Todos os artigos de Valupi
Dois dos melhores momentos do meu ano, como espectador


1º
Foi na última onda da bateria. Batia-se contra Mick Fanning e John John Florence. Quem a ganhasse passava aos quartos-de-final do Pipe Masters, no Havai, a última prova do campeonato do mundo. Os que perdessem passariam para a 5º ronda. Slater já não concorria para o título, mas queria ganhar com igual ou superior gana. A 10 segundos do final dos 30 minutos ainda não tinha apanhado esta onda. E depois montou-a, saltou por ela abaixo, fez um tubo gigante e saiu levantado, mãos nas costas e a cabeça inclinada para baixo. Uma inspiração a merecer 12 ou mesmo 15 pontos, sendo que o máximo possível são 10. E à qual o júri concedeu 8.3 quando teria precisado de 9.1 para ganhar. Foi roubado. Mais uma vez. Anda a ser roubado desde que preferiu não ter um grande patrocinador da gigantesca indústria do surf. Em Setembro, na Califórnia, também contra Mick Fanning, fez uma manobra que merecia 20. Deram-lhe 4.17, e o escândalo foi tão grande que até chegou à imprensa genérica internacional, no que deve ter sido uma estreia mundial atribuir-se importância jornalística de primeira página a uma acrobacia marada numa onda.
Slater fará 44 anos daqui a um mês e tal. Podia ser pai de dois terços ou mais dos profissionais com quem compete num desporto de alto desgaste e risco físico. Acabou este ano na 9ª posição, mas nos anteriores tem sido sempre um candidato ao título até à última prova.
2º
Dia seguinte. Slater contra Mick Fanning nos quartos-de-final. 24 horas antes, Fanning recebeu a notícia da morte de um dos seus irmãos, falecido durante o sono. Em 1998, outro irmão dele tinha morrido num acidente de automóvel. Mick, o surfista que encheu os ecrãs globais em Agosto por ter sido atacado por um tubarão durante uma final na África do Sul, decidiu manter-se em prova, na qual poderia vir a ganhar o seu 4º título mundial.
Nesta imagem vemos Slater e Elizabeth Osborne, mãe de Mick. Foi ter com ela prestes a iniciar a prova contra um dos seus filhos, minutos antes de ir tentar derrotá-lo. E choraram abraçados, aquela mulher de coração rasgado e aquele homem de coração nas mãos.
Foi a onda mais funda e mais linda deste campeonato do mundo de surf. Ou de todos.
Alguém que lhe queira bem que lhe acuda
Avariados do clima
Soromenho escaqueirado
Ao ter pespegado o seu nome nestes 1784 caracteres (com espaços) – Ostracismo em prime time – Viriato Soromenho Marques ultrapassou o chamado, entre a malta que percebe disto, “horizonte de Carrilho”. Trata-se de um ponto de não-retorno onde a honestidade intelectual e a respeitabilidade cívica ficam aprisionadas pela força da gravidade. A gravidade de se perder a cabeça e usar uma coluna de opinião num jornal dito de referência para um exercício de puro ódio. E como estas cenas tristes são pagas (quanto é que sacaste à pala de mais um transe raivoso, Soromenho?), fico doido de inveja a pensar no dinheiro que estes cabrões metem ao bolso a despachar pulhices que lhes tomam 15 minutos de gasto.
Desta personagem caricata não se conhecem indignações a respeito dos crimes de que Sócrates é vítima. A “degradação do espaço público” que viu na entrevista a Sócrates não a consegue vislumbrar nesses que exploram a “Operação Marquês” com fins comerciais e políticos, sejam indivíduos ou órgãos de comunicação social. Provavelmente, apoia a justa luta do esgoto a céu aberto para que a devassa, deturpação e aviltamento da privacidade de Sócrates e terceiros seja feita impunemente. Certamente, considera que a actuação de Rosário e Alexandre é imaculada, sagrada, e que isso dos prazos falhados para isto e para aquilo não interessa nada. O que interessa é destruir o monstro. Tudo bem. Só é chato é nada justificar, nada demonstrar, nada citar. Nem sequer quando apela a que o sistema de Justiça reaja “como um todo”, comandado pela virginal santa Joana na sua armadura reluzente, e se abata sobre esse cidadão que ousa defender-se em público de objectivas anomalias e indeléveis crimes cuja responsabilidade primeira é da Justiça portuguesa na pessoa de alguns dos seus agentes. Dá até ideia de que não viu a entrevista, tamanha a discrepância com o que ficou registado. A cegueira do ódio é a mais provável explicação para o fenómeno.
