59 thoughts on “Exactissimamente”

  1. Curiosa a natureza humana! O Valupi que concorda em absoluto, e bem, com o texto da FC é o mesmo que, volta sim volta não, desanca o Sócrates por alegados pecadilhos morais,tendo por única base uma mão cheia de declarações mediadas em contextos imprecisos.

  2. Moralidade: ordem de valores supostamente absolutos e transcendentes vertidos em normativos pelos quais se deve pautar a conduta dos indivíduos para demarcar o Bem do Mal, tal qual os definem os moral entrepreneures que têm liderado as sucessivas cruzadas. Exemplo: a dezena de mandamentos da santa madre. Coisa significativamente diversa da ética, que não tem dos valores uma noção transcendente, mas imanente, relativizando o comportamento à circunstancia do individuo no seu tempo, grupo, cultura. Exemplo: os padrões de relacionamento sexual na história do ocidente.

    Sugestão para mais : http://www.beauvillard.net/wp-content/uploads/2013/06/Ethique%20et%20Morale.pdf

  3. Valupi, teria sido prático teres delimitado o “campo”, que é muito vasto, como bem sabes, mas avancemos lá com uma generalização.

    Valor: ordem das coisas importantes ( que são ou que devem ser… ) para um individuo, grupo, sociedade. Mas que convêm não confundir com “verdade”.

  4. Ah, mas Miguel Relvas pertence a outro campeonato. Eu explico:

    O canudo de Relvas foi equivalentemente ungido pelos óleos sagrados da Universidade Lusófona; coisa de pouca monta, bem entendido. Pois posteriormente foi apostado — a todo o XX Governo (In)Constitucional — o mais valioso bem das gentes lusas mais fiéis ao culto euroliberal.

    Trata-se do selo de competência, recentemente conferido pelo Finanzführer de Portugal, Wolfgang Schäuble. Entre outras magníficas competências, o distinto Finanzführer valida assim a autoridade espiritual necessária a Miguel Relvas para nortear a sua vida, “pela simplicidade da procura de conhecimento permanente”!…

  5. Os outros maravilhosos louvores, recebidos por suas excelências, os Ministros Adjuntos do Finanzführer, vieram laurear os cálculos acertados que suas excelências apostaram nos orçamentos, mais os défices que — com a benção do Finanzführer — conseguiram prevenir, durante todo o excelso mandato do Governador Passos Coelho!…

  6. Ignatz, com quem falas* desta vez (e como vão os estudos de caligrafia, bem)?

    Asterisco, falas de quem: Valupi, quere-lo escorraçar da sua própria casa? JRodrigues, o gajo das cábulas e do tradutor básico do Google (“entrepreneures”, que caraças!) o qual, percebe-se agora porquê, tem horror aos poemas e aos fados alheios? Tanto que, hoje, deixou o Valupi atónito depois de tanto querer debater qualquer coisa com ele?

  7. Infelizmente para o Finanzführer, Passos Coelho foi apeado; sem que o Finanzführer e o seu ex-Governador percebessem muito bem como (de facto, bastou que os portugueses votassem pela extinção do cargo)…

  8. Valupi, prometo que ficarei aqui à porta para não incomodar o sono colectivo no Aspirina B. Mas, e há sempre um mas para pensar em algo, lembrando-me eu por alto do que escreveste sobre a Maria Luís Albuquerque quando se soube que a dama passaria a “lobbar” em favor dos abutres da Arrows ao mesmo tempo que se manteria no quentinho da política portuguesa perante o teu aplauso anarquista (a frase é grande, mas estará correcta presumo), que pensas tu, antes ou depois do “goes to” TVI24, sobre a credibilidade do discurso da dita dama hoje na AR sobre o OE? Mais: e sobre o facto de a dita-dita parecer ser a mais putativa candidata do PSD à CM de Lisboa (apesar do namoro real ou imaginário que outro dos rapazes da arte do lobby, de nome José Eduardo Martins, terá deixada cair hoje em favor da Assunção Cristas no Expresso online)?

    Acordais como o Fernando Lopes Graça, um pouco?

    “Acordai,
    Homens que dormis
    A embalar a dor
    dos silêncios vis!
    Vinde, no clamor
    Das almas viris,
    Arrancar a flor
    Que dorme na raiz!

    Acordai,
    Raios e tufões
    Que dormis no ar
    E nas multidões!
    Vinde incendiar
    De astros e canções
    As pedras e o mar,
    O mundo e os corações!

    Acordai!
    Acendei,
    De almas e de sóis
    Este mar sem cais,
    Nem luz de faróis!
    E acordai, depois
    Das lutas finais,
    Os nossos heróis
    Que dormem nos covais
    Acordai!”

    Poema de José Gomes Ferreira, mas no caso não é preciso tanto.

