Perigo público

Imaginemos que esse tal alguém, solitário ou colectivo, no Ministério Público não tinha cometido o crime que permitiu à Sábado, em Julho de 2014, lançar comercial e politicamente a “Operação Marquês”. Imaginemos que em 21 de Novembro de 2014 aterrava em Lisboa um Sócrates que já se tinha oferecido para ir prestar declarações perante as autoridades e cuja solicitação para tal fosse aceite sem necessidade de ser detido e sem o espectáculo montado para a sua detenção. Imaginemos que as medidas de coação aplicadas depois do primeiro interrogatório tinham sido a de identidade e residência e a da proibição de contacto com os restantes arguidos. Imaginemos que não se tinham cometido as dezenas de crimes que permitiram as dezenas de violações do segredo de justiça na indústria da calúnia. Imaginemos, portanto, que não tínhamos chegado à situação em que um arguido preso preventivamente vê a sua medida de coação agravada exclusivamente por ter exercido um direito, tendo por isso ficado mais três meses na cela de um estabelecimento prisional apenas por arbítrio injustificável de um juiz e de um procurador. E imaginemos que, tendo o processo decorrido sem crimes nem abusos de poder, não tínhamos chegado à cena escabrosa em que um magistrado, acumulando com o cargo de presidente do sindicato da classe, anuncia publicamente não respeitar o Estado de direito.

Perguntas. Nesta realidade imaginada, a dimensão estritamente judicial do processo onde Sócrates é suspeito de gravíssimas ilegalidades teria sofrido qualquer prejuízo? Nesta realidade alternativa, onde Sócrates teria sido tratado com a decência e o decoro que esperamos ser norma em todos os processos judiciais, e onde as medidas de coação se adequavam ao mero bom senso, a investigação teria sofrido com isso algum dano, sequer atraso?

Um Sócrates constituído arguido pela suspeita de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, sem que nada mais se saiba pela comunicação social e podendo continuar com a sua vida privada e pública sem restrições drásticas à sua liberdade já é, por si só, um castigo pessoal, social e político inaudito na História portuguesa – pelo seu estatuto como ex-líder partidário e ex-governante e pelos efeitos da concretização judicial dessas suspeitas enquanto suspeitas a justificar investigação, potencialmente acusação e pena. Mas alguém, solitário ou colectivo, considerou que esse castigo não chegava. Pelo que assistimos à maximização dos castigos possíveis em cada fase do processo, e isso não é estar a fazer Justiça, é estar a fazer política e/ou perseguição pessoal.

O lançamento oficioso do caso em Julho de 2014 é cristalino da lógica seguida pelos mandantes ocultos. Alguém, solitário ou colectivo, não receou que a investigação ficasse danificada por se estar a avisar com meses de antecedência que Sócrates poderia vir a ser alvo de medidas de coação. Pelos vistos, não se receava no Ministério Público que as provas por recolher pudessem vir a ser destruídas, que os eventuais cúmplices dos eventuais crimes ficassem alertados e preparassem as suas manigâncias para continuarem a ludibriar as autoridades caso fossem engaiolados. Avançou-se porque se viu uma vantagem, nesse calendário preciso, para começar a explorar o imenso potencial político que o processo gerava num ano eleitoral ainda a fazer parte do ciclo que remetia para o passado de Sócrates como primeiro-ministro – e também o potencial político que dava munição atómica a quem tinha seguido desde 2008 a estratégia de carimbar o PS como um partido de corruptos.

Não faço ideia se Sócrates cometeu algum crime. Se é corrupto, branqueador, herífuga fiscal, traficante de droga, chulo, traficante de armas, assaltante de bancos ou ladrão de cavalos. Não faço ideia se pretende mesmo juntar-se ao “Estado Islâmico” e fugir para a Síria, como um dia destes o Correio da Manhã irá revelar. Não faço ideia porque não o conheço assim tão bem e admito que tudo é possível quando lidamos com humanos. A mesma atitude reservo para quase todos os outros bípedes implumes, grupo onde incluo a minha família e amigos, a minha vizinha do 4º andar e o papa Chico. A única excepção que abro na listagem é para o sr. Cavaco, pois estive a consultar o website da sua presidência, a sede da “verdade” segundo as suas verdadeiras palavras, e não consegui detectar qualquer ilegalidade. Faço é uma boa, excelente, ideia a respeito daqueles que a propósito da “Operação Marquês” aproveitam as pulhices alheias para serem cúmplices de agentes da Justiça corruptos, abusadores e incompetentes só para assim se poderem entregar à paixão por uma pessoa.

