Do salazarismo que ficou

Os largos anos em que temos vivido sem que se exerça sobre os homens públicos e os seus actos uma crítica independente e salutar, morigeradora dos costumes e sentinela vigilante da moral administrativa, missão que só pode ser exercida por uma imprensa livre; os hábitos e os vícios adquiridos durante esse longo período da nossa história contemporânea, em que uma censura implacável calou as vozes que não afinam pelo diapasão oficial criaram uma hipersensibilidade que se manifesta à mais pequena beliscadura no amor próprio de cada um, ao mais leve toque de florete, ao mais inocente gracejo com que se pretende alvejar seja quem for, desde os mais modestos servidores do Estado aos mais altos dignitários do Regime, pois todo o mundo se considera intangível neste país. Perdeu-se a elegância antiga do torneio dialéctico, o poder de encaixe, o gosto pelo dito de espírito que diverte e não ofende. Não se faz jogo franco e à luz do dia. Ataca-se na sombra. Não se respeitam as regras do jogo. Desferem-se golpes baixos, golpes proibidos. Luta-se com armas desiguais. Concede-se a uns a liberdade que a outros se recusa. Em nome de princípios que se julgam eternos, num mundo em permanente mutação e em plena florescência de ideias.

Norberto Lopes in: A FUNDA, 4º Volume, Portela Filho

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Escrito hoje, numa tentativa de explicar as inventonas de Belém? Escrito mesmo em cima da Revolução e tendo sido publicado dias antes da mesma, em Abril de 1974. Norberto Lopes já merecia ter 3 biografias, 2 romances e 1 filme, ou 1 biografia, 3 romances e 5 filmes, feitos a partir da sua memorável carreira e vivências, caso tivéssemos, cá pela terrinha, uma indústria de conteúdos competitiva tal como a têm os irmãos brasileiros. A sua vida acompanha o século XX, ele que nasceu em 1900 e deu admirável proveito à longa existência. Aqui, aos 73 anos, é de uma acutilância que permanece relevante e actual em 2009. Foi contra os hipócritas da seriedade e da verdade que o Norberto escreveu luminosamente; estando longe de imaginar que Salazar continuaria a influenciar a cultura portuguesa, e parte da sociedade, 40 anos depois de ter caído.

23 thoughts on “Do salazarismo que ficou”

  1. O que sofri por Salazar morrer
    No dia 27 de Julho de 1970 à tarde, fomos informados que podíamos meter uma dispensa de serviço, em virtude da morte de Salazar. Tirava a recruta no R.I.8 em Braga. Fiquei contente mas não sabia o que me esperava. Quando me preparava para sair à porta de armas, o sargento dia, disse-me que trazia a barba mal aparada e tinha de voltar para trás. Não havia água nos lavabos da camarata. Comprei uma cerveja com a finalidade de o líquido ajudar a pasta de barbear a fazer espuma. Com este contratempo perdi bastante tempo e quando cheguei à empresa de camionagem, que fazia o transporte para Guimarães, já tinha partido. Encontrei outro soldado nas mesmas condições. Na empresa de camionagem perguntamos qual a solução para chegarmos ao nosso destino. Elucidou-nos para irmos num autocarro da carreira para Famalicão – estava prestes a partir – dali para a Vila das Aves. Quando chegamos a Famalicão, não havia ligação para a Vila das Aves. O que nos restava era voltar para o R.I.8 ou irmos à boleia, estávamos a 20 quilómetros de cada lado. Metemo-nos ao caminho, mas tínhamos pouca habilidade para pedir boleia. De Famalicão a Vila das Aves apanhamos uma de 2 quilómetros. Ali chegados cada um seguiu o seu destino. Eu para Freamunde ele Rebordosa. Eram 22 horas, na proximidade não havia nenhuma casa de pasto aberta para comer alguma coisa (sandes) a fome era mais que o cansaço. Para chegar à minha terra ainda tinha de andar uns 12 quilómetros, vinha cansado, as botas apertavam-me, a farda incomodava-me e ainda por cima o trajecto era quase todo a subir. Triste sina. Ao passar numa localidade vinha uma senhora com uma criança, julgo seu filho que lhe perguntou. Quem é que ali vai? Sendo-lhe dito. É um soldado, coitado. O meu astral já vinha baixo mas com aquela frase ainda ficou pior e, uma lágrima traiçoeira começou a rolar pela minha face, não era por Salazar. Dali até minha casa consegui duas pequenas boleias, ambas oferecidas, como disse não tinha habilidade para as conseguir. Cheguei a casa às vinte e três horas e trinta minutos.
    Salazar prejudicou-me na infância, não me deu oportunidades, era pobre, não pude continuar os estudos. Com a sua morte provocou-me outro martírio. Que continue lá para sempre e, sem mim.