  9. JRodrigues, pegando então nas tuas definições, voltemos ao teu primeiro comentário. Nele protestas por, em simultâneo, estar a concordar com o texto da Fernanda Câncio e por ter emitido uma opinião crítica a respeito de certos aspectos do comportamento de Sócrates. Dás então a entender que vês uma contradição entre as duas posições.

    Ora, o texto da Fernanda é uma crítica aos que lançam difamações e calúnias em situações onde nem sequer conhecem os factos. As minhas críticas a Sócrates reportam-se exclusivamente a factos – no caso, o facto de ele ter reconhecido que a investigação do MP tem base material que a legitima, pois as entregas de dinheiro de Santos Silva a Sócrates teriam sempre de ser investigadas assim que chegassem ao conhecimento das autoridades.

    Na ordem das coisas importantes, para usar as palavras que foste buscar, é tão importante denunciar os caluniadores como reconhecer que aqueles a quem foi dado mais poder não respeitaram os interesses da comunidade. Sim, não é do interesse moral da sociedade ter as principais figuras do regime a suscitarem suspeitas do foro judicial e, com isso, a afectarem o sistema político e a vivência democrática e cívica.

    Parece-me que tens de estudar melhor as tuas próprias palavras.

  10. se a érica pode, camões pode muito mais

    JÁ neste tempo o lúcido Planeta
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo;
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Nocturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    Às naus, que pouco havia que ancoraram.
    2 Dantre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assi dizia:
    – «Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta Ilha, alvoraçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te e do necessário reformar-te.
    3 «E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada;
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.
    OS LUSÍADAS
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    4 «E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo.»
    5 Ao mensageiro o Capitão responde,
    As palavras do Rei agradecendo,
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra pera dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.
    6 Pergunta-lhe despois se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.
    OS LUSÍADAS
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    7 E de alguns que trazia, condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
    8 E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade que mostrava
    Tenha firme, segura, limpa e branda,
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos
    Os dous da frota em terra recebidos.
    9 E despois que ao Rei apresentaram
    Co recado os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaram
    De lhe mostrarem tudo o que pediam;
    Que onde reina a malícia, está o receio
    Que a faz imaginar no peito alheio.
    10 Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava nũa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso que adorava.
    OS LUSÍADAS
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    11 Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura,
    A cândida Pombinha, debuxada
    Sobre a única Fénix, virgem pura;
    A companhia santa está pintada,
    Dos doze, tão torvados na figura
    Como os que, só das línguas que caíram
    De fogo, várias línguas referiram.
    12 Aqui os dous companheiros, conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o Mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assi por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.
    13 Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas, assi como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido Horizonte
    Na moça de Titão a roxa fronte,
    14 Tornam da terra os Mouros co recado
    Do Rei pera que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.
    OS LUSÍADAS
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    15 Dizem-lhe os que mandou que em terra viram
    Sacras aras e sacerdote santo;
    Que ali se agasalharam e dormiram
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto
    Que não podia certo haver suspeita
    Nũa mostra tão clara e tão perfeita.
    16 Co isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam,
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.
    17 Na terra cautamente aparelhavam
    Armas e munições, que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E nesta treïção determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que, incautos, pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.
    18 As âncoras tenaces vão levando,
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando,
    Inclinam pera a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como ũa seta.
    OS LUSÍADAS
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    19 Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia;
    E, propondo-lhe a causa a que deceu,
    Com todos juntamente se partia
    Pera estorvar que a armada não chegasse
    Aonde pera sempre se acabasse.
    20 Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto co peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma;
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa em força suma;
    Abrem caminho as ondas encurvadas,
    De temor das Nereidas apressadas.
    21 Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão fermosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.
    22 Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando;
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Pera detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam
    E da barra inimiga a desviavam.
    OS LUSÍADAS
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    23 Quais pera a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo Inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    À gente Portuguesa o fim nefando.
    24 Torna pera detrás a nau, forçada,
    Apesar dos que leva, que, gritando,
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.
    25 A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha:
    Cuidam que seus enganos são sabidos
    E que hão-de ser por isso aqui punidos.
    26 Ei-los sùbitamente se lançavam
    A seus batéis veloces que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam
    Saltando n’ água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.
    OS LUSÍADAS
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    27 Assi como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem porventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando (o charco soa),
    Por fugir do perigo que se sente,
    E, acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:
    28 Assi fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.
    29 Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assi dizia:
    30 – «Ó caso grande, estranho e não cuidado!
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo, sàbiamente,
    Se lá de cima a Guarda Soberana
    Não acudir à fraca força humana?
    OS LUSÍADAS
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    31 «Bem nos mostra a Divina Providência
    Destes portos a pouca segurança,
    Bem claro temos visto na aparência
    Que era enganada a nossa confiança;
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!
    32 «E, se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que, só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos.»
    33 Ouviu-lhe estas palavras piadosas
    A fermosa Dione e, comovida,
    Dantre as Ninfas se vai, que saüdosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Pera onde estava o Padre, se moveu.
    34 E, como ia afrontada do caminho,
    Tão fermosa no gesto se mostrava
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho
    E tudo quanto a via, namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a Esfera, fria.
    OS LUSÍADAS
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    35 E, por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e cara,
    Se lh’ apresenta assi como ao Troiano,
    Na selva Ideia, já se apresentara.
    Se a vira o caçador que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.
    36 Os crespos fios d’ ouro se esparziam
    Pelo colo que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Minino as almas acendia.
    Polas lisas colũnas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.
    37 Cum delgado cendal as partes cobre
    De quem vergonha é natural reparo;
    Porém nem tudo esconde nem descobre
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, pera que o desejo acenda e dobre,
    Lhe põe diante aquele objecto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.
    38 E mostrando no angélico sembrante
    Co riso ũa tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante
    E se torna entre alegre, magoada,
    Destarte a Deusa a quem nenhũa iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:
    OS LUSÍADAS
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    39 – «Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, pera as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrairo lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mi te vejo iroso,
    Sem que to merecesse nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei, enfim, que fui mofina.
    40 «Este povo, que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo;
    Por ele a ti rogando, choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado;
    Quero-lhe querer mal, será guardado.
    41 «Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui …» E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.
    42 E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co vulto alegre, qual, do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa e, acendido,
    Na face a beija e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.
    OS LUSÍADAS
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    43 E, co seu apertando o rosto amado,
    Que os saluços e lágrimas aumenta,
    Como minino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrecenta,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos Fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:
    44 – «Fermosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente,
    45 «Que, se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia Ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo,
    E se o piadoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.
    46 «Fortalezas, cidades e altos muros
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros
    Deles sempre vereis desbaratados;
    Os Reis da Índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados,
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis milhores.

