Oposição à oposição

Desde a maioria PS, em 2005, o maior obstáculo ao aproveitamento dos talentos nacionais, inteligências e vontades, tem sido a crise da oposição. À esquerda, temos duas forças que não podem ambicionar a mais do que aos 15-20% nos ciclos em que recolham extraordinário voto de protesto. Para crescerem acima dos 20%, teriam de abandonar o radicalismo lunático, alteração que, por sua vez, os faria perder o estatuto de contrapoder. À direita, a paupérrima qualidade dos seus quadros dirigentes conduziu o PSD para um progressivo terrorismo político, onde o labor programático foi substituído pela fúria caluniosa e conspirativa. O CDS assumiu o nicho e ficou a ver como paravam as modas, especializou-se em fiscalizações farsantes.

Eis o cozido à portuguesa que acaba de engrossar com um Parlamento onde não há garantia de governabilidade. Os partidos da oposição não querem assumir responsabilidades para além daquelas que considerarem de modo avulso, e chamam a esse oportunismo merdilheiro fidelidade ao voto recebido. Acontece que o voto se esgota na eleição. Nada mais diz. Não condiciona o eleito. Não pode. Apenas o responsabiliza, o que é algo que apela à sua acção, não à sua inacção. O voto assume que o eleito é capaz de representar o votante numa situação que já não é eleitoral, mas deliberativa, governativa. Continuar a invocar o voto recebido para não governar, ou impedir que outros governem, é estar a perverter o sistema democrático e seus ideais. A questão é de uma evidência confrangedora: caso um qualquer partido da oposição tivesse sido o mais votado, mas sem maioria, desistiria de tentar governar? Ou será que alinharia com a lógica boicotadora da democracia e recusaria qualquer tipo de negociação com a oposição alegando que os votos não lhes foram dados para andarem a fazer cedências aos interesses dos outros partidos? Estamos no reino da estupidez, o reino de Pacheco.

A crise da oposição prejudica gravemente a comunidade, cria disfunções e atrasos, até retrocessos. Não é no PS que está o problema da nossa democracia, bem pelo contrário. O actual PS ousa ser reformista, é uma força de crescimento da riqueza. O problema está naqueles que não conseguem ajudar-se a si próprios ajudando o País. Esses fazem-nos mal, muito.

[…]

Isto de ser Oposição, que devia ser uma fecundidade, é, em alguns casos, uma burocracia.

Por muito dolorosa, e ilustre, e corajosa, seja essa burocracia.

Ora como a burocracia é a consagração do hábito, e como, se temos algum hábito, ele é, hélas, a derrota, – parece que não resta outra solução a não ser abrir uma segunda frente. Uma segunda frente contra o nosso hábito e contra o hábito de vencer o nosso hábito.

Isto é, sermos Oposição à nossa maneira de ser Oposição.

Sermos, não uma dignidade ferida – mas um optimismo. Sermos, não um petardo – mas um motor. Sermos, não nós – mas todos.

Assumindo, do futuro, não somente o eclat, mas a responsabilidade. E a concretização. A um nível de competência e de rigor. A um nível de profissionalismo e de pormenor. A um nível de definição e de solução.

Ou seja, programaticamente.

Ou seja, provando ao País, não apenas o que tem perdido com os outros, mas o que pode ganhar connosco.

Porque a nossa dor não prova mais do que a nossa dor. E a dor inspira simpatia. Não inspira, necessariamente, confiança. Não prova, necessariamente, a eficácia da nossa via.

É essa eficácia que resta provar. É essa eficácia que resta programar. Prescindir dessa prova é uma arrogância. E um irrealismo.

E, até, uma incoerência, já que a democracia, sendo uma solidariedade, é um debate.

[…]

Isto é, o que importa não é propor uma ideia – mas um objectivo. Não um sacrifício – mas uma vantagem. Não um risco – mas um optimismo.

Não um manobrismo – mas um programa.

[…]

*

Portela Filho, Setembro de 1973

15 thoughts on “Oposição à oposição”

  1. Se há um texto que nos obrigue a pensar, este é um deles .Não é uma bica que se bebe logo de manhã e ala que se faz tarde.Temos que parar, olhar para o céu, para os outros e interiorizar oque se leu.É demais para um estômago frágil da noite.Vou entrar nos meus afazeres diários e continuar a pensar nêle. Lá para a tarde vou voltar aqui e escrever algo mais. Até logo.

