Solução madura

Era o filho pródigo do Regime.
Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico.
Estava talhado, calibrado, destinado.
Não era um acidente – era uma raça.
Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam, com um olhar terno.
Era Marcello.
Era Rebello.
Era de Souza.
E, excessivamente, Nuno.

*

Portela Filho, Janeiro de 1974

16 thoughts on “Solução madura”

  1. li algures que a ferrugenta excluiu o Passos Coelho por ele ser maçon. Ora se assim é já gosto mais do gajo. Eu não sou maçon mas opus dei & BPN é que não. Como este aqui, que carinha!

  2. Já olhei. O Joaquin está vivo, acabou por se fazer justiça. Quando é que foi a última vez que um inocente foi condenado à morte? Não digo na China ou no Irão, mas num país civilizado, onde a Justiça ofereça as máximas garantias. Sejamos objectivos: esse Joaquin foi vítima não da lei, mas da ex-mulher. E de um péssimo tribunal, que o condenou sem provas materiais, fundado apenas no testemunho da megera vingativa. Pois é, um tribunal também pode cometer erros criminosos, tal como uma pessoa de maus instintos pode tramar outra de muitas maneiras.

    Como vimos no domingo, um homem pode matar outro com um tiro de caçadeira na cabeça, dado pelas costas, friamente, por razões mesquinhas. Provavelmente pensando: “Vou passar uns anos à cadeia, mas ele morre. Fico a ganhar”. Justiça, nesse caso, onde está?

    A pedra base do Direito é a proporcionalidade da pena ao crime. Oito ou dez anos de privação de liberdade por uma vida roubada parece preço de saldo. Sempre estranhei muito que os inimigos da pena de morte, que tanto prezam a vida dos criminosos, valorizem tão pouco a vida das vítimas. É uma contradição flagrante, inexplicável. Será que, consciente ou inconscientemente, os inimigos da pena de morte se identificam mais com o criminoso do que com a vítima?

    Uma justiça penal mole ou que perdoa aos criminosos está a promover o crime e, por outro lado, a instigar à vingança e à justiça privada. Não se pode fugir a isso nem assobiar para o lado.

  3. Há uns tantos nos EUA que só depois de mortos é que se descobriu que estavam inocentes, por causa dos testes de ADN. E esses?

    Dirás que são vítimas inevitáveis num sistema que se queria perfeito mas não é, não?

    A tua proporcionalidade está certa na lógica de talião: morte por morte.

    Quanto à questão de que se a inexistência de pena de morte agrava ou não a propensão para o homicidio concordo que é relevante. Mas lembro-me que numa certa altura, faz tempo, olhei para estatísticas disso e concluí que não, talvez tenhas elementos em contrário.

    Não assobio para o lado, acho bem que o tempo de prisão para um assassino possa ser longo, 30 anos, por exemplo. Sair a ganhar? Que se interroguem sobre o contrário. Parece que eles no Brasil não têm limite para o cúmulo jurídico, mas também não tenho a certeza.

  4. Já agora, mais importante que Marcellllllo, por onde anda Portela, o Filho, que tanta falta faz ao País ?
    Jnascimento

  5. Era o filho pródigo do Sistema
    Fizera, não fizera, fizera, na Engenharia Independente, a ideologia, a família moral, o destino histórico.
    Estava talhado, calibrado, destinado.
    Não era um acidente – era uma raça.
    Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.
    E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, com o seu olhar distante e frio, o seu gesto comedido, todos os boys, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam, com um olhar terno e submisso.
    Era Sócrates.
    Era Pinto.
    Era de Souza.
    E, excessivamente, José.

  6. Valupi,
    Este texto de Portela Filho, datado de Janeiro de 1974, é um “achado”… Obrigado!
    Aquele Abraço :)
    Ana Paula

  7. Nunca pensei vir aqui encontrar um bloguista, crítico cerrado de tantos políticos “ajardinados”, defensor da pena de morte – Foi uma decepção, mas lá que é desassombrado, isso é! Já não me admira nada que nos EUA, na maioria dos Estados e no Governo Federal, exista ainda a pena de morte e tão banalizada… Questões de política – http://www.resistir.info/eua/capital_punishment_port.html

