Escuta, Israel

As declarações de Saramago acerca da Bíblia e religião têm a indisfarçável marca da senilidade. O seu cérebro regrediu ao infantilismo, mostra-se incapaz de discernir entre sentidos literais e figurados, denotação e conotação, sinal e símbolo, fantasia e realidade, histórias e História. Que fez Deus ao oitavo dia, pergunta um impaciente Saramago, farto de saber que o Barbudo esteve ocupado na criação dele próprio, o luciferino e rebelde Saramago. Ah, se lhe dessem metade, ou a metade da metade, ou a metade da metade dum cagagésimo do poder que Deus é, quanta actividade, tantos milagres… A semana não teria dias de descanso, ele não dormiria. E ai de quem recusasse alinhar na obra do Senhor Saramago, ai de quem se opusesse à Sua criação…

O registo alienado das suas declarações é equivalente a dizer-se que a Muralha da China é um atroz monumento à segregação étnica e racial, que as Pirâmides do Egipto nasceram da ociosidade da classe burguesa, que a destruição dos Budas de Bamiyan lhe poupou dinamite e que a empregada da Carolina Patrocínio vive em regime de escravatura por causa das putas das grainhas. Eis um anjo caído, furibundo com a tal avaria nos mecanismos celestes.

O fel de Saramago é primário e patético demais para merecer consideração. A sua visão materialista e biológica da divindade é grotesca, pois em nada corresponde aos significados dos textos, das práticas e das experiências dos religiosos. É enquanto cidadão que ele ofende os crentes, não enquanto pensador ou escritor. Como escritor, que escreva o que quiser. Como pensador, que pense se conseguir, o que não é o presente caso. Muito longe vai o tempo em que se deu a vida e o destino contra as tiranias de capa ou espada cristã – muitas e muitas vezes em nome dessa mesma Bíblia manipulada pelas feras e do sopro de liberdade que as suas palavras guardam. Muitos morreram para que Saramago pudesse ter nascido numa sociedade secularizada, científica e humanista. Essa guerra acabou, Deus morreu – não persigas o Deus ressuscitado, Saramago, pois ele esconde-se agora nos miseráveis e tu continuas a procurá-lo dentro do teu narcísico bestunto.

É impossível dizer que se leu o Antigo Testamento, ou a Tora, sem dizer que se encontra lá o exacto grito que Jesus lança em direcção ao Céu, nesse momento em que se transforma em nós:

Eloí, Eloí, lemá sabactáni?

Como sabemos, não vem dos que se sabem abandonados por Deus o mais leve perigo. O perigo vem dos que nos querem forçar a trocar de Deus. O perigo vem dos que alegam possuir a Verdade, mas não fazem o Caminho, nem celebram a Vida.

80 thoughts on “Escuta, Israel”

  1. Já li várias obras de Saramago e julgo que a sua Escrita é lúcida e não se lhe denotam traços de senilidade. Não é com insultos soezes como esse, pese embora a sua discordância das afirmações dele – que, pelo que tenho veridicado, têm sido coerentes – concorde-se ou não – e eu não concordo na essência com elas na vertente do ataque à crença de milhares de pessoas. De certo que será mais novo do que o Autor e por certo, se chegar à idade dele com as capacidades que se lhe vêm notando – e eu ainda não li o “Caím”, nem pertenço ao “lado” ideológico de Saramago – com certeza que não gostará que afirmações suas sejam conotadas com senilidade, até porque, que me pareça, ele próprio não se vai poder defender aqui neste espaço e, devido ao anonimato, muito menos o fará.
    Se tenho concordado consigo em alguns posts, devo dizer que notam-se, neste, motivos de alguma “perseguição”, o que, digamos, não abona muito em favor de quem as faz.

  2. Thiago, se nunca leste o Saramago, estás em bom momento para começar a ler.
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    Sinhã, estamos de acordo: na literatura vale tudo.
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    MARGARIDO TEIXEIRA, estás mesmo a falar a sério quando dizes que um tipo que é lido por 3 gatos pingados está a perseguir um Nobel que é lido por centenas de milhões e cujas declarações podem chegar a milhares de milhões? E a perseguição consiste em comentar as suas polémicas afirmações numa temática polémica por excelência? Sim? Pensa lá um bocadinho e volta cá com a conclusão.

    Quanto ao anonimato, a quem te referes? É que eu não sou anónimo, apesar de assinar com pseudónimo.

  3. Saramago publicita uma leitura primária, preconceituosa, demagógica, deturpadora, redutora e manipuladora da bíblia. E estúpida. Independentemente das crenças de cada um, é esta desonestidade intelectual que está em causa. Como se a bíblia se reduzisse ao velho testamento, como se todas os crentes fossem uma “quadrilha” (termo dele) de gente desonesta, violenta e imoral.

    É nisto que se vê o seu “grande amor pela humanidade”? Saramago nunca foi uma pessoa tolerante e está ressabiado porque, chegado ao fim da sua vida, as coisas não correram como ele tinha idealizado – Saramago é inquisitorial, sim.

    P.S. Considero que Saramago é um dos maiores escritores de língua portuguesa.

  4. Saramago tenta, à sua maneira, desmistificar os textos ditos “sagrados” que as religiões construiram para aconatonarem intelectualmente os seus seguidores.
    Talvez possa concordar que o momento encontrado por Saramago para falar de religião, mais não é do que um meio de publicitar a sua obra. Contudo, parece-me importante que a sociedade discuta o verdadeiro sentido dos textos que suportam as diferentes religiões. Tanta relevancia se atribui ao dialogo inter religioso que tem efeitos nulos e os textos ninguem os dicute. Porquê ????

  5. Uma das acusações que Saramago faz aos textos bíblicos é o facto de neles se descrever muitas violências, crueldades, imoralidades, aspectos muito sujos da humanidade e que tal coisa não é edificante nem aconselhável de ler.

    Pois que se censure todos os livros que da vida falam nesses termos. Porque a vida, de facto, não é cor-de-rosa, e Saramago deveria ser o último a apresentar este tipo de censura.

    Se está muito incomodado, proponha a bola vermelha na capa do Livro.

