitrariedade, e que as que não preferem é porque não se sentem seguras da sua capacidade ou preferem um sistema de favoritismos e privilégios pouco claros.” Se soubesses como estás a dar razão, com isto, aos professores!

  39. José,

    “O problema não está só na avaliação dos professores, está no fetiche da avaliação que infecta todas as esferas da economia de hoje, tanto no sector público, como no privado. Se a avaliação tivesse por fim seleccionar os melhores, obedeceria a modelos SIMPLES, cujos custos não excedessem os benefícios.

    Mas o trabalho por objectivos e a avaliação burocrática não se destinam a seleccionar os melhores. Destinam-se a contornar as leis e os contratos de modo a que as pessoas sejam obrigadas a trabalhar de graça e a prescindir de ter vida própria.

    Adivinha quem escreveu isto…

  40. Quero dar os meus parabéns ao Luiz Sarmento pela forma como desmontou toda a propaganda e manipulação com que o Pinto de Sousa intoxica as cabeças dos idiotas úteis… Aliás, a comprovação disso é são as respostas do assessor do Pinto de Sousa, que primeiro respondia-lhe com um «sim e não» ou com um «tens razão, mas não tens» e que depois, como se vê, já nem se atreve mais a responder-lhe.

  41. Edie, escrevi isso e mantenho. É para desenvolver essa ideia que estou a escrever um texto para publicar no meu blogue. Mas o tema é complexo e tem muito que se lhe diga, por isso não será para já.

  42. Caro José L.S. julgo que há maneiras de os verdadeiros interessados, da sua classe em que se faça justiça neste conturbado processo que é a avaliação dos professores, poderem contribuir de maneira positiva para a contribuição dum melhor ensino, com a dignificação da classe.
    Penso que a altura é a ideal,é alargar e aperfeiçoar no possível estas ideias, a um grupo significativo de colegas e fazê-las chegar à Assembleia, e que se realmente forem pertinentes e consistentes, poderiam contribuir para uma situação de algum consenso, que pela minha parte sinto que a nova ministra está empenhada em a obter.
    Claro que não prevejo ser um processo simples, porque os poderes corporativos instituídos,os que pretendem protagonismo, dividendos políticos, os medíocres e todos aqueles a quem isto não interessar verdadeiramente irão tentar obstruir por todos os meios, a que tudo continue na mesma, desde que não o chateiam e que a situação actual se mantenha sem grandes ondas.
    O se tentar abordar tudo isto de uma maneira séria e contribuir para se ser parte da solução já é de si muito dignificante. Se não o conseguiram, restará ao menos a sensação de se ter tentado fazer alguma coisa.

  43. Há trinta anos que se anda a falar em avaliação e agora que alguém a quer fazer e a que já corresponderam milhares de professores, tudo tem defeitos mesmo que os interesses mesquinhos de uns tantos tenham de prevalecer para gáudio de um certo lóbi (particularmente os Sindicatos) e os que se “atrelaram” para que a Avaliação não fosse para a frente, como vinha acontecendo em Governos anteriores, porque a “arte” de protelar, ganhava em toda a linha. Escamotear isto, é não estar com os pés assentes na terra, por muito que se escreva (bem, no caso de José Luiz Sarmento…)sobre “altas teorias” de como dar aulas.
    Todos nós, mais ou menos, temos familiares e amigos que são ou foram professores e sabemos o seu historial. Na minha profissão, por força de inscrição obrigatória, tenho, em conjunto com os demais, de ser avaliado constantemente e por muito que nos queixemos, temos que o fazer, não sem que, também, se apontem críticas.Mas uma coisa são críticas construtivas e avançar com soluções, outra é querer “rasgar”, “suspender”, etc, como é o caso vertente.

  44. Teria sido interessante ver tanto empenho e militância em favor de uma avaliação a sério nos tempos anteriores à reforma de Maria de Lurdes.