Todavia, o que me fascina no seu texto não é o ódio, é a ignorância. Porque este “professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, regendo as cadeiras de Filosofia Social e Política e de História das Ideias na Europa Contemporânea”* tem a estultícia de afirmar em público o seguinte:
Sócrates, cuja deriva histriónica é inegável, fez-nos regressar à democracia ateniense, quando não havia separação de poderes nem processos formais de investigação.
Não contente, acrescenta mais uma bacorada:
Quando a condenação até do mais justo dos heróis da Antiguidade - o general Aristides (530-468 a.C.) - poderia ser induzida por um demagogo, incendiando uma multidão na ágora. Partindo bilhas, e usando os cacos como boletins de voto, no sinistro processo de ostracismo.
Começando pelo fim, e mera curiosidade, este Aristides ganhou o cognome de “o Justo” porque foi ele o responsável por estabelecer as contribuições a que as cidades participantes na Liga de Delos ficavam obrigadas. Ao permitir que os aliados escolhessem entre enviar navios, homens ou dinheiro, recolheu o aplauso unânime. Em suma, esta do “mais justo dos heróis da Antiguidade” remete para um habilidoso ministro das Finanças e sua política fiscal, não para um mestre de sapiência.
Mais importante é o disparate largado a respeito do ostracismo. Percebe-se a intenção canhestra, colar Sócrates a uma malignidade marcada como “sinistra”, todavia, para azar do Soromenho, o ostracismo cumpria uma função pacificadora. Foi criado por Clístenes, sendo proposto o seu eventual uso uma vez ao ano, e destinava-se exclusivamente, ou assim se presume, aos actores políticos. A sua lógica era a de solucionar sem perda de vidas e propriedade, pois o ostracizado continuava senhor dos seus bens, impasses conflituosos antes de estes escalarem para níveis e formas de violência incontrolada. No caso de Aristides, é essa precisamente a situação dado estar envolvido num conflito político sem possibilidade de conciliação com Temístocles. Para além dessa condição prévia, era necessário recolher seis mil votos (ostracon, caco, daí a referência manhosa às bilhas partidas), o que é ainda muita gente hoje e era muitíssima mais na Antiguidade. Em suma, o ostracismo foi um dos vários modos pelos quais a democracia grega pôde regular-se e defender-se de abusos e riscos políticos. Aliás, deixou de ser aplicado quando se concluiu já não servir para o propósito bondoso que lhe deu origem. Obviamente, tivessem estes rústicos destes gregos sinistros o grande Soromenho para os governar e o ostracismo nunca teria existido. O ostracismo e outras coisas que eles também se lembraram de inventar, talvez nem as ruínas que nos chegaram tivessem resistido à limpeza que o nosso magnífico professor catedrático faria de cátedra.
Indo agora para a temática da “separação de poderes” e dos “processos formais de investigação” na democracia ateniense, a barbaridade do que fica escrito só é superada pelo desprezo que o Soromenho devota à defesa do nosso Estado de direito, preferindo entregar-se à paixão por Sócrates (num grande azar, o Sócrates por quem está apaixonado é o português, não o grego ou o brasileiro). Não será por acaso que essas duas facetas, a ignorância e o desprezo, convivem na mesma cachimónia.
Soromenho apela aos seus leitores para acreditarem nele quando diz que a democracia ateniense era um circo onde um palhaço qualquer se levantava, fazia umas macacadas e conseguia expulsar da cidade “o mais justo dos heróis”. Este herói, na economia do subtexto, é a Joana Marques Vidal, “a mais justa das procuradoras”. O palhaço é Sócrates, o demagogo sinistro que quer chutar para longe a pobre coitada da Joana. Enquanto isto se passa algures em Portugal no ano da graça de 2015, que se passava na Grécia Clássica? Passava-se que desde a criação do edifício mitológico e a estruturação administrativa da prática religiosa, passando pelas obras teatrais, continuando pela reflexão dos filósofos e culminando na invenção faseada da democracia, o que confere unidade a este momento da civilização é a celebração da lei como princípio de coesão social, prosperidade económica e segurança militar. O legado intelectual da cultura grega que ficou como pilar civilizacional é um hino à racionalização da vida em comum dos “seres que habitam na cidade”.