  2. Val
    O texto é genial. Faz-nos bem logo de manhã termos leituras destas.
    Mas sugiro que este texto devia de ser lido pelo Presidente da Assembleia da República a todos os deputados, – no fim dar uma cópia a cada um, aos faltosos duas – para todos meditar e pensarem só no bem do Pais. Alguns vão andar de derrota em derrota até à derrota final.

  3. “A crise da oposição prejudica gravemente a comunidade, cria disfunções e atrasos, até retrocessos. Não é no PS que está o problema da nossa democracia, bem pelo contrário. O actual PS ousa ser reformista, é uma força de crescimento da riqueza. O problema está naqueles que não conseguem ajudar-se a si próprios ajudando o País. Esses fazem-nos mal, muito.”

    Sócrates apresentou a todos os partidos convites para acordos de incidencia parlamentar ou de coligaçao. Fez com base num caderno de encargos? nao me parece que existisse caderno de encargos que pudesse ir ao encontro de cds a cdu…

    Foram sérios estes convites? Só se se considerar sério negociar acordos sem ter em conta uma ideia de rumo politico, pensando só nos mecanismos burocratas e contabilisticos para fazerem passar leis e orçamentos de estado.

    O PS se nao queria governar sozinho tinha bom remédio, escolhia um rumo e um ou mais parceiros, apresentava-lhes possibilidades de polticas que pudessem fazer esse ou esses parceiros convergir com o proprio PS. Nao o fez, isso só o responsabiliza a ele. Cada um deita na cama que fez…

  4. “O actual PS ousa ser reformista, é uma força de crescimento da riqueza”

    Para alguns acho que sim, quem sou eu para duvidar do Val. Mas da minha não, infelizmente.

  5. Que tal deitar as culpas para o P.S.- não devia ter ganho.Tinha perdido e agora o P.S.D iria formar governo com o beneplácito sorridente e bonacheirão de Belem e o P.C. e o Bloco deviam estar satisfeitos. Como devem estar agora , pois sonham desestabilizar o País para poderem fazer o que quiserem. O unico obstáculo a bagunça é a actuação do P.S. com calma e ponderação. Vamos ver o que se vai seguir, qual vai ser o comportamento dos partidos na assembleia e qual vai ser o cmportamento do Presidente da República. Se quiser ser reeleito tem de ter um comportamento equilibrado e sensato, não se deixar levar pelas intrigas do gabinete e não pensar sequer em previlegiar qualquer partido. Será que consegue resistir às sereias tentadoras de que se rodeou quando foi para Belem ?

  6. o voto esgota-se na eleição? afinal ele há 40% de cidadãos espertos abstencionistas que se recusam a ser marionetes de possiveis eleitos , dado que o seu voto só serve para eleger marmanjos famintos e não para que os seus interesses sejam prosseguidos ou defendidos.
    E já agora , qual a postura de um PS que dá para todos os lados? Bate à porta do PCP e depois do CDS ? Não percebo porque há partidos. Deve ser para inglês ver.
    E , V , dizer que voto no PCP é voto de protesto? Santa paciência.
    E , ja . ja , ja…vais começar o choradinho de eu quero governar absolutamente mas os outros , cabrões , com interesses opostos e votos a corresponder , não deixam , por a minha quota de votos ser relativa às minhas ambições ? Só visto. 36 % , de 60% de votantes , uma ninharia , votou PS : faz-te à vida democráticamente , pá. Eu quero , posso e mando , adversários pró galheiro , mesmo que sejam 64& dos votantes , acho que não é democracia.

  7. O voto é uma arma
    Depois de ler alguns comentários fico com a sensação que alguns comentadores atribuem à abstenção como um voto de protesto. Para ser um voto, primeiro é preciso se deslocar à mesa de voto e descarregar o seu nome. Ao não tomar esta atitude, faz lembrar os escritos anónimos, que não têm coragem de criticar dando nome às coisas.
    Vivemos em democracia, não como no antigo regime, em que tanto valia ir votar como não, o resultado já estava planeado, aí é que quem não votasse demonstrava o seu protesto. Agora argumentar o contrário e vir para a praça pública tornar-se um opositor do regime não concordo, só favorece os anarquistas.
    Por isso digo que nunca vou perder o meu mais elementar direito, que é o meu voto, não vou dar a possibilidade a que outros decidam por mim. Isso nunca só se estiver mesmo entravado numa cama. Os que tantos lutaram e deram a sua própria vida para nos dar este direito e agora nós abdicarmos, isso é que era bom, não contem comigo para isso, hei-de criticar mas sempre votando.