  6. VALUPI, se as aspas que inseri levam a não entender o termo, deverá haver, aqui, alguma manifesta incompatibilidade de comunicação.
    A temática é polémica, não há dúvida, mas do que não há, também, dúvida, é que alguns membros da(s) hierarquia(s) da(s) Igreja(s) e dos opinadores, precisam, eles também, de reflectir e serem confrontados com o contraditório. Há exemplos de alguns membros da Igreja Católica que não estão assim tão “ofendidos” como vou lendo pelos blogs.
    Eu que também sou “fruto” desta “educação” judaico-cristã, questiono-me muitas vezes mas não nos termos dos “intelectuais” – sou mais terra-a-terra…) e não encontro respostas (o domínio do invisível não é o meu timbre…), mas se decidi fazer o meu primeiro comentário ao post inserido foi porqu entendo que se pode discordar do conteúdo e da forma. Nunca, por nunca querendo sequer pensar em coartar a liberdade de polemizar (para a qual não estou, manifestamente, preparado).
    Se estou a voltar, como me instigaste, não é para qualquer CONCLUSÃO (julgo mesmo que esta matéria não tem conclusões e, como disse, não me sinto particularmente preparado para grandes dissertações…), é tão só por continuar a pensar que: TUDO É QUESTIONÁVEL… e saber, também, que “cada cabeça, sua sentença…” e, não sendo Juiz, não posso condenar ninguém…(diferentemente de poder apreciar, ou não, o seu conteúdo).

  7. Valupi, todos os dias se escrevem e dizem coisas menos certas, imprecisas, descontextualizadas e ate’ disparatadas. Ninguem de seu perfeito juizo se lembra de se sentir ofendido por isso. Entao, para
    la’ de desmontar aquilo que o Saramago eventualmente tera’ dito ou escrito de errado (eu nao li, nem
    ouvi em primeira mao), por que raio vir invocar a “ofensa” que tais dislates provocam nas almas sensiveis dos crentes? Se o Saramago com as suas eventuais simplificacoes e descontextualizacoes ofende os crentes, entao por que raio e’ que as caricaturas com a bomba na cabeca do outro nao ofenderiam os adeptos desse ultimo visado? Sera’ que a retorica tem asas que a razao nao consegue dominar?

  8. Acho que devemos ter direito a toda a informação a que pudermos deitar a mão. Pessoalmente, depois de algumas poucas visualizações de filmes (que têm muita clientela) em que moto-serras aparecem nas mãos de gajos com maus instintos a esquartejar inocentes, de filmes sobre o Holocausto, de noticiários vindos de, por exemplo, Israel e da faixa de Gaza, de Antigos Testamentos com cenas que tais, apetece-me concordar com Saramago. Ao menos os Judeus estão a tentar abarbatar as terras que os rodeiam, embora com o cortejo de desgraças que se conhece. Mas as moto-serras e o Antigo Testamento não levam a lado nenhum. Já alguém fez as contas aos milhões que são chacinados em tão louvada obra, das maneiras mais horrendas, para celebrar hipérboles e metáforas e coisas do género?
    Ná, não consigo recomendar a leitura. Mas também não a proibia. Nem aos filmes das moto-serras…

  9. Sobre Caim
    Desde já manifesto-me um leigo sobre a Bíblia, quem a escreveu de certeza que lhe acrescentou mais uns pós, mas qual o escritor que não faz isso – uma cozinheira não acrescenta umas ervas aromáticas para melhor sabor no seu cozinhado? Claro que sim.
    Pelo que me foi dado pela vida fora desde a minha meninice, foi uma educação católica, quando atingi a maioridade, escolhi o que mais me interessava, sendo cristão não praticante por vários motivos. Derivado à minha profissão e como estava a maioria dos sábados de serviço, era escalado para assistir à pregação do Evangelho que, várias religiões ali iam prestar aos reclusos. Desde o Movimento Estudantil para Cristo, Os Jeovás, Os Meninos de Deus, O Exército de Salvação, etc., etc. De todos colhi algo, na mesma religião vi uns mais fanáticos que outros, entre elas, qual a mais.
    Um dia na Madeira na cidade do Funchal, estava sentado num banco de jardim a descansar, quando se aproxima de mim duas senhoras idosas, com um livro debaixo do braço cada uma, que me perguntaram se me podiam dar uma palavrinha, anuí ao seu pedido, sem antes lhes dizer que sabia ao que vinham e que estavam sujeitas a ficar desapontadas com as minhas respostas, pela vida fora lidei com várias religiões e não comungava com a maioria delas. Foi-me perguntado se concordava que os padres fossem remunerados pelos seus serviços ou se devia de ser antes uma vocação? Respondi-lhes que todos nós precisávamos de ser remunerados porque não vivíamos só de oxigénio. Fui novamente confrontado que devia se ser uma vocação e que as vocações são para se praticarem e não ser remunerados. Perguntei de que viviam se não era dos cinquenta a cem euros que ganhavam pela minha conversão, ao que me responderam que comigo não se podia falar, que contradizia a sua vocação e davam por terminada a nossa conversação. Disse-lhes que as tinha avisado e que quem não quer lobo não lhe veste a pele.
    Como digo não me sinto dotado para falar sobre a Bíblia, queria deixar aqui uma opinião e dizer que a Bíblia ou a Religião Católica não nos ensina a praticar o mal, pelo contrário, tudo depende dos seus praticantes.

  10. Fiquei estarrecido com o que li, excepto o 1º comentário do Margarido com que concordo inteiramente. O senhor Valupi que diz que não é anónimo, mas eu não consigo saber quem é, que tem um pseudónimo, mas isso não lhe descobre a “careca”, continua a ser um anónimo no sentido do que se queria dizer e não passa de um novo inquisidor, que não aplica as chamas aos seus oponentes ideológicos porque hoje em dia isso já não fica bem. Paciência, decepções há-as em todos os dias da nossa vida.
    Agora é que eu vou dizer NUNCA e acrescento, que não sou contra os religiosos, praticantes ou não – para mim é tudo o mesmo – mas tenho pena de que acreditem em instituições humanas, que já praticaram o assassínio colectivo, durante séculos, a quem não tinha a fé criada por elas para substituir a ciência que hoje já põe em causa, definitivamente, as suas superstições maquiavélicas.
    Até sempre, este espaço não me “educa” nada, antes pelo contrário.
    Boa, Margarido, continue!

  11. Era interessante alguém pegar e desmontar aqueles textos que dizem sagrados.

    Já agora não esqueçam o que lerem no livro “o nome da rosa” de Umberto Eco.