  8. Oito ou dez anos de privação de liberdade
    Por um homicídio geralmente a pena varia entre dezasseis e vinte e cinco anos, quando a privação de liberdade for de oito a dez anos, quer dizer que o homicida foi condenado de doze a dezasseis anos, o que se depreende que foi um homicídio simples. Para só cumprir dois terços da pena teve de beneficiar das atenuantes da lei, ou seja, por ser primário, do seu comportamento, a não rejeição da sociedade no seu meio ambiente.
    Todo o homicida dá cabo de uma vida humana – se assim não fosse não havia razão de ser homicida e preso – mas, ao mesmo tempo dá cabo da sua, passou a ser quase um farrapo humano. Não tem voto na matéria é quase um robot, não sei o que preferia entre uma coisa ou outra. Só quem não conhece a vida dos homicidas é que por vezes não sente pena destes, na maioria das vezes, deveu-se a perturbações mentais, não acredito que uma pessoa no seu estado normal ou previsse o alcance do mesmo, cometa actos destes. Não me estou a referir a actos terroristas ou à maioria dos homicídios cometidos por gangs, estes sabem fazer as coisas e nunca dão a cara e raramente beneficiam da flexibilidade da pena, a não ser por força da lei que são os cinco sextos.
    Quantas noites tocam à campainha da sua cela, a chamar o guarda, porque sentem medo, ou porque dizem que não podem dormir que observam a sua vítima, sentem-se inseguros e arrependidos do seu acto. Com isto não os defendo mas quem passa uma vida a lidar com este tipo de situação, tem uma opinião diferente, quantos jovens estão nesta situação e são um exemplo, quer no seu arrependimento e comportamento. Conheço casos de crimes dos mais horrendos e se forem constatar como estão os seus autores, se não lhes disser os crimes que cometeram não se acreditam que estas mesmas pessoas cometeram tal acto.
    Vou falar de dois que mais me impressionaram, não tenho autorização para tal, mas a eles peço desculpa se for inconveniente.
    No crime dos pais de uma professora, em que ela tomou parte juntamente com o seu namorado, por os pais se opor ao seu namoro e como a professora já trintona nunca tinha namorado, não por não ter dotes físicos, simplesmente fruto de uma educação mais severa, um dia ambos resolveram matar os pais – da professora – retalharam-nos aos bocados e transportaram-nos dentro de umas malas para Espanha. Conheci só a professora, lidei com ela algum tempo, mas do que pude observar era das pessoas mais dóceis que encontrei pela vida fora, muitas das vezes custou-me imaginar que uma pessoa daquelas pudesse ter tal façanha.
    O outro foi o caso da boite Diamante Negro, em que morreram uma série de pessoas que ali trabalhavam e outras estavam a passar um pouco da noite. Dos intervenientes conheci a maior parte e também me custa acreditar que tenham cometido tal acto. Sei que a justiça não se enganou na sua condenação, mas depois de se lidar com estas pessoa fica-se admirado como foram capazes de tal acto. De uma coisa tenho quase a certeza, prontificaram-se a tomar parte no acto, mas com o intuito de ser só um aviso e nunca matar através do incêndio os seus ocupantes. Como disse conheço a maioria deles, jovens que desperdiçaram a sua juventude e deram cabo da sua vida, espero que vão a tempo de a recompor e que mostrem à sociedade que o que lhes aconteceu foi uma fatalidade e que enveredem pelas normas que nos regem a dita sociedade. Quanto ao mandante é uma pessoa que podia ser pai deles, hoje parecem um farrapo humano perdeu tudo na vida, não o conheci antes do crime, dizem que não lhe faltava nada, hoje falta-lhe tudo.
    Quanto à pena de morte sou contra e explico o motivo: Quando se dá um homicídio, a vítima não previa a sua morte, é sempre de um caso momentâneo, quanto à pena de morte, sabe-se o dia e a hora, agora reparem se não é atroz andar meses e meses à espera desse dia, para não falar nos casos em que depois são considerados inocentes. Como reaver a sua vida?

  9. Obrigado Manuel Pacheco, pela achega.
    No site que eu apresentei aí, há uma expressão que define muito bem a pena de morte: “O assassínio autorizado pelo estado”.
    Peço muita desculpa, mas quem defende a pena de morte está a defender esse tipo de assassínio, que o Manuel Pacheco, como é seu timbre simples mas firme, baseado em factos vividos, rejeitou, e que todos os homens sensatos têm de rejeitar – mais ou menos “cientificamente” não importa.
    É uma questão de princípio, que deve reger os valores autenticamente humanos e mais não digo! Quanto aos “states” o Obama que se cuide!!!!!

  10. bem, creio que em Portugal a questão não se põe. Havia uma coisa engraçada que era que por cá foi-se dos primeiros a abolir a pena de morte civil, se não me engano no reinado de D. Pedro V, um gajo porreiro, a militar só foi abolida mais tarde, mas havia uma excepção que perdurou muito tempo: motim a bordo.

    Eu também sou contra e tenho orgulho que Portugal tenha sido pioneiro nesse acto de civilização.

    Manuel Pacheco, é um gosto ver um gajo direito, imagino que tenhas sido muito disciplinado toda a vida, e humano.

    Manutor: porque dizes que o Obama que se cuide?

    (amanhã venho ver que hoje já estou pisco)

  11. z, porque os states são o que são e há muitíssimo poder, financeiro nos bastidores, que depende praticamente e apenas das políticas imperialistas dos states e nós sabemos o que aconteceu já, por muito menos, a outros presidentes que ousaram tão só beliscar certos interesses – como os tempos são outros… mas “o seguro morreu de velho!.

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