Todos os artigos de Valupi

Alvejar

Que aconteceria, numas eleições legislativas, se todos os votos contados estivessem em branco? As eleições teriam de ser repetidas, claro. Os problemas da governação, sempre urgentes, permaneceriam sem boa resolução por mais uns meses. Mas os partidos não deixariam de existir por causa desse espantoso fenómeno. Apenas mudariam as lideranças, os programas, os discursos, ou nem isso.

Que aconteceria, numas eleições presidenciais, se todos os votos estivessem em branco? Ou se cada candidatura registasse apenas um 1 voto e os restantes fossem brancos, para atenuar uma beca o penoso absurdo deste exercício? As eleições teriam de ser repetidas, claro. Nenhum problema de maior para o interesse nacional ou para a boa gestão da coisa pública adviria pelo atraso na escolha do novo Presidente da República. E, provavelmente, alguns candidatos chumbados desistiriam, ou todos, aparecendo novas candidaturas.

As diferenças entre as duas eleições são substantivas e espelham a arquitectura do regime. Num caso, elege-se um órgão de representação indirecta, o Parlamento, donde sairá a formulação do Governo e futura legislação. No outro, elege-se um sujeito político individual que representa directamente o seu eleitorado e, por função constitucional, a nação, dentro de rígidos e constritos limites quanto aos seus poderes.

Estes dois cenários impossíveis relevam para a qualidade do voto branco em cada eleição. Nas legislativas, o voto branco é potencialmente prejudicial, para além de ser inútil. Nas presidenciais, o voto branco é potencialmente benéfico, apesar de ser inútil.

O adubo é a estupidez

O populismo pode ter várias tipologias, características e expressões (é ir estudar o assunto), mas, na sua essência, como perversão política, corresponde a uma réplica redutora e degradante do ideal democrático. Como tal, implica que as vítimas do populismo – mas não necessariamente os manipuladores populistas – desconheçam o que seja a democracia, tanto como entidade histórica, conceito político e prática cívica. Despida da sua complexidade, a democracia presta-se a ser uma caricatura de si mesma, acabando por gerar o que pretende evitar: a violência na cidade. O populismo embrutece e apela à irracionalidade, levando a que a inteligência se deixe oprimir por um maniqueísmo primário onde qualquer titular de um cargo político ou público passa a inevitável culpado de abuso de poder por actos, omissões ou simples usufruto da sua autoridade. É o “são todos iguais, são todos ladrões” que tem séculos de gasto e que se berra tão mais alto quão maiores forem as ameaças larvares à coesão da comunidade. O tempo das crises sociais por causas económicas é propício ao aparecimento de populistas que exploram a ignorância e a estupidez natural de quem conseguirem apanhar; como Trump na América, por exemplo. A ideologia é outro dos factores mais fortes para o surgimento de colectivos e indivíduos populistas; como o PCP e sua retórica, por exemplo.

Péricles, um dos inventores da democracia, constatou que diferenças no património poderiam fazer com que os mais ricos tivessem disponibilidade para participar com maior frequência e demora nas decisões políticas, enquanto os menos ricos e os pobres ficariam de fora por terem de ocupar o seu tempo na procura do sustento. Resolveu o problema passando a pagar aos cidadãos que exercessem actividade política. A partir daí, as desigualdades sociais já não eram impeditivas de se atingir uma igualdade política. Eis o sonho democrático a realizar-se num dos pináculos da sua promessa libertadora. Que diria a Péricles um dos nossos populistas encartados? Que ele não deveria gastar o precioso dinheirinho de Atenas com essa malandragem que precisava era de arranjar trabalho e baixar a bola. Facto: os broncos são sempre muito poupadinhos, a começar pelo gasto neuronal.

