Maravilhas do jornalismo de referência

José Sócrates deu uma entrevista de dois dias à mesma TVI. Grande assunto? Quando diz que a sua vida em Paris foi investigada pelo ‘Correio da Manhã’, omitindo que foi o correspondente do Expresso, Daniel Ribeiro, o primeiro a relatar a sua vida de luxo na capital francesa não vale a pena ir a jogo. De resto, o ex-primeiro-ministro repetiu um conjunto de teorias de conspiração irrebatíveis quando não se conhece o processo. O mais caricato (e talvez o mais significativo) foi o ter-se comparado a Afonso Costa e, no estilo de dividir o país entre ele e o outros, atacar a direita, Santana Lopes e Cavaco e enviar recados a António Costa (que não lhe responde), a Teixeira dos Santos, à PGR e à Justiça e glorificar-se ou endeusar-se à mistura com uma vitimização. Na frente política atacou a indefinição do PS sobre as presidenciais, dizendo que favorece objetivamente Marcelo. De resto pode ler o que Ricardo Costa entende como uma armadilha de Sócrates ao PS.

HENRIQUE MONTEIRO

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Este crânio ofuscante está aqui a disputar com o Correio da Manhã o título de maior porcalhão no jornalismo português, tendo ficado sentido por Sócrates se ter esquecido do Expresso. E embora ele não seja explícito a respeito do “relato” que invoca, o pasquim do mano Costa devia mesmo republicar a “reportagem” do Daniel Ribeiro feita em Paris pois ela consiste num exercício vergonhoso de devassa que tem sempre público e aplausos na nossa sociedade dominada pela indústria da calúnia. E para quê terem feito o que fizeram? Qual foi o resultado da “investigação” feita à casa onde Sócrates dormia e aos restaurantes onde comia? Só esta juliana de pulhices: sensacionalismo, moralismo hipócrita e pindérico, demagogia populista.

Na altura escrevi isto – Até tu, Expresso? – e hoje aparece o Monteiro, o tal que se recusou a desmontar a Inventona de Belém, a despejar mais um balde do seu ódio asinino para cima da história daquele que já foi, há muitos e muitos anos, um jornal de referência.

18 thoughts on “Maravilhas do jornalismo de referência”

  1. Val, vi-o de relance nas bancas dos jornais mas hoje há uma chamada na capa do defunto I que promete uma grande prosa no interior. Aposto!

  2. “Qual foi o resultado da “investigação” feita à casa onde Sócrates dormia e aos restaurantes onde comia? ”

    O resultado foi a constatação de que José Sócrates, ex-primeiro-ministro, recebeu centenas de milhares de euros em dinheiro vivo, sem deixar qualquer rasto documental portanto, de um amigo ex-responsável por uma grande empresa de construção civil, dinheiro esse proveniente de offshores. De tal forma não deixou rasto documental que nem o próprio consegue agora determinar quanto recebeu.

    Do ponto de vista da dimensão política de José Sócrates, é aceitável? Não.
    É crime? Não.
    É indício suficiente para iniciar uma investigação criminal? É.
    É justificação suficiente para que Sócrates tenha sido preso preventivamente enquanto decorria a investigação? Não sei. Em abstracto é possível que em determinadas circunstâncias se possa prender preventivamente um arguido para não prejudicar a investigação (não sou especialista mas penso que é uma possibilidade legalmente prevista).
    Foi esse o caso em concreto? Não sei porque não conheço o processo. Vários tribunais superiores, que conhecem o processo, consideram que sim.
    Era necessário o “espetáculo” público da prisão de Sócrates? Não.
    É admissível a publicação de notícias com base em informação em segredo de justiça? Não.

    Andamos sempre a remoer o mesmo.

  3. Ó anonimo

    “É justificação suficiente para que Sócrates tenha sido preso preventivamente enquanto decorria a investigação? Não sei.”

    Se fosse já teria que haver acusação? ou não?

  4. As assinaturas do Público, dos JMTs, e do Jornal de Negócios, dos Camilos Lourenço, não foram renovadas. O Expresso, dos Henriques Monteiro, é mais manhoso. Apanha-se com o número do cartão de crédito e faz a renovação automática até que lhe gritem alto e pára o baile. Vai levar uma valente puxada no freio. Tornamo-nos lixo ao comprar lixo. Apesar de saber que provêm de terra regada com águas muitas distantes das minhas, nos últimos anos, aprendi mais sobre decência cívica e interesse na causa pública a ler, por exemplo, a inteligência fulgurante do Valupi, o pessimismo da Maria Abril, a finíssima ironia do Ignatz ou as avisadas opiniões do Camacho sobre a próxima Grande Guerra e tantos outros que passam nesta casa, e noutras ao lado, do que nesses pasquins em processo acelerado de correiodamanhasização. Muito mais.

