Exacto, é preciso ter lata, muita lata

Passos antecipou Trump em 5 anos. A uma campanha de espectaculares mentiras seguiu-se uma governação de inveteradas pós-verdades. Não ia cortar pensões, subsídios, salários, funcionários públicos. Ia cortar gorduras no Estado. Quem se pode opor ao corte de gorduras no estado seja de quem for? Para além disso, o FMI era um bacano e o acordo do resgate de emergência, nascido do boicote parlamentar ao garantido apoio europeu que o evitaria no futuro de curto e médio prazo, confundia-se com o programa que levava a votos, só pecando aquele por não ser tão ousado quanto a sua ambição. O rating de Portugal subiria em 6 meses assim que o Mundo fosse informado do regresso do PSD a S. Bento. As contas estavam todas feitas, berrava o laranjal. Com Passos no leme, navegaríamos a direito em direcção ao além-Troika, vinha aí a revolução. A economia ia ser “democratizada”, afiançou com os olhos postos na República Popular da China e nos magníficos negócios na calha. Cereja no topo do bolo, jamais regressaria ao passado para se justificar com a situação presente, garantiu numa ocasião solene. Sabemos o que se seguiu. Seguiu-se o “Governo mais liberal de sempre” e o seu peculiar gosto pelo empobrecimento como punição e o colossal aumento de impostos como panaceia, tudo embrulhado na subserviência aos radicais do fanatismo austeritário.

Como é que a sociedade reagiu a esta postura hipócrita, dúplice, oportunista e factualmente traidora ao interesse nacional? Como é que a comunidade lida com políticos com este grau máximo de desonestidade eleitoral e política – sem análogo conhecido na democracia portuguesa? Os apoiantes rejubilaram, pois na fúria tribal vale tudo para obter poder. A lógica da diabolização dos adversários é a de os transformar em inimigos e, consequentemente, em alvos da maior violência possível ainda antes de eles nos atacarem. Basta a suspeição de que irão lutar pelos seus interesses para justificar os ataques antecipados e a recusa de qualquer acordo. Essa foi a estratégia seguida com Sócrates desde 2008, alguém visto pela direita e pela oligarquia como forte de mais para ser derrotado apenas no páreo eleitoral, e ainda como um líder com quem teriam de fazer cedências (ou seja, que não conseguiriam comprar). As golpadas judiciais-mediáticas sucederam-se logo a partir de 2004, e em 2010, em cima do furação provocado pela crise das dívidas soberanas começado na Grécia e da armadilha do Governo minoritário, havia quem na direita preferisse ver um Governo com o PCP do que com o PS de Sócrates, outros gozavam o prato a exigir que o próprio PS defenestrasse o seu líder caso quisessem negociar soluções de governação com o PSD. Ao mesmo tempo, incluindo pela boca do próprio Passos Coelho e do Pacheco Pereira, entre outras figuras menores e contando com a agenda política da indústria da calúnia, alimentava-se o discurso do ódio que apelava à prisão de Sócrates e de quem com ele governava. Era o tempo em que todos os actos governativos estavam sob suspeita, em que todos os governantes era ladrões ou cúmplices de ladrões. Tal como Trump agora, a direita portuguesa então jurava ir secar o pântano da corrupção socialista. Não há rigorosamente diferença nenhuma entre um e outro discurso. Tal como não há diferença nenhuma entre a facilidade com que um e outro mentem em público e para o público.

Passos continua como presidente do PSD e até consta que pretende voltar a ser primeiro-ministro. Espantoso? Nada, pois este é o mesmo país que reelegeu Cavaco depois dele ter usado a sua função presidencial para violar a Constituição, violar o seu juramento e entrar a fundo na baixa política e nas golpadas eleitorais. Os interessados em estudar o fenómeno do ponto de vista da ciência política, da antropologia e até da psicologia apenas terão de reler o que os conspícuos apoiantes de ambos diziam a seu favor in illo tempore.

16 thoughts on “Exacto, é preciso ter lata, muita lata”

  1. Quem antecipou Trump foi o Costa.
    O Costa ultrapassou Passos tal como Trumpaultrapassou a rapariga Clinton, menos votos mas a vitória foi certa.
    O Costa antecipou-se até ao PS, PCP e Bloco.

  2. Oh Valupi… só para contrariar o “Bonito, Bonito (?)… venho mais uma vez sublinhar em como são tão necessárias as “aspirinas” que aqui nos traz…. E as assertivas análises da podridão que tem vindo a grassar nas direitas portuguesas – as do PSD e CDS – mas também no “pensamento” de alguns no seio do PS, dissimuladas de uma certa social -democracia que só protege os interesses do capital financeiro e promove o individualismo radical, em que todos os meios são bons para atigir esses fins…. é um regresso , cada vez mais visivel e sem vergonha do “tatcherismo”!