Deve um ex-Presidente da República receber uma pensão vitalícia só por ter ocupado esse cargo? O populista virá dizer que não, alegando que esse indivíduo não é mais do que os outros que não chegaram lá, era o que faltava. Quer-se dizer, já não lhe bastava ter estado a mamar à pala do Estado durante anos e anos e agora, quando já não serve para a função, ainda lhe íamos estar a dar mais dinheiro? É desta bronquite crónica, onde o serviço à comunidade em cargos de alta responsabilidade e consequência é apresentado como irrelevância, defeito ou aleatoriedade de índole estomacal, que se fazem as vocações fogareiras. Mas convidemos o bronco para uma experiência mental. Ele que imagine o Abílio, que até tem dois táxis e tudo, a chegar a Presidente fresquíssimo nos seus 35 ou 40 ou 50 ou 60 anos. Enquanto Presidente da República vai ter acesso a informações e personalidades que a quase totalidade daqueles que não sejam eleitos para tal cargo jamais chegará a conhecer. Quando o Abílio deixar os popós com motorista, e os banquetes, e a GNR em parada, tudo pago com os nossos ricos impostos, voltará para os seus dois táxis sem nenhuma pensão, posto que já não trabalha no tal palácio. Perguntemos ao bronco se é justo para os restantes taxistas ter o Abílio de novo como concorrente, agora que ele pode vender-se como mais nenhum dos fogareiros à sua volta poderá. Que diria o bronco? Seria capaz de perceber que há algo de intrinsecamente injusto em se permitir a alguém ter acesso a tanto poder e depois fingir-se que essa experiência não alterou perenemente o seu estatuto cívico e que tal privilégio equivale a uma vantagem perante os restantes cidadãos que não passaram por lá? Nesta experiência ficam de fora, propositadamente, as dimensões atinentes à dignidade dos cargos públicos e ao simbolismo das funções de representação na cúpula do Estado, por demais intangíveis e incompreensíveis para as capacidades mentais do bronco. Podemos ficar pela lógica do pilim, como se mais nada interessasse enquanto consumirmos o oxigénio deste planeta e o mercado fosse o paraíso. Bronco, estás aí?

Em Portugal, desde sempre nos partidos da esquerda pura e verdadeira, no CDS de Monteiro e Portas e na direita em geral desde 2008, o populismo de variada graduação e impacto tem moldado o combate político. Um combate contra o PS, oásis imune ao populismo até Seguro e de novo imune com Costa. Recentemente, políticos do PSD e do CDS chegaram a pedir a criminalização de governantes socialistas por razões do foro político, e o actual Presidente da República, em discursos solenes e actos públicos, espalhou venenosas sementes populistas ao protagonizar ataques canalhas contra a classe política de que é o seu mais poderoso membro, tanto pela longevidade na actividade como pelos cargos ocupados e seus efeitos. A isto acresce uma comunicação social onde o Correio da Manhã é o triunfal dominador populista através de uma violenta e selecta campanha de assassinatos de carácter, calúnias e crimes impunes, conseguindo influenciar a restante concorrência inclusive na suposta “imprensa de referência”. Como resultado, qualquer palhaço se arma em cavaleiro contra a corrupção, não precisando sequer de subir para cima do cavalo em ordem a se conceber vitorioso. A consequência é a anestesia geral da sociedade, a impotência cívica.

Quão mais estúpidos formos, quão mais atacarmos o Estado de direito, quão mais cedermos à cultura da calúnia, quão mais aceitarmos sermos enganados por quem não respeita a nossa inteligência, mais este país será um viveiro de populistas.

Declaração de voto

Até à eclosão da polémica das subvenções o meu voto estava destinado à Marisa. Por esta única razão: independentemente do caudal de divergências face ao que ela representa ideológica e politicamente, era a única candidatura que não insultava a minha inteligência. Agora, perante o oportunismo (comandado por Louçã) com que usou a problemática da decisão do Tribunal Constitucional para obter ganhos marginais à custa da completa degradação da campanha eleitoral numa orgia populista, já não terá o meu voto.

Em 2011 votei Defensor Moura. Era um voto decente, no mínimo dos mínimos, um recurso à disposição para não votar em branco. Em 2016, à 1ª volta, não tenho sequer esse recurso. Todas as candidaturas, sem excepção, exibem cidadãos indecentes enquanto candidatos presidenciais, embora não pelas mesmas razões. Pelo que me limitarei a dobrar o boletim sem gasto de esferográfica estatal ou privada. O meu país que decida o que fazer perante esta miséria a que chegámos na procura de um Presidente da República.

Se formos para uma 2ª volta, aí votarei contra Marcelo. Ele é o mais hipócrita, e o mais cínico, de todos os candidatos que alguma vez concorreram a Belém. Eis onde é grandioso.

