A fonte e a nascente

O Prós e Contras de 12 de Outubro vale por uma licenciatura em jornalismo. Abençoado situacionismo, e completa asfixia democrática na RTP, que permitiram momento tão clarividente e cru. Parabéns a todos os intervenientes, em especial a José Manuel Fernandes. Digo-o sem um grama de cinismo ou ironia, pois sem ele não teria sido possível a produção daquele espectáculo.

A figura da noite, contudo, é Henrique Monteiro. Ele representa a decadência portuguesa. Explicou que o Expresso não quis publicar o mesmo email divulgado no DN porque essa publicação era exactamente o que a fonte do material pretendia – naquela que foi a primeira das suas grandes revelações, isso das fontes terem desejos e vontades. Depois, detalhou: como a sua fonte era um político, ter feito notícia implicava estar a fazer política. E ele isso não fazia, apenas jornalismo. Tivesse a fonte sido um carvoeiro, talvez o problema fosse o mesmo, pois ele também não andava ao carvão. E por aí fora, consta haver outras áreas de actividade profissional passíveis de multiplicar os exemplos, mas a falta de tempo impede que sejam agora recordadas.


Destes raciocínios, duas conclusões: fazer política é fazer fretes a alguém; fazer jornalismo é fazer fretes a si próprio. Monteiro anunciou estar orgulhoso da decisão, a qual teve unanimidade redactorial no seu semanário. Sim, as revelações constantes no material entregue eram credíveis e relevantes, só que havia aquela chatice do mensageiro vir donde vinha. Era óbvio, para estes carolas pagos pelo Balsemão, que a fonte tinha uma ideia fisgada: desmontar o frete feito pelo Zé Manel a uma outra fonte. Ora, isso o Expresso, especialmente tão em cima das eleições, não podia permitir. Para desmontar inauditas e desvairadas conspirações em período eleitoral, ainda por cima envolvendo queridos companheiros de tantas lutas como o Zé Manel, não contem com o Monteiro, desculpem lá. O Monteiro só quer fazer jornalismo do puro, não se vê logo?

O marasmo português é feito destas cumplicidades e cobardias, em todos os níveis e recantos do poder. Monteiro justifica-se recorrendo a uma deturpação típica de um sacripanta, claramente denunciada por André Freire, declarando que a sua responsabilidade profissional apenas tinha de se relacionar abstractamente com as informações obtidas. O contexto concreto em que decidia – o facto de estar em marcha uma conspiração cujo fim era o de influenciar os resultados eleitorais em benefício do PSD e prejuízo do PS – não contava para nada, não existia no seu horizonte profissional, jornalístico, cívico, deontológico, ético. Ecce homo: ao não fazer notícia, transformou-se em compincha da manobra do Público, lavou as mãos. Imitou Cavaco.

Perto do final, Monteiro fez outra enorme revelação. Garantiu estar convencido de que o Presidente da República tinha validado as notícias do Público, que Lima nunca agiria por conta própria. Cruzando a sua rara perspicácia com a sua rarefeita hombridade, temos que Monteiro não bebe da fonte, prefere a nascente.

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Aplauso para Paquete de Oliveira. Aquele que sempre me tinha aparecido como um pachorrento avozinho, na função de Provedor da RTP, levantou-se e, com uma divina fúria, sovou a dupla de trastes. Grande momento de televisão, grande lição.

24 thoughts on “A fonte e a nascente”

  1. concordo com tudo o que escreveste, Valupi.

    nunca pensei que o Monteiro fosse tão vaidoso e parvalhão, ao ponto de até colocar em causa as origens do João Marcelino, por ter vindo do jornalismo desportivo, como se isso fosse um trabalho menor…

    o Zé Manel continuou a colocar os pés pelas mãos. e só queria responder ao que queria. grande jornalista, só queria perguntas combinadas…

    é assim que percebemos que o dito jornalismo de referência, está mais próximo da sarjeta que o que para eles é mais do género do “fado menor”…

  2. Boa posta, Val. Ontem fiquei com pena de não ter gravado aquilo. Teve dois momentos de rara baixeza: um perturbado Zé Manel a protestar por Fátima ter deixado o debate seguir, um nervosíssimo Monteiro a tentar canalhamente rebaixar Marcelino. Dois montes de merda sem carácter.

  3. Abraço ..nosso povo portugues democratico…
    Imagino as cenas.
    Como se pode ver este “Contras”?
    Abraço comovido Val

  4. Das trapalhadas jornalísticas já nós sabíamos; por alguma razão já deixei de ler o Expresso e o Público há muito, muito tempo. O espectáculo que os directores deram não me surpreendeu.
    O saber estar de Marcelino, que mesmo insultado não se descompôs, merece-me uma nota positiva.
    Mas há para mim a permanente interrogação sobre o que é que Cavaco sempre soube e mesmo falando, obrigado pelo D.N., não explicou?
    O que é que ele continua a esconder, pois não demitiu o assessor, só lhe mudou a cadeira?
    Tem Cavaco, condições para se apregoar paradigma da verdade?
    Muitos parabéns pelo texto.