    (há lá mais)

  11. “… pois as entregas de dinheiro de Santos Silva a Sócrates teriam sempre de ser investigadas assim que chegassem ao conhecimento das autoridades.”

    porquê? qual a lei onde isso está escarrapachado? desde quando é proibido emprestar dinheiro a um amigo e desde quando é obrigatório declará-lo?

  12. ignatz, emprestar dinheiro a um amigo? Mas que caso judicial é que tu conheces que tenha como objecto “emprestar dinheiro a um amigo”? Larga o vinho.

  13. as autoridades tem é que investigar os sucessivos assaltos bancários que andamos a pagar e não a inventar hipotéticos crimes que ninguém faz a mínima do que trata.

  14. tanto quanto foi divulgado e até hoje não foi desmentido é que o processo marquês investiga as entregas de dinheiro do santos silva ao sócras, o qual já explicou que foram empréstimos. lembro que houve um primeiro-ministro que recebeu umas massas da tecnoforma, empresa para a qual facilitou uns processos de candidatura a fundos europeus, e que justificou o facto como pagamento de despesas de representação. não pagou impostos, não foi preso, não teve que devolver nada e não se fala mais disso.

  15. ignatz, o processo onde Sócrates está constituído arguido investiga suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco. Tens de abrir a pestana.

  16. ” suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco”
    o que o ministério público diz que anda a investigar são os empréstimos do santos silva ao sócras. desde al capone que é o método seguido pela bófia para engavetar sem provas, se o gajo for pelintra metem-lhe 21 gramas de haxe no bolso ou então cai-das-escadas-e-confessa (método gonçalo amaral). se calhar pensas que os gajos investigam alguma coisa, coçam os tomates, almoçam e viajam por conta do caso, ouvem umas escutas ilegais dos “suspeitos”, fazem uns relambórios técnicos à base do supositório “terá” e queixam-se de falta meios técnicos, humanos e cooperação dos “suspeitos”.

  17. oh bimba, tomarias tu ter massa cinzenta que ocupasse tanto espaço como a pinta do izinho do ignatz. junta-te à érica e monta um show lésbico para aquecer as noites de inverno aqui do blogue.

  18. Caro Ignatz: se a Olinda e outros gajos do Aspirina B te incomodam não respondas.

    Vira-lhes o cu e manda-os foder (com ou sem strap-on, Olinda satisfá-lo de vez).

