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Traduzindo o esgoto

menezes-cm
25 de Novembro de 2016

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Tradução:

Entre 18 de Setembro de 2014 e Outubro de 2016, ou seja, enquanto pensávamos que iríamos conseguir sem chatices de maior assar mais este borrego e servi-lo fatiado no esgoto onde ganhamos o pão, o CM e também a CMTV exploraram até ao tutano as suspeições que envolviam aquele merdas choramingas caído em desgraça no PSD, e por isso já sem qualquer utilidade para a nossa agenda política, chamado Luís Filipe Menezes.

As tangas foram publicadas por diversos “jornalistas” que, no exercício da sua actividade, cumpriram com zelo a missão de não só ignorarem como ridicularizarem o Artigo 14º do Estatuto dos Jornalistas, lei geral da República, e o Código Deontológico dos Jornalistas, aprovado em assembleia geral do Sindicato dos Jornalistas. Nessas folhas de couve podem-se ler barbaridades do género “Exercer a actividade com respeito pela ética profissional, informando com rigor e isenção“, “Abster-se de formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência“, “Abster-se de recolher declarações ou imagens que atinjam a dignidade das pessoas“, “Não falsificar ou encenar situações com intuitos de abusar da boa fé do público“, “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.“, “O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.“, “O jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado.“, e mais uma juliana de cagadas que nos deixam à beira da apoplexia de tanto gargalhar aqui no esgoto. Quem é que se lembra de escrever estas coisas? Para quem é que estes gajos estão a ladrar? Nós temos um serviço de promoção de agentes de Justiça a troco da impunidade para achincalharmos o Estado de direito e difamarmos e caluniarmos quem nos apetecer. Nós já fizemos primeiras páginas colocando na boca de um fulano, e garantindo que era a sua confissão, aquilo que não passava da suspeita mais grave que ocupava o bestunto do procurador que o interrogou. Quem faz uma avaria destas está noutro campeonato – e esse número é que devia dar direito à criação de um novo feriado, caralho! Enfim, enquanto estivermos rodeados de mansos, siga a festa.

Ora, passa-se aquilo que já sabíamos de ginjeira em todo o santo dia em que chafurdámos nas pulhices. É que o mariconço nunca foi constituído arguido em nenhum processo envolvendo as porcarias que inventámos para vender aos otários, nem sequer questionado formal ou informalmente a respeito; para grande pena nossa, registe-se, pois bastaria ter sido chamado a prestar declarações para enchermos e despacharmos mais umas toneladas de chouriças de sangue à nossa moda. Resultado, estamos aqui na palhaçada para ver se nos livramos de pagar alguma coisa ao ex-coiso de Gaia.

O CM e a CMTV querem sublinhar que continuarão a alimentar os ranhosos – isto é, continuaremos a servir com esmero os nossos leitores e espectadores – os quais têm em nós o mais poderoso e debochado produtor de mentiras na pujante indústria da calúnia portuguesa onde somos líderes destacados. Aproveitamos para saudar o presidente-eleito dos EUA, o qual fez uma campanha que teve toda a pinta de ter sido concebida por alguém que leu e copiou o nosso livro de estilo. Um grande “Heil, Trump” para esse loiro adorável e, por favor, o FBI que abra com urgência uma investigação aos emails trocados entre a vaca da Hillary e o cabrão do Sócrates. Nós tratamos do resto.

O Fraude explica

Os deputados do PSD e do CDS adoram insultar e ofender os adversários no Parlamento, insinuando abertamente que são corruptos e declarando sistematicamente que são mentirosos. Os deputados do PSD e do CDS atiram as cartolas e bengalas ao ar em júbilo apoteótico se um Presidente da República sectário for para o Parlamento fazer um comício a seu favor. Mas os deputados do PSD e do CDS não toleram e ainda menos suportam que um governante adversário sugira numa oração disjuntiva que um dos seus deputados possa estar condicionado por um período efémero de aguda estupidez.