A democracia ateniense desenvolveu variados processos que pressupõem uma efectiva separação de poderes, e isto para além da divisão da governação entre diversos órgãos de deliberação e influência e da instituição dos nomótetas, especialistas em leis. Foram eles: dokimasia, epicheirotonia, euthyna, eisengelia, graphe paranomon e graphe me epitedeion theinai, pelo menos. Em cada uma destas instâncias está em causa fiscalizar o poder político a partir de um direito literalmente cívico, seja preventivamente, posteriormente ou durante o mandato. Elas pressupõem a aguda consciência de que o abuso de poder é uma constante tentação. E correspondem à primeira tentativa para salvar a democracia de si mesma, pois se trata do mais complexo dos regimes políticos e implica uma coesão alargada da comunidade para ser viável. Quanto aos “processos formais de investigação”, e não havendo comparação legítima a fazer entre os nossos sistemas de Justiça e os que existiram na Antiguidade, importa realçar que a defesa de cada cidadão estava a seu cargo e que este tinha de se sujeitar a um júri que estava igualmente sujeito ao respeito pela lei. Porém, basta ler a Apologia de Sócrates de Platão, pun intended, para se atestar tanto do valor constitucional da liberdade de expressão, apanágio da cidadania, como da possibilidade de corrupção por parte dos agentes da justiça. Mutatis mutandis, é precisamente com esse cenário que nos confrontamos nesta fase da “Operação Marquês”.
O tema é vasto demais para ser tratado aqui e por mim. Mas é o tema que um cronista do DN foi buscar para atacar ad hominem um cidadão arguido numa investigação judicial em curso. No que fica como um péssimo serviço à sua reputação. A tua, Soromenho.
Perigo público
Imaginemos que esse tal alguém, solitário ou colectivo, no Ministério Público não tinha cometido o crime que permitiu à Sábado, em Julho de 2014, lançar comercial e politicamente a “Operação Marquês”. Imaginemos que em 21 de Novembro de 2014 aterrava em Lisboa um Sócrates que já se tinha oferecido para ir prestar declarações perante as autoridades e cuja solicitação para tal fosse aceite sem necessidade de ser detido e sem o espectáculo montado para a sua detenção. Imaginemos que as medidas de coação aplicadas depois do primeiro interrogatório tinham sido a de identidade e residência e a da proibição de contacto com os restantes arguidos. Imaginemos que não se tinham cometido as dezenas de crimes que permitiram as dezenas de violações do segredo de justiça na indústria da calúnia. Imaginemos, portanto, que não tínhamos chegado à situação em que um arguido preso preventivamente vê a sua medida de coação agravada exclusivamente por ter exercido um direito, tendo por isso ficado mais três meses na cela de um estabelecimento prisional apenas por arbítrio injustificável de um juiz e de um procurador. E imaginemos que, tendo o processo decorrido sem crimes nem abusos de poder, não tínhamos chegado à cena escabrosa em que um magistrado, acumulando com o cargo de presidente do sindicato da classe, anuncia publicamente não respeitar o Estado de direito.
Perguntas. Nesta realidade imaginada, a dimensão estritamente judicial do processo onde Sócrates é suspeito de gravíssimas ilegalidades teria sofrido qualquer prejuízo? Nesta realidade alternativa, onde Sócrates teria sido tratado com a decência e o decoro que esperamos ser norma em todos os processos judiciais, e onde as medidas de coação se adequavam ao mero bom senso, a investigação teria sofrido com isso algum dano, sequer atraso?
Um Sócrates constituído arguido pela suspeita de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, sem que nada mais se saiba pela comunicação social e podendo continuar com a sua vida privada e pública sem restrições drásticas à sua liberdade já é, por si só, um castigo pessoal, social e político inaudito na História portuguesa – pelo seu estatuto como ex-líder partidário e ex-governante e pelos efeitos da concretização judicial dessas suspeitas enquanto suspeitas a justificar investigação, potencialmente acusação e pena. Mas alguém, solitário ou colectivo, considerou que esse castigo não chegava. Pelo que assistimos à maximização dos castigos possíveis em cada fase do processo, e isso não é estar a fazer Justiça, é estar a fazer política e/ou perseguição pessoal.