Les beaux esprits se rencontrent

Em segundo lugar, somos agraciados com mais uma fundamentação delirante por parte do Tribunal Constitucional, invocando o sacrossanto princípio da protecção de confiança para impedir o poder executivo legitimamente eleito de corrigir situações de privilégio que considera injustas e reequilibrar as contas do Estado. Nas mãos de juízes aos quais parecem ter sido extirpados os sentidos da prudência e da ponderação (sete em 13, neste caso), é evidente que o princípio da protecção de confiança dará sempre para impedir qualquer lei de alterar qualquer direito que seja considerado “adquirido” – ele é uma monumental estátua ao statu quo que deveria substituir a de Pombal na rotunda do Marquês, já que estamos todos condenados, pela Maldição do Palácio Ratton, a andar eternamente à roda do velho regime, sem nunca sair da sua insustentabilidade.


Caluniador pago pelo Público

__

Há quem ganhe dinheiro (e quanto?) a promover a erosão e degradação do Estado de direito. Este cromo da indústria da calúnia aqui vem, sob a égide do que já foi um jornal de referência, atacar o princípio da confiança e o respeito pela Lei. Que pretende ele que aconteça sem esses pilares constitucionais? Basta ler o que tem apoiado politicamente e o que tais políticos pretendiam fazer e não conseguiram precisamente pelas mesmas razões – porque existiu um Tribunal Constitucional a impor um limite ao arbítrio governativo e à violência política.

Nesta questão das subvenções, o presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim de Sousa Ribeiro, teve de vir a terreiro dizer o b-a-bá do que está em causa: não gostam da lei, mudem a lei. Não se queira é que os juízes decidam para agradar à turbamulta em vez de respeitarem o que o Soberano instituiu.

Antes a geringonça do que a república dos fogareiros

Quando uma decisão política, tomada por políticos eleitos e que interfere apenas com a classe política é desfeita por um tribunal (a pedido de uma minoria de políticos, entre os quais a candidata Maria de Belém...) está tudo dito sobre a rigidez do sistema. Simplesmente não se pode mudar quase nada, porque haverá sempre um argumento qualquer para abater uma mudança destinada a corrigir uma lei parola. Mais do que nunca, será preciso rever os poderes do TC, alinhando-o com o interesse da comunidade. Um governo de juízes não serve. A geringonça é isto.


André Macedo

__

O André faz um editorial no centenário DN a apelar à revisão dos poderes do Tribunal Constitucional porque… a Lei foi cumprida. Fez-se Justiça, logo algo está mal. Pelo caminho, imagina-se fogareiro e dispara contra a classe política, o regime e o Estado de direito. Às tantas, ainda vai imitar o Observador e lançar uma revisão constitucional feita na casa com o prestimoso contributo de uns cliques que representem o “interesse da comunidade”.

Foda-se. Tu é que perdeste por completo o juízo, amigo.  Olha que nessa categoria de “imprensa” a concorrência é feroz e já domina o mercado. O mercado e, pelos vistos, a elite da opinião profissional portuguesa.

E porque não abdicar do palácio, do motorista e das idas ao estrangeiro?

Nóvoa esperou pelo fim do debate na RTP, ontem, para vir dizer que abdicará da subvenção vitalícia caso seja eleito para Presidente da República. O facto de não o ter dito no debate sugere que não o pensou durante esse período, muito menos antes – sendo aqui o antes todos os meses em que está em campanha, mais todos os anos em que se considera sujeito político. Se não o pensou, terá sido uma ideia que lhe ocorreu nesses minutos em que saiu do palco e foi para a sala à espera de ser entrevistado, ou mesmo durante a entrevista, qual iluminação fulminante. É uma possibilidade. Outra é a de alguém lhe ter dito à saída do debate que aquilo não lhe tinha corrido bem, que era preciso dizer uma cena qualquer de impacto para não se deixar contaminar mais ou para limpar um bocado da má imagem causada pelo seu silêncio ao longo do dia, ainda por cima face à exuberância da Marisa e da habilidade do Marcelo no trato da questão. É outra possibilidade, que me parece mais provável do que a anterior. Mas também considero a anterior credível, e muito.

Acontece que, com essa declaração, Nóvoa apenas consegue transmitir que se assume como volúvel e oportunista face à pressão populista contra os políticos. Não há nenhuma razão do foro orçamental que justifique estar-se a cortar um rendimento vitalício a quem desempenhou o cargo de Chefe de Estado. Por isso, não é apenas ridículo, é patético estar a invocar gastos exagerados ou errados para o Orçamento. Restam as razões moralistas, de uma moral abjecta ou alienada nos seus princípios e finalidades.