Tanta energia gasta na ocasião só se explica pelas notícias da manhã. Nelas, o perfeito descalabro da estratégia de Passos fazia manchetes. E esse vexame, e pânico, de ter um líder com uma disfuncionalidade cognitiva permanente encontrou nas palavras de Mourinho Félix a milagrosa catarse para se poderem esquecer da realidade.

Alguns destes deputados, enquanto davam aos pezinhos e rosnavam que nem ursos, chegaram mesmo a esboçar um sorriso. O primeiro e único do dia.

Exacto, é preciso ter lata, muita lata

Passos antecipou Trump em 5 anos. A uma campanha de espectaculares mentiras seguiu-se uma governação de inveteradas pós-verdades. Não ia cortar pensões, subsídios, salários, funcionários públicos. Ia cortar gorduras no Estado. Quem se pode opor ao corte de gorduras no estado seja de quem for? Para além disso, o FMI era um bacano e o acordo do resgate de emergência, nascido do boicote parlamentar ao garantido apoio europeu que o evitaria no futuro de curto e médio prazo, confundia-se com o programa que levava a votos, só pecando aquele por não ser tão ousado quanto a sua ambição. O rating de Portugal subiria em 6 meses assim que o Mundo fosse informado do regresso do PSD a S. Bento. As contas estavam todas feitas, berrava o laranjal. Com Passos no leme, navegaríamos a direito em direcção ao além-Troika, vinha aí a revolução. A economia ia ser “democratizada”, afiançou com os olhos postos na República Popular da China e nos magníficos negócios na calha. Cereja no topo do bolo, jamais regressaria ao passado para se justificar com a situação presente, garantiu numa ocasião solene. Sabemos o que se seguiu. Seguiu-se o “Governo mais liberal de sempre” e o seu peculiar gosto pelo empobrecimento como punição e o colossal aumento de impostos como panaceia, tudo embrulhado na subserviência aos radicais do fanatismo austeritário.

Como é que a sociedade reagiu a esta postura hipócrita, dúplice, oportunista e factualmente traidora ao interesse nacional? Como é que a comunidade lida com políticos com este grau máximo de desonestidade eleitoral e política – sem análogo conhecido na democracia portuguesa? Os apoiantes rejubilaram, pois na fúria tribal vale tudo para obter poder. A lógica da diabolização dos adversários é a de os transformar em inimigos e, consequentemente, em alvos da maior violência possível ainda antes de eles nos atacarem. Basta a suspeição de que irão lutar pelos seus interesses para justificar os ataques antecipados e a recusa de qualquer acordo. Essa foi a estratégia seguida com Sócrates desde 2008, alguém visto pela direita e pela oligarquia como forte de mais para ser derrotado apenas no páreo eleitoral, e ainda como um líder com quem teriam de fazer cedências (ou seja, que não conseguiriam comprar). As golpadas judiciais-mediáticas sucederam-se logo a partir de 2004, e em 2010, em cima do furação provocado pela crise das dívidas soberanas começado na Grécia e da armadilha do Governo minoritário, havia quem na direita preferisse ver um Governo com o PCP do que com o PS de Sócrates, outros gozavam o prato a exigir que o próprio PS defenestrasse o seu líder caso quisessem negociar soluções de governação com o PSD. Ao mesmo tempo, incluindo pela boca do próprio Passos Coelho e do Pacheco Pereira, entre outras figuras menores e contando com a agenda política da indústria da calúnia, alimentava-se o discurso do ódio que apelava à prisão de Sócrates e de quem com ele governava. Era o tempo em que todos os actos governativos estavam sob suspeita, em que todos os governantes era ladrões ou cúmplices de ladrões. Tal como Trump agora, a direita portuguesa então jurava ir secar o pântano da corrupção socialista. Não há rigorosamente diferença nenhuma entre um e outro discurso. Tal como não há diferença nenhuma entre a facilidade com que um e outro mentem em público e para o público.