    Da mesma maneira que seria interessante escreverem as rezas “pai nosso” e avé maria”. Façam a experiência …

  12. Pelos vistos, só o Saramago e os fundamentalistas é que tomam a bíblia literalmente…

    Quanto à educação das crianças, suponho que a razão porque Saramago continua a “acreditar” nas versões idílicas do comunismo redentor é que se as criancinhas conhecessem a verdade sobre as purgas e o goulag lhes faria muito dano…

    Ou seja, Saramago tem todo o direito à sua opinião…pena que não seja coerente…

    Luís Vicente

  13. Val

    A cocorrência combate-se melhorando o nosso produto. Aquilo que disse sobre o Saramago é a critica de uma pessoa dogmática. Os dogmas retiram liberdade ao individuo e amarram a Sua liberdade criativa. Já nos chega um César da Neves

  14. ” O perigo vem dos que alegam possuir a Verdade, mas não fazem o Caminho, nem celebram a Vida. ” Por acaso não estará a fazer um trocadilho com a editora Caminho ? É que se for isso, é de um extremo mau gosto… :)

  15. Os ateus, todos eles, sempre foram vilipendiados e retratados como primários e imbecis pelos cristãos. Houve uma altura em que os ateus eram simplesmentes queimados, por isso estamos a melhorar. Só raros grandes teólogos, como o católico, mas proscrito Hans Küng, compreenderam a possível grandeza do ateísmo.

  16. Não sei se o ateísmo de Saramago, na sua substância, tem alguma coisa que o recomende, sendo ele um materialista vagamente da escola leninista, que abomino. O que me agrada, a mim, é que Saramago não é um ateu bem comportado, daqueles que se calam sempre e até vão à missa se lhes convier. Quando ele diz «Não escrevo contra Deus, até porque ele não existe», está a falar por milhões que pensam o mesmo, mas geralmente se calam, para não arranjarem chatices.

  17. Diz manutor:”mas tenho pena de que acreditem em instituições humanas, que já praticaram o assassínio colectivo, durante séculos, a quem não tinha a fé criada por elas para substituir a ciência que hoje já põe em causa, definitivamente, as suas superstições maquiavélicas”.

    Diz Nik:”Os ateus, todos eles, sempre foram vilipendiados e retratados como primários e imbecis pelos cristãos.”

    Lembro que Saramago defende uma instituição humana que foi responsável pela morte de mais de 100 milhões de pessoas entre 1917 e 1947. Os regimes ateístas provaram ser do mais sanguinário que a história tem registado. Por isso, esse DOGMA de que os ateístas são as eternas vítimas não colhe.

    Não defendo instituições, defendo princípios éticos.

  18. It’s always the same! Always! Always! ALWAYS! Always the same… ( esta música teve o seu tempo, mas ainda é óptimo ouvi-la hoje em dia, tendo como cenário o debate religioso )

  19. Mas que raio de perspectiva (ou falta de) e’ esta? Discute-se o Saramago com
    o espirito da revista Maria ou do Reader’s Digest, e’? Entao, as escolas
    literario-artisticas nao se renegaram, insultaram, minorizaram, vilipendiaram
    umas ‘as outras ao longo dos seculos. E nao blasfemaram, e nao hiperbolizaram?
    E, ja’ agora, em particular, durante o sec XX. Faz parte.
    A Biblia esta’ acima disso (e nao e’ tambem, em parte, um bom exemplo disso mesmo? ou nos
    textos da Biblia nao se hiperboliza, nao se renega, nao se trai tambem? e’ um texto muito ponderado, com os argumentos de uma clareza e pureza do mais alto rigor matematico)? E que mais esta’ imune ao iconoclasta: o Shakespeare, o Camoes, o Pessoa (olha quem!), o Platao, o Maome’, o Buda? E’ tambem necessario
    fazer a venia e prestar vassalagem?

    A arte nao e’ feitas por gente muito educada e temerosa que precisa de
    colocar todos os pontos nos is e todos os tracos nos tts. Se fosse para falar
    sobriamente, sem efeitos de estilo e de retorica, nao eram artistas, nem
    estetas — eram professores de etiqueta!

    O Saramago e outros artistas falam para quem e’ capaz de interpretar o
    contexto do que dizem, e apreciar o que os faz mexer. Vamos agora querer
    pintar um “quadro” da historia da arte cheio de bons sentimentos? Com carimbo
    televisivo? E’ que ontem era um escandalo com a Maite, hoje e’ com o
    Saramago. Vai tudo dar ao mesmo, pelos vistos…

    Nao e’ o Saramago que anda a insultar o que quer que seja para vender mais livros.
    Sao os media que deitam foguetes e fazem a festa para ter mais leitores, mais
    telespectadores, mais comentadores. Vivem desses ‘fait divers’ por sao um vacuo
    completo, nao teem nada para dizer. Mas audiencia a conquistar. Caramba! E’ assim
    tao dificil de entender?

    Tenho a certeza de que se fossemos falar com o Saramago, seria uma tarde bem
    passada. Agora, “conversar” com o Saramago atraves dos mass-media e’ um
    contra-senso!

  20. Carmen Maria,

    Espero que esta descrição da Wikipedia lhe seja esclarecedora.

    “Um Estado ateu ou Estado ateísta é a rejeição de todas as formas de religião por um Estado em favor do ateísmo, habitualmente através da supressão da liberdade de expressão e religiosa.[1][2][3] Normalmente apenas os governos comunistas procuraram promover o ateísmo como uma lei pública, de acordo com a doutrina do materialismo dialético marxista.[4] Estados ateus foram implementados nos países comunistas da antiga União Soviética,[2][5] China comunista, Albânia comunista, Afeganistão comunista, Coréia do Norte e Mongólia comunista. O ateísmo nestes países inclui uma oposição ativa contra a religião, e perseguição de instituições religiosas, líderes e fiéis. A União Soviética teve êxito social em proclamar o ateísmo e discriminar igrejas, essa atitude foi especialmente observada sob Stalin.[6][7][8] A União Soviética tentou impor o ateísmo em vastas áreas da sua influência, incluindo locais como a Ásia Central.[9] A Albânia comunista sob Enver Hoxha chegou a proibir oficialmente a prática de qualquer religião.”

    Quanto à ética, se não sabe o que é, recomendo que comece a estudar o assunto, para poder saber do que fala quando coloca questões com muitos ???????????????????