O lançamento oficioso do caso em Julho de 2014 é cristalino da lógica seguida pelos mandantes ocultos. Alguém, solitário ou colectivo, não receou que a investigação ficasse danificada por se estar a avisar com meses de antecedência que Sócrates poderia vir a ser alvo de medidas de coação. Pelos vistos, não se receava no Ministério Público que as provas por recolher pudessem vir a ser destruídas, que os eventuais cúmplices dos eventuais crimes ficassem alertados e preparassem as suas manigâncias para continuarem a ludibriar as autoridades caso fossem engaiolados. Avançou-se porque se viu uma vantagem, nesse calendário preciso, para começar a explorar o imenso potencial político que o processo gerava num ano eleitoral ainda a fazer parte do ciclo que remetia para o passado de Sócrates como primeiro-ministro – e também o potencial político que dava munição atómica a quem tinha seguido desde 2008 a estratégia de carimbar o PS como um partido de corruptos.
Não faço ideia se Sócrates cometeu algum crime. Se é corrupto, branqueador, herífuga fiscal, traficante de droga, chulo, traficante de armas, assaltante de bancos ou ladrão de cavalos. Não faço ideia se pretende mesmo juntar-se ao “Estado Islâmico” e fugir para a Síria, como um dia destes o Correio da Manhã irá revelar. Não faço ideia porque não o conheço assim tão bem e admito que tudo é possível quando lidamos com humanos. A mesma atitude reservo para quase todos os outros bípedes implumes, grupo onde incluo a minha família e amigos, a minha vizinha do 4º andar e o papa Chico. A única excepção que abro na listagem é para o sr. Cavaco, pois estive a consultar o website da sua presidência, a sede da “verdade” segundo as suas verdadeiras palavras, e não consegui detectar qualquer ilegalidade. Faço é uma boa, excelente, ideia a respeito daqueles que a propósito da “Operação Marquês” aproveitam as pulhices alheias para serem cúmplices de agentes da Justiça corruptos, abusadores e incompetentes só para assim se poderem entregar à paixão por uma pessoa.
Vós sois um perigo público.
Da série “Com o PSD no poder, o Ministério Público investiga quem nós quisermos”
O deputado Carlos Abreu Morim (PSD) elogiou hoje no Parlamento a atuação e a autonomia do Ministério Público (MP), no que foi visto como uma defesa de Joana Marques Vidal, procuradora-geral da República (PGR), face às críticas que José Sócrates fez nos últimos dois dias na entrevista concedida à TVI.
“Não posso passar ao lado do atual momento da Justiça e quero dizer que o PSD está muito satisfeito com o profissionalismo da atividade do MP. O PSD estará sempre ao lado de todas as propostas que visem melhorar o MP e reforçar a sua autonomia”, afirmou o deputado social-democrata.
PSD elogia profissionalismo e defende autonomia do Ministério Público
Maravilhas do jornalismo de referência
José Sócrates deu uma entrevista de dois dias à mesma TVI. Grande assunto? Quando diz que a sua vida em Paris foi investigada pelo ‘Correio da Manhã’, omitindo que foi o correspondente do Expresso, Daniel Ribeiro, o primeiro a relatar a sua vida de luxo na capital francesa não vale a pena ir a jogo. De resto, o ex-primeiro-ministro repetiu um conjunto de teorias de conspiração irrebatíveis quando não se conhece o processo. O mais caricato (e talvez o mais significativo) foi o ter-se comparado a Afonso Costa e, no estilo de dividir o país entre ele e o outros, atacar a direita, Santana Lopes e Cavaco e enviar recados a António Costa (que não lhe responde), a Teixeira dos Santos, à PGR e à Justiça e glorificar-se ou endeusar-se à mistura com uma vitimização. Na frente política atacou a indefinição do PS sobre as presidenciais, dizendo que favorece objetivamente Marcelo. De resto pode ler o que Ricardo Costa entende como uma armadilha de Sócrates ao PS.
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Este crânio ofuscante está aqui a disputar com o Correio da Manhã o título de maior porcalhão no jornalismo português, tendo ficado sentido por Sócrates se ter esquecido do Expresso. E embora ele não seja explícito a respeito do “relato” que invoca, o pasquim do mano Costa devia mesmo republicar a “reportagem” do Daniel Ribeiro feita em Paris pois ela consiste num exercício vergonhoso de devassa que tem sempre público e aplausos na nossa sociedade dominada pela indústria da calúnia. E para quê terem feito o que fizeram? Qual foi o resultado da “investigação” feita à casa onde Sócrates dormia e aos restaurantes onde comia? Só esta juliana de pulhices: sensacionalismo, moralismo hipócrita e pindérico, demagogia populista.
