Até tu, Expresso?

A reportagem que o Expresso publicou acerca da vida de Sócrates em Paris deve ser lida pelo maior número de portugueses, mas de preferência usando um exemplar do vizinho, ou do café, ou mesmo esperar que apareça num caixote de lixo e sacá-lo com luvas de borracha e pinças. Acabo de dar 3 euros pela coisa e sei que carregarei este prejuízo durante anos na consciência. Deve ser lida porque não estamos apenas a lidar com um infeliz chamado Daniel Ribeiro, autor da prosa, sendo que ele é quem tem menos responsabilidade na peça – o superior interesse vem dos nomes da direcção do jornal, com Ricardo Costa à cabeça, e do proprietário, Francisco Balsemão. Seria a estes dois que se pediriam responsabilidades, caso existisse imprensa em Portugal.

Colocando de lado os aspectos de factual indigência mental do articulista, tanto ao nível da qualidade da escrita como do aparato intelectual, o que pode justificar que o artigo seja do princípio ao fim um exercício difamatório? Fosse o que fosse que Ricardo Costa e Pinto Balsemão respondessem – se calhar, invocando o interesse do público pela sujidade alheia, especialmente aquela que se deixa como insinuação sem possibilidade de ser desmontada, ou declarando que, como se trata de Sócrates, vale tudo e quanto pior melhor – as respostas seriam inevitavelmente um testemunho íntimo a respeito da sua concepção do jornalismo, a respeito da sua deontologia, a respeito do respeito por si próprios.

Conceberem o Expresso como se fosse o Correio da Manhã, algo que o DN também tem vindo a fazer à sua difusa e manhosa maneira e que o Sol do pequeno arquitecto, o Público do Zé Manel “Escutas” Fernandes, a TVI do casal Moniz e a SIC do António José Teixeira, do Crespo e do José Gomes Ferreira igualmente fizeram e fazem, transporta consequências que se reflectem tanto na história da nossa comunicação social como na salubridade do espaço público. Uma sociedade onde deixa de existir uma imprensa de referência está em sérios apuros.

32 thoughts on “Até tu, Expresso?”

  1. Que queres,Val? Com tanta falta de assunto aqui na terra, têm de ir de óculos escuros e gabardina para as esplanadas de Paris. (aquilo, no fundo, são saudades).

    Mas lá que estamos em apuros, lá isso…

  2. Val: Tinha começado um texto sobre este artigo policial, mas achei que tu não deixarias passar esta em claro. Aquilo é um nojo. Começa logo no título – “A misteriosa vida….”.
    E reparaste no ridículo da alegada ida a casa de Carla Bruni, onde as empregadas portuguesas o ajudariam a fazer-se entender em francês? Hilariante.
    De facto, esta história de andar a interrogar os vizinhos, as porteiras, o pessoal do café em frente, etc., é demais. O Daniel Ribeiro devia ter-se recusado.

  3. O Expresso sempre foi uma voz do dono, mas isso, ainda assim, é substancialmente diferente do registo deste indigente artigo que prolonga os assassinatos de carácter de que Sócrates tem sido vítima desde 2004.

  4. O Vega tem toda a razão. É qualquer coisa como dizer “até tu”, TVI ou SIC, depois de Moura Guedes e Crespo. Não restam dúvidas: dez anos de cavaquismo criaram os cavaquistas endinheirados e montados no poder em todos os sectores da vida do país e a comunicação social foi dos nacos mais apetecidos e também, a par da justiça, o que mais poder garantiu. Não esqueçamos que cinco mil milhões “dele” -BPN- é muita grana e deu para comprar muita gente.
    Porque será que Sócrates ainda incomoda tanto essa gentalha? Atira aí um palpite, Val.

  5. Li esse artigo (de um exemplar comprado, hélas) e nada nele encontrei digno de registo, para além da genial observação de que Sócrates toma a bica matinal num cafezinho barato dum bairro caro.

    O Ribeiro bem percorreu todos os temas que poderiam conter matéria de insinuação e enxovalho. Porém, no tocante a factos, ficou sempre de mãos a abanar. O rasca jornalista até deu voz a fofocas de blogues de lixo, mas depois de interrogar o embaixador Seixas da Costa a tal respeito foi obrigado a citar o seu desmentido categórico.

    Parece que o objectivo do Ribeiro, sem absolutamente nada para dizer ou contar, se reduziu a fazer uma exposição minuciosa e pidesca dos locais, horários, percursos de Sócrates em Paris. Uma intrusão porca na intimidade de uma pessoa, condicionadora da sua liberdade e ameaçadora da sua segurança. Desceu ao nível do mais ignóbil paparazzo.