  19. Valupi,
    Há aspectos dos valores em relação aos quais se nota que gostarias de passar ao lado. É que a ordem das coisas importantes não é um absoluto universal, não vale por igual para todos, e mesmo os que comungam os mesmos valores não os partilham necessariamente segundo a mesma hierarquia.
    Possivelmente estará aqui o cerne da nossa discórdia nesta polémica em torno da Op Marquês. Para mim, o valor mais importante é o bom funcionamento das Instituições da Justiça e, em concreto, o respeito pelos Direitos, Liberdades e Garantias Constitucionalmente consagrados.
    Não me parece que o “interesse da comunidade” seja defendido quando se condena sem corpo de delito, se prende para investigar, se indicia sem provas tangíveis, se promovem fugas cirúrgicas à observância do dever do segredo de justiça com o óbvio intuito de obter condenações “morais”na praça publica.
    Fossem estas regras respeitadas por quem de direito e estaríamos à vontade para falar do resto, que só pode vir depois. Concretizando: dou mais valor ao Estado de Direito que à idoneidade de qualquer ex PM. Ao contrário das Instituições, os indivíduos são transitórios. Pelo que não alinho em jogos florais em redor da moralidade de quem quer que seja antes de ver resolvida a questão maior do respeito que as Instituições devem ao seu Estatuto.

  20. Valupi,

    Mais uma nota sobre a tua noção de “facto”.
    Percebe-se perfeitamente que escolhes cuidadosamente as palavras. Por exemplo, qd falas em “entregas” de dinheiro, e lhe chamas “facto”. Assim é. Foi um acontecimento reconhecido. Mas para que desse facto pudesses saltar para as ilações que retiras ( ” comportamento susceptível de afectar sistema politico e vivência democrática” ) terias de possuir sobre ele elementos de contexto que manifestamente não tens ( quer dizer: até tens; mas até ver o único comportamento que está afectando comprovadamente o sistema politico e a vivência democrática é o do MP, ao não cumprir as suas obrigações. ) . Concretizando: como não podes provar que não se tratou efectivamente de um empréstimo, não podes valorar essa pratica ( independentemente de todos os preconceitos que possas ter sobre ela…) como tendo a mesma importância que teria se estivesse provado tratar-.se de uma devolução de dinheiro obtido por corrupção. Ou seja: um facto sem um interpretação não te leva a lado nenhum. E o que eu digo desde o principio é que, na falta objectiva de elementos de contexto que proporcionem interpretações fiáveis, o mínimo que se exige da cidadania responsável é que se abstenha de juízos de valor na praça pública. Caso contrário, estamos simplesmente perante o que a Câncio critica: calúnia.

  21. JRodrigues, o cerne da nossa discórdia diz apenas respeito à tua confusão argumentativa. Estás a tentar defender o indefensável, daí os erros crassos na tua argumentação.

    Repara, começaste a tua resposta trazendo o conceito de hierarquia. Começaste bem, portanto, falando de uma generalidade que é indiscutível: existem hierarquias nos valores, e eles são relativos a cada grupo e, ao limite, a cada indivíduo. Só que de seguida saltaste logo para uma falácia onde a existência de um certo problema (a actuação do MP e do juiz ao longo da Operação Marquês) impediria a avaliação de um outro problema completamente diferente embora associado (o comportamento de Sócrates na sua relação com o dinheiro de Santos Silva). Por que razão devemos ficar impedidos de criticar o segundo problema? Em que é que criticar o primeiro esgota a capacidade de criticar o segundo ou em que é que criticar o segundo afecta a a capacidade para criticar o primeiro?

    As hierarquias não excluem a multiplicidade dos valores, integram-nos e constituem a moralidade que cada um escolhe como sua. Aqui nesta conversa tu fazes os possíveis para não teres de avaliar um comportamento que se apresenta objectivo e factual: um ex-primeiro-ministro pediu dinheiro a alguém que fez negócios com o Estado, e que fez negócios com outros que igualmente fizeram negócio com o Estado, durante o período em que esse ex-primeiro-ministro governou. Logo, e independentemente de todas as outras questões que se possam legitimamente colocar, este dado original (no sentido de estar na origem) é incontornável do ponto de vista moral e cívico, quiçá político: as autoridades teriam de investigar a origem desse dinheiro posto que a situação causa inevitáveis suspeitas.

    Só isto já chega para fazer um juízo moral a respeito de Sócrates, alguém que se colocou nesta posição por sua livre vontade. Mas o caso é mais grave ainda, pois Sócrates não podia ignorar que calhando a sua situação em relação ao dinheiro de Santos Silva ser descoberta as consequências não seriam apenas judiciais (na forma da abertura de uma investigação, mesmo que depois fosse arquivada por não se ter descoberto qualquer crime). Obviamente, as consequências seriam também mediáticas, sociais e políticas, causando enormes danos tanto ao PS como a todos os que com Sócrates partilharam responsabilidades partidárias e governativas, igualmente envolvidos num manto de suspeições por contágio. O seu grau de irresponsabilidade é verdadeiramente extraordinário tendo em conta a sua experiência e o seu histórico como vítima de campanhas negras.

    Essa de a “cidadania responsável” levar a que tenhamos de nos abster de “juízos de valor na praça pública” revela bem o estado de baralhamento primário em que te encontras. Para avaliarmos a conduta de Sócrates do ponto de vista moral e cívico é indiferente o que o próprio invoque como justificação ou o que outros lhe têm feito abusando do seu poder e cometendo crimes. Basta termos tomado conhecimento de que a Operação Marquês não poderia nunca ter existido caso Sócrates tivesse encontrado outra solução para o financiamento da sua vida privada.