  8. antonio manso, bem visto.
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    Manuel Pacheco, excelente sugestão que, quem sabe, o Jaime Gama até poderia aceitar.
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    rafael, o PS tem um programa com o qual foi a votos. Como não há maioria absoluta, resta a negociação com quem quiser negociar. Isto é simples.
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    Aristes, essa ideia de queres aumentar a riqueza pessoal à custa do PS é interessante.

  9. rafael, e foi isso que os partidos da oposição se recusaram a fazer, precisamente. Mas o que não se pode negar é a disponibilidade do PS para os acordos. Eis o ponto decisivo para aferirmos da responsabilidade de cada parte.

  10. Val

    em nenhum lado vi, li ou ouvi que o PS tivesse um caderno de encargos negocial para apresentar aos partidos. Se tem mais informaçao, por favor facilite-a que assim podemos julgar melhor da bondade da proposta do PS.

    O PCP, pelo menos – quanto aos outros partidos nao verifiquei – , numa nota do seu Comité Central após as eleiçoes apresenta algumas medidas prioritárias: o alargamento dos critérios de acesso e o prolongamento do período de atribuição do subsidio de desemprego; a alteração dos aspectos negativos do Código do Trabalho e da legislação laboral da Administração Pública; o aumento dos salários designadamente do salário mínimo nacional; o combate à precariedade; a valorização das pensões de reforma, a salvaguarda do direito à reforma aos 65 anos e possibilidade da sua antecipação sem penalizações para carreiras contributivas de 40 anos; a revogação do Estatuto da Carreira Docente e a alteração do modelo de avaliação, a revogação da lei de financiamento do Ensino Superior. Estas parecem-me constituir um pacote de medidas claras como base de discussao.

    nao querendo dizer que o PS teria de as aceitar todas, se o PS além do seu programa eleitoral tivesse tentado dar resposta a algumas destas solicitaçoes, provavelmente a resposta do PCP teria sido diferente…

    E, por favor, nao me digam que por calculismo eleitoral o PCP nao aceitaria um acordo, fosse ele qual fosse, para haver acordos, há que haver denominadores comuns minimos politicos…

  11. O Engº Sócrates não tem aberto o jogo em relação aos contactos com os outros partidos, como tambem no que respeita à constituição do governo. Não sei se é a estratégia certa, mas é a dêle e ele é o 1º Ministro indigitado. Se errar, tudo lhe caírá em cima, e também em cima de nóa.Mas confio nêle e na sua experiencia e no seu patriotismo. As agendas privadas das oposições, neste momento,só iriam complicar mais a formação do governo. Penso que ele quer “abrir o jogo” só no parlamento, e arrebanhar todas as vantagens que possa , no contacto directo com as oposições e com a exposiçao directa ao público dos partidos, e das suas tomadas de posição. É uma jogada arriscada, mas pode dar resultado. Não sou constitucionalista,mas que consequencias adviriam de uma rejeição prematura do programa do governo? E em que condições estará o P.S.D.? Parece-me que ele está a contar com divisões entre os sociais democratas e com uma asbtenção que lhe permitiria a passagem do programa, o que talvez já não fosse possível se tivessem existido acordos anteriores com outros partidos.

  12. Será que ainda há quem acredite que a discussão de politicas pode ser feita sem intervenção dos partidos? Só nas chamadas democracias populares a discussão de politicas era feita sem intromissão dos partidos(plural),pois só UM partido era autorizado,e a discussão era(é) um simples exercicio de dialéctica.Não se vê, pelo menos enquanto formos uma democracia, que se possa fazer de outra maneira.Talvez o B.E. possa explicar como agiria, se tivesse o poder.O que felizmente não acontece. Não me apetecia nada voltar à bagunça “circa” Novembro 1975.

  13. ninguém falou de eliminar os partidos, eu mencionei discutir politica sem calculismos partidários, o que é bastante diferente, quer dizer: discutir politcas concretas sem jogos de cintura, sem pensar o que vai ficar bem e mal na fotografia, mas defendendo aquilo em que cada partido acredita. A isto se chama ideologia e tem escasseado no nosso panorama politico-partidário…

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