  6. Não faz só isso, Júlio. Insinua que Sócrates pertence à maçonaria, tem as despesas pagas não se sabe por quem, anda a estudar num regime marado que foi o arranjinho dos seus amigos poderosos, esconde a sua privacidade pelas mais esconsas, mas piores, razões, é um solitário (?!) e fala muito mal francês.

  7. Ah, e tem um plano para reaparecer dentro de 3 anos na política nacional, é de direita, preferindo a companhia do seu admirado amigo Sarkozy a dar-se com os camaradas socialistas franceses, e suscita “os mais variados rumores”.

  8. “de preferência usando um exemplar do vizinho, ou do café, ou mesmo esperar que apareça num caixote de lixo e sacá-lo com luvas de borracha e pinças”

    Que badalhoquice!… Não é preciso, está aqui o essencial

    http://lishbuna.blogspot.com/2012/01/um-percurso-academico-coerente-livre-e.html

    No resto, até é uma reportagem simpática: os vizinhos e os amigos do café gostam muito dele, dá grandes passeios de bicicleta, é um homem muito bem parecido e tal.

  9. Pois, Val: insinuações e rumores de quem não tem nada para contar. Factos, zero.

    O Ribeiro apenas investigou e explicou onde e como se pode encontrar Sócrates em Paris. Parece que se esqueceu de indagar se ele tem um segurança, esquecimento que seria indesculpável num pide profissional. Eu, se fosse a Sócrates, punha-me a pau.

    Quanto ao conjecturado medo de que Sócrates venha a ocupar Belém, parece-me remoto e demasiado cedo para isso. Que têm medo dele, têm. A Ferreira Leite nem no Parlamento o queria ver depois das eleições. Talvez ela nem o queira ver vivo! Exagero? Foi essa gaja que disse em campanha eleitoral que “os portugueses não querem ser mortos por José Sócrates”. Ao representar Sócrates como uma ameaça mortal para “os portugueses” ela andou perto de apelar a um assassinato, já não de carácter, mas físico.

    Sócrates vai certamente continuar a ser alvo de ataque pessoal. O governo e a direita precisam de continuar a fazer de Sócrates o bode expiatório de tudo o que de negativo exista. O investimento que fizeram no derrube do governo rentabiliza-se agora no plano da legitimação das redentoras políticas coelhistas.

    Outro objectivo, aliás notório neste artigo do Ribeiro, é o de suscitar intrigas e cavar divisões no campo do PS, acirrar os ânimos dos socialistas portugueses (e dos franceses) contra o “amigo de Sarkozy” que nem foi visitar o Hollande. O governo coelhista e a direita precisam dum idiota útil à frente do PS, e Seguro será tanto mais idiota e útil para eles quanto mais se distanciar e separar de Sócrates. Intrigue-se, pois!

  10. oh, e ele deve rir-se de tanto que falam dele. :-) além disso, o que sai nos jornais e demais media não é para papar a não ser por quem não faz depuração e está habituado, não a estar bem informado, a andar deformado e formatado.

  11. Val, então aqui vai, embora já tenhas dito, e muito bem, o que há a dizer.

    Violação da vida privada

    O Expresso traz na Revista uma reportagem intitulada «a misteriosa» vida de José Sócrates em Paris. O adjetivo escolhido é todo um programa, já que, lida a prosa, mais não pode concluir-se do que a realidade singela de que o antigo primeiro-ministro leva uma vida discreta e preza e defende a sua privacidade, coisa que os seus amigos e conhecidos respeitam. José Sócrates não dá entrevistas nem está interessado em de qualquer outra maneira relatar a sua nova vida. O jornalista decide então fazer de detetive e inventar um enredo. Na impossibilidade de saber tudo, insinua.

    O jornalista Daniel Ribeiro, correspondente do jornal em Paris, andou, pois, a coscuvilhar e conseguiu extrair dados “fundamentais” dos vizinhos, pessoal do café em frente, pessoas da universidade e assim. Apurou que o vigiado vai a livrarias, a cafés conhecidos, a restaurantes bons, é amigo de Seixas da Costa, vai às aulas e não foi aos exames (e o Expresso acha que devia ir? Esta é boa), corre no Bois de Boulogne e anda de bicicleta. Ah, e conhece e trata por tu Sarkozy (imagine-se). E especula que, para falar com Carla Bruni, recorrerá (!!) à ajuda das empregadas desta, portuguesas e bilingues. Isto é demais.