  5. Como diz o NiK “Boa posta Val” – Eu também penso o que o Val escreveu mas ninguém o sabe “dizer” melhor! Em complemento dos comentários anteriores ao meu, só quero acrescentar que há muito não tinha uma fúria tão grande com o comportamento da coordenadora do programa: é que ela só dava a palavra ao Monteiro e ao JMF. nem o Baldaia podia dizer uma frase inteira…!!! E depois, o H.M. estava determinado a manter uma confusão na linha de raciocinio – estou absolutamente convencida disso – interveio a todo o momento, interrompendo o que do outro lado, o Baldaia e o Marcelino diziam. E foi de propósito que os mesmos HM e JMF passaram a maior parte do tempo a falar da forma e dos termos em que o famigerado email chegou às redacções –
    E NÃO FICOU PRETO NO BRANCO QUE SÓ O EMAIL É QUE VEIO EXPOR À LUZ DO SOL (não confundir com o pasquim de semanário) a “PATTRANHA” QUE O NOSSO PR ANDA A URDIR DESDE 2008…! E QUE – TENHAM ATENÇÃO – AINDA NÃO ACABOU!!!
    SÓ O EMAIL É QUE VEIO OBRIGAR O PR A FAZER O TEATRO DA PSEUDO DEMISSÃO DO F. LIMA E DO ESFARRAPADO ESCLARECIMENTO DA “QUESTÃO DAS ESCUTAS”.

  6. Lamentavel…o que deu para ver é que a liberdade de expressão não depende da lei de imprensa mas tão só de homens livres. O que o Marcelino fez foi uma autêntica abrilada no cinzento status quo jornalistico que temos.Um jornalismo com dono.

  7. A noite foi digna do nosso melhor “jornalismo”…
    O JMF continua a “averiguar” como saiu o e-mail do jornal. Sempre lhe sugiro o Espirito Santo, o da Trindade, a juntar à lista dos suspeitos.. Os Serviços Secretos, que ele já não refere, ficariam lisonjeados com a troca;
    O HM continua às voltas com o “timing”..(alguém lhe oferece um relógio?)
    E também, presumo, ainda está de “investigações”.. e “confirmações” da matéria do e-mail…Mas já avançou uma conclusão digna das melhores cabeças: a coisa tinha política pelo meio!
    Ganda nóia chefe!

  8. Gostei de ouvir o Henrique Monteiro a confirmar ao João Marcelino , que “iria publicar” o famoso e-mail mas, a conselho de todos os ‘gurus’ da SIC , uma semana depois. Parece-me que, feitas contas de cabeça , uma semana depois significaria : após as eleições e após uma provável derrota do PS donde emanava o Governo que andaria a fazer espionagem á Presidência da República. Por outras palavras , ficou claro que o timing do Sr. Monteiro e do Expresso foi o do PSD/Presidência da República e que o timing do DN foi o do interesse de todos os Portugueses que , felizmente, puderam votar com todos os trunfos na mão. A sobranceria com que o Henrique Monteiro se referiu ao passado jornalistico de João Marcelino _______qualificou-o!

  9. Val
    Bom post, nunca as mãos lhe doam, as vistas se cansem e a voz enfraqueça.
    Gostava de tirar um curso de jornalismo, não sei pelo qual optar, se jornalista desportivo, se jornalista de jornalista, – como o Henrique Monteiro – não sei qual o mais rápido o mais prático e mais barato. Derivado à minha idade tem de ser prático e rápido mas da maneira como está a maioria do jornalismo, entendo que um curso por correspondência seja suficiente. Podemos dizer asneiras, eu sei as dizer, podemos dar erros, eu sei os dar, podemos fazer fretes, aqui já não alinho, gosto da verticalidade e honestidade.
    Há dias, ou precisamente no dia dois de Outubro do corrente ano, estava a ouvir na Antena 1, o programa Contraditório, dirigido por João Barreiros e em que intervém, Ana Sá Lopes, Luís Delgado e o insuspeito e do que para mim há melhor no jornalismo Carlos Magno. Quando a este perguntaram se a creditava mais no jornalismo ou na política não teve pejo nenhum em dizer que acreditava mais na política.
    Todos sabemos que a sobrevivência em todos os ramos está difícil, o vil metal está acima de tudo, houve tempos que Deus estava em primeiro lugar, – para mim continua, para muitos não – ainda hoje li nuns comentários que até viagens ao Brasil são pagas a jornalistas para passar lá férias por agências de comunicação, como é que querem que uma pessoa se acredite na maioria deles. Tenho aqui escrito os que para mim são maus e bons, tenho posto o seu nome, porque acho que os bois devem ser chamados pelo seu nome.
    Sobre o que Henrique Monteiro disse sobre João Marcelino, ainda bem que Paquete Oliveira o chamou à razão, ele que interrompia tudo e todos não discordou do que lhe foi dito. Presunção e Água Benta cada um toma a quer e Henrique Monteiro deve ter tomado um tonel. Que lhe faça bom proveito. Uma solicitação para João Marcelino e Paulo Baldaia não saiam do rumo que tomaram que o povo humilde lhes agradece.