  21. infantil é crer que há livros sagrados porque foram sussurrados nos ouvidos dos escribas ( hoje este fenomeno chama-se esquizofrenia) por um deus. se é manual de maus costumes , não sei , mas lá que incluí uns “textículos” que deveriam figurar num manual de estupidez , há.
    repare-se nesta passagem dos coríntios , por exemplo :

    “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo. Todo homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça. Toda mulher, porém, que ora ou profetiza com a cabeça sem véu desonra a sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada. 6 Portanto, se a mulher não usa véu, nesse caso, que rape o cabelo. Mas, se lhe é vergonhoso o tosquiar-se ou rapar-se, cumpre-lhe usar véu. Porque, na verdade, o homem não deve cobrir a cabeça, por ser ele imagem e glória de Deus, mas a mulher é glória do homem. Porque o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem. Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem. Portanto, deve a mulher, por causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade. No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher. Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher; e tudo vem de Deus. Julgai entre vós mesmos: é próprio que a mulher ore a Deus sem trazer o véu? Ou não vos ensina a própria natureza ser desonroso para o homem usar cabelo comprido? E que, tratando-se da mulher, é para ela uma glória? Pois o cabelo lhe foi dado em lugar de mantilha. 16 Contudo, se alguém quer ser contencioso, saiba que nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus.”

    Ora digam lá se não está ao nível do alcorão?

  22. Meu Caro Valupi:
    Entre o fundamentalismo laico, até mesmo ateu, de Saramago e os fundamentalismos religiosos do livro, eu sou pelo primeiro que é absolutamente inofensivo e nunca apedrejou ninguém, nem mandou ninguém para a fogueira, nem teve um patriarca capaz de levantar o cutelo contra o seu filho para o degolar. E degolava mesmo porque deus mandou, embora se tenha arrependido, o que em deus é raro e contraria a sua natureza !
    A senilidade pode confundir-se com desprendimento e muita sabedoria, ou vice-versa.
    Obrigado
    Jnascimento

  23. Jnascimento: os fundamentalismos são todos maus, pela intolerância que têm em relação a outras visões.
    O fundamentalismo ateu já matou tanto como o fundamentalismo religioso. Não percebo porque se branqueia tanto esta parte da História.
    As vidas das vítimas dos ateus são menos importantes que as vidas das vítimas dos religiosos?

  24. É indesculpável, incompreensivel e completamente inesperada a postura de um prémio Nobel face a um escrito que contem textos com cerca de tres mil anos. Faz-me lembrar o Vasco Graça Moura a classificar de «rabiscos» as gravuras de Foz Côa. A senilidade até poderá ser invocada, não para ofender Saramago, mas para o desculpar pela sua insensatez. E se não é senilidade, é algo bem pior: ódio, má fé ou raiva. Vá-se lá saber porquê. E se não é uma coisa nem outra, isto pode ainda piorar: publicidade a troco da ofensa gratuita a milhões de pessoas.
    Simplesmente incompreensivel. Só me estou a referir às declarações dele, não à obra literária.

  25. “É impossível dizer que se leu o Antigo Testamento, ou a Tora, sem dizer que se encontra lá o exacto grito que Jesus lança em direcção ao Céu, nesse momento em que se transforma em nós:

    Eloí, Eloí, lemá sabactáni?”

    Valupi: Jesus Cristo a gritar no Antigo Testamento?
    Não me parece…

  26. Edie, concordo muito contigo: aberrante caso de má-fé [pun intended] intelectual.
    __

    Carmen Maria, os textos religiosos discutem-se desde que foram escritos. E nunca se discutiram tanto como na modernidade e contemporaneidade. Milhões de pessoas dedicaram as suas vidas ao estudo dos textos religiosos. Assim, nas declarações de Saramago não se protesta contra o facto de ele ter opinião acerca dos textos, qualquer que ela fosse, antes contra a qualidade e intencionalidade daquela opinião ali expressa.

    Nenhuma religião pode impedir o estudo dos seus textos sagrados desde que essa investigação ocorra numa sociedade secular, onde a esfera religiosa não limita a liberdade civil.
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    MARGARIDO TEIXEIRA, usaste as aspas, pois sim, mas também usaste a palavra perseguição. Era a única que podias usar? Bom, foi a essa que eu reagi. Quanto ao resto que escreves, não posso concordar mais: tudo é questionável. Então, podemos questionar o Saramago quando ele questiona a Bíblia, a Igreja e Deus – ou melhor, quando ele não questiona…
    __

    Miguel, trazes boas perguntas. Na minha opinião, Saramago ofende no plano da ética, não da teologia. Ela ataca o direito à identidade, não a substância da fé (só diz merda boçal, nessa dimensão). Por outro lado, é também canalha, pois serve-se do material da Bíblia para escrever um livro e, na solenidade do lançamento, revela o seu desprezo por aqueles que ao longo de milhares de anos deram as suas vidas para que os textos tivessem sido conservados na sua integridade. Sem esses, Saramago não teria um Caim à disposição da sua pena.

    Dito isto, prefiro um Saramago ofensivo a um Saramago impedido de ofender. Só ele se pode impedir na sua liberdade, é esse para mim o critério – e os crentes que se fodam.
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    Joe Rod, estou contigo na proibição às proibições.
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    Manuel Pacheco, exactamente: a Bíblia não ensina a praticar o mal, é ao contrário.
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    manutor, estás preocupado por eu assinar com pseudónimo? Queres os meus dados pessoais? Qual é o teu problema, afinal?

    Quanto à parte do “novo inquisidor” não te entendo. Tens de ser mais claro na acusação para vermos se há algo que se aproveite.
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    Luís Vicente, nem mais: Saramago fala da Bíblia de modo ainda mais fanático do que o de uma Testemunha de Jeová, se tal feito for possível.
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    Joao Melo, apanhaste-me.
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    Nik, não há especial mérito em alguém dizer-se ateu. Será cada vez mais frequente e é a crença lógica numa sociedade secular, tecno-científica e individualista. Mas não passa de mais uma crença, não te esqueças.
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    Manuel Loureiro, foi.
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    mãe natal, o que torna um texto sagrado é o sentido que uma dada comunidade encontra nele, e que o faz permanecer no centro da vida comunitária como elemento de identidade de grupo e individual. Ou seja, a categoria do sagrado é concomitante com o advento da cultura, da linguagem e da inteligência mais complexa.
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    Jnascimento, fazes muito bem. Todos os que respeitem o Livro pensam e agem como tu.
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    Mario, nem mais.
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    A. Moura Pinto, não te parece que Jesus anunciou ter vindo para cumprir o que estava anunciado no Antigo Testamento (ou, para sermos mais rigorosos com o contexto judaico, na Tora)?