Na altura escrevi isto – Até tu, Expresso? – e hoje aparece o Monteiro, o tal que se recusou a desmontar a Inventona de Belém, a despejar mais um balde do seu ódio asinino para cima da história daquele que já foi, há muitos e muitos anos, um jornal de referência.
Ventoinhas de merda
Em declarações à Lusa, António Ventinhas salientou a necessidade de os portugueses decidirem se querem "perseguir políticos corruptos, se querem acreditar nos polícias ou nos ladrões, ou em quem investiga ou nos corruptos".
Magistrados respondem a Sócrates: MP não é “associação criminosa”
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As declarações de António Ventinhas, surgidas como resposta a declarações de um arguido, o qual acumula com ter sido ex-secretário-geral do PS e ex-primeiro-ministro, acerca de um processo pejado de indiscutíveis anomalias e crimes, são em si um caso de polícia. O que ele está a declarar pressupõe que conhece o processo e que está em condições de antecipar o seu desfecho em tribunal. Como é tal possível? E se não conhece o processo na sua integralidade, ou se não está em condições de se substituir ao juízo de eventuais juízes, em que papel é que faz as afirmações em causa? Será ainda como magistrado? Ou apenas como sindicalista? Ou?
Na passagem citada, e independentemente do seu contexto, o sentido é unívoco. Ventinhas espalha a falácia de termos de escolher entre um sistema de Justiça acima da lei, onde não haja crítica nem sindicância dos seus procedimentos, e a cumplicidade com os criminosos. Este é um discurso tecnicamente fascista e marca-d’água de uma tentação justiceira e ditatorial. É a apologia da abolição do Estado de direito, trocado pelo archote, a forquilha e a corda. De caminho, atribui a Sócrates a condição de corrupto e ladrão. Outras afirmações que aparecem publicadas são ostensivas referências à Operação Marquês e à imagem de Sócrates criada pelas violações do segredo de Justiça.
A ideia de que o número de juízes que já se pronunciaram contra as pretensões da defesa de Sócrates faz prova pela sua quantidade, vinda de um grunho, não surpreende nem incomoda. Um grunho é um grunho é um grunho. Vinda de um magistrado, deve assustar. Um magistrado que concebe a Justiça como a lei do mais forte e não como a defesa do mais fraco, que somos todos nós no confronto com as instituições, mete medo e pede tolerância zero para a cultura de abuso de poder onde se julga impune quem nos trata como gado para abate.
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ADENDA
Mas nessa mesma entrevista há mais, e mais assombroso. António Ventinhas, na qualidade de representante da classe, dá-se ao luxo de ignorar dois acordãos do TC e de se armar em legislador e juiz para dizer isto “é isso que o MP pretende fazer: exercer a ação penal contra aqueles que obtiveram elevadas verbas sem que os seus rendimentos o comportem, sendo certo que exerceram funções públicas e portanto obtiveram elevadas verbas pela prática de atos ilícitos”. Aqui está, Ventinhas, de uma penada, cria o crime de enriquecimento injustificado e julga ilícitos quaisquer actos praticados. E se se espezinha assim o estado de direito numa entrevista pública, urbi et orbi, poderei concluir, à laia de ventinhas, com um portanto e tudo, que no recato dos gabinetes os abusos e atropelos serão de nos deixar mais pasmados ainda.
Oferta da nossa amiga Teresa
Fedor na cidade
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António Balbino Caldeira é lido e recomendado pelos direitolas talibãs; como o Zé Manel e a Helena Matos, por exemplo. Para além disso, que não é pouco dada a influência desses cromos no ecossistema mediático, estamos também perante alguém que conseguiu transformar uma paixão funesta num livro que já vai na 2ª edição. Parabéns, boa sorte, e confesso não me ocorrer mais nada a respeito da criatura.