  5. Não é ele, não são eles, que acredita (m), verdadeiramente, naquilo que escrevem, que noticiam. Quem acredita são alguns dos papalvos que ainda os lêm, e, infelizmente, ainda são muitos. Para ele, para eles, é apenas um negócio, é para terem um ordenado ao fim do mês. Duvido que valha a pena comentá-los. Aliás, é isso que eles pretendem, porque isso dá-lhes importância.

  6. Esse tal henrique monteiro ficou queimado com as declarações
    feitas na famosa Comissão de Inquérito PT/TVI que teve como
    relator o deputado Sem medo do BE!
    Revelou ser um oportunista apesar de ser tu cá tu lá com Sócrates,
    foi hilariante a passagem da tortura feita telefónicamente pois,
    acumula com masoquismo … porque não desligou o telefone?
    Mais tarde, resolver “gozar” com a tese de José Sócrates, levou na
    cabeça e entrou em desculpas esfarrapadas com uma confusão
    mal explicada! Alinha com os medíocres que sofrem de inveja da
    superioridade e o conhecimento do ex. Primeiro Ministro !!!

  7. estou contigo, anonimo.

    e o mesmo, Val, é a inconclusão por falta de provas – o que lamentavelmente não é a feliz conclusão de carácter intocável; o mesmo é o abuso do poder – do poder político, do poder judicial e do poder dos media. o mesmo é encherem a pança, uns, para exaltarem uma vida de luxo que desconhecem e, outro, encher a boca para dizer que viveu sem luxo durante dois anos com quatrocentos mil euros – o que dá, mais coisa menos coisa, cerca de vinte mil euros por mês: uma miséria, portanto.

  8. “anonimo, e o que é para ti esse “mesmo”?”

    O “mesmo” é que certas discussões parecem estar continuamente a voltar ao início: depois de todos os pontos de vista estarem já suficientemente claros (pró e contra), de todos os argumentos já terem sido esgrimidos e esmiuçados, de cada vez que se escreve sobre o assunto parece que é a primeira vez!

  9. anonimo, talvez essa tua percepção nasça de te estares a colocar perante a necessidade de te veres no lado do “pró” ou do “contra”, sejam lá quais esses lados forem. Se abdicares desse dualismo, poderás ligar-te ao problema de fundo que este caso trouxe para o espaço público com um destaque inaudito: a qualidade da Justiça portuguesa.

  10. Olinda estas sempre com os idiotas os assuntos que te interessam é a calhandrice e a mesquinhez. O que tens tu que cagar postas de pescada sobre se era muito pouco ou nada? O que sabes sobre para que serviu o dinheiro? Guarda esses teus moralismos parolos para ti!

  11. “Se abdicares desse dualismo, poderás ligar-te ao problema de fundo que este caso trouxe para o espaço público com um destaque inaudito: a qualidade da Justiça portuguesa.”

    Caro Valupi,
    Se estivermos a falar da dimensão política/pública da forma de actuar de Sócrates (repito, “ex-primeiro-ministro, recebeu centenas de milhares de euros em dinheiro vivo, sem deixar qualquer rasto documental”) não tenho qualquer dúvida: condeno a actuação de José Sócrates, acho que devia abandonar a vida política/pública. Penso que no fundo até concordaremos neste ponto.

    Já se estivermos a falar da dimensão judicial, aí discordo de si (ou talvez não):
    – qualquer caso pode (deve) servir como ponto de partida para a análise do sistema;
    – os problemas evidenciados por este caso não são novos, mas deram-lhe um destaque inaudito.
    Não sendo novos, não se pode afirmar que se devem a este caso em particular. E, se é verdade que as consequências do mau funcionamento são piores (neste caso para José Sócrates), também é verdade que os meios de defesa contra esse mau funcionamento também são mais.
    Ou seja, era importante que a discussão se centrasse em abstracto nos problemas evidenciados, e não nos comentários dos comentadores do caso em concreto (por exemplo).

    Finalmente uma terceira dimensão: a jornalística. E aí, a minha percepção é a de que, mais uma vez, este caso “apenas” veio confirmar a tendência de um certo tipo de jornalismo sensacionalista. Mas, ao misturar no mesmo saco CM, Público, Expresso, … não está a contribuir para separar as águas: o CM pratica um jornalismo (?) de sarjeta e de sensacionalismo execrável, e não me parece que neste caso se tenha desviado muito do que é o seu core business. Que aliás não é original no jornalismo internacional.

  12. as psicoterapias demoram tempo, alcoólico anónimo. teres recaídas será mais ou menos normal. mas não desanimes e podes tentar insultar-me as vezes que quiseres. o que interessa é ficares bem. :-)

  13. A queda do Expresso marca a entrada do segmento da pasquinagem em que o próprio se quis/quer tornar “me too”.

    Foi oportuno lembrar este momento da abertura à devassa da vida privada de José Sócrates na reportagem do espião enviado a Paris ilustrada a tons suaves.

    Faço minhas as palavras de Lucas Galucho sobre este local de conversa e aprendizagem.
    Só capas de jornais na tv e zap/surf até ouvir algo com sentido.
    Não gasto dinheiro em lixo impresso.

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