Passos continua como presidente do PSD e até consta que pretende voltar a ser primeiro-ministro. Espantoso? Nada, pois este é o mesmo país que reelegeu Cavaco depois dele ter usado a sua função presidencial para violar a Constituição, violar o seu juramento e entrar a fundo na baixa política e nas golpadas eleitorais. Os interessados em estudar o fenómeno do ponto de vista da ciência política, da antropologia e até da psicologia apenas terão de reler o que os conspícuos apoiantes de ambos diziam a seu favor in illo tempore.

Alegremo-nos, Trump há só um

Acompanhei as eleições americanas exclusivamente pela CNN. Tanto no dia como nas semanas e meses que antecederam o 8 de Novembro. Este ubíquo órgão de comunicação social não declarou o seu apoio a qualquer candidato. Porém, e sem a mínima surpresa, naquela casa a preferência generalizada era Hillary. Tal ficava óbvio nos programas de opinião, onde os jornalistas-apresentadores deixavam transparecer a sua inclinação e onde o número de comentadores a favor de Hillary – ou necessariamente contra Trump dadas as suas grotescas e aviltantes declarações – superava numa proporção de 3 para 1 os defensores de Trump.

Apesar deste desequilíbrio, será difícil apontar falhas deontológicas à estação e à sua prática de imprensa. A cobertura noticiosa seguia de forma isenta os acontecimentos, destacando o que era novo e relevante. Por exemplo, assim que o FBI lançou a bomba de existirem mais não sei quantos milhares de emails com interesse para a investigação a Hillary, a CNN passou a destacar e analisar esse conteúdo nos blocos noticiosos e de opinião. Não houve qualquer apagamento daquilo que só pelo mero facto de ser falado já causava danos à candidatura Democrata; pelo contrário, tentou-se explicar a situação até ao limite do possível, dando-lhe protagonismo editorial. O interesse pela verdade dos factos era o que guiava os jornalistas e os comentadores da CNN. Para além disso, em momento algum se viu serem diminuídos os representantes de Trump, os quais em constantes ocasiões executavam verdadeiros números circenses para defender o indefensável e até o abjecto.

A percepção de favoritismo a favor de Hillary agudizou-se pela excepcionalidade da candidatura de Trump. Ter um candidato que gera repulsa nas principais figuras do partido por que está a concorrer não é o melhor ambiente para gerar equilíbrios e harmonias. Tal nunca antes se viu em qualquer outro acto eleitoral passado nos EUA. E mais do que se justificava, pois Trump cavalgou intencionalmente os 4 cavalos do apocalipse da democracia: racismo, xenofobia, misoginia e fascismo. Não ter reagido aos mesmos com alarme e indignação, e continuar a não querer reagir alegando que não passou de uma palhaçada para enganar os broncos que lhe deram o voto, define não apenas o cidadão como a pessoa em cada um de nós. O fascínio da comunicação social com Trump não foi só um fenómeno de dinâmica estritamente mediática (ele deu o melhor espectáculo, e de longe), havia também um hipnotismo causado pela exibição do Mal preso a uma trela. Via-se e não se acreditava – pelo que se tinha de voltar a ver.

É por isso que o efeito Trump está condenado a ser efémero, ele que condensou num grau inaudito, e num modo escabroso, a retórica populista do tempo. A ressaca, que consistirá na sua conversão à sensatez convencional ou na sua perdição em desastres calamitosos, já começou a ser servida e ainda nem duas semanas passaram da maior estupidez que este século regista.

Revolution through evolution

Older First-Time Mothers Are Also More Likely To Live Longer
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FSU Researcher: Women Do Get Better With Age
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Teacher communication with parents consistent with racial stereotypes
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Consuming violent media linked to 13x surge in violent dreams
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Sunshine Matters A Lot To Mental Health; Temperature, Pollution, Rain Not So Much
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What So Many People Don’t Get About the U.S. Working Class
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8 Ways To Advance Social Justice After The U.S. Election

Não se faça Justiça, desta

O ignatz chamou a atenção para este vídeo, e estamos mesmo perante 4 minutos imperdíveis. Só lamento não estar disponibilizado o resto do debate (se alguém souber onde, mesmo que apenas em áudio, é avisar).

