Pecaminosa trindade

Três erros de casting: Crespo, que não sabia o que perguntar porque não entendia o que ouvia; Carreira das Neves, que não sabia o que dizer porque não entendia o problema; Saramago, que não sabia dialogar porque não se entendia a si próprio. Felizmente, havia Saldanha Sanches, que soube lançar um anátema fiscal sobre um ilustre habitante de Lanzarote, assunto sobre o qual dizem ser um dos maiores entendidos.

A posição de Saramago, fazendo agora uma epoché que nos liberte do seu corpo, resume-se a duas crenças: (i) a de que Deus existe, e que existe como natureza antropopática, e (ii) a de que in illo tempore existiram seres humanos capazes de ler sem pensar. Pela primeira, Saramago mostra-se agastado e denuncia, censura, ofende e castiga o comportamento, personalidade e falta de carácter de Deus. Pela segunda, Saramago imagina ser possível a interacção com um qualquer texto sem um texto prévio (cultura), um texto paralelo (sociedade) e um texto futuro (história), tal e qual como fazem hoje as máquinas, que lidam com arranjos de letras e não com a arrumação das ideias.

Para quem tenha o infortúnio de tentar discutir com ele esta aporia senil, um, e só um, deve ser o repto: que Saramago escreva, ou descreva, o manual de bons costumes para a Humanidade.

23 thoughts on “Pecaminosa trindade”

  1. Enquanto a arte for considerada e amada e idolatrada como “arranjo” maravilhoso de palavras, sentimentos, emoções e pensamentos, qualquer robot futuro poderá competir com ela em pé de igualdade, como o computador já compete e ganha nos jogos de xadrez. O que distinguirá sempre o Homem, em relação à perfeita máquina, é exactamente aquilo que sempre o tem distinguido: a humanissima pergunta, mais que todas sábia, «quem somos?»
    Como muito bem dizes, Valupi, as máquinas podem realizar uma maravilhosa arrumação das letras, das cores, das linhas, dos sons… mas não das ideias. E o homem, quando pensa que arrumou, bem arrumadinhas, as ideias todas, volta a baralhar tudo com novas perguntas, nascidas de novas ideias.
    Aquele trio da SIC estava noutra onda…Só tinham respostas. Sabiam-na toda. Faltou-lhes ser filósofos.

  2. Transcrevo aqui um pouco do debate. (CN=Carreira das Neves, MC=Mário Crespo,S=Saramago)
    S – “…mas desculpe, vamos lá a ver, a igreja nao sabe nada de deus…”
    CN – ” A igreja nao sabe nada de Deus? ”
    ( começa, neste momento, o toque poliédrico do telemóvel do CN )
    CN- ” …a igreja… bom, peço desculpa… esqueci-me … ”
    MC- ” deixe estar, não, não tem problema nenhum…”
    CN- “…a igreja, a igreja, Deus vem pelo coração, Deus vem pelo coração e não apenas pela razão, Deus está por cima da razão mas não é irracional, na minha
    perspectiva.. eu acredito em Deus ”
    S – ” Mas como é que o sabe ? ”
    CN – ” porque acredito ”
    S – ” ah! entao… ah! ”

    Terei sido o único a ficar impressionado com o toque do telemóvel, no momento mais aceso da discussão? Houve ali um sentimento de que a humanidade era ridícula; um prémio nobel, um padre e um bonacheirão, discutindo o sexo dos anjos, e em pano de fundo, um telemóvel que não se calava. Pensei – ” Para onde vamos? “

  3. O momento do telelé, joao melo, foi um sinal divino, a lembrar à rapaziada que havia assuntos mais urgentes a que dar atenção. O que permanece inexplicável é o facto de ele não ter desligado o telemóvel, continuando a falar com a barulheira em fundo. Insólito e, estranhamente, em completa harmonia com aquela discussão desconchavada.

  4. Não há deus porra nenhuma, mas apenas um assunto de debate interminável, que chega a fazer parecer que há realmente uma entidade supra-universal, cínica, filha da puta e sádica, que gosta de se divertir, de foder o juízo à macacada e de nos pôr em guerras e discussões uns com os outros sobre merdas inacreditáveis, em lugar de resolvermos os problemas da humanidade e do planeta.

  5. nem sei como podes fazer afirmações absolutas dessas, mas concordo que a ministra da Cultura é bonita e o Socrates é inteligente. Nisso estamos de acordo.

  6. Quem me dera chegar aos 86 anos de idade e ter a capacidade de provocar os bons costumes da aldeia e desarrumar as cabecinhas tolhidas dos aldeões.

    Aqui em casa, há quem defenda que, em Portugal, são necessários 10 Saramagos a falar todos os dias para a comunicação social.