Na semana passada, esta alimária resolveu pedir aos seus leitores para lerem um texto que escrevi sem fazer qualquer ideia de que teria tal destino. O destino de ser usado por um maluquinho para alimentar a sua doença. Porque estamos em território psicótico, haja ou não diagnóstico clínico. Aliás, não será um acaso que este tipo de manifestações paranóides e alucinadas se encontre com facilidade na direita, pois a estruturação ideológica respectiva favorece o isolamento individual; por contraposição com as mesmas tendências ocorrendo na esquerda, onde as vítimas mais provavelmente se organizam gregariamente, assim diluindo o impacto doentio ou acabando mesmo por substituí-lo pelo sentimento de pertença. O PCP é um modelo perfeito deste fenómeno, tendo canalizado a alienação dos seus militantes e simpatizantes para o messianismo sectário desde o 25 de Novembro. Daí a tão importante alteração ocorrida neste partido após as eleições legislativas de 2015 com a aceitação do regime e da soberania democrática, cujas consequências são imprevistas até para os próprios comunistas, acrescento en passant.
Pois o infeliz acima pendurado, na viragem para 2016, continua a sonhar-me como máscara do Jacinto Lucas Pires. Aposto que será a excitação desse delírio a solitária causa que o leva a colocar-me na sua montra. Acontece que o episódio tem interesse para além da dimensão pateticamente anedótica onde quase se esgota. Poderia inserir-se numa infografia onde se registasse a repetição desse boato velho de 6 ou 7 anos, permitindo ver quem, e quantas vezes, o propagou. Veríamos que surge como sintoma de uma atitude genérica onde o discurso do ódio molda a cognição. Factualmente, este babuíno do Caldeira não saberia o que dizer se tivesse de provar a associação entre “Valupi” e “Jacinto Lucas Pires”. Todavia, ao vislumbrar uma vantagem em sugerir que está na posse de um conhecimento acerca da minha identidade de registo civil, ele expõe a fantasia em que prefere habitar e onde se imagina um espertalhão. E se tais predicados chegarão para a manutenção da sua fama junto de passarões decadentes e fanáticos do calibre do Zé Manel e da Helena Matos, talvez o próprio Jacinto Lucas Pires não ache graça ao abuso que está a ser feito com o seu nome.
Já por várias vezes, aqui no Aspirina B, pedi aos broncos para terem um bocadinho de respeito por si próprios e mudarem de cassete. Isto porque cheguei a encontrar-me presencialmente, in illo tempore, com figuras gradas da blogosfera direitola de outrora, como Duarte Schmidt Lino, Eduardo Nogueira Pinto e João Távora. O Carlos Santos, trágica figura explorada pelos pulhas, recebeu por escrito os meus dados pessoais relativos a nome e profissão. Estive em duas sessões do “Blogue dos Cafés” onde me apresentei e passeei num espaço onde estava a Carla Quevedo, o maradona, a Fátima Rolo Duarte, o Luis M. Jorge e o Manuel Falcão, entre outros autores blogosféricos. O Luis Rainha e o Nuno Ramos de Almeida poderiam atestar que entre mim e o Jacinto há espectaculares diferenças para além do estilo de escrita. Outras pessoas notáveis da blogosfera política que tive a sorte e a honra de ir conhecendo pessoalmente poderiam também largar gargalhadas de incredulidade perante a longevidade do boato. Logo, não se trata de existir algo de interessante a respeito de dimensões e facetas minhas que extravasem este exercício de escrita, e não há nada pois sou um monumento à banalidade, mas sim de existir um grupo de pessoas que por pulsão incontrolada, ou por intenção planeada, conspurcam o espaço público com difamações e calúnias que degradam e pervertem a cidade.
No que diga respeito ao envenenamento da racionalidade democrática, este António Balbino Caldeira, apesar do livro que anda a oferecer e do blogue lido por profissionais da indústria do ódio, não passa de arraia-miúda. Muito mais grave, e ficando como paradigma do uso da mentira como terrorismo político, é o caso do Pacheco Pereira. A gravidade neste espécimen aparece em relação directa com os seus ostentados méritos morais e capacidades intelectuais. Para ir directamente ao episódio que conheço melhor, foi do alto de uma posição de prestígio que o Pacheco recebeu dinheiro para escrever na imprensa que em alguns blogues, este incluído, estavam colaboradores e membros do Governo de Sócrates. Não fez prova de nada, e de nada se desculpou, assim deixando a calúnia intacta, operativa. E meteu o dinheirinho ao bolso. Para mim, nesse momento o Pacheco ganhou o estatuto de perigoso crápula. Desde aí, de cada vez que o calhe ouvir ou ler a expressar algo com que possa concordar, mais forte é a convicção, nascida logo na alvorada da democracia na Grécia, de que um dos maiores perigos para a liberdade e a coesão da comunidade vem dos caluniadores.