Apanhamos o paleio com António Ventinhas a repetir a sua cassete alinhada com o populismo do tempo: os criminosos de colarinho branco (isto é, os ricos e os políticos – as “elites”, donde ele finge estar excluído) dominam a comunicação social e daí disferem contínuos ataques contra a Justiça com a finalidade de deslegitimar as decisões tomadas contra eles e influenciar os juízes. Como quase sempre com esta personagem (a excepção sendo a Operação Marquês), não há qualquer informação concreta que permita aferir do que e de quem está a falar. Na ausência de factos, a intenção do seu discurso só pode ser a de espalhar uma teoria da conspiração onde os maus cercam os bons. Os maus passam a ser todos aqueles que questionem os procedimentos e decisões da Justiça portuguesa e os bons são todos aqueles que possam exibir um cartão de funcionários de alguma instituição policial e judicial, está a dizer-nos o Ventinhas armado em sério. O mesmo Ventinhas que não se importa de sugerir que há juízes influenciáveis pelo que aparece na comunicação social – caso não o fossem, ou os criminosos nem perderiam tempo a fazerem o que supostamente fazem ou este marmanjão não perderia tempo a mostrar-se preocupado com isso. Contradições e suspeições cabeludas que parece não interessarem a ninguém neste país de branda cidadania.

O presidente do Sindicato dos Magistrados já nos brindou recentemente com obscenas (espantosas?) violações ao que é um módico respeito pelo Estado de direito, pelo que não nos pode surpreender o seu sectarismo corporativista. Mas que dizer do que este vídeo igualmente mostra, agora pela boca da bastonária da Ordem dos Advogados? Ela recorda que foi alvo de um inquérito pela Procuradoria-Geral da República simplesmente por ter afirmado publicamente que há magistrados a cometerem o crime de violação do segredo de Justiça. E mais detalha que nesse âmbito entregou 1500 documentos às autoridades, onde se incluía um auto judicial publicado na íntegra por um órgão da comunicação social quando ainda nem sequer havia advogados de Sócrates constituídos no processo da Operação Marquês. Esse inquérito foi arquivado em 10 dias, o interesse do Ministério Público para explicar e/ou investigar os factos documentados por Elina Fraga nenhum, conclui-se.

Se há agentes de Justiça, provavelmente também magistrados ou ainda mais provavelmente só magistrados, que cometem crimes de violação do segredo de Justiça em processos de máxima exposição mediática, gravíssima perturbação política e generalizado alarme social como este onde um ex-primeiro-ministro está constituído arguido por suspeitas de corrupção e em que já esteve preso preventivamente perto de um ano, decorre como corolário que não haverá qualquer limite para os crimes que os mesmos, ou outros, poderão cometer em processos que passam invisíveis aos olhos da imprensa e da opinião pública. Porque se há algo que já aprendemos com estas práticas criminosas é a de que elas estão blindadas ao ponto de até terem propagandistas que apelam ao abandono da sua investigação e punição. Sempre que alguém, como o nosso Ventinhas, aparece a culpar só os arguidos e advogados pelas violações ao segredo de Justiça, apagando os casos em que tal é pura e simplesmente impossível ou improvável e até ilógico, podemos ter a certeza de estarmos perante alguém assumidamente cúmplice dessa prática criminosa.