  2. Sobre a imprensa portuguesa, eu, por mim, continuo, século e meio depois, a preferir o Eça…

    As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes

    Outubro a Novembro de 1873

    A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico, pelo publico d’elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes. Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no Gremio. Como trabalha? Trabalha d’este modo: informando-se;—é o termo technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve hoje—notae-o bem—é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio, é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente—o cano.

  3. Desconhecia…
    Mas, que se espera num país de “Morangos”? E onde anda o filme de um Antero (aos anos que eu queria fazer um)? E “As Farpas” acutilantes não estão tão contemporâneas? Ou não seremos, afinal e tristemente, um país de mesquinhice crónica?

  4. Pedro Santos, a crítica de Eça tem traços intemporais, mas é demasiado genérica para entendermos o século XX português.
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    Blonde, fazes filmes?

  5. deixo isto ao julgamento das pessoas. Eu próprio não tenho opinião definida, sei no entanto uma coisa: todos os que exercem justiça têm de ser julgados porque na esteira própria das coisas convocam sobre si o poder que exercem sobre os outros, não há como escapar-lhe, trata-se de um efeito dialéctico irremovível.

  6. Z,

    tendo em conta a fonte (tvi) e o forte papel que teve no envolvimento de Sócrates no caso freeport, é natural que agora tente defender aquilo que foi um cavalo de batalha e que afinal não deu em nada, ainda por cima com suspeitas de parcialidade sobre um investigador envolvido…

    Trata-se de uma fonte “suspeita”.

  7. Edie, também acho uma fonte suspeita. Mas há aqui uma coisa que me chateia, nunca dizemos nada sobre as instâncias judiciais e actantes, como se fossem sacrossantos ou porque temos medo, isso já não sei.

    Ora esta passividade dos cidadãos perante a Justiça tem sido uma das causas do aviltamento a que se chegou. Só agora, ao fim de 35 anos do 25 de Abril é que há políticos julgados por corrupção.

    A questão é: há nos actantes judiciais – procuradores, juízes – comissários políticos?

    A resposta só pode ser afirmativa, não há como escapar-lhe.

    Não é sobre este caso, ainda por cima terá saído ao homem por sorteio, espera-se, e também não é por ter mandado arquivar o caso do Judas que é assunto onde não tenho elementos suficientes para me pronunciar, mas que de alguma maneira tudo o que é o terceiro poder terá de ficar sob escrutínio público parece-me bem que sim.

  8. Estou apenas curioso, Blonde, porque disseste que querias fazer um filme inspirado no Antero. Mas não tenho empregos, nem dinheiro, para te dar. Só mais curiosidade. E interesse em fazer filmes, claro.

  9. Queria, quero, gostava. Mas se eu tenho de ir para o estrangeiro para publicar sobre o MST e outros que tais e, alas, os amigos do Antero, porque este país é fechado e ignorante como tudo (ok, e eu também não sou inteiramente portuguesa), como é que se faria, em Portugal, um filme com base na genialidade trágica de um Antero? Nem como novela da TVI (ah, espera, cortava-se na genialidade e investia-se na “tragicidade”)!

  10. Essa é uma falsa questão. Não se trata de saber como fazer um filme em Portugal, trata-se de começar a fazer um filme em Portugal. Tudo começa no começar.

