Ironia Oculta

Quatro dias antes da inventona de Belém ter sido lançada, 14 de Agosto, Aguiar-Branco deslocou-se ao Algarve para oferecer um discurso de quinze minutos à comunicação social. Levava propostas para o desenvolvimento do País, esperança para os portugueses? Se levava, nada disso subiu ao palco da Festa do Pontal. Mas os minutinhos foram bem aproveitados. O actual líder parlamentar do PSD fez o discurso mais nojento de toda a campanha, despejou vis insinuações à boca cheia. Insultou a democracia usando o caso Freeport, os contentores de Alcântara, o computador Magalhães, a Fundação das Telecomunicações, a TVI. Disse que o PS tinha uma visão sovietizada e que o Governo estava sob suspeição. Só não falou na mãe de Sócrates, e no apartamento dos mafiosos, por manifesto esquecimento. Depois deu um forte abraço ao Bota e ala de volta para a Manela. Estava feito o servicinho preparatório, o Zé Manel trataria do resto.


Um Governo sob suspeição, sovietizado, teria alguma dificuldade, ou prurido, em espiar o Presidente da República? Qual quê! Até porque esse seria o método aplicado com qualquer adversário, posto que não havia qualquer escrúpulo; e Cavaco aparecia como o maior dos adversários de Sócrates, ficava como o tácito chefe da oposição. O PSD pretendia convencer os eleitores de estarem a viver num Estado totalitário que atacaria qualquer alvo, uma União Soviética com os métodos da RDA e o fanatismo da China de Mao. Só faltava uma evidência credível e convincente, algo à prova de dúvida e demasiado chocante para se conseguir tolerar ou vir a esquecer até às eleições. A fórmula, bem limada, passava por uma jogada arrojada: ter a palavra de Cavaco sem que este a proferisse. Como? Criando uma notícia inquestionável, blindada no anonimato da fonte e fundamentada no prestígio da mesma. Estabelecida a veracidade da informação, bastaria a Cavaco estar calado para ser maximamente eloquente. A solução parecia perfeita, o vale tudo ia perpetrar um golpe inaudito.

Ora, esta sequência de acontecimentos liga-se directamente com a operação Face Oculta. Por um lado, porque o PSD, em conluio com a Presidência, apostou numa estratégia de ataque à credibilidade do Regime, procurando causar alarme social para assim destruir a capacidade de racionalização do eleitorado. Era o próprio Estado de direito que estava na linha de fogo. Instaurado o pânico, os valores verdade e seriedade, servidos pelas salazarentas figuras de Cavaco e Ferreira Leite, seriam a salvação. Por outro lado, porque a acção da Polícia Judiciária seguiu o seu ritmo independente e, então, podia estar agora a apresentar os mesmos resultados num cenário onde o Governo fosse do PSD, a sós ou em coligação com o CDS. Nessa eventualidade, o que de imediato seria percepcionado era uma vingança contra o PS. A crise da Justiça, e a falta de confiança nas polícias e Ministério Público, ficaria ainda mais agravada. Daria a ideia, factual, de que o Regime estava a saque, e que chegar ao poder governativo correspondia a ter os instrumentos para perseguir os adversários através das polícias e tribunais. Seria esta a consequência lógica da campanha negra que dura desde 2007 e do ambiente dissoluto que Aguiar-Branco subsumiu em quinze minutos festivos. Tinham feito a cama, iriam afundar-se nela.

Entretanto, o PS, com ou sem maioria, tem estado sob pressão da Justiça, e não se vislumbra quando deixará de estar. Mas a ironia do caso Face Oculta resulta de poder vir a estabelecer um novo padrão até agora ausente na sociedade portuguesa: a capacidade de investigar, e conseguir punir, casos de corrupção ao mais alto nível político. É que se tal acontecer, o que pode acontecer ao PSD é de rir.

15 thoughts on “Ironia Oculta”

  1. Nestas eleições felizmente uma maioria de portugueses rejeita de uma forma pragmática métodos políticos eticamente desprezíveis que nos colocariam numa rota de política entrincheirada onde as intrigas palacianas [seriam] a moeda corrente.
    Mas essa capacidade de investigar é muito limitada, tão limitada quanto a necessidade da fuga ao segredo de justiça.
    Ainda falta muita assertividade na política portuguesa. O PSD continua a ser liderado pelos mesmos que tentaram a via nojenta que descreve. Hoje a esquerda podia estar mais forte, mais clara, com maior voz na luta contra a corrupção, pena que Manuel Alegre não tenha respeitado os seus apoiantes, desprezando a sua representatividade política. Hoje aqueles que se aproximam do PSD podiam estar mais livres para seguir um caminho autónomo e livre varrendo para a insignificância os barões da marmeleira.

  2. Val- Consegues expressar aquilo que eu gostava de dizer(desculpa o tu).A sacanice de certas “pessoas” é por demais evidente, e só quem não quer ver é que não vê. Os manobradores do outro partido(e não digo que são do P.S.D.-pois os verdadeiros sociais democratas não estão lá) e digo outro partido porque não tem nome, é o partido dos vigaristas, intriguistas e conspiradores quase que conseguiram o que queriam e ainda não desistiram. Não estou a defender ninguem, estou apenas a denunciar quem de facto pretende acabar com a democracia e ficar, olimpicamente, a “reinar” sobre nós.A começar em Belem e a passar pela Lapa estão lá todos.Antes foi o Freeport,agora é a “Face Oculta” , só um partido é atacado directamente,mas são todos os outros que tambem são atingidos.Os inimigos da democracia aindo estão em acção.Só quem cá andou no tempo da outra senhora é que consegue ver os disfarces dos verdadeiros anti-democratas.Volto a dizer, não estou a defender ninguem:se alguem aceitou dinheiro para prestar vassalagem aos vigaristas deve ser punido;seja ele quem for.Agora uma perguntinha? -Camara de Gouveia:não estou a acusar o Dr.Alvaro Amaro como todos os outros tem direito à presunção de inocencia.Porque é que os jornalistas quando falam no Vara, no Dr.Penedos, etc. disem sempre que são do P.S. e ao Dr. Alvaro Amaro não juntam o P.S.D.? Que eu saiba, ele ainda é do P.S.D. – será que alguem ordenou aos pasquinheiros de serviço para”esquecerem ” que a camara de Gouveia é P.S.D.? Como desde hà bastante tempo estamos a ver a dualidade de critérios a funcionar. A mando de quem ?Para beneficiar quem ?acho que todos nós sabemos.