Austeridade? Paf!

Austerity has slowed regional recovery during the post-2008 recession, says new LSE study

Aguarda-se que os pafiosos apresentem os seus estudos onde se demonstre a eficácia da austeridade punitiva. Porém, tratando-se de uma maltósia onde tropeçamos em negacionistas do aquecimento global, até negacionistas da evolução (ou tendo tios da América que o pensem), talvez o melhor seja esperar deitado.

Entretanto, sabemos quem foi que disse o que disse, e quando o disse. Disse.

Revolution through evolution

Girls should expect poorer physics grades, new report suggests
.
A man’s best friend: Study shows dogs can recognize human emotions
.
Social Networks as Important as Exercise and Diet Across the Span of Our Lives
.
Study examines the downside of larger families
.
What you eat can influence how you sleep
.
‘Why I Give Patients My Cell Phone Number’
.
Religious decline does not equal moral decline, says researcher
Continuar a lerRevolution through evolution

Faz hoje 50 anos que

Caíram 4 bombas atómicas na Península Ibérica. Dois aviões norte-americanos, um com as bombas e o outro de abastecimento de combustível, chocaram no ar. Só no final de 2015 é que os Estados Unidos aceitaram responsabilizar-se pela limpeza dos terrenos contaminados com plutónio. Não sei o que será mais incrível nesta história, se a imagem de 4 bombas atómicas a caírem mesmo aqui ao lado de Portugal, e logo por acidente para ser ainda mais absurdo, se a demora dos americanos em tratarem do problema que causaram, no que fica potencialmente como o absurdo maior.

A BBC explica.

_86198102_palomares_bombs_624_v2

Os fios da telefonia

Afinal, a manifestação de capacidade crítica para com Cavaco, mostrada por Paulo Baldaia após as legislativas, não pode ser compreendida sem o recente anúncio de ir abandonar a direcção da TSF. Esta percepção só se reforça à luz da escolha do seu substituto, David Dinis, o qual fez do Observador um antro da direita radical à portuguesa. Basta consultar a lista dos comentadores, e ver como os autores das notícias tratam os assuntos onde se pode prejudicar o PS, para termos o retrato completo do que esta direita decadente tem para oferecer. Não chegam ao registo do Correio da Manhã mas trazem deste tudo o que seja aproveitável para os mesmos fins. No resto são iguais ao Expresso e ao DN do Marcelino, quando este trabalhava intensamente para meter Passos no poder. O Povo Livre tem ali um forte concorrente.

Como será a TSF com o David Dinis? Nalgumas coisas, exactamente igual. Baldaia nunca escondeu as suas preferências, tendo defendido Cavaco, Passos e Portas durante anos. Parece acompanhá-los em sincronia de fim de ciclo. Em inúmeras ocasiões os comentadores profissionais chamados ao Fórum TSF, por exemplo, vinham com a mesma cassete onde o PS/Sócrates era o alvo a abater. Este Dinis traz energia nova para fazer o mesmo e ir mais além. Talvez consiga meter o Zé Manel, a Helena Matos, o Rui Ramos e a Maria João Marques no éter para levarem ao ouvinte parado na bicha automóvel um fanatismo doentio desconhecido até agora na história da estação.

Para além do império que a direita já tem na comunicação social – incluindo os principais títulos da imprensa escrita, todos os canais de TV (posto que na RTP igualmente moldam a agenda editorial) e a Renascença – conseguir domar por completo a TSF apresenta-se como uma forte candidata à explicação principal para a escolha de quem tem um currículo jornalístico tão militante e sectário.