  22. “Por que razão devemos ficar impedidos de criticar o segundo problema? Em que é que criticar o primeiro esgota a capacidade de criticar o segundo ou em que é que criticar o segundo afecta a a capacidade para criticar o primeiro?”

    Por uma razão soberanamente singela: a actuação do MP está sobejamente documentada; os alegados crimes de JS continuam sem acusação, qt mais com prova. Isso devia bastar para abster de comentários quem tem por valor o direito ao bom nome de quem quer que seja.

  23. JRodrigues, insistes no mesmo erro. Os eventuais crimes de Sócrates dizem respeito ao processo judicial. Na ausência de uma eventual confissão, Sócrates é inocente até prova em contrário à luz do Estado de direito. Mas tal estatuto já não tem aplicação no plano moral, para cuja avaliação nos chega a sua palavra.

    Vou dar por terminada a minha conversa contigo a este respeito pois é inútil discutir com quem não obedece à lógica.

  24. “Essa de a “cidadania responsável” levar a que tenhamos de nos abster de “juízos de valor na praça pública” revela bem o estado de baralhamento primário em que te encontras.”

    Talvez tenhas razão. Nem todos somos dotados da omnisciência que gostas de alardear. Percebe-se que nunca tens dúvidas; e possivelmente tb nunca te enganas. Pois eu não faço parte desse clube. Sou assumidamente limitado; tenho imensas dúvidas; e engano-me com estúpida frequência. Por tudo isso, ao contrário de outros,baralho-me. E quando me sinto baralhado, calo-me. Assim outros o fizessem.

  25. não há um único português com nif que não tenha negócios com o estado, portanto nenhum servidor do estado pode pedir empréstimos particulares ou públicos sem correr o risco de ser suspeito de corrupção, branqueamento e evasão fiscal. cada vez que pedimos um empréstimo estamos a cobrar um favor a quem nos empresta. regista aí no livro dos pinsamentos valupianos verticais autoafináveis.

  26. “Mas tal estatuto já não tem aplicação no plano moral, para cuja avaliação nos chega a sua palavra.”

    Pois, meu caro. Mas aqui voltamos ao inicio da conversa. Se se vier a provar que os alegados empréstimos o eram efectivamente, isso para mim não merece a condenação moral que tu lhe atribuis. Nem lá perto. Somos acólitos de catequeses distintas. E aqui temos a relatividade da hierarquia de valores a funcionar. Nada mais que isso. Deixa lá de lado a questão da lógica, porque quando se trata de valores, tão falaciosas são as minhas premissas como as tuas. Dispensa-me das tuas lições de axiologia , que dessas tenho cátedra.

    Mais: enquanto andamos com estas conversas de putas, versão soft ” á justiça o que é da justiça”

  27. *
    Mais: enquanto andamos com estas conversas de putas, versão soft do famigerado ” á justiça o que é da justiça”, os atropelos quotidianos ao Estado de Direito passam incólumes entre os pingos da chuva, pois são questões “complexas”, enquanto as morais não, são “óbvias”, “toda a gente vê”.

  28. Algo nestes discursos do Valupi me recorda um hibrido qualquer de Henrique Neto com Maria José Morgado ! Fujo dos beatos da politica com maior pavor do que o diabo da cruz. O desejo que manifestam pelo surgimento de homens providenciais, assusta-me, pois remete-me para más memórias de outros homens providencias e impolutos. Não dou para esse peditório. Prefiro ser governado pelos meus pares, pecadores, como eu.

  29. O discurso da culpa moral foi introduzido como forma de instrumentaliçao politica por parte dos apaniguados de Costa na bolha para justificar o tal ” A justiça o q e da justiça, etc…” e a mediocre subjugaçao do poder politico a instituiçao judicial, o lavar de mãos e a consequente inauguração da pax Disney, onde Passos Coelho y Marcello são transformados em estadistas. O resto é um jogo de futebol.
    A hemiplegia moral de Ortega y Gasset. E bem preciso mais Ortega y Gasset.

  30. Isto com a “delação” remunerada é que se resolvia. So easy, so nice.
    Fosgam-se os pides. Eram uns democratas do carvalho. Até esses tinham de acusar formalmente para poder manter um inimigo público preso mais que 3 dias. TRÊS DIAS.
    Pra p. que os pariu a todos mais esta p. de democracia podre.
    Ó Costa, quando caíres do cavalo vais-te arrepender tanto de seres um cobarde.
    Aliás, vais cair do cavalo precisamente por seres cobarde. Raios te partam. homem.

  31. “Basta termos tomado conhecimento de que a Operação Marquês não poderia nunca ter existido caso Sócrates tivesse encontrado outra solução para o financiamento da sua vida privada”.