  3. o nosso Valupi é brilhante, mesmo quando discordo dele. Pois verdade se diga que eu ainda nem sei como vamos sair desta coisa vergonhosa das ‘escutas’ do Verão. Por um lado é o meu querido Portugal, um jornal faz manchete a falar de que a Presidência está sob escuta do Governo, um watergate, o Cavaco nada, e o povo português como era Verão estava tudo a banhos e depois se vê,

    mas não esquece,

    agora anda tudo com ‘um novo começo’, o Mel Gibson é que foi profético, também a mim me saiu essa na rifa.

  4. (Como sempre) concordo com z. O texto do Francisco é certeiro :

    “A esquerda virou à esquerda mas o governo tem que apontar direita”. Este paradoxo, devêmo-lo ao BE e ao PCP, que acham isto muito bem na medida em que, desta forma, a revolução proletaria mundial agendada para o proximo mês de Março talvez venha a acontecer ja em Janeiro, ou mesmo antes (o pai natal veste-se de vermelho, não é por acaso).

    Tristeza…

  5. bom, fiquei entalado entre achar-me volúvel e também dizer que este gajo foi certeiro. Mas sinceramente também acho e gosto de dar o seu a seu dono. Vou interromper os comentários até logo, isto deve ser das tortas de Azeitão.

  6. Obrigadozz
    A tentativa de golpe palaciano de Cavaco não irá ser esquecida tão cedo.. por aqueles que se dão ao trabalho de se informarem. A maioria dos portugueses não conhece os detalhes, devia conhecer mas não vejo ninguém com audiência que esteja interessado nisso.

  7. Francisco, há muitas maneiras de cozinhar bacalhau, algumas bem complexas. Tão complexas que se podem comparar com aquilo que é necessário fazer para reeleger democraticamente um primeiro-ministro que esteve quatro anos a levar pancada dos eleitores. Os ingredientes aqui foram muitos e pesados à miligrama, para que nada falhasse: Caso BPN, Eleições no PSD, caso TVI, Freeporte, etc. e, como a coisa estava difícil a poucas semanas da data das eleições, foi preciso arranjar um caso “tira teimas” para atingir o objectivo; o caso “escutas”.
    A mim ninguém me convence que o Sr. PR não estava feito com a Nelita para ajudar neste último empurrãozinho. “Assuntos de Estado…” como ele disse, e os portugueses entenderam…

  8. Bacalhau.. não acho que sejam assim tão inteligentes. A minha avozinha dizia-me que só há 3 maneiras de cozinhar bacalhau: cozido, grelhado e estragado. Mas que o silva se juntou à nelita para cozinhar isso sim ou pelo menos comprou-lhe os ingredientes.

  9. não te preocupes Francisco, os portugueses não esquecem, têm o seu timing – que isto a seguir ao Verão vem logo aí o Natal – e é verdade que a carta táctica da visita papal foi de mestre silva, mas eu quando estiver com a minha Fátima logo lhe pergunto. Acho os portugueses o máximo, desenrascados até mais não, falam línguas como sei lá, sempre à pantufada cá dentro, mas muitos acolhedores e sabe-se lá às vezes como andam perdidos no seu íntimo. Bem, mas tens de me dar um desconto que há pouco lá foi outra torta…

  10. Oh, mas o sonho é lindo…pensar na quantidade de coisas boas que se poderia fazer com uma suspensão da democracia…por seis meses que fosse…depois logo se via.

  11. Val,

    “Mas a ironia do caso Face Oculta resulta de poder vir a estabelecer um novo padrão até agora ausente na sociedade portuguesa: a capacidade de investigar, e conseguir punir, casos de corrupção ao mais alto nível político. É que se tal acontecer, o que pode acontecer ao PSD é de rir.”

    Não sei, não…nunca te interrogaste sobre o extraordinário fenómeno de todos os pedófilos do país serem do PS? E, como diz um amigo meu, “no PSD é só virgens e santos, e deus-Cavaco (esse ser exemplar) todo poderoso”.

  12. Sim, esta análise é brilhante. Mas não esqueçamos que nada brilha tanto como o talento de Cavaco para manter (neste caso restaurar) aquilo que mais preza, a sua imagem pública. Não creio que, nem ao PSD nem a Cavaco, (quer enquanto primeiro-ministro quer enquanto presidente da República), alguma vez tenha ocorrido que os cargos políticos são concedidos pelos eleitores, e que esses cargos existem especificamente para servir o país. De qualquer modo, a memória é curta, e certa comunicação social é exímia em cosméticas rápidas. Bastará portanto uma semana antes das próximas eleições presidenciais, para se repor a aura mítica que Cavaco tanto preza, e ele será presidente da República até ao fim dos tempos. Haja alguém que nos acuda!

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