Se existe violação do segredo de Justiça por parte de agentes de Justiça, tenham eles o papel que tiverem nas instituições judiciais, então existem criminosos com acesso directo e secreto a processos judiciais e, quiçá, ao aparelho policial. Escusamos de perder uma caloria a descrever o perigo que tal configura e a factual falência do Estado de direito que daí decorre. Passemos para a pergunta seguinte: como explicar a passividade do sistema partidário, do Parlamento e da Presidência da República face aos crimes que são públicos e sistemáticos ano após ano? Encontrar uma explicação obriga-nos a falar da maior vítima do fenómeno, Sócrates. Do lado do PSD, CDS e Cavaco quando em Belém, constata-se o completo aproveitamento dos crimes para obter ganhos políticos. Como se consideram protegidos pelos criminosos, esta direita decadente não tem qualquer interesse em alterar o statu quo. Do lado do PCP e do BE constata-se uma situação análoga. Consideram-se protegidos, embora por outras razões, e igualmente obtêm um aproveitamento político de tudo o que prejudique o PS. Junta-se a este oportunismo larvar a cegueira ideológica onde não cabe uma paixão idealista, ou que fosse meramente cívica, pelo Estado de direito. O “patriotismo” e a defesa da “Constituição” que os comunistas agitam em bandeiras cheias de buracos convivem na perfeição com aqueles que degradam os pilares da comunidade desde que o alvo sejam socialistas. Resta o PS, o principal pilar político do regime.

Os socialistas estão desde 2002, com o processo Casa Pia, sob fogo constante da Justiça. Talvez porque o PS seja uma agremiação de criminosos, é hipótese a considerar. Ou talvez porque haja quem tente judicializar a política, tantos os ganhos que se obtêm recorrendo a essas difamações e calúnias qualificadas. O certo é que nesse partido não existe um discurso sobre a Justiça que aponte no caminho da sua democratização e responsabilização. Não sabemos sequer como avaliar o trabalho dos agentes de Justiça, estão intocáveis e soberbos na sua torre de marfim. Com explicar tamanha passividade, e passividade apesar dos quase 15 anos de ataques envolvendo magistrados? A resposta mais óbvia, porque mais fácil, é esta: medo. Os políticos terão medo da Justiça, precisamente por causa do que ela mostra ser capaz de fazer ao escutar não se sabe quem e ao passar a certos jornalistas (pelo menos a jornalistas, embora pelas mesmas razões, e até melhores, poderão dá-las ou vendê-las a políticos adversários) essas informações assim captadas. Medo também da abertura de investigações judiciais politicamente motivadas, como na tentativa em Aveiro de abrir um processo contra Sócrates sobre um suposto atentado ao Estado de direito que era pura invenção para tentar influenciar as eleições de 2009. Mas é também de supor que mesmo dentro do PS haja quem se aproveite da anomia na Justiça para tentar obter ganhos políticos internos. Por exemplo, Ana Gomes tem sugerido que o processo Casa Pia nasceu dentro do PS no âmbito de uma disputa de poder ao tempo (pista: Sócrates), assim absolvendo os magistrados envolvidos de quaisquer manchas processuais. Seguro, na sua campanha para secretário-geral do PS, estava muito entusiasmado com a perspectiva de ir limpar o partido da corrupção entranhada que ele conhecia de ginjeira (embora nunca tenha apresentado prova fosse do que fosse de ilegal) e que já era do domínio público graças às edições diárias do esgoto a céu aberto. E mesmo Costa pode ser visto como um líder interessado em ver Sócrates definitivamente enterrado, para assim anular um potencial foco de concorrência política, daí nada ter feito na sua defesa como inocente até prova em contrário e inclusive tendo-lhe martelado uns pregos no caixão. A terem estas considerações algum solo a que se agarrarem, poderíamos concluir admitindo que o problema da criminalidade na Justiça portuguesa começa pelo crime da falta de justiça nas lideranças partidárias.