Não existe um Correio da Manhã na esquerda. Não há publicistas ligados ao PS que façam dos assassinatos de carácter e da intoxicação sistemática a sua estratégia de intervenção pública. A direita portuguesa, por estar numa fase decadente, cheira mal e mete dó. Mas o fedor é tal que não há dó que aguente.
Revolution through evolution
Men have better sense of direction than women, study suggests
Home-delivered meals reduce loneliness, study finds
Belugas blow bubbles based on mood
Rudeness at Work Is Contagious
Breaking bread with colleagues boosts productivity
Australian Study Finds ‘No-Drill’ Dentistry Stops Tooth Decay
Stereotypes around aging can negatively impact memory and hearing
Sabemos que está a ser um serão bem passado quando…
No jornal que lançou a Inventona de Belém
É certo que Cavaco Silva tem as suas peculiaridades: não é um comunicador nato, tem falta de jeito para a mediatização, aparenta timidez para quem tem longa experiência política. Mas nenhuma das suas atitudes no exercício do cargo de Presidente esteve para além do guião constitucional do mais alto magistrado e árbitro do sistema político. Nem quando vetou leis e polemizou, por isso, com José Sócrates. Nem quando dissolveu o Parlamento após a demissão do primeiro-ministro socialista face à coligação negativa que chumbou o PEC IV na Assembleia da República. Nem quando tentou fazer uma grande coligação de governo que juntasse o PSD, o PS e o CDS. Nem quando procurou que o PCP e o BE ficassem fora do “arco da governação”.
Por muita que tenha sido a tensão política que, por exemplo, assolou o país após a crise da revogável demissão irrevogável de Paulo Portas, ou a que se viveu quando da queda do segundo Governo de Passos Coelho derrubado pela moção de censura da esquerda, em nenhum momento Cavaco Silva ultrapassou os limites constitucionais do seu cargo. E por muito inusitada que pareça a tensão, ela não ultrapassa o clima de confronto que se viveu já com outros presidentes.
Vamos lá a saber
Cineterapia

Bridge of Spies_Steven Spielberg
Gostar muito, pouco ou nada deste filme depende da hermenêutica. Porque estamos perante uma obra que se inscreve na tradição sapiencial judaica, aqui embrulhada numa falsa história de espiões baseada numa verdadeira história de espionagem. Pelo que o mais provável é não gostar do filme, ou gostar só até onde o barulho das luzes permitir.
Antes da sessão começar, umas cadeiras ao meu lado, estava um grupo de 8 mamíferos que iam comendo pipocas e largando alarvidades sem parar. Ao chegar o intervalo, parte deles tinha adormecido e os restantes culpavam-se pela escolha do filme. Bazaram para meu alívio antes das luzes se voltarem a apagar. E não perderam nada, pois nada iriam compreender, nem sequer entender, de um filme cuja temática central é o Estado de direito e aquilo que o perverte ou salva.
O herói spielbergiano, advogado de profissão, começa a revelar a sua natureza num diálogo inicial onde se mostra inabalável na defesa dos interesses das seguradoras. Não é do interesse das seguradoras fazer o bem sem olhar a quem, pois indo por aí desapareciam. As seguradoras têm de se proteger, pagando o mínimo possível. Que nos diz esta cena? O que cada um quiser, se ainda se lembrar dela quando estiverem a passar os créditos finais. Para mim, é uma chave para ir abrindo os sucessivos salões da narrativa. Neles, o nosso herói limita-se a ser banal. Só que ao serviço do bem. Tão serviçal se revela nessa função que chega a arriscar a sua carreira profissional e a segurança da sua família. E ao voltar a casa, depois da missão cumprida em glória, a sua mulher tem a certeza de que o homem que regressou da aventura é exactamente o mesmo que partiu. O mesmo tipo, agora a roncar esmagado pelo cansaço em cima da cama. A tal fulano que vai de metro para o emprego, na última cena, e se entrega ao calor do Sol para celebrar a sua contradição, essa banal vaidade de uma banal pessoa que agiu de forma exemplar. Perfeita. A perfeição de colocar a sua vida em risco para salvar a vida do seu próximo – fosse ele quem fosse e quando fosse. Stoikiy muzhik, ou a coragem da decência, para citar o diálogo principal que fica como instantâneo clássico cinéfilo. Foi daqui que nasceu, ao longo dos séculos, a essência do Estado de direito.