  10. No debate de ontem ficou bem evidente que é urgente a sociedade civil arregimentar instrumentos para conseguir derrotar o “jornalismo de encomenda” que vigora. Já não acredito que a própria classe esteja interessada nessa luta: parece que nos tempos que correm o estômago tende a falar mais alto do que a ética. Os momentos mais baixos do debate mostraram isso mesmo. E alguns pormenores foram bastante elucidativos: quase uma pornocracia em que os jornalistas não se importam de fazer de cortesãs.

    O resto está escrito no post. Brilhante.

  11. Pois eu ontem fiquei com muitas duvidas, sobretudo, que será o(a) tal fornecedor(a) do mail?

    Parece-me que a história ainda vai no adro!

    O que fazia lá o homem da TSF, era para fazer “pandã” com o Marcelino? Ou era para dar maioria representativa ao Oliveira.

    Por falar em fretes, parece que há muita gente a fazê-los, uns a Belém, outros não se sabe bem!

  12. Jesus Cristo! E o que fez o DN, se não um frete ao PS? O Marcelino de ética pouco sabe. Vão lá ver a história dele. E o tipo da TSF nem o podia criticar. Bom, bom, era mudar estes directores todos.

  13. Não vi o programa, não gosto do H. Monteiro, tenho razões para não o ter em alta consideração, mas julgo perceber o que ele diz, ou pelo menos o que me parece estar subjacente na descrição do Valupi, e acho certo.

    Pelas razões que ele aponta, porque o jornalista não esta ca para fazer favores, não se publica o mail NEM SOBRETUDO A INFORMAçAO QUE O AUTOR DO MAIL (a fonte) PRETENDIA VER PUBLICADA numa obvia tentativa de instrumentalizar a imprensa com fins politicos.

    Existe depois outra questão, que é a informação relativa a um jornal (o Publico) se ter prestado a uma grosseira instrumentalização desse tipo, em violação aparente de todos os seus deveres, deontologicos e para com o seu publico. O mail em causa é aparentemente um documento relevante para esclarecimento deste ponto e, nesta medida, pode-se compreender que um jornal o publique (desde que o tenha obtido de forma licita).

    No programa, foi feita a pergunta a H. Monteiro nesses ultimos termos ? Porque se não foi feita, se apenas lhe foi perguntado porque é que o Expresso não publicou o mail, e por muito que a resposta possa ser manhosa, não me parece nada escandalosa.

    Mas estou provavelmente enganado…

  14. Desculpa, comentei antes de ler o texto todo. Respondes à pergunta, ou pelo menos à duvida, no resto do texto.

    Não vi o programa mas de facto parece ter sido esclarecedor quanto à qualidade dos jornalistas da imprensa escrita que temos…

  15. Concordo com tudo o que ficou dito pelo Val.

    Penso que depois deste triste episódio que envolve comunicação social, politicos e grupo economicos com interesses especificos, está lançada a plataforma necessária para dar inicio a uma nova era de jornalismo em Portugal. Para mais, a opinião publica está atenta. O jornalismo é-nos essencial, mas no âmbito de outro paradigma que deve surgir de dentro do grupo dos jornalistas.

  16. Infelismente , por questões de saúde não pude ver o debate. Pela descrição lida aqui e pelo vídeo da 2ª parte fiquei esclarecido daquilo que já suspeitava :uma boa parte dos srs. jornalistas é vendida a outros interesses que não os da verdade. A montagem engendrada em Belem ia sortindo efeito,felismente houve coragem do D.N. para publicar aquela denuncia; se não fosse assim, estávamos agora a ver a srª Dª M.F.L. a formar governo com o patrono de Boliqueime a sorrir enlevado na foto do album de familia. Vamos a ver o que isto tudo vai dar. Não esperava outro comportamento do Paquete de Oliveira:o homem deu-lhes na cabeça com gana , cumpriu a sua obrigação com garra e penso eu, com gosto. Fazem falta jornalistas como ele.

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