    Mas não, quem olhe para trás não se lembra de ver uma pequena sugestão de movimento sindical ou outro na direcção de reformar fosse o que fosse no sistema de avaliação, que pelos vistos servia…

  45. José, a distinção entre “educação” e “ensino” é relativa a contextos, podendo aparecer como termos sinónimos. Fui eu que a realcei para ilustrar a dimensão política do acto escolar. Quando os professores se queixam das famílias por estas mandarem os seus filhos para a escola sem as competências cognitivas e comportamentais consideradas suficientes, os professores estão a assumir que a escola é algo a jusante de um processo complexo que não termina em casa nem se inicia fora dela – a educação.

    A tua opção foi a de realçar a semântica de ensino enquanto acto de transmissão de informação e formação de competências em ambiente escolar. Ou seja, refugiaste-te dentro da sala de aula e barricaste a porta. Essa é uma reacção típica do professorado, a qual explica tanto histerismo com a avaliação. Especialmente com a avaliação presencial, isso de ter “estranhos” a olhar despudorados para a “intimidade” da relação do professor com os seus queridos alunos… Ora, estás a falar com um colega, mesmo que neste momento não exerça essa tão bela, e tão digna, profissão. E, assim, tens de ser mais rigoroso. Acima de tudo, tens de reconhecer que nada do que se passa numa sala de aula é privado, antes tudo é público, tudo é comunitário. Isso implica a responsabilização, a vários níveis, do professor – o qual está obrigado a prestar contas à direcção da escola, ao Ministério da Educação, aos encarregados de educação e aos alunos, tanto individualmente como na figura da turma. Se há evidência a que não se pode fugir é a de que o Ensino público, o qual absorve uma larga fatia do Orçamento Geral do Estado, é uma dimensão central da nossa vida política, sociológica, económica e cultural.

    Quanto ao mais que tens escrito, está a ser uma excelente discussão – e parabéns para todos os que partilharam as suas experiências e pensamentos. Não duvido do teu interesse, disponibilidade e generosidade na procura de uma solução, que fique claro. Só repito uma crítica inicial, a qual é relativa ao ponto ético-cognitivo donde partes: a anulação da legitimidade do outro. Para ti, o Estado e os responsáveis governativos são teus inimigos. Tu consideras qualquer acto de gestão ministerial como uma forma de logro ao serviço de interesses sórdidos. Essa postura, numa questão tão desvairadamente complexa e pervertida como esta, só atrasa o acordo possível.

  46. Valupi, colega do Luiz Sarmento?! Tens a certeza do que estás a dizer? Não me parece… Segundo a excelente «reforma» educativa do Pinto de Sousa (e tendo em conta o pouco tempo que o Valupi deu aulas, como fica claro na sua confissão), Luiz Sarmento é (para usar as comparações ridículas dos Pinto de Sousistas) um general com várias estrelas (é provavelmente um professor titular, e que o é, provavelmente, contra a sua vontade), enquanto o Valupi mais não seria do que um soldado, um cabo, pois nem pertenceria aos quadros do ME (seria um contratado a prazo). Ou seja, não seria oficial do exército, nem sequer sargento, mas um reles «diplomado», para usar a terminologia utilizada pela Secretária de Estado das Finanças, Lurdes Rodrigues.
    Quanto ao resto do seu comentário é um nada que se desvia das críticas acertadas do Luiz Sarmento, e que acusa este de ver um inimigo no Estado, quando a sua atitude é precisamente a mesma, mas ao contrário: a de fazer dos profs uns baldas, privilegiados e preguiçosos que não querem trabalhar. È a atitude que reproduz o discurso manipulatório do Pinto de Sousa, e que, como eu já disse, o Sarmento desmontou de forma excelente.

  47. Ola,

    Não tive paciência para ler tudo. Gostei da metafora do Sarmento dizendo que desde que haja professor e aluno, mesmo debaixo de uma arvore, existe escola e que tudo o resto é lateral.

    Espero que alguém lhe tenha explicado que ele tem toda a razão e que é mesmo urgente voltarmos às bases nessa matéria, ou seja a uma concepção inteiramente liberal do magistério.

