Justamente

As reformas que a partir de 2005 foram iniciadas correspondiam, no espírito, a uma rara unanimidade. O tema das reformas dominou o discurso de Sampaio, tomado aqui como mínimo denominador comum da política nacional, desde o abandono de Guterres. O regime estava, indisfarçavelmente, enterrado num pântano de inércias e vícios adquiridos no período revolucionário, uns, herdados do salazarismo, outros. Trabalhadores, classe média e patrões, todos tinham boas razões para acolherem um Governo reformista. O sarilho era conseguir conciliar interesses aparentemente tão díspares, quiçá contraditórios. Isto, para começo de conversa; ninguém sequer discutindo a viabilidade do intento reformista num país politicamente imaturo, intelectualmente débil e civicamente atrofiado. No estouvado Governo de Santana, ainda banzos com a traição de Barroso, o desânimo era avassalador. Superior à aguda consciência da necessidade e urgência das reformas, na pena dos publicistas ao tempo, só a mais inamovível descrença na capacidade da classe política para as efectuar. Foi este caldo cultural e sociológico que deu a 1ª maioria absoluta ao PS – o povo queria coragem na governação, queria fugir da decadência.

Depois veio um Sócrates que era como os melões, tinha de abrir-se para saber o que valia. Aqueles que desvalorizam o que foi alcançado no campo das reformas, são apenas banais mentirosos. Mas aqueles que desvalorizam o que foi tentado, e que por razões diversas está incompleto ou não passou dos primeiros passos, estão a ser sinceros. Eles não compreendem o alcance de, pela primeira vez, um Governo ser capaz de exigir a fortíssimos grupos de interesses novas e mais justas regras. A novidade é tão grande que mesmo as reformas apenas começadas provocaram alterações simbólicas percepcionadas pela comunidade. E em nenhum outro campo a alteração simbólica é tão importante como no campo da Justiça. Porque não temos problema maior, mais grave e mais difícil.

Este texto de Ricardo Sardo é um de muitos que anuncia esta nova era em que a comunidade começa, finalmente, a exigir da Justiça o cumprimento do ideal democrático e o fim da sua perversão impune. Esta questão diz respeito a todos os portugueses que estejam dispostos a exercer a sua soberania. Pois é disso que se trata, justamente.

5 thoughts on “Justamente”

  1. – Val, como sempre, o seu comentário contém uma análise correctíssima da situação actual do país. Sobretudo, devemos reflectir como tão bem o diz nesta sua frase que aqui reproduzo: “O sarilho era conseguir conciliar interesses aparentemente tão díspares, quiçá contraditórios. Isto, para começo de conversa; ninguém sequer discutindo a viabilidade do intento reformista num país politicamente imaturo, intelectualmente débil e civicamente atrofiado”.

  2. A coragem de Sócrates,e de todos os que o acompanham ,a resistencia aos insultos , a mexeriquice e a mesquinhês , a desonestidade de alguns jornalistas, vem justificar a vitória do P.S. nas legislativas, mesmo com o desgaste dos 4 anos de Governo. Nem tudo foi perfeito, nem tudo foram rosas, e só é pena que o melhor ministro da economia que tivemos desde sempre tenha saído por um gesto irrefletido e temperamental.José Sócrates merece e o P.S. merece um governo minoritário mas sossegado e realizador, para bem de todos nós.

  3. Val, há muito (desde que começei o estágio da Ordem) que critico os podres da nossa Justiça. E quando criei o Legalices (meu primeiro blogue), sempre apontei os problemas e o que está mal no “sistema”. Ainda hoje o fiz, agora sobre o Citius, o maravilhoso programa informático que os magistrados combatem.
    O problema é que, com o actual (ainda) Ministro da Justiça, travou-se uma guerra entre as corporações. O fim das férias judiciais desencadeou uma onda de protestos contra o Governo, onda essa que Alberto Costa (e João Tiago Silveira e Conde Rodrigues) não teve a perícia suficiente para quebrar.
    Há muita coisa que aqui poderia escrever, muitos problemas que poderia elencar, mas a tudo e resume a uma questão: mentalidade. Temos muitos Velhos do Restelo na nossa Justiça e os problemas só poderão ser ultrapassados com uma nova atitude e uma mentalidade mais aberta e menos conservadora e corporativista. Como já disse o Bastonário Marinho Pinto, a Justiça deve servir as pessoas e não estas a servir a Justiça e os seus operadores.
    Cumprimentos.

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