  27. Valupi
    No Antigo Testamento, só para aligeirar, temos os profetas e as suas profecias, anunciando a vinda do Senhor.
    Surge Jesus Cristo que ainda hoje não é aceite como sendo o enviado de Deus, nomeadamente pelos judeus, mas que os cristãos consideram como tal.
    É com Jesus Cristo que se separam as águas, no tempo, entre Antigo e Novo Testamento. Ora, as últimas palavras de Jesus Cristo, que citas, são do Novo Testamento. Porque Jesus Cristo não estava lá, no Antigo Testamento.
    Claro que para leigo e não crente é o que me parece, podendo estar enganado.

  28. Obviamente, Moura Pinto, as palavras citadas são da crucificação, é o “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. O que sugeri foi uma leitura do AT à luz desse abandono. Também os Judeus se perguntavam pelo mal, qual a razão de Deus permitir todas as violências contra o Povo Eleito. Nesse sentido, toda a Bíblia é um cântico, ou um grito, que nasce do abandono de Deus – ou seja, nela espelha-se a condição humana.

    E dito isto, esclarecer que noutras geografias, e de outras formas, também se exprime e desvela a condição humana, com não deve sequer ser preciso justificar. Apenas desenvolvo esta linhagem espiritual porque esse é o corpo a que Saramago se liga, seja para combater ou nele encontrar material literário. E também porque nos calhou em sorte sermos herdeiros da tradição judaico-cristã, para além da Grega e da Romana.

  29. Não há especial mérito em ter-se qualquer rótulo, se fosse isso estávamos plenamente de acordo. Mas isso de que não ter uma crença é ter uma crença não passa de uma velha blague de crentes que não suportam a ideia de que alguém o não seja. Já aqui discutimos o sofisma, sem proveito mútuo. Ficamos amigos. O individualismo, esse não vem nada ao caso.

  30. Vem, pois. O individualismo é o território ôntico donde Deus – e seus símbolos – desaparece. Quanto a não suportar ateus, era só o que faltava. Só lamento é não haver ateus mais militantes e dados ao debate. Aliás, qualquer místico é ateu, nem o poderia ser doutra forma. Mais uma vez, há que relembrar o b-a-bá: o ateísmo não corresponde a uma mera recusa enfastiada, antes é uma disciplina e uma investigação, um labor intelectual. Nesse sentido, o ateu está mais próximo de Deus do que o crente (outra blague clássica), posto que passa o tempo todo a pensar nele. Saramago é uma perfeita caricatura deste tipo de ateu ofuscado pela luz divina.

  31. Meus amigos – para mim é ridículo dizer que a Bíblia é um repositório de crueldades (como a do rei Davi) porque seria o mesmo que alguém dizer «não ouço discos do Sinatra porque a mãe dele era abortadeira e o pai um boxeur amador com um nome irlandês…»

  32. Não, jcf, estás enganado, a bíblia não é apenas um simples livro, ela é um manual de conduta bárbara e cruel e sob esse manual se cometeram as maiores barbaridades e os maiores crimes contra a humanidade, de facto, e hoje continua a ser o “farol” para milhões, de crentes baseado em dogmas sobrenaturais – não se podem provar? Acreditem pela fé – valendo-se da falta de respostas da sociedade em que se vive ainda hoje em dia.
    Não se pode estar a comparar isto com as barbaridades de regimes políticos que, duma forma ou doutra, os humanos vão fazendo desaparecer, porque de regimes concretos se trata, que poderão ser derrubados, embora outros vão aparecendo, a política tem dessas anormalidades também, mas de diferente natureza. O estalinismo foi-se, por ex., mas a Igreja, essa aí continua, como se nada fosse com ela, adaptando-se como camaleão às circunstâncias da vida moderna – já não estamos na Idade Média, mas por vezes parece que ela paira por aí, face que ao que se continua a pensar a este respeito. Com todo o respeito pelos crentes, acho que se pode contestar, como faz, corajosamente o Saramago, a teoria que tenta objectivar aberrantemente o que nunca poderá passar de uma subjectividade supersticiosa! Não sou PC, actualmente nem simpatizante, mas sou pela coragem do Saramago, que, como se vê pelas reacções abjectas, pôs em cheio o dedo na maior ferida de que a humanidade sofre, ainda hoje!
    E não tiveram pejo em fazê-lo, primeiro, achincalhando-o, apenas por ser naturalmente ancião, depois por ser comunista e esses factos atestam bem do carácter de quem faz este tipo de “críticas”.
    Manuel Torres

  33. Caí aqui vindo de um tweet do Paulo Querido e fiquei maravilhado com a tua maneira de escrever!
    Tenho lido muita coisa acerca deste tema, mas nunca tinha lido nada tão bom!
    Também gostava mesmo de escrever assim como tu.
    Parabéns.

  34. quem quiser ajudar a construir a arca de valupé que ponha o dedo (cuidado com o equilíbrio) no ar.:-D

    (menos tu querido paulo querido – já que há uns meses dirigi-te um pedido profissional e ignoraste – que és muito, muito, importante para estas coisas.).:-)

  35. A. Moura Pinto

    Aligeiraste tanto, que meteste água por todos os lados. Quem tem razão é Valupi. Vai ler Salmo 22 versiculo 2 e está lá escrito o lamento do Rei David, que no Novo Testamento foi posto na boca de Jesus: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste.
    Já pareces o Saramago a interpretar a Biblia…

  36. As afirmações do Saramago não têm pés nem cabeça, mas também não sei o que pensar dos responsáveis do Vaticano que sentiram necessidade de afirmar que a Igreja está muito acima do Saramago. Era melhor que não estivesse, enfim…
    Não há dúvida que alguns crentes estão ofendidos, um eurodeputado do PSD ficou tão ofendido que sugeriu mesmo a Saramago que renuncie à cidadania portuguesa.
    Com a crise de fé que para aí anda, os crentes deviam ver o lado positivo da coisa, afinal, não é todos os dias que as questões religiosas são notícia e não há nada pior do que cair no esquecimento.

  37. Mário
    O seu apurado conhecimento da Bíblia, conjugado com o tom “tolerante” com que se me dirige é que dá razão ao Saramago.
    Quando voltar às bem-aventuranças, retenha-se por lá um pouco.