    Poupava-se o (muito) dinheiro previsto no orçamento do Estado para estas questões laterais, senão triviais, e ficava mais facil respeitar a plena liberdade do professor de se reger como lhe da na real gana. Eu até tenho algumas ideias acerca do que se poderia fazer com as economias alcançadas dessa forma.

    O que nunca deixara de me surpreender é a forma desinibida com que alguns professores confessam não fazerem a mais pequena ideia do que andam ca a fazer.

    Porra…

  48. Os professores têm uma lógica muito engraçada. Andaram anos a queixarem-se da falta de condições das escolas. Como o Governo investiu na sua modernização, quer ao nível dos edifícios quer ao nível dos equipamentos, estas questões passaram a ser laterais.
    Seja como for, ainda bem que o problema da avaliação está pendente. Durante os dois dias de debate no Parlamento verificámos ser esta a maior preocupação de todos os partidos da oposição. Se não fosse isto, tinham dedicado todo o tempo do debate unicamente a lembrar o Governo que perdeu a maioria absoluta. Há males que vêm por bem…

  49. Edie, quem olha para trás não se lembra… Pois não. Como disse alguém, o que não passa na televisão não existe.

    Vou-te dar conta duma coisa que não viste na televisão nem nos jornais, mas que aconteceu. Sei que aconteceu porque participei nela, empenhadamente e ao longo de cinco anos, nos anos oitenta do século passado.

    Tratou-se da tentativa de criar uma Ordem dos Professores, que não se concretizou porque o governo e os sindicatos se aliaram para a torpedear. Ainda agora este projecto está a ser prosseguido, mas eu já não estou nele. Um dos meus objectivos, ao participar nessa tentativa, era contribuir para criar um modelo de avaliação de professores. Já então tinha a percepção nítida que, se não fôssemos nós a criar um modelo de avaliação assente em critérios deontológicos e profissionais, seria um qualquer governo a fazê-lo, mais tarde, com base em critérios populistas e burocráticos.

    O que eu temia há cerca de vinte anos esteve quase, agora, a tornar-se realidade; e ainda não estamos livres de que venha a acontecer. Mas que ninguém me acuse de só agora ter acordado para a avaliação dos professores.

  50. Meu caro José Luiz Sarmento,

    Afinal, sempre esta ao corrente da existência de um “ideal da Escola Repulicana” ?

    Então deve saber que a escola Republicana é um serviço publico administrativo e que isto implica, não so que o Estado (todos nos) faculte condições materiais e humanas que não se limitam propriamente a colocar arvores à disposição de mestres e alunos, mas que os professores encarregues desse serviço publico são servidores do Estado, e de todos nos, que têm como tal a obrigação de responder da maneira como utilizam os créditos publicos.

    Ou esta parte da declaração dos direitos do homem e do cidadão escapou-lhe ?

  51. José,

    Não ponho em causa que se tenha empenhado em promover a criação de um modelo de avaliação. Mas este debate não é sobre as suas boas intenções, que acredito que tem, mas sobre o comportamento colectivo de um dos lados desta complexa equação…

    E se há coisa que tem inundado a comunicação social é esta polémica e não me parece que o ponto de vista dos professores tenha sido abafado, durante muito tempo era mesmo o único que nos era gritado aos ouvidos.

    Se nos anos 80, esta visibilidade nos media não foi atingida, terá sido porque a movimentação da classe de facto não aconteceu ou porque houve abafamento?
    Se o José me diz que a movimentação aconteceu, eu acredito…

  52. Val, eu não considero qualquer acto de gestão ministerial como uma forma de logro ao serviço de interesses sórdidos. Considero isso, sim, em relação ao acto específico que estamos a discutir. E mesmo assim, só parcialmente, uma vez que há outros factores que também o determinam: um fascínio com as medições e com os números que levam quem sofre dele a supor que o que não é mensurável não existe; um fascínio com os meios em detrimento dos fins que leva a critérios de avaliação absurdos como ir ver se o professor usa ou não as tecnologias da informação (o que devia interessar é se o aluno aprendeu ou não o Teorema de Pitágoras, independentemente de o professor ter usado, para lho ensinar, uma apresentação em powerpoint ou um pau a riscar o chão); a completa ausência duma noção do que é ser bom ou mau professor, e uma completa indiferença à opinião que os professores, os alunos e os pais possam ter em relação a este ponto; uma relativa indiferença a que sejam os melhores professores ou os piores a chegar ao topo da carreira, desde que sejam POUCOS. José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues não são facínoras, são apenas gente que nunca reflectiu sobre algumas questões fundamentais de ética política.