    A que propósito anda um jornalista a inquirir vizinhos, porteiras, etc., e a misturar depois as informações obtidas (totalmente superficiais) com insinuações sobre o que não sabe nem tem de saber? Para além do já referido adjetivo “misterioso”, fala também em “soberbo” ou “chiquíssimo”, referindo-se ao bairro, ao prédio ou à porta. Neste particular, estranho que Daniel Ribeiro viva em Paris e nunca tenha entrado em prédios de portas “soberbas” que nos conduzem depois a apartamentos medianos. Não será esse o caso (who cares?), mas, no artigo, que, a cada coluna, insinua, tudo se conjuga para a pergunta final, a de um milhão de euros, posta na boca de outros: Quem lhe paga as despesas?

    O Expresso decidiu assim prosseguir a infame campanha iniciada há uns anos nesta choldra de país, com uma corja de eleitores PSD/CDS e uma corja de jornalistas. Não sei se isto não mereceria um processo. Este jornalista anda a espiar um cidadão, sem mandado judicial para tal.

  12. façam mas é uma petição para a justiça investigar o envolvimento do cavaco nos prejuízos do bpn e de onde veio o dinheiro para as campanhas cada vez que se candidatou. as respostas que este senhor deu sobre este assunto eram motivo para impedimento de exercício do cargo em qualquer país. entretanto o gajo vai-se rindo com petições tão idiotas como ele, cada um come bolo-rei à sua maneira e até ver não é ilícito, a menos que a isabel moreira tenha alguma na manga.

  13. Também li. O artigo é um nojo! De noticia não tem nada.É uma prosa muito ao estilo das de outras publicações do mesmo dono.É uma vergonha e em termos jornalísticos nem reportagem é. É um artigo de ficção ao estilo folhetim do TIDE.
    Nota: para quem não sabe o tide era um folhetim radiofónico do tempo da velha senhora.
    O pessoal devia entupir o expresso com comentários e perguntar: quem tem medo de Sócrates?

  14. Totalmente de acordo com o anonimo quanto à necessidade de investigar a ligação Cavaco-BPN e a proveniencia dos dinheiros para campanhas do Cavaco. Não quanto às acendalhas ecológicas…

    Mas a petição está a recolher mil assinaturas por hora… Já vai quase em 9000.

  15. Malta, e que tal uma petição, ao Valupi, para que sempre que esse enxovalho do João Lisboa venha para aqui fazer publicidade à tristeza de blog dele, seja chutado para canto?
    Vamos nessa?

  16. Caius Iulius Caesar Augustus ? está bem. mas o próximo na escala terá de ser deus. já esgotaste os mortais e semi. bom , hercules e os 12 trabalhos , talvez ainda possa ser.

  17. A situação financeira do imperiozinho merdiático do Balsemão é periclitante (principalmente a SIC). Daí o pasquim jogar, aparentemente, a dois carrinhos: de vez em quando publica umas bicadazitas na quadrilha Passos/Relvas, com umas merdecas sobre a loja Mozart, secretas e afins, para mostrar ao Lá-Lá-Lá de Massamá que se pode tornar incómodo caso os interesses do gajo da quinta da Marinha sejam postos em causa (privatização da RTP, por exemplo). Na passada seguinte, produz vómitos como o aqui em apreço, para que o Lá-Lá-Lá faça as vontades ao dono e não esqueça que, apesar dos ocasionais devaneios, o clube é o mesmo e a alma de rafeiro continua lá, sempre pronta a inventar pretextos para ladrar às canelas do inimigo n.º 1, o que é óptimo para distrair o pessoal do empalamento diário a que está sujeito.

  18. Caro Val,
    já lá vai pelo menos uns dez anos que deixei de comprar o expresso pois a sua linha editorial mais se parecia com um jornal de propaganda partidária do que de uma referência informativa.
    Se calhar ainda continuará a ser o melhor dos piores mas esse tipo de classificação não entra no meu bolso para andar a pagar festas e prebendas ao Balsemão.
    Li o antigo Expresso durante uns anos em que o Saraiva ainda não pontuava e os disparates apareciam de vez em quando, como é natural, até em imprensa que era séria.
    Com o tempo o Expresso foi evoluindo no percurso do atual Sol.
    Hoje, como os restantes, comem à mesa do OE e vão apoiando a quem lhes paga ops anúncios ou favorece os projetos de poder.
    Imprensa livre em Portugal precisa-se!
    Ainda há uma meia dúzia de gatos que ainda escrevem aqui e ali uma coisitas interessantes, mas fazem-no porque sabem demasiado e calarem-nos não é tarefa fácil.
    Tirando a Net que de vez em quando lá tira mais um coelho da cartola, ou zanga que faz cair mais uma dúzia de comadres, vemo-nos cercados por pasquinadas de mau gosto e jornalistas lambe-botas.
    Este o país que a maioria não quis, mas que permitiu por omissão do seu dever, agora que se aguentem à bronca, pois quando a água me chegar aos pés de certeza que não serei tão paciente como até agora.

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