  38. Pois é, quando se chega ao desplante de um Deputado eleito para o Parlamento (ou para lamento?) Europeu vir pedir a renúncia à cidadania do José Saramago, estamos entendidos quanto à polémica. Por que não pedir o mesmo ao tal deputado? Será que ele tem noção do que é a liberdade de expressão? O que é que a nacionalidade tem a ver com as opiniões? Alguém é dono absoluto da Verdade (a não ser a MFL- chefe do tal deputado)? Alguém, aqui, ou noutro fórum, consegue demonstrar por A B que foi o Saramago que cometeu um “sacrilégio” ou que é a Bíblia (nomeadamente o Antigo Testamento) que é “perverso”?
    É nesta dicotomia, mas sem ofensas pessoais, que se devem tentar esclarecer os aspectos mais escondidos nestas diferenças (e eu sou um “sorvedouro” nessa matéria).
    Sem querer entrar em polémica,sempre devo dizer ao Valupi que quando escrevi “perseguição” foi o termo que me pareceu apropriado para a prosa que escreveste e tal não pode ser levado à letra, porque se não todas as palavras, com aspas ou sem aspas nos poderiam atingir no nosso ego e a conotação delas terá de ser entendida no seu contexto – e não estão a ensinar o padre-nosso ao vigário. Há, manifestamente, na tua escrita sobre esta temática, uma forma de tentar minorizar aquela pessoa em concreto, demonstrando um certo ar de supremacia – foi pelo menos o que me deu a entender.
    Mas sobre isto fico-me por aqui e quero transmitir o meu apreço pelas ideias que nos transmites e que para mim têm sido uma lufada de ar fresco, que muito aprecio.
    Cumprimentos.

  39. Val

    Discordo quando diz que a esfera religiosa não limita a liberdade civil, pois creio que é exactamente a liberdade civil que é posta em causa pelas religiões. Recentemente tivemos o caso da legalização do aborto em Portugal, ou a questão do uso de preservativos em África de entre outros casos.

    Também não sou contra o estudo dos textos “sagrados”, pelo contrario. Devem ser estudados e as conclusões conhecidas.

    Era importante criar-se uma reflexão que abrangesse as religiões politaístas. Julgo que encontrariamos outras bases para tratar do tema das religiões actuais.

  40. Sempre houve interesse em considerar que as questões religiosas são superlativas em relação a outras de âmbito pessoal ou social. É uma treta. Confrontarmo-nos com as nossas limitações tem tanto mérito como questionarmos outras convicções quer sejam políticas, profissionais ou até estéticas.

    O mundo não passou a estar mais ordenado por causa da fé. Quando muito ela pode ter sido uma ferramenta importante para nos acomodarmos à nossa ignorância. Mas isso não deve impedir que a critiquemos ou possamos pôr em causa as suas bases.

    Eu sou um ignorante da bíblia. A minha experiência resume-se a leituras esporádicas de alguns trechos ao sabor do acaso e a um pouco da sua História. No entanto, sou tentado a dizer que não há obras humanas completamente perfeitas. A bíblia é, certamente, um extraordinário documento sobre a condição humana mas também um eficaz instrumento de padronização do comportamento e perpetuação de hierarquias e poderes. Nessa condição tem erros e tem sido causa e justificação para enormes injustiças que sobrevivem até aos nossos dias. Como a discriminação das mulheres, por exemplo.

    Aceito que as declarações do Saramago possam ser primárias em muitos aspectos mas isso, só por si, não lhe retira razão e até pode ter sido intencional. Daí extrapolar intenções escondidas ou pretender atingir aspectos pessoais da sua vida só serve para lhe dar razão e não acrescenta esclarecimentos ao debate.

    Já a proposta do eurodeputado Mário David do PSD só merece que se pergunte: Então, e não vai uma fogueirinha?

  41. Moura Pinto

    Diga-me em que é que fui intolerante consigo! Apenas não tolerei a falta de exactidão. Aliás, também não sei a que propósito trouxeste à colação as bem-aventuranças. E quanto a Saramago, tem todo o direito de dizer sobre a Biblia ou qualquer outro assunto, tudo o que lhe der na real gana. Mas terá de aceitar ser confrontado com as verdades ou falsidades expendidas sobre tais assuntos. Terá de ser corrigido, se for caso disso, como eu o corrigi a si, sem se mostrar ofendido. Imagine o que é para um arqueólogo ouvir o Sr Vasco Graça Moura chamar «garatujas» às pinturas rupestres de Fioz Côa! E se o V G M é um qualquer escritor ou tradutor menor, Saramago é um prémio Nobel e deve enobrecer a ciência. Rebaixa-o manifestar ignorância tamanha sobre uma obra, quase toda ela literária, nascida em contextos sócio-culturais de há mais de dois mil anos.
    Eu desculpo o analfabetismo dos jeovás que me batem à porta. Não desculpo o prémio Nobel, que tanto me envaideceu como português.

  42. Parece um pouco estranho que os comentadores que aqui se arvoram em detentores da verdade da razão por oposição à da fé (penso que podem ser verdades semelhantes, por vezes),fiquem tão ofendidos quando confrontados com argumentos racionais e factuais e descambem logo para acusações de intolerância e perseguição…

  43. Saramago reafirma o seu saber:
    Num encontro com a imprensa, o prémio Nobel da Literatura, José Saramago voltou a repetir-. Ainda que negue ser homem de polémicas e apenas exortar as suas “convicções”, lá vai dizendo o de sempre: “O Deus da Bíblia não é de fiar: é vingativo e má pessoa.”

    Sem perder o tom irónico e mantendo a polémica, Saramago ainda aproveitou para reforçar as suas convicções de ateu confesso: “Antes da criação do Universo, que se saiba, Deus nada fez. Depois, fez o Universo em seis dias e nota-se, como diz a minha mulher, Pilar. Ao sétimo dia descansou e continua a descansar até hoje.”

    Esta podia ser a resposta a Saramago e à sua grande sabedoria superior a milénios de civilização:
    “Porque nós não sabemos, pois não? Toda a gente sabe. O que faz as coisas acontecerem da maneira que acontecem? O que está subjacente á anarquia da sequência dos acontecimentos, às incertezas, às contrariedades, à desunião, às irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos?
    Ninguém sabe, professora Roux. «Toda a gente sabe» é a invocação do lugar-comum e o inimigo da banalização da experiência, e o que se torna tão insuportável é a solenidade e a noção da autoridade que as pessoas sentem quando exprimem o lugar-comum. O que nós sabemos é que, de um modo que não tem nada de lugar-comum, ninguém sabe coisa nenhuma. Não podemos saber nada. Mesmo as coisas que sabemos, não as sabemos. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É espantosa a quantidade de coisas que não sabemos. E mais espantoso ainda é o que passa por saber.”

    Philip Roth, in “A Mancha Humana”

    A minha resposta muito menos sábia: Só não vê quem não quer: Saramago está de mal com a vida e amargurado pela sua falta de fé nas pessoas. Pobre diabo!

