"Eu não venho para deixar tudo na mesma. O que incomoda pessoas como o professor Marcelo Rebelo de Sousa é que eles sabem que eu não venho para deixar tudo na mesma. Que eu não venho para deixar a política em Portugal nas mãos dos mesmos e da mesma maneira. Sabem que eu vou trazer uma dimensão nova para a política. Isso incomoda-os muito e reagem como um corpo que se fecha, como uma corporação que se fecha, como uma espécie de um clube privado, tentando desqualificar o que é a vida das pessoas, a vida nas profissões, a vida cívica. Depois de terem estado muitos anos a apelar a que novas pessoas viessem para a política.
Eu estou a candidatar-me à Presidência da República depois de longuíssimas conversas com as três pessoas que melhores, que mais qualificadas estão para saber se eu posso ou não exercer bem este cargo - os três anteriores Presidentes da República: general Ramalho Eanes, doutor Mário Soares e doutor Jorge Sampaio. São eles, mais do que outras pessoas, que me podem dar essa opinião e esse conselho de que eu estou em condições de exercer este cargo, e foi isso que eles fizeram. E a decisão deles, a opinião deles, foi absolutamente decisiva para a minha decisão."
Nóvoa para Marcelo
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Sampaio da Nóvoa é um moço que já ultrapassou os 60 anos. O 25 de Abril de 74 apanha-o com umas pujantes 19 primaveras. A vida toda pela frente. A liberdade e a democracia ao dispor para a sua realização política. Que fez a seguir? Pelos vistos, muita coisa. Daquelas que geram boa fama para além do bom proveito. Mas o que não fez, pelo menos em público, foi a denúncia de estar a política na mão dos “mesmos”, os tais da corporação que se fecha e do clube privado a que em 2016 alude mauzão. Não o fez, facto, ponto final. E é o próprio a explicar esse silêncio ao elogiar Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio. Foi porque não o pensou durante três décadas, ou quiçá mais tempo ainda, eis o enigma resolvido. Terá sido recentemente que descobriu o tal problema que garante ser ele quem melhor o pode resolver logo que ganhe as eleições presidenciais. Como é que sabe ser ele o melhor cidadão português maior de 35 anos para a função? Disseram-lhe, e ele acreditou. Ou melhor, decidiram, como chega a verbalizar, e ele obedeceu.
Pelas contradições é que se topam à distância os biltres. Podemos encontrá-los na família, no café, no emprego. Nos jornais, rádios e televisões. E nos consultórios, disto e daquilo. Podemos apanhá-los dentro de nós próprios, entretidos a despachar ideias manhosas, foleiras e cobardes para o nosso córtex frontal. Fatalmente, vamos apanhá-los na política. É o caso deste Nóvoa que anuncia o tempo novo, mais uma revolução pronta a revolucionar bastando juntar água. Ele sabe, e tem supino gosto em revelá-lo ao povoléu, que lhe chega a sua magnífica pessoa de reitor para mudar a História. Pelo que tudo se resume ao seu esforço para repetir essa informação perante brutos que manifestem dificuldade em perceber ou aceitar o que diz.
O candidato que promete ouvir todos e todos abraçar, alguns com beijinho, deixou ver como toma grandes decisões na vida, no caso concorrer a Presidente da República. A sua preferência é, e sem qualquer surpresa, pelo recurso à autoridade. Uma autoridade reunida em conselho de sábios. O que lá se decidir, em longuíssimas conversas, fica decidido. E depois há que dizer o que for apropriado para as inteligências menos desenvolvidas, sempre carentes de simplificações e reagindo com os instintos. Há que acusar os adversários daquilo que se pratica por não se conceber outro o exercício do poder. É nesta tradição que Nóvoa se revela mestre, e tem uma carreira brilhante atrás de si a comprovar o acerto desse ancestral modus operandi.
Vir depois desta manifestação do mais retinto conservadorismo oligárquico agitar a bandeira do terramoto por encomenda ao serviço da salvação colectiva graças à força telúrica que o anima é algo mais do que hipocrisia, é topete.