Vós sois um perigo público.

22 thoughts on “Perigo público”

  1. Enquanto lia pensava para mim próprio quando é que o grunho ia ser visado.

    Lá está escrito preto no branco no último parágrafo.

  2. Tudo que escreveu até ao último “salvo se”:
    – tudo se pode esperar….

    é uma interessante estória de ficção num mundo de justiça ideal e ética reclamada vezes sem conta por
    José Sócrates.

    Mas :
    – se não o conhece como eu também não o conheço pessoalmente nem com ele alguma vez privei, o natural é ver e perceber um cidadão agressivamente perseguido e acreditar no seu corajoso testemunho público que assenta em factos banais vividos por qualquer cidadão em sua vida privada, despindo-se perante a opinião pública por querer esclarecer as falsidades da intensa campanha de assassinato político a que tem sido sujeito.

    Como pode V. Exa. fazer o favor à matilha desconfiando (ainda que em tese) do Homem.

    Está V.Exa. a fazer como todos os meios de comunicação que se julgam mais limpos aproveitado o “furo”ignominioso para se distanciar e repetir as insinuações usadas para aviltar e assassinar politicamente o Cidadão e Ex. PM José Sócrates atingindo seu partido, amigos e família já se atrevendo o vómito do mãnhas a falar num dos seus filhos (ouvi hoje na revista de imprensa da rt1).

    Estranho por isso um remate de distanciamento:
    – …não vá o diabo tece-las…eu disse… (à la cavaco)

    A leitura final reversa não retira a dúvida.

    Já não é a primeira vez que sinto isto num texto seu sobre o Ex. PM. José Sócrates e não posso deixar de o comentar pelo muito que aprecio este blog, pelo prazer de entrar nas conversas mais o sentido de humor dos muitos que escrevendo coisas muito sérias o sabem fazer com talento, sarcasmo e acerto e, ainda pela boa informação dos meandros e bafons que me vai abrindo os olhos ao mais feio do ser humano.

    Não gostaria de receber resposta a este comentário.
    Não contem crítica mas sim um sentimento que não consigo subtrair ao desconforto pela necessidade de rematar com prudente distância como o fazem outras gentes foram deste blog.

    A realidade duma justiça in-existente e pactuante com o assassínio público dos seus cidadãos que não castiga comprovados criminosos que teimam em manter escondidos ou virginalmente dizem desconhecer não merece dúvida sobre a sua errada acção.
    O Cidadão e seus direitos Universais:
    – acima de tudo

    José Sócrates é para mim, desde o primeiro abocanhado da matilha, um Político que paga caro o seu talento e sua competente acção de PM cortada como todos vimos pelo vergonhoso discurso de tomada de posse dum cavaco , convertido no real chefe da seita que queria no poder.
    Chefe de Seita, definição dada sem pestanejar pela nova juventude que o Partido Socialista soube chamar para emendar a mão ao desastre iniciado com a queda do PM José Sócrates e do famoso PEC IV já aprovado pelo BCE.
    Tal como fez Espanha e Itália que, não foram intervencionados.
    Nunca é demais lembrar onde, de quem, como e porquê começou o ataque ao Homem.

  3. primaveraverão, a convicção de inocência ou culpa de Sócrates, seja a respeito do que for, esgota-se para mim – que não fui testemunha de nenhuma ilegalidade nem tive qualquer acesso a qualquer prova de tal – no estatuto de inocente até prova em contrário. Prova judicial com sentença que transite em julgado. Tudo o mais é especulação.