  44. Não sou apreciador de Saramago , mastenho tido a preocupação de o ler e tentar aceitar e compreender o que ele quer dizer no que escreve .Reconheço a excelencia da sua escrita e a sua qualidade que levou o comité Nobel a darlhe o prémio. Tambem reconheço, pois já li a Bíblia ,aquilo que ele quer dizer, referindo-se ao Antigo Testamento, principalmente.Tem muita violencia,muita desumanidade,muita maldade gratuita, e se há um Deus ,ele deve pensar como Saramago e as injustiças , as violencias , os castigos desproporcionados,não são nem podem ser apanágio do Deus caridoso e misericordioso que os católicos veneram.A religião como justificação para uma tirania, o machismo, a crueldade, não é digna de sociedades civilisadas. Como tambem não é digno um deputado eleito por compatriotas tomar a atitude que tomou o sr. do P.S.D. eleito para o parlamento europeu.Mais uma excelente escolha da grande lider.

  45. já agora,

    é só para dizer que três dias de chuva acho bem, para deixar tudo lavadinho e a brilhar, e as albufeiras sossegadas pour l’instant. Mais acho mal! Ouvistes, Pá?

  46. religião , deuses , catedrais , rituais , profetas , vendedores de banha da cobra e medo, controlar a mente e o corpo das pessoas
    economia , mercados , centros comerciais , consumo, publicitários , vendedores de banha da cobra e ilusões , controlar a mente e o corpo das pessoas ( que o diga o silicone)

    acresce que nos 2 casos : quem conta um conto acrescenta um ponto.

    E são muito bonitas as definicões de sagrado à mircea ou levy strauss , mas acontece que por causa das ” sagradas escrituras” , a palavra de um deus melhor e mais verdadeiro que todos os outros , o sagrado “natural” de muitos povos foi arrasado e passou à categoria de profano , melhor , de diabólico.
    Ps ) os etólogos já toparam que alguns macacos têm assim uma espécie de lugares sagrados , já agora.

  47. Mário
    Deve ter dificuldade em ler o que escreve. Já tinha sido corrigido pela Valupi e não voltei ao caso. Compare-se agora com o Valupi e tire as conclusões, se for capaz. Tenha nisso, nas conclusões, em atenção o seu remate “Já pareces o Saramago a interpretar a Bíblia”.
    Mas teria que ir mais longe, na sua “tolerância” com essa do “analfabetismo” das testemunhas de Jeová que, felizmente, podem contar com a sua benevolência. Talvez porque os tempos não estão para fogueiras.
    Sobre VGM, lamento que um bom escritor, um excelente tradutor – coisas em que discordamos, pelos vistos – seja, como comentador político, uma autêntico trauliteiro. Mas uma coisa não me impede de ver a outra.
    E fiquemos por aqui.

  48. A entidade Deus, criadora do universo e dele independente, é uma fábula humana. O Universo é que existe, ninguém o discute, mas é um caos sem princípio nem fim. Só os seres dotados de consciência podem deitar umas gotas de sentido nesse imenso caldo caótico. A ciência, a arte, a filosofia, as fábulas religiosas ajudam os humanos a construir esse sentido. Está bem assim pra ti, Val?

  49. Está bem para mim, Nik. No caldo, há que saber encontrar batatas, feijões ou grãos de bico. Os que gostam do caldo passadinho, não vêem nada e passam pela vida passadinhos de todo.

    Querem outra metáfora?

  50. Para finalizar a minha participação aqui, não podia deixar ainda de pôr esta canção, que eu considero o hino da minha vida, desde que a ouvi – todos sabemos que o que nela está escrito é UTOPIA face à natureza do sapiens.
    Mas sempre será muito mais positivo IMAGINAR que o utópico um dia se tornará realidade, do que combater feroz e indignamente, como aqui se fez, a CRÍTICA JUSTA a uma realidade que contribui para atrasar a evolução da humanidade nesse sentido, ou, no melhor sentido possível, pese embora a adesão, ainda, de milhões de pessoas a essa cruel realidade instituída em nome da superstição e do MEDO!
    Aqui vai então e até ao meu regresso: http://letras.terra.com.br/john-lennon/90/

  51. Que giro, o Saramago, em entrevista à Judite de Sousa, acaba de afirmar que está disposto a um debate com representantes da igreja, desde que venham de boa-fé. Dese quando o homem acredita em questões de fé?

  52. Paulo Querido, malhar na ICAR tem méritos inquestionáveis. Infelizmente, nem isso Saramago conseguiu fazer. E se és um ateu desleixado, isso faz de ti um crente imprevisto. Óptima condição.
    __

    Pedro Caeiros, felicidades para as tuas actividades catequéticas.
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    valeria mendez, e eu também concordo contigo.
    __

    guida, os responsáveis do Vaticano têm dito muitos mais disparates do que o Saramago, também porque começaram a dizer disparates há muito mais tempo do que o Nobel da guerra à Bíblia. Mas, neste caso, até acabam favorecidos pela polémica.

    Quanto ao deputado do PSD, aí esteve muito bem Saramago. Recusou responder-lhe, naquilo que foi a sua eloquente resposta.
    __

    MARGARIDO TEIXEIRA, mas não há qualquer mal, pecado ou heresia em teres usado o termo “perseguição”. Contudo, como o usaste, foi a ele que respondi, com aspas e tudo. Ora, voltas a reincidir na ambiguidade: “uma forma de tentar minorizar aquela pessoa em concreto, demonstrando um certo ar de supremacia”. Bom, talvez, será uma interpretação possível, claro – mas, atenção: estou apenas a comentar as suas declarações. Ou seja, eu não discorri acerca de Saramago fora da relação com este caso das afirmações aquando do lançamento de Caim. Tal como eu não comecei uma campanha para denegrir Saramago ou limitá-lo seja em que direito for. Limitei-me a fazer uso da mesma liberdade que permite a Saramago dizer o que lhe dá na gana.

    Onde vês o problema?
    __

    Sinhã, viva!
    __

    Carmen Maria, o exemplo que trazes tira-te toda a razão: a Igreja não foi tida nem achada na questão do aborto, os cidadãos é que decidiram por eles próprios. Quanto aos preservativos em África, as pessoas ligadas à Igreja também os distribuem. A questão é muito mais complexa, e bondosa, do que te está agora a parecer.
    __

    tra.quinas, o que dizes da Bíblia, do cristianismo e da Igreja é exactamente o mesmo que foi dito pela História. Por isso, hoje vivemos no Ocidente em sociedades secularizadas, onde vigora um humanismo sem deuses outros que não sejam a Lei, a democracia e a primazia ao desenvolvimento científico e tecnológico.