Give Donald Trump a change

Todos sabemos o que estaria agora a fazer. Trump viria berrar que as eleições tinham sido viciadas, que os resultados não eram legítimos, que Hillary não merecia ser Presidente, que devia estar presa. Directa e indirectamente, apelaria a manifestações na rua e a distúrbios violentos. Depois lá faria uma encenação qualquer onde diria o mínimo possível para que fosse considerada uma concessão de derrota. E partiria para a consumação do seu plano original: usar a mais extraordinária operação de marketing alguma vez realizada na América para começar a facturar, eventualmente lançando uma estação de televisão especialista em populismo e calúnias, um esgoto a céu aberto com uma escala planetária. Isto ou algo parecido. Mas ganhou, para incrível surpresa até da sua equipa de campanha – e para sua indisfarçável consciência de que se meteu numa camisa-de-onze-varas.

As diferenças no número de votos entre Trump e Hillary na Flórida, Pensilvânia e Wisconsin, correspondendo a 59 decisivos votos no Colégio Eleitoral, foram mínimas. Não é possível identificar as causas específicas para elas em cada Estado, pois ao limite a causalidade radica no indivíduo e poderá não ser tangível, comensurável ou racional. Para além disso, os números em si são apenas abstracções relativas, dado que espelham tanto os votos registados como a abstenção. No Wisconsin, em perto de 3 milhões de votos contados, a vitória de Trump foi por menos de 30 mil votos. Ora, enquanto Trump recebeu praticamente o mesmo número de votos do que Romney em 2012, Hillary recebeu perto de menos 300 mil votos do que Obama em 2008 e 2012. Neste caso, e obviamente, foi a abstenção que derrotou a candidata Democrata.

Dentre as várias explicações logo avançadas pelos comentadores, acusou-se Hillary de falhas na campanha; desde a ausência de uma mensagem clara, passando pela falta de uma agenda económica forte, e chegando ao desprezo estratégico e logístico pelos Estados que considerava imperdíveis. Estas e outras explicações poderão ter a sua parcela de razoabilidade e verosimilhança, vai sem discussão. Porém, todavia, contudo, qualquer interpretação dos resultados que se limite a apontar o dedo a Hillary não estará apenas a cometer uma injustiça ou a expressar o seu sectarismo, quiçá ódio. Muito mais do que isso, estará a ser activamente cúmplice da obscena golpada que marcou estas eleições presidenciais norte-americanas. Tanto a operação russa através do Wikileaks como a operação Republicana através do FBI criaram um opressivo manto de calúnias para o qual não havia defesa possível. Essas calúnias tinham em Trump um exímio artista de variedades para as transformar em espectacular material de campanha. Dado que a candidatura de Hillary, por ser a de uma mulher, iria partir inferiorizada e com o flanco exposto para investidas canalhas acerca do seu género, carácter e saúde, o efeito da repetição e legitimação das calúnias foi altamente eficaz, tanto para fazer regressar Republicanos que se tinham afastado de Trump como para afastar Democratas que não estavam apaixonados ou convencidos com Hillary. Neste particular, as duas cartas do FBI, acerca daquilo que não passou de uma encenação com emails que já tinham sido investigados, foram devastadoras. A primeira carta, a 12 dias da votação, altera por completo a paisagem mediática, colocando Hillary no centro de uma especulação desvairada onde a cada dia que passava estava a cair nas sondagens. E a segunda carta, a dois dias das eleições, volta a trazer o assunto para o palco no período crucial da decisão para mais de 10% do eleitorado ainda indeciso, um assunto que pelo simples facto de ser noticiado provocava danos na candidatura Democrata.

Trump brinca com os racistas e taralhoucos mais perigosos na América, como a nomeação de Steve Bannon exibe. É algo que obriga a uma definição por parte da cada um de nós, ou estamos a favor ou contra. Os mornos serão vomitados pelo espírito da democracia e do humanismo. Mas antes disso, à volta disso e por cima disso, é o uso das mentiras e calúnias como principal arma política que mais nos deve alarmar. Porque a sua dinâmica e eficácia são profundamente insidiosas, como vimos em Portugal com Passos, no Brexit e agora nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, para dar os exemplos mais próximos e mais graves. Perante isto, Trump não merece uma “chance”, merece é uma cultura onde haja tolerância zero para políticos que se servem da funcional estupidez de milhões para chegar ao poder.