Fazia falta ter este César no palácio

Estou curioso a respeito do resultado que Maria de Belém obterá. Por diversas vezes, no contexto da escolha do candidato do PS para as presidenciais de 2011, aqui defendi ser ela a melhor candidata no páreo com Cavaco. A ter concorrido nessa altura, teria ao seu dispor a máquina do partido e pela frente um Cavaco debilitado pelo rancor e perfídia da sua luta contra Sócrates e os Governos socialistas. Poderia, nessa altura, ir buscar uma parte importante do voto do centro e das mulheres, suficiente para obrigar a uma 2ª volta. Lá chegada, teria fortes possibilidades de ganhar. Em vez disso, Alegre e Louçã boicotaram essas eleições e levaram à incrível derrota da esquerda. Incrível porque é absolutamente incrível que Cavaco tenha sido reeleito depois de ter feito o que fez a partir de 2008, culminando na “Inventona de Belém” e na armadilha de permitir um Governo minoritário num contexto de desvairadas e colossais crises internacionais que deixavam Portugal num estado de emergência financeira, económica e política. Sabemos o que aconteceu logo a seguir à sua reeleição e como daí vieram 4 anos e meio de insanidade e castigo.

Agora, Belém fala para velhinhos e empregados do Estado. É apenas uma entre várias candidaturas que se nivelam por baixo, tamanha a falta de legitimidade histórica e de carisma. Para o cenário ser completamente mau, a crise entre Seguro e Costa revelou-lhe uma faceta sectária que tinha ficado mais ou menos abafada enquanto Sócrates foi secretário-geral. Isso retira-lhe, aos meus olhos, estatuto presidencial. Vê-la a concorrer em 2016 significa apenas que é essa a energia onde carrega as pilhas, ficando como a representante de Seguro nas tais primárias referidas por Costa.

Ignoro por completo por que é que Carlos César, por exemplo, não está na corrida após ter ficado encerrado o capítulo Guterres. Se calhar, por alguma circunstância da sua vida pessoal ou familiar, se calhar porque não teve vontade para tal, se calhar porque o partido não quis. Apenas sei que ele seria o candidato natural do PS, trazendo uma experiência, um perfil e uma atitude que não teriam rival no campo das qualidades que associamos a um Presidente da República de todos os portugueses.

Azar o nosso.

Maquiavel está de saúde e recomenda-se

Se perguntarmos a qualquer político ou jornalista em que lugar coloca a Justiça numa hierarquia de importância constitucional, social e política vamos ter como invariável resposta que ela deve ocupar o topo da escala. Porque é lógico: será possível ter uma comunidade organizada sem cuidados de saúde, sem polícia, sem exército, até sem dinheiro, como ocorreu durante milhares e milhares de anos na História, mas não é possível que um qualquer grupo humano se mantenha com coesão identitária sem que haja uma qualquer forma de estabelecer e aplicar a justiça. Sem um corpo de princípios coercivamente “justos”, e força para o instituir, os grupos desagregam-se, geralmente pela violência interna.

A partir desta consensualidade, os ingénuos como eu esperavam que a lógica se mantivesse calhando ocorrer na esfera da Justiça algo de inusitado, espectacular e gravíssimo, como a abertura de uma investigação a respeito de suspeitas de corrupção de um ex-primeiro-ministro. A dimensão institucional desse caso, e a notoriedade mediática que gera, mais o alarme social criado, e ainda as implicações eleitorais inerentes, são camadas que acrescentam importância ao que a elite da opinião publicada portuguesa considerava já ser da maior importância nacional mesmo a um nível corrente. Em concomitância, o caso permite olhar com uma luz muito mais intensa para a Justiça, ficando esta com a obrigação de aparecer exemplar e à altura da complexidade jurídica do que pretende investigar e, eventualmente, julgar.

Saltemos agora para a entrevista de Sócrates à TVI em Dezembro. Deixando a parte das suas explicações acerca dos motivos que o levaram a pedir dinheiro emprestado a um amigo e logo àquele, ficando para a consciência de cada um a avaliação da credibilidade dessa justificação e a moralidade da mesma dado o seu estatuto, temos um conjunto de afirmações que se reportam directamente à actuação da Justiça. Essas declarações não foram desmentidas, algumas correspondem a factos já estabelecidos publicamente, e vêm de um arguido onde o tal estatuto como ex-primeiro-ministro, ex-ministro, ex-deputado e ex-secretário-geral do PS aumenta o peso das denúncias que faz. Estas:

- Detenção e prisão alegando existirem provas irrefutáveis a justificarem as medidas. Mais de um ano depois, não foram apresentadas essas provas, nem a acusação, nem sequer os factos que indiciam os crimes de corrupção.

- A acusação não foi ainda feita porque o Ministério Público não tem provas para tal. No processo, não consta nenhum indício de corrupção na altura da detenção.