  3. Quem disse que o Passos teve mais votos que o Costa?
    Multipliquem os respectivos deputados pelo nº de votos necessário para os eleger e vejam o resultado das contas.
    Surpresa!!!

  4. Não será cedo para comparar o traste de Massamá com o recém eleito Trump?
    Hoje, começaram os “spin” sobre algumas “promessas” juradas antes do acto
    eleitoral até o “NYTimes” passou a ser o que sempre foi … uma referência!
    Não se pode comparar um “gazua” para abrir portas, com o magnata dono de
    um império com universidade própria, mesmo sem voz de tenor!!!

  5. sim, há um povo alienado, não por direito, pela direita. e ai, pelo meio dele que nas fímbrias moram tufões e ventanias, de quem levante a voz da inteligência e da salubridade mental. :-(

  6. E do sr. Sócrates ninguém diz nada? A pessoa que nos levou quase à bancarrota, a pessoa que abriu a porta à troika?
    Eu não sou hipócrita nem tenho memoria curta

  7. outra coisa que esqueci de dizer: costa antecipou trump. Isto é, ambos ganharam com menos votos que o adversário,
    ou têm memoria curta?

  8. um, dois,três, quiz do mês:

    um – não chega a tomar posse porque perdeu as eleições.
    dois – toma posse e de seguida é empixado por fuga ao fisco.
    três – cai com o elevador da torre trumpeta por falta de manutenção e respectivo pagamento.

  9. A verdadeira anónima, a verdadeira aldrabice e a Matemática como ciência exacta:

    1.º partido em n.º de votos — PS — 1 747 685
    2.º partido em n.º de votos — PSD — 1 732 232
    3.º partido em n.º de votos — BE — 550 892
    4.º partido em n.º de votos — PCP/PEV — 445 980
    5.º partido em n.º de votos — CDS/PP — 350 278
    6.º partido em n.º de votos — PAN — 75 140

    Donde se conclui que:

    — O PS teve mais 15 453 votos que o PSD.
    — O BE teve mais 200 614 votos que o PP (mas apenas mais um deputado que a pandilha salta-pocinhas).
    — O PCP teve mais 95 702 votos que o PP (mas menos um deputado que a pandilha salta-pocinhas).
    — O PP ficou em penúltimo, ultrapassando em número de votos apenas o honroso e honrado lanterna-vermelha PAN. A sua inflacionada presença na AR fica a dever-se a dois factores facilmente entendíveis: ter concorrido em coligação com a agremiação do aldrabão de Massamá, por um lado, e mais um milagre do Santinho da Ladeira que dá pelo nome de Método de Hondt, por outro.

    Daqui se pode também concluir que:

    — A Matemática é fodida!

  10. Equiparar Passos a Trump é, mais uma vez, comparar a Feira de Borba com o olho do cu, desporto em que, de tão assiduamente praticado, te tornaste um verdadeiro campeão. Temos ouro olímpico à vista, aleluia!

  11. foi necessário a soma de 4 anormais não fazer 1 pm. isto chama-se ganhar na secretaria e vai contra a decisão dos portugueses. O mesmo aconteceu com a Trampa dos estados unidos.

  12. Valupi, mim num cumprender tu! Dos dois comentários que postei, o único que te era dirigido era o das 4.39. Nele não havia réstia de “argumentação”, e muito menos “poder” da dita, mas tão-só uma verificação. Posso, porém, se achares por bem, corrigir a coisa, mantendo embora a mesma ausência de “poder” e de “argumentação”. Aqui vai:

    “Equiparar Passos a Trump é, mais uma vez, comparar o olho do cu com a Feira de Borba, desporto em que, de tão assiduamente praticado, te tornaste um verdadeiro campeão. Temos ouro olímpico à vista, aleluia!”

    O comentário das 4.30, esse sim com “argumentação”, alicerçada no “poder” dos números, tinha como alvo exclusivo a verdadeira loura, por sinal cada vez mais oxigenada, como o prova o que despejou às 10.04. Coitada, números não são realmente a sua onda, ela é mais bolos.

    A questão iniludível é a seguinte: se a Killary Klingon ganhou em número de “votos populares”, mas alegadamente perdeu na secretaria, aqui aconteceu exactamente o contrário: o partido do aldrabão de Massamá perdeu em número de votos populares face ao partido de António Costa (menos 15 453) e a quadrilha mais ou menos bicéfala da direita perdeu ainda mais gritantemente em número de votos populares face à geringonça da esquerda: menos 662 047.