  7. Boa Adelaide e o Homem é infinitamente mais jovem do que todos os que aqui andam a escrevinhar-Lhe críticas e insultuos…

  8. Para o NIK

    A afirmação «Deus não existe» é a outra face da moeda que tem escrito «Deus existe». A nossa razão só pode discorrer sobre o nosso universo, nunca sobre um que seja «totalmente outro», porque aceitar discutir o «totalmente outro» era como aceitar o confronto entre o SER, nós e o nosso universo, e o NADA. (Isto não tem nada a ver com L’Être et le Néant de Sartre). De modo que a tua frase Nik, ficava assim: «o Nada não existe». E o crente responde-te: «o Nada existe». Por isso o franciscano Carreira das Neves confessou-se a um atónito Saramago: conhecemos Deus pelo coração.
    Está no seu direito. E Saramago não devia chamar um nome feio ao “Nada” de Carreira das Neves.
    O budismo atalhou caminho e chamou Deus ao próprio universo, promovendo-nos a Deuses imortais e eternos. Só não percebo porque é que não andamos todos muito satisfeitos.
    Quem aceita, como eu, o mistério da vida, sonha com uma ponte entre este “Deus- Universo” budista, e a consciencia que temos da nossa identidade individual e colectiva. É estranhissimo este sentimento de confronto com proprio universo que somos, mas é uma realidade incontestável. E, apesar de todas as histórias de espiritos e sonhos com extraterrestres, até ao momento, as únicas vozes que respondem ao meu chamado são as dos humanos como eu. Também o meu cachorrinho, mas esse nem sabe que é cão. O que mais me intriga, quando me ponho a pensar nestas coisas, é como o Universo nos gerou, deste jeito, a ponto de o interpelarmos. Coisa semelhante só mesmo os meus genes a tornarem-se na voz dos meus próprios filhos. Carne da minha carne e absolutamente «eles».
    É um misterio incrível e que me começa dentro de casa…
    Entretanto, Saramago e Carreira das Neves gastam tempo de antena a discutir…um “nada” muito grande.

  9. O Saramago deve estar a divertir-se à grande, e a pensar: Tanta estupidez de uns e tanta inveja de outros!
    Aqui, no Aspirina, cheira-me mais a inveja do que a estupidez, salvo seja!

  10. Bom dia a todos,
    Mais do que falarem sobre Saramago e se há um Deus ou não, um debate que acho obsoleto, queria chamar a atenção sobre o caso dos suicídios na France Telecom em França. É um tema sério e ninguém fala nisto. Pergunto-me se não iremos passar por isso ou se esse sintoma já existe, mas nós é que não temos um estudo sério sobre o caso.
    Dou os parabéns ao JN que hoje decidiu abrir um espaço para o caso. Leiam por favor o suplemento “Domingo”. O título da capa é “Quando o trabalho mata”.
    O desemprego, as condições laborais, também matam pessoas.

  11. Cá por mim, só enfio o barrete da estupidez. Se o gajo chegou a esta conclusão é porque é mesmo esperto. A mim, topou-me à distancia. Não tinha como escapar. Mas também não quero. Afinal de contas, nem sei direito quem são meu pai e minha mãe. Mais burro não há.

  12. Ok, Mário agnóstico, tens a tua razão. Mas o que eu quero mesmo dizer, como tu aliás também dizes, é que Deus é nada (ou Nada, para sermos mais respeitosos da crença dos outros).

  13. para mim é claro que tal como existem pessoas que escrevem sem pensar , maravilhosamente exemplificado por este post , também existem os que leêm sem pensar , os que ouvem sem escutar e os que olham sem ver.
    e sim , a cultura humana está cheia de deuses antropomórficos que , para cúmulo , sentem pensam e agem como os humanos que os criaram , e que são bem reais nas suas consequências ( nos últimos anos a consequência mais grave foi o 11 de setembro) , ou não se aplicasse aqui que nem uma luva a profecia que se auto realiza.

  14. Nik

    Não me considero nem agnóstico, nem ateu, nem céptico, nem crente. Humildemente, ouvindo tudo e todos, em cada novo dia, procuro mais uma parcela da verdade sobre a nossa identidade. A tarefa apresenta-se cada vez mais dificil, porque este mundo não pára de girar e de nos surpreender com novas revelações. Pequenas verdades, exactas porque pequenas, mas cumulativas. E, para surpresa de todos nós, altera-nos a identidade. Fica-se com a sensação de que estamos a ser criados e vamos colaborando no acto, um pouco inconscientemente, quase como quem diz: vamos lá ver no que é que isto vai dar.
    Vá lá, Nik, aceito. Sou um pouquinho daquilo tudo: crente, ateu, agnóstico, céptico. E perguntador quanto baste.

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