- A prisão foi justificada com o perigo de perturbação do inquérito. Mas o que se pretendeu evitar foi só a liberdade de expressão de Sócrates para se defender.

- Qual a razão para se terem feito protestos contra a prisão de um cidadão preso em Timor-Leste sem acusação durante 5 meses e não se terem feito protestos iguais, ou até maiores, em Portugal por causa da situação da prisão de Sócrates, igualmente sem acusação ao fim de 11 meses de encarceramento?

- A violação dos prazos legais do processo corresponde à violação dos direitos do arguido.

- O Ministério Público tem feito uma campanha de difamação contra Sócrates, por actos ou omissões, cuja finalidade foi a de criar uma presunção de culpabilidade através de fugas de informação seleccionada.

- A detenção foi encenada para ser pública, apesar de Sócrates ter informado as autoridades que viria de Paris para prestar declarações assim que chegasse.

- Prenderam "toda a gente", sem provas nem indícios suficientes, na expectativa de encontrarem alguma coisa na devassa da privacidade de Sócrates e terceiros.

- A recusa da pulseira electrónica levou a que Sócrates fosse castigado com mais 3 meses de prisão em Évora por estar a exercer um direito.

- Uma parte do inquérito, o tomo 60, não foi disponibilizada à defesa de Sócrates ao arrepio do que determinou o acórdão da Relação.

- A descoberta dos responsáveis pelas violações ao segredo de justiça remete para apenas três pessoas, declarou o chefe da investigação fiscal a Sócrates referindo-se a si próprio, a Rosário Teixeira e a Carlos Alexandre.

- Os prazos do inquérito são meramente indicativos, queremos manter esse arbítrio que permite a permanência das suspeitas levantadas contra alguém por tempo indefinido?

- Procuradora-geral da República tem que justificar as acções e omissões do Ministério Público.

- O Estado permitiu que fosse levada a cabo uma campanha de denegrimento pessoal.

- Desde o dia 15 de Abril de 2015 que o Estado não respeita os direitos da defesa.

- Rosário Teixeira terá admitido a Sócrates que ele foi detido e preso para ser investigado. As suspeitas lançadas na indústria da calúnia em direcção a diferentes alvos comprovam que assim aconteceu.

- O Ministério Público não investigou nada que tenha relação com a suposta corrupção de Sócrates.

- O caso Freeport nasceu no gabinete de Santana Lopes quando este era primeiro-ministro. O caso das escutas a Cavaco nasceu na Casa Civil da Presidência.

- Existe um processo no Ministério Público sobre as PPP, para o qual foram feitas buscas e apreensões em casas de ex-ministros socialistas, que dura já há mais de 5 anos e meio e ainda nada se sabe sobre as suspeitas levantadas.

- A detenção e prisão de Sócrates foram decisivas para a derrota do PS nas eleições de 2015, parecendo fazer parte de um plano para tal.

Qualquer uma destas pontas soltas relaciona-se fundamentalmente com a Justiça como serviço à comunidade e respeito pela Constituição, para além de abrirem inevitáveis questões políticas. Teriam interesse jornalístico por si só caso o arguido fosse um ilustre desconhecido da multidão. Sendo quem é, trata-se de matéria com combustível suficiente para incendiar o regime. Porém, a reacção dos tais que enchem a boca com a primazia da Justiça qual foi? Da esquerda à direita, dos jurisconsultos aos publicistas, dos políticos profissionais aos amantes da política, dos estouvados aos sensatos, quem é que aceitou assumir a indignação de Sócrates? Uns poucos muito poucos. O que se passou na RTP é paradigmático da resposta dada pela elite ao desafio lançado por Sócrates.