    Quanto à extrapolação de intenções e aos aspectos pessoais, é conversa. As conversas têm essa liberdade, ou libertinagem.
    __

    Edie, dizes muito bem: Saramago é um ser amargurado.
    __

    Pedro Lascasas, obrigado!
    __

    antonio manso, muito bem.
    __

    mãe natal, essa dos macacos é fixe.
    __

    Nik, e como sabes que só o Universo é que existe, sequer que o Universo existe?… Pois, são estas as questões mais originais, pois são as que estão mais perto da origem. E são as mais velhinhas, são as melhores. Repara, se Deus é uma fábula, que dizes do Teorema de Pitágoras? Atalhando, o que é que no humano não é uma fábula humana?

    Universo como caos? Nada mais contrário às fábulas empíricas e matemáticas dos fabulosos humanos. Se há algo que a ciência vai sedimentando imparavelmente é o oposto: tudo no Universo é passível de intelecção – ou seja, a realidade, em qualquer dos seus constituintes ou dimensões, tem um sentido intrínseco, é uma racionalidade. O que se disputa, e abre para um ilimitado, é o campo da reflexão, onde os dados sensíveis, materiais, empíricos, objectivos, mensuráveis, aferíveis, repetidos, os modos e conteúdos da universalidade da experiência humana, dão azo a construções narrativas que desembocam na própria natureza da linguagem verbal e sua complexa – divina? – criatividade.
    __

    claudia, sábias palavras.

  53. engraçado dizeres que as palavras da claúdia são sábias , senhor passe vite. a resposta ao nick? ainda nenhum cometa chocou com a gente , nem o sol explodiu por que lhe não deu na gana. o facto de haver uns tantos humanos a achar que somos produto de um deus que não nos vai deixar cair , por causa do pi , não faz com que isso seja verdade. a soberba é um dos pecados piores. e tu tens montes.

  54. Um amigo meu disse-me para vir ver isto, principalmente depois do senhor bloguista ter feito um post miserável sobre o livro do Saramago. De facto, passada uma vista, o bloguista, pôs e tem posto a nu nas respostas aos comentários, a sua identidade intelectual, igual a tantas outras que por aí grassam: – um filho de “boas” famílias, talvez, intelectual talentoso e culto, presumidamente progressista, convencido da sua arte e verve, mas… por debaixo dessa capa, um reaccionário clericalista, seguidor, talvez, das tradições familiares, contudo, como é próprio dos seres/famílias arregimentados pela Igreja Católica, retrógrado até dizer chega. Por isso este país não passará da cepa torta, atado pelos seus melhores potenciais a valores medievalistas e obscurantistas. D’asss, fugir daqui, a 7 pés!

  55. achei graça a essa do regresso Manel, com um pé ligeiro e outro já com saudades… Pois eu ainda não percebi nada disto mas acho muito bem que se o Papa vem aí e isto está tudo cheio de opus dei como o Cavaco, a ferrugenta, o marcelllo, e sei lá quem mais. Exactamente é esse sei-lá-quem-mais que não gosto porque Portugal é um Estado laico e vai-se a ver andam lá todos empoleirados e escondem!

    Portanto veio o Saramago fazer tremer isto tudo, e como compete à ordem natural das coisas, ir-se-á mais longe na polémica e acho bem,

    Desde que Deus não me falte com o Sol eu continuo crente, mas fora do baralho.

  56. z, só por ti, obrigado. Laico mas pouco, como quase em todos os os aspectos a hipocrisia grassa. Mas é assim. Nem vale a pena dizer mais nada, a tua sabedoria fez-se sentir!

  57. z, acabei de ler isto no Random Precision do Luís Grave Rodrigues, que é um blog, que, por ser tão anti-religioso, eu não costumo citar, para não ofender susceptibilidades religiosas, mas como este post que aqui se comenta não o é menos radical e ainda é mal-educado, aqui vai:
    Blasfémia!
    Só há uma razão para os crentes se indignarem tanto com as críticas ao seu Deus e até aos seus objectos sagrados: São eles os primeiros a ter consciência do profundo ridículo da sua religião, e do quão risíveis e até patéticos são os dogmas que adoptaram para comandar as suas vidas. O medo da blasfémia não é mais do que um pavor ancestral que os crentes têm de ser confrontados e de terem de admitir tudo isso. Refugiam-se então no argumento imbecil de que os seus dogmas têm de ser convenientemente interpretados, porque o que a Bíblia diz não é bem aquilo que a Bíblia diz. A Bíblia conta-nos que Deus mandou Abraão sacrificar o filho, que mandou Josué destruir a cidade de Jericó porque os seus habitantes adoravam outro Deus, que mandou matar um chefe de família que apanhava lenha ao sábado, que destruiu Sodoma e Gomorra porque considerava aberrantes os seres humanos em razão da sua orientação sexual, que mandou apedrejar até à morte as mulheres adúlteras, que matou todos os seres vivos da Terra num dilúvio…
    Pois bem: se tudo isto são parábolas, se tem de ser integrado num contexto e se, enfim, tudo isto é simbólico, então alguém que me responda:
    – Simbólico de quê?… In http://rprecision.blogspot.com/

  58. Manel eu sou um romeiro, não sou ninguém, e assim é que gosto. Mas foi só há 3 anos ou por aí que eu descobri que a minha vida não é minha, é da Vida. Claro que ainda rosno e até ameaço morder e tudo, mas isso é irrelevante.

    Também foi só o ano passado que descobri, a escrever um texto, que terror vem de terra/ território, e o verbo latino que comanda é terrere, que comanda terrorismo também. Continuamos tão básicos, tão biológicos …

    Para mim é adquirido que a minha vida é um trajectozinho num campo de forças muito vasto, onde quando tenho sorte, vôo. Se a coerência sintáctica desse campo de forças é Deus, JHVH, ou outro nome tanto me faz, desde que haja Sol. Quanto à semântica ainda patino.

    E lá vou eu esticar as patas que ando às voltas com a mata atlântica, e a mata mata.

  59. Nihilinho, se vieste comentar um “post” acerca do livro do Saramago, estás enganado no blogue. Quanto ao resto, fico com a impressão de que fazes bem em fugir.
    __

    Nik, lamento saber disso e espero que te passe depressa.

  60. mas afinal que percentagem das esmolas dos portugueses é que vai para o Vaticano?

    não que seja por interesse.
    é só curiosidade Histórica.

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