    É de Matemática que se trata, na sua forma mais “rudimentar”, a Aritmética, e contra ela batatas! E se, insisto, a Matemática é fodida, a Aritmética fodida é, olari ló lé!

    Salut!

  13. Joaquim, primo, a expressão “olho do cú” leva-me a pensar em algo tão sério como um alvo, um objectivo, um fito (não um pito, pois isso levaria a muitas outras interpretações…). Também me poderia levar a escrever sobre “merda”, mas não pretendo dissertar sobre política e “cócó” pois seria muito óbvio!

    Mas falando de alvos ou objectivos, ainda não percebi esta política difusa de “surdos” (em espanhol, “esquerdas”). Eu creio que o alvo é a sobrevivência política e a sua perpetuação (definição de político!) e não o desenvolvimento do país. Isto até me recorda o Trump: o anti-sistema que afinal se tornou político! Mas voltando ao tema principal, e analisando a coisa por via da aritmética, temos um défice a diminuir! Aleluia! O que é fantástico para podermos continuar a torrar dinheiro que vem lá de fora com projectos de muitos amigos que não vão a lado nenhum e só vivem desta mama (graças a deus que já não há argumentos nem espaço para encaixar mais auto-estradas…)! Por outro lado, segundo o Tó Costa (e capangas como Galambas e Cia) a mensagem a passar é a de que os impostos estão a diminuir, que haverá reposição de salários e que a economia irá acelerar. Ora, se os custos do estado estão a aumentar, ou pelo menos não diminuem, será que estão mesmo a conseguir algum milagre aritmético-quântico que colocam em causa a simples regras que aprendemos na primária!?

    Aterrando nas estatísticas que nos vão chegando, o que sabemos hoje é que a dívida pública atingiu recordes (acima de 133%), estamos a ser suportados pela DBRS (esperemos que não espirrem!) e que estamos com os níveis de investimento, sobretudo externo (pq o Público normalmente não é produtivo e está nas lonas -ainda bem!), dos mais baixos dos últimos anos (i.e., confiança em Portugal anda na miséria). Mas continuamos a tapar os olhos com a peneira ignorando o nosso caminho para o abismo. Pelos vistos, estamos mais animados por ter mais dinheiro nos bolsos para poder consumir, alimentando o brutal aumento de impostos indirectos… em resumo, continuamos nos cuidados intensivos a depender da máquina para nos alimentar de oxigénio!

    Mas aguardemos pelos resultados desta política de “Surdos”! Ao contrário de muitos, não estou optimista. Mas voltando ao tema desta dissertação, continuo a achar que a Geringonça é míope e escolheu o alvo errado! Não é pelo “olho do cú” que a economia se multiplica!

  14. Camarada Primo, parece-me que laboras em erro quando dizes que “os custos do estado estão a aumentar, ou pelo menos não diminuem”. Por exemplo, é um facto que diminuiu o número de desempregados, de uma forma que a muitos espantou. Menos desempregados implica menos subsídios de desemprego, o que diminui a despesa do Estado, o custo do Estado. Tanto quanto sei, o défice foi reduzido precisamente porque houve uma melhoria nos custos do Estado, ou seja, na relação entre despesa e receita. Isto parece ser ponto assente, mesmo entre a oposição, e por isso, à falta de questões sérias, a quadrilha Massamá/Caldas inventa questiúnculas à volta da CGD, das viagens para ver a bola, do panarício na nalga esquerda deste ou do furúnculo na nalga direita daquela. Bem sei que a dívida continua a aumentar, mas isso é coisa que acontece a todos, EUA inclusive, e só melhorará com mais crescimento, com uma melhoria da economia que resulte na cobrança de mais impostos, o que depende também da evolução da situação a nível internacional. Tanto quanto percebo, no plano interno a geringonça não tem trabalhado mal nesse aspecto. E até o cretino do Dijsselboem, numa daquelas postas de pescada que habitualmente arrota, disse que a dívida portuguesa é perfeitamente sustentável. Não percebendo de economia, ouço muitos a dizer que é mentira, e tenho tendência a acreditar neles em vez de no gato gordo que, lá em Bruxelas, nos anda foder o juízo e o coirão, mas, pelo menos, enquanto o pau vai e vem folgam as costas. E temos, além disso, uma situação, a nível de paz social, que deve ser única na UE, com uma descompressão, uma acalmia, uma desdramatização que deve fazer inveja aos outros países europeus. Acredito que estes e outros factores darão frutos a médio prazo.

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