    Isso não é verdade. Tal como Lula da Silva, José Sócrates tem sido vítima de “lawfare”, uma palavra que, misteriosamente, ainda não se viu nas croniquetas dos pasquins desta praça e que descreve exemplarmente a sua situação: a utilização de todos os mecanismos judiciais para destruir o inimigo. Se não fosse a Operação Marquês seria a Operação Chiado.

  32. Valupi, voltando à minha estória da soneca (porque trabalhar para aquecer que é o que fazes com o cábula-militante para auto-satisfação e maníaca atenção dos alucinados mais ou menos conhecidos (através das grandes, inúteis mas brilhantes réplicas que têm o senão de apresentarem resultados nessa espécie campanha de alfabetização a bater no zerinho, como diz a outra), da soneca, repetindo-me, que é uma cena que para mim não me assiste mas existe algo, no entanto, com que deverias ficar preocupado. Se o ofusco aconteceu a horas diferentes do dia, este é um facto, nota-se ali um acordar simultâneo. Mais: um levantar-se da cama sequencial quase cronometrado ao segundo. Tu para para “dialogares” com o JRodrigues e uma eventual auto-satisfação e o teu alter-ego-carrascão para confessar como são passadas as suas noites virtuais (?) lá na barraca. Eu ficaria preocupado, e olha que não especulei nadinha.

    Valupi
    4 DE NOVEMBRO DE 2016 ÀS 13:40
    ignatz
    4 DE NOVEMBRO DE 2016 ÀS 15:23

    Valupi
    4 DE NOVEMBRO DE 2016 ÀS 20:40
    luis caolho
    4 DE NOVEMBRO DE 2016 ÀS 20:41

  33. Ricardo Costa
    Eu, que não sou doutor

    Valupi, ainda sobre as manias e diferentes alucionações. Tens aqui o dois em um, o Ricardo Costa a gabar-se que é um burro alimentado a pão-de-ló pelo sôtor Balsemão e o Martim Silva que põe a Maria Luís Albuquerque a subir nas setinhas porque será humilhada na CM de Lisboa depois de ser derrotada pela Ana Catarina Mendes em Setúbal: http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/03-11-2016/caderno-1/opiniao/eu-que-nao-sou-doutor .

    Haja estômago, ainda.

  34. “Vou dar por terminada a minha conversa contigo a este respeito pois é inútil discutir com quem não obedece à lógica.”

    Como gosto de orientar a minha vida “pela busca do conhecimento”, ajuda-me lá, ò Valupi: que deveria eu fazer para obedecer à lógica tal qual a entendes? Qual é ao certo o meu problema? Estou a falhar nas inferências, nas premissas , ou na conclusão?

    Concedo-te que se eu desse por válida a tua premissa de que um ex-PM e politico “na reserva” não pode pedir empréstimos em numerário a amigos ( pois são unicamente dessa natureza os “factos” em que apoias a tua condenação moral do gajo…), seria difícil não subscrever a tua conclusão. É essa a pecha, não é ?

    Mas em que código ético ou deontológico é que vem inscrita essa regra? Deriva de que género de imperativo moral reconhecido por quem ? Ou é apenas um desejo teu, depois de se ter verificado que se tratou de um comportamento que deu pretexto a iniciativas que se traduziram em graves prejuízos políticos para o PS?

    Pelo que te tenho lido, o problema do nosso desentendimento radica naquela premissa. Parece existir na tua concepção dos agentes políticos uma utopia de pureza e santidade que não têm qualquer fundamento na história da natureza humana, e que por isso não posso acompanhar. Não somos perfeitos. Todos fazemos disparates. O que não podemos é inferir como moralmente condenáveis práticas que, no campo das hipóteses, podem não se justificar pela desonestidade ou má-fé. Menos ainda responsabilizar individualmente quem quer que seja por ter servido de pretexto a falhas institucionais gravissimas num alegado estado de direito.

  35. JRodrigues, estás naquele ponto em que se começa a tornar embaraçoso dar-te corda. Tu insistes que a Operação Marquês nasceu de haver um tipo que pediu empréstimos “a um amigo”. Para ti, é disso que se trata. Diz então respeito à amizade o cerne da questão, algo sobre o qual ninguém deve meter a colher, nem mesmo quando se trata de ex-governantes e de muito dinheiro envolvido.

    Ora, a parte embaraçosa é a de que começo a suspeitar que tu optas conscientemente pela estupidez.

  36. Valupi,
    Não me atribuas afirmações que não faço, nem substituas por insultos gratuitos a tua incapacidade de argumentação sólida. Fica-te mal. Sei qual a tese do MP e qual a versão do arguido. Para meu uso tanto vale uma como outra, sendo certo que para fazer passar a sua o MP tem atropelado a legalidade instituida de formas que considero inaceitáveis. Nunca discuti a legitimidade do MP para investigar nem fiz profissão de fé na inocência de JS. O que discuto é a forma como o MP o tem feito e os juizos morais produzidos sobre o arguido, mas que, até prova de corrupção, não remetem para mais nada do para lamentável preconceito moralista.