    João Viegas, a condição do professor é dupla: por um lado é, com efeito, um “servidor do Estado”; por outro lado é um profissional comprometido com uma deontologia, ainda que apenas implícita, que precede historicamente o Estado Moderno.

    Estas duas condições são geralmente conciliáveis entre si (se o não fossem, a Escola Pública não seria possível); mas nos casos em que não são conciliáveis, a condição profissional do professor deve prevalecer, tanto para efeitos disciplinares como para efeitos de avaliação, sobre a sua condição de funcionário.

    A escola não é dos professores (a não ser num sentido muito restrito, como já escrevi acima); mas também não é do governo, e muito menos do seu aparelho burocrático. É da República, que tem lugar no seu seio não só para as suas próprias leis, mas também para as diversas deontologias em vigor numa Sociedade Civil que se quer vigorosa.

  53. Adenda: a Escola Republicana não é apenas um serviço público administrativo. É além disso, e mais que isso, uma instituição da Sociedade Civil. Uma escola que fosse uma mera repartição seria um pesadelo de ineficiência e desumanidade.

  54. Bom, fico mais descansado ao ver que você admite que a escola não é dos professores. Quanto a não ser do governo mas da Republica, vamos por partes. Que eu saiba, até agora, cabe ao governo nomeado de acordo com a representação dos partidos na assembleia dirigir a administração, no respeito das leis.

    Ninguém contesta que o governo deve avaliar procurando sempre respeitar as liberdades, e nomeadamente a liberdade de ensino (não é isso mesmo que o sistema actual procura fazer ?).

    Mas convém não esquecer que isso não dispensa a avaliação e que esta não é so uma questão de bom senso (inclusivamente do ponto de vista deontologico, ja que não conheço nenhuma profissão que não se submeta a avaliação, acho que até os feiticeiros o fazem). Neste caso, tratando-se do primeiro posto de despesas do Estado, trata-se também de uma elementar questão de justiça social e de respeito do principio de iguladade. Lembro que este principio começou por ter duas vertentes : igualdade perante a lei, igualdade perante o imposto e os engargos publicos.

    Como disse, não li no detalhe os seus comentarios, e posso admitir em hipotese que você tenha descoberto a polvora e descrito um método de avaliação tão evidentemente superior que todos vão render-se à evidência, todos tirando talvez alguns burocratas empedernidos.

    Mas gostava de lhe lembrar que o que é de esquerda, mesmo de esquerda, é não perder de vista os principios de igualdade e transparência acima mencionados.

    A partir do momento em que a escola NAO cumpre a sua função de restabelecer o minimo de igualdade entre os cidadãos, como o admitem os proprios docentes, incluindo os que mais protestam, o que é verdadeiramente de esquerda é avaliar. Eis a primeira de todas as prioridades.

    O resto é conversa e conservadorismo. Do pior.

  55. João Viegas, você continua a partir da premissa errada de que a escola é só um serviço público administrativo. Não é: é também uma instituição da Sociedade Civil. Esta distinção é importante, como é importante a distinção entre Governo e República. Os governos passam; a República e a Sociedade Civil, com as suas instituições, permanecem. Um governo que não respeite as instituições da Sociedade Civil não respeita a República que lhe cabe servir, e compromete com isso a legitimidade que as leis e a Constituição lhe conferem.

    O governo não pode tratar as escolas como trata as esquadras de polícia. Não pode agir em relação a elas como um proprietário, mas sim como um zelador. Não pode ignorar, como se fossem insignificâncias incómodas, a sua história, a sua cultura ou a sua deontologia; ou pelo menos não o pode fazer sem destruir a instituição que pretende reformar.