Para quem não saiba ou esteja esquecido, há que lembrar ser a RTP uma estação de televisão paga pelo Estado e obrigada a respeitar o que se considere ser serviço público. O que tal seja no campo da informação, todavia, aparece como enigmático à luz do exemplo seguinte. Na RTP3 foram chamados José Manuel Fernandes e André Macedo para comentarem a entrevista de Sócrates, tendo Adelino Faria como jornalista da casa. O mesmo trio repetiu em dois dias os comentários à 1ª e 2ª parte da entrevista. E a primeira pergunta dada a opção tem de ser a respeito do critério que levou a RTP, e logo a RTP, a escolher estas duas figuras para se pronunciarem. Para além de terem o mesmo ponto de vista político e moral sobre Sócrates e a Operação Marquês, no caso do Zé Manel estamos perante um infeliz que dá sobejos sinais de ser vítima de uma obsessão raivosa contra o sujeito a quem lhe pagam ou pedem para falar, patologia nascida aquando do episódio da OPA da Sonae à PT em 2007. Como se pode ver ou rever – 1ª parte | 2ª parte – ambos relativizaram e desvalorizaram a dimensão estritamente formal do processo, preferindo dirigir a sua atenção para a dimensão das suspeições criminais. Nesta, usaram as notícias despejadas no espaço público tomando-as como factos inquestionáveis, provas. A partir delas, assumiram o papel de interrogadores e queixaram-se por Sócrates não ter satisfeito as suas expectativas e desejos. A isto correspondeu Adelino Faria com cumplicidade ou aprovação explícita e implícita.

Olhemos com mais atenção para o que se passou. O canal especialista em informação da estação pública de televisão toma uma opção editorial com vastas consequências na sua audiência (seja ela qual for quanto à dimensão e tipologia) ao escolher certas figuras, e não outras, para condicionar a opinião pública a respeito de um grande acontecimento político, social e até cultural, dado o seu impacto percebido e novidade histórica. As figuras escolhidas não oferecem qualquer bipolarização ou divergência opinativa substancial, antes comungam da mesma narrativa e só se diferenciam por uma estar doente e a outra manter um mínimo de salubridade ética e deontológica (embora colada com cuspo e cheia de buracos). Esta posição comum acaba reforçada pelo jornalista supostamente neutro, assim exponenciando o veredicto: Sócrates está a ser justa e correctamente investigado, as suas queixas não têm importância para a gente séria, e o arguido não consegue defender-se do que já foi lançado contra ele. Em suma, é o próprio canal do Estado quem estabelece a culpabilidade de Sócrates, haja ou não acusação, haja ou não condenação.

Corolário, o crime compensa. As violações ao segredo de justiça, em si criminosas a montante e jusante, são legitimadas pela opinião profissional e exploram-se como arma de arremesso para agendas políticas, comerciais ou individuais nascidas da inveja, do ressentimento, da vingança e da pulhice. Maquiavel escreveu, faz algum tempo, acerca deste mecanismo do poder onde o que está em causa é conseguir impor à moral popular uma prática imoral alegando que a mesma é necessária face ao perigo em causa. Daí a intensidade das campanhas de ódio, as quais servem o propósito de diabolizar aquele a quem se pretende fazer algum mal que, sem essa diabolização, seria censurado pela comunidade. Pintando-o como um monstro, consegue-se o melhor dos dois mundos – atacá-lo sem piedade nem limites e passar por protector da sociedade. Recorde-se o episódio, de 2010, em que Pacheco Pereira e João Oliveira se enfiaram numa saleta da Assembleia da Republica para cheirarem as cuecas de um primeiro-ministro apanhado em escutas ilegais e recorde-se como um deles saiu a berrar que tinha visto o Diabo e o outro veio dizer que nada de relevante do ponto de vista criminal ou político lá se encontrava. Recorde-se como em 2015 nenhum partido quis levar a votação qualquer proposta a respeito da Justiça, tendo sido um assunto completamente ausente da campanha. Recorde-se como, há dias, um cavaleiro andante do calibre de Sampaio da Nóvoa, quando instigado com insistência por um jornalista para se pronunciar acerca da demora no desfecho na Operação Marquês, fugiu por onde pôde e nada disse para não se comprometer ou queimar. O Estado de direito que se foda, é a mensagem da classe política e jornalística neste jardim à beira-mar abandonado.

Sócrates é o caso supremo, na memória viva dos portugueses, deste exercício de hipocrisia letal.

Revolution through evolution

Racial bias may be conveyed by doctors’ body language
.
Why white, older men are more likely to die of suicide
.
Religious beliefs don’t always lead to violence
.
Roman toilets gave no clear health benefit, and Romanization actually spread parasites
.
Tackling World’s Problems with Human-Computer Intelligence
.
When you don’t seek out ethical products, you denigrate those who do
.
Study Strengthens Link Between Stock Market Performance and Employee Health and Safety Programs
Continuar a lerRevolution through evolution