  11. Caro Val,

    A descrição de Norberto Lopes é, infelizmente, não apenas muitoassertiva para descrever o século XX português, mas, também, extremamente actual. Nota-se na comunicação social, nas pequenas conversas de café, nas relações diárias de poder nas empresas ou administração pública ou mesmo, pasme-se, na análise aos principais debates políticos (convido todos a rever os programas televisivos de análise ao último debate Sócrates – Ferreira Leite). A exposição clara e frontal das posições de cada um de acordo com o efectivamente pensa e, sobretudo, o confronto de ideias antagónicas entre protagonistas, mesmo que em termos leais e educados, continua, socialmente, a ser considerado como algo indesejável, procurando-se, sempre que possível, inculcar a obcesssão de que o que seria mesmo bom era estarmos sempre todos de acordo em torno de uma verdade única, seja no campo da política (os famigerados pactos de regime…), da economia (a pastilha neo-liberal dos que nunca erram e raramente têm dúvidas), ou até do desporto (o Benfica…). Infelizmente acho, de igual modo, que a peça do Eça é, também, muito actual, não para caracterizar o século XX português, mas para descrever o panorama geral dos “jornaleiros” (não confundir com jornalistas que são honrosas excepções) da imprensa portuguesa, seja a generalista, a política, a desportiva ou a económica.

    PS (não confundir com…) – Desculpa interromper o “filme”…

  12. Sem dúvida, Pedro, Eça faz um descrição intemporal do jornalismo e suas condicionantes, num certo sentido. Entretanto, muita água correu, e os jornalistas contemporâneos são também o espelho do nosso tempo, terão outra responsabilidade, e deontologia, que os seus colegas no século XIX, e princípio do XX, não tiveram.

    Quanto aos pactos de regime, eles não têm como finalidade o consenso universal, antes a governação possível. A democracia não suporta verdades únicas, a não ser aquelas que a instituam.

    Interrompeste um filme? És um optimista.

  13. Terceiro poder sob escrutínio? Concordo absolutamente. Mas é outra guerra que o governo terá de travar, ao pé da qual, a dos professores parecerá coisa de meninos da pré-primária.

    Não há quem tenha mão (também porque a Constituição assim o diz) na Presidência e nos magistrados. Trata-se de poderes absolutos, na prática, e controlados por si próprios…

    Quando o controlo de uma instituição cabe à própria instituição, é óbvio que os interesses a defender são os de “dentro” .

    Só assim se percebe a polémica que se levantou face ao caso de um juíz que cometeu “erros grosseiros” que levaram a um prejuízo de milhões de euros para o Estado português e que – escândalo!! – não levou a nota máxima de Muito Bom!

  14. certo. mas tem de haver um escrutínio qualquer digital, mil cidadãos sorteados aleatoriamente pontuam justificamente os juízes ou coisa assim e o CSM decide coisas também com base, não estou a dizer já, estou a dizer que é inevitável numa lógica de aprofundamento da democracia agora com tecnologias que o permitem.

    Só o simples facto de os juízes e os procuradores saberem que estarão sob escrutínio público é terapia preventiva de muita coisa, espera-se,

    um observatório digital da Justiça em Portugal,

    ao menos rima.

  15. Z
    Concordo consigo, o medo deles (juízes) é de serem fiscalizados, como sabe se a justiça for digitalizada, fica-se a saber o tempo de demora, o dia e hora de começo e a eles isso não interessa. A maioria gosta de se apresentar ao serviço às horas que lhes convém, passado um pouco vão tomar o pequeno-almoço e por aí adiante. O consumidor que espere o tempo que calhar, não tem voto na matéria e se refilar leva uma pena mais pesada. Não se convencem que sem o consumidor não havia razão para existirem, como ganham sempre o mesmo, quem vier atrás que feche a porta.
    Enquanto for assim não saímos da cepa torta. Só lamento quem devia de dar o exemplo, seja o que mais faz para quanto pior melhor.

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