    Dirá você que ao respeitar a liberdade de ensino o governo está a mostrar consideração suficiente pela instituição “escola” e pela Sociedade Civil de que ela faz parte. Mas lá está: se há coisa que os governos em Portugal não respeitam, é a liberdade de ensino. Não a respeitam quando dão a às teorias pedagógicas mais delirantes o estatuto de “doutrina de Estado”; não a respeitam quando transcrevem essas teorias em legislação que depois derramam em catadupa sobre as escolas; e não a respeitam, certamente, quando elaboram um modelo de avaliação dos professores entre cujos parâmetros se conta a conformidade ideológica com tais doutrinas.

    Diz você que os próprios docentes admitem que a escola não promove a igualdade. Os docentes não se limitam a admiti-lo: andam há anos a gritá-lo aos quatro ventos, sem que ninguém os ouça. É claro que a escola facilitista e politicamente correcta que os governos e a tecnoburocracia andam a construir há décadas não promove a igualdade entre os cidadãos. Pelo contrário, aumenta as desigualdades, porque, ao considerar todos os “saberes” (o do astrólogo como o do astrónomo) igualmente válidos, acaba por encerrar cada aluno, para toda a vida, no meio em que nasceu.

    O modelo de avaliação deste governo não contribui para diminuir as desigualdades sociais, pelo contrário. Para diminuir as desigualdades teria que privilegiar o ensino, que é a única coisa capaz de proporcionar mobilidade social ascendente a um jovem que nasceu em circunstâncias adversas. Estou a presumir, é claro, que quando você fala em igualdade não tem em mente o nivelamento por baixo.

    Um modelo de avaliação baseado num estatuto que nem sequer menciona o ensino entre as vinte e nove tarefas que atribui aos professores; que os classifica em função do cumprimento destas tarefas; que promove os carreiristas, os burocratas e os obedientes em detrimento dos competentes; que tem, entre os seus critérios, a adesão acrítica dos professores a um modelo de escola que cada vez mais cria desigualdade; como pode você sugerir que um tal modelo é de esquerda?!

  56. e convém não esquecer que os professores se designam assim porque professavam votos, votos de que não cederiam a interesses que deturpassem a verdade e a seriedade da transmissão de conhecimentos a que estavam adstrictos. Não podiam comerciar e daí receberem uma tença do Estado que lhes assegurava o sustento condigno. Este princípio fundador da profissão está hoje completamente adulterado com a função de angariarem receitas próprias, pelo menos na universidade. Somos comerciantes titulados. É uma batalha que se perdeu, eu pelo menos perdi – os interesses só veiculam projectos onde vislumbrem alguma rentabilidade, directa ou diferida – a partir daqui começa a valer quase tudo. Ou quase nada.

  57. Exactamente, Z.

    A escola é uma das poucas instituições em que a tradição e a inovação se confrontam e completam. Tem as raízes no passado, a folhagem e os frutos no futuro. A tradição é o lastro que a impede de se virar de quilha para o ar ao primeiro golpe de vento; a inovação é a vela que se abre a esse vento.

    A História confere à escola uma legitimidade natural que completa a legitimidade legal que a polis lhe reconhece. É ciosa da sua legitimidade própria porque sabe que sem ela não pode funcionar nem tem razão de existir. Se um governo, mesmo que legítimo e democrático, menospreza esta realidade, comete um acto de tirania.

    Igualmente tirânica é a apropriação do ensino e da cultura pelo poder económico, através de processos como o de Bolonha e quejandos. Põe aquilo que é um fim em si mesmo ao serviço da economia, que é um meio. A mercantilização de tudo é um projecto totalitário, mesmo quando assumido inconscientemente por políticos eventualmente bem intencionados, mas perigosamente ignorantes.

  58. “Os professores não querem mais chatices – querem é mais dinheiro e menos trabalho.” depois demagogia é com o outros. todos eles, todinhos, acrescento eu!