Revolution through evolution

Male athletes are far more likely to choke under pressure than their female counterparts
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Trump’s Political Success Was A Triumph Of Style Over Substance
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Traumatic stress changes brains of boys, girls differently
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Even physicists are ‘afraid’ of mathematics
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Repeatedly Thinking About Work-Family Conflict Linked to Health Problems
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Increased smartphone screen-time associated with lower sleep quality
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Personality Tests for Fish Could Help Boost Reproduction Rates

Esta legitimação moral de Trump deve ter consequências políticas

“Nunca embarquei muito nesta ideia de que o novo Presidente norte-americano é tão mau, tão mau, tão mau, que representaria uma força do mal tão grande, que tinha de sair derrotada”, começa por afirmar Passos Coelho em entrevista à Renascença.

“Muitas pessoas defendem-se através de expressões mais nacionalistas, mais ditas populistas, mais centradas sobre si próprias, às vezes convencidas de que dessa maneira recuperam o seu passado, a sua soberania sobre as coisas e, infelizmente, isso já não é susceptível de acontecer”, analisa.

E Hillary Clinton também não se afastou muito desse registo, defende Passos. “Nós já não víamos, na disputa norte-americana, ninguém que defendesse um modelo de sociedade aberta, livre, global. Todos acusavam este toque [populista], que é mais exponenciado pelo senhor Trump mas que não estava ausente da senhora Clinton”.

Fonte

United Deplorables of America

Os EUA escolheram ser governados por quem se gaba de fugir aos impostos, ser trapaceiro nos negócios, prejudicar minorias, reduzir as mulheres à condição de fêmeas à disposição do macho e mentir sistematicamente. Podemos concluir com algum grau de certeza que a escolha não foi feita apesar destas características mas por causa delas. A explicação, como já disse o Eduardo Lourenço, está na televisão.

Tal como num outro país numa galáxia distante onde também uma super-vedeta da televisão foi escolhida como presidente principalmente por causa do seu poder mediático, o que a levou a manter esse estatuto quase até ao período eleitoral e a ter feito uma campanha despolitizada e despolitizante de forma a usar a sua fama para levar a luta eleitoral para o terreno da popularidade, assim nos EUA uma vedeta mediática de primeira grandeza entregou-se a um exercício donde sairia sempre vencedora, especialmente se perdesse as eleições ou nem sequer fosse nomeada candidata. O que tinha a fazer era só aparecer no circo da política a fazer o que já estava fartinha de fazer no circo do show business: dar espectáculo. Um tipo de espectáculo que há décadas, séculos e milénios tem ubíqua prática, e que podemos ver perto de nós na sua industrialização máxima com as seitas religiosas de bandeira cristã. O discurso dos pregadores obedece a esquemas testados com milhões de pessoas e apenas tem de ser adaptado a outro conteúdo caso se pretenda usar a fórmula para obter uma audiência no campo político. Foi isso que fez Trump, usando uma retórica maniqueísta e alucinada onde o ódio foi instrumental para o tipo de marketing em causa. A iliteracia e alienação cívica da plateia que se formou para assistir ao seu número alimenta-se de fantasias para consumo imediato, seja um mar que se abre para fugir aos egípcios ou um muro que se levanta para fugir dos mexicanos. Porém, ao contrário de Hitler e quejandos, em Trump não há um pingo de ideologia, antes tudo se limitando ao simulacro, oportunismo e fruição. Ou seja, tudo se oferecendo à descodificação pelos instrumentos cognitivos do seu público, um público que em vez de um político a quem responsabilizamos pelos seus actos e palavras estava mesmo interessado em continuar a ver um palhaço na TV que tem licença para brincar aos racistas, xenófobos, misóginos, tiranos e crápulas. Porque nele tudo é simples, divertido, de final feliz e com repetição garantida semana a semana.

