Convencionou-se que o dia 25 de Novembro seria a data da fundação do Aspirina B, embora a primeira publicação tenha ocorrido dois dias antes. Em 2005, ano do lançamento, era o Luis Rainha quem regia a orquestra, tendo partido dele a ideia de criar este pardieiro. Talvez tenha partido dele, igualmente, a colagem ao 25 de Novembro, por oportunidade e subtexto. Se alguma vez falámos sobre isso, já o esqueci. O elenco inicial era retintamente esquerdolas, versão agitprop, daí a eventual graçola.
Há 10 anos, este blogue surgia como um híbrido. Ainda com a vitalidade do que era novo em Portugal, mas já marcado pela consciência de ser velho pelos que tinham começado nisto um par (ou dois pares) de anos antes. Em 2005, estávamos à beira de abandonar os blogues como locais da crescente socialização digital e migrar felizes e em massa para o Facebook já inventado e para o Twitter a inventar no ano seguinte. O que manteve a relevância sociológica dos blogues por mais um lustro foi só o calendário eleitoral e o facto de terem servido, à direita, como associações de apoio a doentes de socratopatias, agremiações de famintos do pote e colégios de pulhas profissionais até 5 de Junho de 2011. O que ainda resiste da outrora “blogosfera política”, à esquerda e à direita, está como a rádio local para as televisões nacionais. Existem umas coisas espalhadas por aí, mas ninguém a não ser os viciados e os malucos sabe o que lá se passa. Obviamente, há excepções nesta paisagem, conformes ao estatuto mediático dos autores respectivos.
Agora que se cumprem 10 anos, e umas palavras solenes se impõem como praxe, a minha atenção vai, primeiro, para os colegas de escrita que por aqui passaram, em tempos tão diferentes e com tão diferente motivação. Sem nada publicado, ninguém aqui viria parar. Para mim, prazer e honra por esta partilha de brincadeiras adultas, nuns casos, infantiloides, em muitos outros. Logo depois, a minha atenção vira-se para os leitores e comentadores. Em especial, para os que desapareceram e que fizeram parte desta estranha e mutilada forma de conviver. Alguns terão morrido, outros adoecido, algo estatisticamente muito provável. Mas a maior parte simplesmente não voltou porque se fartou passada a novidade, ou deixou de comentar porque perdeu o encanto e até a simpatia com as constantes vagas de agressividade demente que este canal de comunicação não só permite como acirra nas caixas de comentários. Outro factor é a inevitabilidade de se quebrarem os laços afectivos porque em algum momento algum autor deixou de representar uma qualquer preferência, ou passou a representar uma qualquer aversão, quebrando-se a confiança moral e o sentimento de identificação. Por fim, como força principal para a efemeridade das afinidades, a consciência implacável de que há muito mais e melhor para fazer com o tempo que resta do que estar a assistir à banalidade alheia. Pelo menos, é essa a minha opinião a respeito do que escrevo.
Existe um conceito grego que descreve o acto de expressar verbalmente a sinceridade do pensamento: parrésia. Foucault deixou-nos uma célebre reflexão sobre a sua importância – The Courage of Truth: The Government of Self and Others II – First Lecture – que é em simultâneo uma lição de política. O que está em causa nesse exercício é a ousadia de ser fiel à consciência mesmo que se arrisque o perigo máximo. Nesta celebração dos 10 anos deste passatempo irrelevante chamado Aspirina B, reclamo o mérito de ele servir para a iniciação à aprendizagem da parrésia. E que nos faça bom proveito.