    “O PCP fornecia as camionetas e o maralhal que fosse preciso. Também ofereciam serviços de segurança. O BE encarregava-se das homilias e do teatro.” e a teu cargo fica a parvoíce!

  59. Foda-se Cro, leio-te com mágoa… tás cada vez pior :)

    Um grande abraço para ti e para os teus.

    PS: não me respondas aqui que é um local pouco recomendável (entenda-se, um pasquim de merda); nem sei como é que tens pachorra para ler isto; se quiseres recomendo-te uns blogs fixes

  60. “muitas cadeiras de pedagogia, psicologia, História da educação, didáctica”. Pois é, foram os teóricos da treta como tu que foderam a escola toda. A escola dantes era para ensinar quem queria aprender, e não depósito de lixo onde pais que nem o sabem ser vão depositar a filharada ranhosa. A escola devia ser (como era dantes) de quem ensina e de quem quer aprender. Tal como os hospitais têm de ser de quem cura e de quem precisa de ser curado. Pela vossa estúpida lógica, os juízes também deviam ter de perguntar à família do condenado se concorda com a pena que lhe foi imposta. Se não concordar, é imediatamente libertado. Se não gostas de professores, atura tu os teus filhos em casa e ensina-lhes tu o que há para ensinar. Mas claro, não consegues fazer isso com um ou dois, quanto mais com 20 ou 30. Vai mas é para a puta que te pariu!

  61. José Luiz Sarmento,

    Não tenho tempo de desenvolver, mas você é que esta errado. Não digo que não haja considerações interessantes naquilo que você afirma, mas as categorias fundamentais estão erradas.

    Consoante os casos “civil” opõe-se a “militar” ou a “peregrino”. Por extensão, e com uma ligeira deturpação do sentido, chama-se “sociedade civil” à constituida pelos agentes privados, desprovidos de prerrogativas publicas. Os professores do ensino publico são civis no primeiro sentido (julgo que mesmo no colégio militar), mas o seu ministério é publico. São também (na sua vida privada) cidadãos privados, que podem ter opiniões, que devem ter liberdades, etc, nessa medida fazem parte da “sociedade civil”, mas não quando leccionam, ou seja quando desempenham a sua função publica. Alias, se forem agredidos no exercicio das suas funções, têm protecção especial e (salvo erro) a circunstância de serem funcionarios é motivo de agravação da pena, etc.

    O ensino é livre. Pode ser privado ou publico.

    O ensino publico, obrigatorio em razão do ideal republicano a que você alude, constitui uma incumbência do Estado, um serviço publico. Trata-se de um serviço publico administrativo, por contraposição aos serviços publicos industriais ou comerciais (por exemplo os transportes ferroviarios, a distribuição de energia, etc.).

    Na prosecução desse serviço publico administrativo, ha que respeitar a liberdade de ensino. Ninguém contesta isto. Mas isto não impede que os professores se enquadrem num serviço publico administrativo, com todas as consequências, nomeadamente juridicas, que isso tem.

    Pasmo ao ver que os professores do ensino publico vacilam nesta matéria. Isto é triste e apenas conforta quem pensa que muitos professores do ensino publico não sabem ao certo qual é a sua função…

    O que é duplamente preocupante, precisamente em razão da sua função !

  62. Nós em Minas Gerais estamos pedindo, implorando por dinheiro. A greve já dura 40 dias e a coisa está tão feia que nem o mais alienado da categoria mais desunida ficou de fora. Depois eu acho que a discussão deve caminhar no sentido de se questionar o papel da tecnoburocracia e o fracasso da ideologia neoliberal embutida nos projetos de modernização conservadora

  63. Val,
    Então já foi professor. Quem diria! Eu explico a razão do meu espanto: num comentário anterior escreveu sobre a indisciplina que “o problema nunca é dos alunos, é sempre dos professores e da escola, ou seja, é do sistema, da autoridade”.
    Está a pensar regressar ao ensino? Se estiver diga à gente: iria a correr inscrever-me na sua escola. Faria o que me desse na real gana e culpá-lo-ia da minha insolência.

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