Estas eleições serão estudadas durante anos. Há tantos pontos de vista à disposição quantas as cabeças interessadas em explicar um fenómeno verdadeiramente maravilhoso. Algo equivalente a termos visto Roma invadida pelos bárbaros. Só que aqui a barbárie nasceu da civilização, da democracia, da liberdade, do voto. Essa a maravilha das maravilhas, pois a nação de Lincoln e de F. D. Roosevelt tem todo o direito a inscrever Trump na sua História como representante de um certo tempo e de um certo modo de conceber a comunidade. Trump não é menos legítimo do que Obama. E não é mais legítimo do que quem lhe suceder, quem sabe se já daqui por 4 anos ou menos.

Correu tudo ao contrário do que os Democratas esperaram: a sua celebrada máquina no terreno foi incrivelmente insuficiente, os afro-americanos não se preocuparam em garantir o legado de Obama, os hispânicos não se assustaram com Trump, e as mulheres americanas talvez gostem de tipos com a pinta e os modos dos patos-bravos. Para além disso, a operação russa através do Wikileaks e, em especial, a golpada do FBI mostram que foi preciso reunir este mundo e o outro para derrotar Hillary.

Não, passarão

Donald Trump é um político desqualificado no que diz respeito ao cargo de presidente dos EUA (pelo menos), e fez uma campanha que assumiu e agitou os piores instintos sociais e psicológicos do eleitorado. Nesse sentido, ele é um tangível e real perigo para os valores que associamos à democracia e ao humanismo. Todavia, esta figura não corresponde ao modelo do tirano, pois é evidente nela o enfado que o exercício do poder estatal lhe provoca. Trump não tem ideias válidas, sequer razoáveis ou aparentemente sensatas, para a comunidade porque ele nunca perdeu uma caloria a imaginar o esforço que teria de despender para as realizar.

Em vez disso, Trump tem fantasias. Essas fantasias são rápidas e fáceis de elaborar, tendo a vantagem de não implicarem quaisquer compromissos pois ele começa por acreditar que jamais estará numa posição de sequer poder começar a realizá-las. O que ele procura, portanto, não é um eleitorado mas uma audiência. E para lidar com essa audiência basta alimentar o seu pensamento mágico. Quão mais ignorante e alienada for a audiência, mais impacto e envolvimento geram o pensamento mágico, a fantasia, a pura irracionalidade e as monumentais mentiras.

Em Trump temos o típico pato-bravo com um apuradíssimo talento para a televisão de massas. Ele percebe de tijolos e cimento, fugas ao fisco e aldrabices nos negócios, corrupção moral e luxúria. Não percebe de propaganda, percebe de publicidade. Apenas precisou de criar uma marca sobre outra marca – no caso, é o bilionário que pode dizer qualquer coisa que lhe passe pelo bestunto, tal como faz quando está num estúdio a ser o protagonista desse conteúdo. Com essas competências fez um tremendo sucesso mediático como celebridade icónica que lhe facilitou os negócios da construção. E partiu para a corrida presidencial para se divertir e fazer um golpe de marketing. O caldo de cultura sectária e de instigação ao ódio que o partido Republicano alimenta há anos e anos – no que é um óbvio ciclo de decadência face às mudanças económicas, demográficas e sociais nos EUA – foi a colossal biomassa pronta a ser incendiada por uma retórica para estúpidos. Para muito estúpidos.

Não é com a estupidez que a maioria das pessoas quer ser governada e se quer governar. Este passarão, mesmo que ganhe (pois tudo é possível, até o altamente improvável neste momento), está condenado a desaparecer da cena política como figura relevante em pouco tempo. A invenção da democracia e o caminho feito na dignificação da condição humana mostram que é a inteligência da união no essencial que nos conduz da animalidade para a civilização.