  37. JRodrigues, foste tu quem escreveu o seguinte:

    “Concedo-te que se eu desse por válida a tua premissa de que um ex-PM e politico “na reserva” não pode pedir empréstimos em numerário a amigos ( pois são unicamente dessa natureza os “factos” em que apoias a tua condenação moral do gajo…), seria difícil não subscrever a tua conclusão. É essa a pecha, não é ?”

    Ou não foste? É que se foste, então continuas a martelar na mesma tecla, a de que o problema com que estamos confrontados remete para empréstimos entre amigos. E isso faz de ti alguém que opta conscientemente pela estupidez.

    O MP não está a investigar “empréstimos entre amigos”, está a investigar suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco. Ora, tal só é possível porque Sócrates decidiu que tal pudesse vir a ser possível, independentemente do desfecho do processo judicial. É esta sua decisão, nascida da sua liberdade, e que espelha a sua responsabilidade, que se oferece de imediato para julgamento moral uma vez confirmada pelo próprio. E aqui, ou se aprova, ou se reprova ou se fica indiferente. Cada um está obrigado a uma qualquer posição moral pois o assunto é de interesse comunitário ao mais alto nível. E a moral diz respeito a essa dimensão em que decidimos em que tipo de comunidade queremos viver.

  38. Eu não só aprovo como agradeço a Sócrates ter pegado numa marreta (em sentido figurado) e ter estilhaçado completamente o conceito do “bom português”, trabalhadorzinho, pobrezinho, humildezinho, submissozinho, e conformadinho com o seu destinozinho de ser para sempre inferiorzinho aos outros povos da Europa !
    Com Sócrates apareceu uma geração de portugueses que sabe que NÃO TEM NECESSÁRIAMENTE de ser assim. E o “bom português” pode ser inteligente, trabalhador, e gostar de viver bem, vestir boas marcas e comer em bons restaurantes. E pode ser PAR de qualquer outro europeu.

    Com a entrevista do juiz ficou bem à vista em que juiz moral assentam as suspeitas de suas Excelências.
    Há um choque de mentalidades entre Sócrates e o Juiz.
    O Juiz mostrou a quem ainda não tivesse intuído que é o protótipo do tal “bom português” salazarento, e Sócrates estilhaçou esse conceito e é outro tipo de homem e não se verga ao juízo moral do Salazarismo.
    E dos Juízo Moral não saímos porque matéria para juiz criminal não há passado todo este tempo ! E isso é ILEGAL ! e é MUITO GRAVE !.

  39. Valupi,

    Não inventes! O que eu escrevi e que citas teve por único propósito considerar a premissa omissa na suposta lógica em que fundas a condenação moral do gajo; não implica que a subscreva, mas apenas que, se o fizesse, poderia concluir como tu, o que não é o caso.

    “Ora, tal só é possível porque Sócrates decidiu que tal pudesse vir a ser possível, independentemente do desfecho do processo judicial.”

    Estás a ser maldosamente simplista. Equiparas seja lá o que foi que suscitou a investigação, a inverter o sentido da marcha em plena auto-estrada nas barbas da brigada de trânsito.

    “E aqui, ou se aprova, ou se reprova ou se fica indiferente. ”

    Pois é ! E eu até posso fazer qualquer dessas coisas na privacidade aqui da sala. Desse processo até podem resultar dúvidas e exprimi-las politicamente na intimidade da cabine de voto se entretanto o gajo mo viesse pedir amanhã.. O que não faço é dizer sem mais que o homem é um mau carácter, apenas porque, segunda a tua tese, tinha a obrigação de saber que outros maus caracteres se iriam aproveitar do que quer que seja que tenha feito para objectivos de baixa politica.

    “Cada um está obrigado a uma qualquer posição moral pois o assunto é de interesse comunitário ao mais alto nível. E a moral diz respeito a essa dimensão em que decidimos em que tipo de comunidade queremos viver.”

    Concordo em absoluto! E a minha posição moral exprimo-a já e sem qualquer hesitação ou ambiguidade em relação ao comportamento das instituições da justiça e do dito jornalismo neste processo, que considero inaceitável. Já a minha posição moral relativamente ao ex PM, tem de ficar em banho- maria, a aguardar trânsito em julgado, se é que algum dia lá chegaremos.

  40. Já agora, Valupi, e por aqui me irei ficar, deixa-me acrescentar o seguinte.

    Se me perguntares se acho que JS foi estúpido, eu responderei que estúpido é pouco. Um gajo que se sabe alvo sob mira agir com a descontracção que ele demonstrou, é estúpido como o caralho. Mas há uma linha vermelha que separa a estupidez natural ( por maior que ela seja ) do mau carácter: a intenção. Sem que esta esteja provada, não posso julgar moralmente por má-fé um estúpido. Limito-me a lamentá-lo.

