Cineterapia

How Green Was My Valley_3
How Green Was My Valley_John Ford

Nós, os fordianos, somos uns lamechas. Não resistimos a uma justa e longa greve, especialmente se for de mineiros galeses. E ficamos encantados quando se castiga o clérigo odioso. Derretemo-nos se alguém faz frente à hipocrisia, maldade e cobardia do puritanismo. E que dizer de uma boa sova num mestre-escola psicopata? Enche-nos a alma de entusiasmo e faz-nos soltar olímpicas gargalhadas. São assim os fordianos, perdidos de amor pelo divino coração do povo, pela humana justiça de Deus.

Este colosso de ternura luminosa cometeu o sacrilégio cinéfilo de ter roubado o Oscar de Melhor Filme a Citizen Kane, a obra-prima que estava destinada a tornar-se, décadas mais tarde, no cliché de ser o melhor filme de sempre. E Ford ainda se agarrou ao Oscar de Melhor Realizador, num páreo que incluía gabirus do tamanho de Orson Welles, Hitchcock, John Huston e Howard Hawks. Para o vexame ser completo, tratou-se de uma dobradinha nesta categoria, no ano anterior tinha ganhado com The Grapes of Wrath. Enfim, esperar que a Academia tenha os critérios de gosto dos Cahiers devia estar sujeito a pesada multa.

O Vale era verde, mas foi filmado a preto-e-branco. O Vale era em Gales, mas foi filmado na Califórnia. O Vale era uma adaptação de um romance, mas transformou-se no romance da adaptação de cada um à imortalidade do que ama e de quem ama. Mas se achas este paleio demasiado lamechas, contemplar os estonteantes 19 anos de Maureen O’Hara chega e sobra para entrar no Vale.

8 thoughts on “Cineterapia”

  1. “Enfim, esperar que a Academia tenha os critérios de gosto dos Cahiers devia estar sujeito a pesada multa.”?

    Com uma destas você nunca deve ter lido os cahiers, que amam Ford de morte, mas está bem. A chacun sa conaissance!

  2. claudia, estás no bom caminho para o Vale.
    _

    nm, pois sim, mas não é isso que está em causa. Todos os que amam Ford de morte dispensariam de bom grado a “injustiça” que se fez a Citizen Kane e iriam a correr entregar-lhe os Óscares todos. Aliás, provavelmente essa obra tão polémica nunca poderia ganhar, mesmo sem Ford na compita, daí se ter tornado um dos mais célebres casos das injustiças artísticas da Academia.

    Entretanto, folgo em saber que escreves em francês.

  3. Você está equivocado acerca do valor que os Cahiers reconheciam à obra de Ford e ao contributo que deram para o reconhecimento da obra de Ford na Europa e por entre a intelectualidade progressista, que até então a desprezava.
    Daqui por cinquenta anos o John Ford ainda há-de ser reconhecido como o maior realizador da história do cinema. Quem cá estiver verá.
    A frescura de Maureen O’Hoara é desde há muito uma reconfortante nostalgia, como é próprio da vida.
    Dou-lhe os parabéns pela sua admiração pela obra fordiana. É coisa que escasseia entre a juventude actual.

  4. JMC, o cinema americano de autor “nasceu” com os Cahiers. Foi esse grupo de intelectuais e cineastas que “descobriu” a dimensão artística do cinema feito em Hollywood, até então visto apenas como máquina industrial e financeira. É daí que também vêm as vanguardas que deram origem ao “cinema novo”. E isto que estou a dizer é uma banalidade só para chamar a atenção para o contexto do que escrevi: a “imperdoável” preferência por mais um Ford, premiado na edição anterior, no ano do genial Citizen Kane, obra de um debutante.

  5. Eu fui assinante e sei disso. Eles de certo modo requalificaram cineastas como Raoul Walsh por exemplo. Eu fui cineclubista e a primeria vez que entrei numa tipografia foi para rever provas de um programa de cinema. Ai que saudades…

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