O que é o Estado de direito? É o ponto de equilíbrio entre a coerção da comunidade e a liberdade do indivíduo. É o modelo que promove a diminuição da violência entre cidadãos ao definir a Justiça como uma obra colectiva. Daí estar na democracia o regime que realiza plenamente o potencial do Estado de direito para concretizar a liberdade de todos por igual. Em Portugal, como consequência tanto da crise começada em 2008 como da decadência da actual direita, temos assistido a continuados ataques ao Estado de direito. Esses ataques vêm de poderes fácticos, como órgãos de comunicação social, e de poderes políticos institucionalizados, como partidos, Governo e até Presidência da República. Nesse sentido, este filme tem particular importância para uma parte do público português. A parte que não adormeça com a pança cheia de pipocas.
Revolution through evolution
Male and Female Brains Are Basically the Same
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Environment Can’t Be Saved While Women Are Second-Class Citizens, Says New Book
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Live together or get married? Study finds similar emotional benefits
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A community may benefit from white lies
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Sense of purpose in life linked to lower mortality and cardiovascular risk
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Risk-takers are smarter, according to a new study
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What Is Left of Our Democratic Ambitions?
Continuar a lerRevolution through evolution
É do caralho, ó Carvalho
Alguém no Público pensou que Augusto Santos Silva merecia um perfil. Outro alguém, que poderá ter sido o mesmo alguém num momento subsequente, pensou que não haveria melhor jornalista para a função do que o Manuel Carvalho. Esta é a hipótese benigna. Porque pode ter sido de outra forma. Alguém a pensar que Manuel Carvalho merecia fazer o perfil de Augusto Santos Silva. E ainda há uma terceira possibilidade. O alguém de quem estamos a falar em todas estas variantes ser sempre e só o Manuel Carvalho.
Eis que a obra existe – O “príncipe” que nenhum líder do PS ousou dispensar – sendo chata e comprida. Todavia, apresenta uma notável contenção logística. O Manuel Carvalho consegue a proeza de fazer o perfil recorrendo apenas a três pessoas: a sua, a do Paulo Rangel e a da Maria Filomena Mónica, esta última só em versão cereja no cume da coisa. Na prática, é uma tarefa a mielas entre um assanhado antisocrático pago pelo pequeno Público e um furioso antisocrático pago pelo grande público.
Sem surpresa, um e outro projectam em Santos Silva o que concebem ser a política. Para o Manuel Carvalho, a política é uma cena maquiavélica, daí o “príncipe” no título. E que acha este bom homem do que seja o maquiavelismo? Pois será algo que mete conspirações, veneno, violência. Um misto de Sopranos com Guerra dos Tronos. Para ele, Santos Silva apresenta essas capacidades, e gosto, tendo um vasto currículo nessa prática detestável que os políticos, especialmente os socialistas, e particularmente alguns socialistas, exibem. Para o Paulo Rangel – o nosso inesquecível paladino do Estado de direito, o qual defendeu heroicamente em Estrasburgo, onde deu a honra e a honestidade intelectual por uma crónica pestilenta e doente do Crespo – tudo se resume a desqualificar moralmente o adversário, recorrendo à facilidade com que vai buscar ao interior a sujidade que se pretende espalhar no exterior. Ouvir ou ler Rangel a falar de Santos Silva deixa-nos com a sensação melindrosa de estarmos na mesma sala com ele enquanto vai discorrendo sobre o seu passado e ambições futuras de costas coladas ao divã do dr. Freud.
Curiosamente, a ida de Santos Silva para o Governo é uma surpresa. E o facto de ser ele o número 2 do Executivo é uma grande surpresa. Pelo que diz de Costa, não tanto pelos variegados méritos de Santos Silva. Não se pode é contar com o Manuel Carvalho, nem o Público, para analisar porquê. O narcisismo bronco e sectário deste tipo de jornalismo merece acabar mal.
Isto sim, isto é um politólogo, cambada
Como politólogo, como definiria António Costa?
Não o conheço a ponto de perceber quais são as suas convicções. Pelo que eu vi até agora, Costa não é um homem com uma cultura política, económica ou literária particular. Só posso julgá-lo pela sua conduta desde que assumiu funções políticas nacionais em outono de 2014. E a partir daí o que vi foi um homem obcecado com o poder e disponível para se apropriar da ideologia, do saco de ideias, que lhe proporcionasse a obtenção do poder. Neste caso foi a extrema-esquerda, mas não sei o que ele teria feito noutra conjuntura.