    Já no caso do MP outro galo canta. A má-fé está provada.

  41. se calhar tinha. não regressava a portugal, mandava foder a justiça e regressava quando a coisa arrefecesse. não tinha sido preso, não havia falatório e poderia ter dado umas entrevistas lá fora a denunciar a merda da justiça e o estado de direito.

  42. Ignatz

    Concordo contigo! Mas ainda bem que não o fez, pois assim prestou um serviço público: mostrou a quem quiser ver que há vastas zonas da sociedade portuguesa que nunca se deixaram contaminar pelo espírito de Abril. A mentalidade pidesca continua viva e recomenda-se.

  43. ” … pois assim prestou um serviço público: mostrou a quem quiser ver que há vastas zonas da sociedade portuguesa que nunca se deixaram contaminar pelo espírito de Abril.”

    acho que poucos querem e muitos menos estão interessados nisso, a prova é fazerem sondagens para tudo mais um par de botas e nisto ninguém pega, no dia seguinte tinham a pide à perna e o fisco a rever as contas dos últimos 10 anos.

  44. Se Sócrates não tivesse decidido organizar a sua vida de acordo com a sua consciencia e tivesse seguido calculismos moralistas miserabilistas, nem teriamos conhecimento do carácter de podridão infecta de uma parte importante dos jornalistas e opinadores deste país, nem do género de pessoas pagas para defender o interesse público que qualquer cidadão pode apanhar pela frente , nem de muita hipocrisia moral que habita as linhas de vanguarda e sofisticação intelectual. Com a divisão de águas que proporcionou e o esclarecido registo já produzido, e ainda em construção, prestou, talvez, o maior serviço público que a sociedade portuguesa lhe deve.

  45. ò galuxo, só tenho certezas dessas quando fizerem uma sondagem aos portugueses, preferencialmente nas próximas presidenciais.

  46. «organizar a sua vida de acordo com a sua consciencia e tivesse seguido calculismos moralistas miserabilistas», a sério?

    «em do género de pessoas pagas para defender o interesse público que qualquer cidadão pode apanhar pela frente», falas do MP e do super-TIC?

    «do carácter de podridão infecta de uma parte importante dos jornalistas e opinadores deste país», referes-te a que parte exactamente?

    «muita hipocrisia moral que habita as linhas de vanguarda e sofisticação intelectual», presumo que falas de todos os seres pensantes entre os quais o Valupi que bastante engoliu em seco, enquanto se enlameava solitária e trabalhosamente para encher as cabeças de meia-dúzia de alucinados como tu, e que vive hoje a meio-da-ponte como um crente que tenta afastar-se dessa espécie de seita das Testemunhas de Jeová que passa os dias a vigiar os [seus] erros no Aspirina B?

    e, em especial,

    «o maior serviço público que a sociedade portuguesa lhe deve», …?

    Ó Lucas, olha como a confusão que vai por esses miolos resulta em tantos disparates que até chegam a envergonhar o mais honesto dos serventuários públicos. Pois é verdade, e falo por mim, que o Sócrates não me emprestou nada nem nunca me cravou, que nunca tive negócios com o tipo nem no tempo das vacas magras em que ele surgiu provincianamente mas com vontade de vencer na AR e aqui por Lisboa (olha que conheço a personagem algures da década de 1990, portanto antes dele ter entrado no governo de António Guterres). Quem era ou é o “devedor” neste enredo é o ex-PM, e é de muito pilim que se fala, revertendo-se a tua crença quase religiosa para o… amigo Tio Patinhas.

    Nota. De resto, deverias saber que o serviço público prestado nos regimes democrático felizmente não amarra os eleitores a essa espécie de perpétuo agradecimento, de veneração e de acefalia colectiva, principalmente quando os animais políticos fizeram a sua obrigação. A não ser assim isto resultaria num caudilhismo, portanto anacrónico, maquilhado canhestramente por um tipo qualquer com a mania de que que é “o chefe” sob a forma de… carisma.

  47. É definitivo: este bloguito é um caso perdido – e o seu rebento mono-neuronal eric, o teco, também.

    Os únicos comentários que ainda valem a pena são, obviamente, os do incisivo, corajoso e sempre lúcido ignatz. Por eles, só por eles, venho aqui espraiar a morrnaça.

    O enfunado Saturno e todos os seus anéis e as suas luas provocam um fastio cada vez mais insuperável.

    Nas sábias palavras de um antecessor de Dylan, «o homem mais sábio que eu conheci era analfabeto».

    Quem quiser, que enfie esta rica carapuça.

    Adeus. E lembrem-se, amigos, de que “nada existe mais do que aquilo que não existe”…

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