    Para além disto, acho a cada intervenção de Sócrates que estamos perante alguém que reclama de forma verosímil a sua inocência. No entanto, tal não impede, no plano das possibilidades, que tenha cometido ilegalidades, nem que sejam só do foro fiscal. Ou outras, não referidas pelos que o atacam e atacaram no passado. Para mim, porém, repetir essa ressalva de alcance universal corresponde aos melhores propósitos de Sócrates, tal como os podemos imaginar. Isto é, Sócrates quererá que a Justiça funcione na plenitude da sua legitimidade. E, de facto, a Justiça parece ter razões para abrir uma investigação. Do que se trata até ao desfecho da mesma é de avaliar como decorre.

    Como não podemos avaliar a investigação de um ponto de vista interno à mesma, discorremos acerca dela de um ponto de vista exterior. O que vemos é gravíssimo. É disso que falo, por ser essa a parte que me toca neste caso. Mas não me compete ser o garante da inocência ou culpabilidade de Sócrates. Para tal deposito nele e no Estado de direito a verdade a que tivermos direito.

  4. “(…) a convicção de inocência ou culpa de Sócrates,(…)esgota-se para mim ( …) no estatuto de inocente até prova em contrário. Prova judicial com sentença que transite em julgado. Tudo o mais é especulação.”

    Assino por baixo! Mas…veja-se o caso M. Lurdes Rodrigues: condenada em 1ª instância e absolvida pela relação;os mesmo factos, duas interpretações distintas. Normal? Será ! Mas bastante para se perceber que estamos apenas perante “interpretações”. A questão que sobra é pois esta: o que é que “prova” o trânsito em julgado, além da óbvia coincidência das interpretações ?

  5. MRocha, o direito, numa sua dimensão essencial, não passa de interpretação. Começa logo pela sua natureza linguística, onde os códigos são construídos com linguagem natural e suas inevitáveis complexidades e ambiguidades, limitações e erros potenciais.

  6. OK.
    Obrigada pela atenção de me ler com benevolência.
    Do foro fiscal …
    – ah é isso que pode estar em causa afinal.

    Mas depois de deixar o cargo de PM certo?

    Com o fisco todos os contribuintes tem casos do tipo deixa lá ver…
    enquanto o pau ai e vem folgam as costas… ups! … tenho que pagar… pago.

    Acabamos todos por pagar a horas boas ou más e não somos enxovalhados ou difamados ou perseguidos nem desclassificados os amigos e família ou aqueles que nos socorrem são presos ou impedidos de nos falar nem suspeitos de que o dinheiro que nos emprestaram seja nosso.

    Tão pouco o amigo que nos vendeu a casa por saber mais daquele assunto é suspeito de ter afinal ludibriado e dá com os costados na prisão, fica com a seu dinheiro congelado até perder de vista ficando com a vida desfeita todo tempo que o fisco ou o “eficiente” mp considera seu, por legitimidade de entidade superior que, sabemos leva anos. Dezenas de anos.
    Ver um amigo nessa situação ao fim de décadas de amizade boa e solidária, sem provas da imputação em tudo o que é pasquim e editores soft da pasquinagem é terrorismo puro pois não se sabe quem será atacado em seguida e como.

    O passos coelho …não sabia… não declarou…e foi tudo na boa!
    Será afinal o Interesse Público é selectivo?

    Ou será mesmo verdade que com o psd no governo o mp investiga quem “eles” quiserem?

    Mesmo sem ser garante da inocência seja de quem for, como diria All Pacino no inolvidável discurso de pôr tudo na ordem, apesar too dam old but not blind uma coisa é definitiva pra mim:
    – o Ex. PM José Sócrates para além de detido de forma escandalosa e 11 meses sujeito a uma prisão para despersonalizar e induzir condenação continua a ser difamado , perseguido e vilipendiado horas, dias, meses anos a fio numa tortura maldosa como não tenho memória num registo de mais de 70 anos.

    Espero não morrer (repentinamente) sem ver o seu nome limpo e as desculpas formais “daquela gente” como bem disse José Sócrates ao fixe Ex. Presidente da República Dr. Mário Soares que do alto da sua coragem e muito saber garantiu :
    – pois claro que é inocente.

  7. o sócras disse na última entrevista que num dos interrogatórios chamaram o jornalista do correio da manhã que o tinha espiado em paris para uma acareação sobre indícios de vida faustosa que constam do processo e das notícias do manhólas, mas a coisa correu mal porque o gajo só viu o sócras beber umas bicas no café da esquina e fazer umas corridas. dá para avaliar a consistência das provas que sustentam as teorias da acusação e pior que isso, dá para imaginar o que estão dispostos a fazer para acusar o sócras. no fim se não der nada, como nos casos anteriores, dizem que não tiveram tempo para fazer todas as perguntas, que os prazos são uma chatice, não têm meios e falta pessoal, mas que foi tudo legal e quem se sentir prejudicado que faça queixa à justiça, que eles tiram umas certidões voltam a investigar o caso. ninguém acredita na justiça e no estado de direito, mas há uns tontos que acham que a coisa se resolve com presunções de inocência, segredo de justiça, trânsitos em julgado e a cereja à-justiça-o-que-é-da-justiça enquanto que os operadores judiciários vão driblando a lei e gozando o pessoal. o único gajo com tomates para enfrentar esta cambada chama-se josé sócrates e tem azar porque vive num país de cobardes que votam em fachos para presidentes desta choldra.

  8. olha, eu adorei o texto e amei com paixão a parte do ladrão de cavalos. quem me dera ser ladrona de cavalos e ter um prado gigante. ai que riso! :-)

    (de resto, perante a dúvida prefiro a dúvida)

  9. Um inquérito com uma acareação com um “jornalista” do CM? Para quem ainda tinha dúvidas de quem é a investigação. Só falta promover o Dâmaso a juiz para julgar o caso.

  10. 260€ X 1.003 = 260.78

    Ó Catarina, Ó Jerónimo, lixem-me esse Costa, esse descarado!

    Mas que pouca vergonha, gozarem desta maneira com a gente?

  11. Ó velhote, não me digas que aprendes-te a fazer as contas no exame da 4ª classe?

    Também acreditavas que eram favas contadas com essa gente?

    tapadinho!

  12. Pois é, caro Septuagenário, 78 cêntimos! Fizeste berreiro quando tiraram esses .78 cêntimos? Olha que muitos cêntimos são milhões de euros. Para os cofres do estado ou para fazer circular na economia real. Notas a diferença, ou a tua cabecinha septuagenária (como a minha) já não chega lá? Vejo que aprendeste com o Medina Carreira a fazer contas de dona de casa para gerir a economia de um país. Repara, estes 78 cêntimos serão tão somente um sinal de que se quer tirar ou de que se quer ajudar, mas a tua cabecinha também não chega aqui, pois não? Subtilezas a mais para um septuagenário, bem na vida, não tenho dúvidas, senão saberia que 78 cêntimos “é dinheiro” para quem tem de gerir uma mísera pensão até ao último cêntimo. Vai à merda, Septuagenário.

  13. Desde que o “cegueta” ficou sem a subvenção para vir para aqui martelar pulhices que me tenho abstido de comentar. Hoje porém não posso deixar de concordar com o “Valupi” e de de deixar o meu aplauso ao “Ignatz” das 17:39 de ontem e à “Maria Abril” das 9:27 de hoje. Comentário curto e grosso é o que os PàFs merecem.

  14. ó velhote não estás a pôr aí o aumento do salário mínimo, as alterações do RSI o aumento dos 3 primeiros escalões do abono de família…

  15. É a tal merda do conflito de gerações.

    Para a maralha , o velhote pode morrer de congestão, cuidado.

    É que o jantar groumet de azeitonas e o casqueiro com o jarrito de tintol pode ser exagerado com tantos cêntimos a mais.

    Vão gozar com as meninas do Bloco. e com o Jerónimo.

  16. Olha lá, ó idoso.
    Vais levar o PC para um hospital para os teus filhos (e os brothers do Aspirina B, iô!) terem um Natal sossegado, a emborcarem uns jarrões de tintol com o bacalhau e as couves), ou já compraste um ipad para chateares 24 horas por dia esses gajinhos que se preparam para te dar umas férias com cama, mesa e roupa lavada?

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