A inauguração do Museu do Neo-realismo em Vila Franca de Xira teve a precedê-lo um conjunto de «eventos» mais ou menos pós-modernos que pelo seu teor insólito me surpreenderam. Não estava nada à espera de ouvir os nomes dos escritores e artistas plásticos do movimento neo-realista gritados por umas meninas que, num primeiro andar, assim distraíam as pessoas que aguentavam ao sol a possibilidade de entrarem no Museu.
Tudo bem: na EXPO 98 era assim para entreter o pagode com palmas enquanto os eventos não começavam. Atiraram bonecos de plástico com pára-quedas e a seguir desceram dois homens em cordas na frontaria do edifício. Depois não percebi a guarda de honra feita por dois jovens atletas de esgrima que devem ter sofrido muito debaixo daqueles quentes fatos. Ao meu lado desmaiou uma menina que estava fardada tipo Hospedeira de Portugal a dar as boas vindas aos convidados. Com boa vontade lá apareceu um copo de água e um pacote de arroz. Pobre pequena que não vai ter saudades de tamanha multidão.
Lá dentro foi o ainda mais inesperado. Dois matulões faziam pesos e halteres ao lado dos quadros famosos do movimento neo-realista. Ao mesmo tempo diversas matulonas passeavam os seus fatos de lycra e as suas botas pretas numa espécie de tentativa de produzir torcicolos aos convidados. Uma delas usava um minúsculo chapéu-de-chuva. Lembrei-me logo de Catherine Deneuve e de Françoise Dorelac dançando em «Os chapéus-de-chuva de Cherburg».
Não percebi nada, mas deve ser da idade. Não vou ter tempo de perceber. Já tenho 56 anos, por isso estou na segunda parte da vida. E sei que não vai haver prolongamento.
Todos os artigos de Aspirina B
Balada galega
Manuel María, poeta galego contemporâneo, termina assim a sua “Balada ós meus pequenos enemigos”:
Meu querido enemigo: agradecido estou
a túa incompreensión, ó teu pequeno odio
inofensivo, a tua língoa en miniatura,
ó teu cativo leite que non coalla:
así vas ben, tí descansas i eu tamén.
Dificilmente conseguimos alcançar a perfeição de oferecer a outra face a quem nos bate, mas o desprezo teria quase o mesmo efeito. O orgulho, porém, é muitas vezes mais forte que o nosso desejo de paz. Ou até nos apetecem mesmo algumas guerras, para provarmos que somos capazes de enfrentá-las ou de atiçá-las. No entanto, e à semelhança do que de outro modo disse o poeta galego, as palavras do ódio não são nunca proferidas por uma língua eloquente.
Os archotes apagados na livraria de Fernanda
Tudo pode ser simbólico. Depende do nosso olhar. Com uma vida inteira passada entre livros, Fernanda resolveu abrir uma livraria na Calçada do Combro, perto de outros alfarrabistas com nome na praça. Mas que praça? Uma praça que permite um apuro de 3 euros ao fim de um dia de trabalho. Três euros não pagam a água nem a luz, muito menos o trabalho de quem atravessou os arredores da grande cidade num comboio matinal e sonolento. E completou a viagem até à Baixa Chiado num Metro a abarrotar de gente. Mudou o sentido da vida das pessoas.Há quarenta anos era vulgar as pessoas do meu círculo de amizades uma certa tristeza perante um livro importante que ainda não tínhamos lido, um compositor cuja música ainda não tínhamos descoberto, um filme que não tínhamos ido ver ou uma peça de teatro da qual só tínhamos ouvido falar. Um velho alfarrabista sintetizou a ideia numa entrevista ao «Correio da Manhã» no Verão do ano passado: «antigamente as pessoas tinham orgulho dos livros raros e antigos que tinham em casa; hoje procuram ter uma casa de férias no Algarve e se possível uma outra casa de férias no Brasil.» O ter ganhou a corrida ao ser – parece fora de dúvida esta certeza enunciada assim de chofre. Quando fundou a livraria, Fernanda teve a ideia de colocar dois archotes à porta. Ela sabe, a sua intuição diz-lhe, que o fogo é a palavra. Os archotes apagados na porta da livraria são um sinal dos tempos. Ter a porta aberta durante um dia para apurar três euros é também um sinal dos tempos. Tempos difíceis para a palavra, para a escrita, para a alegria. Tudo submerso no ruído da cidade. Um ruído que tudo envolve e tudo ajuda a ficar esquecido na monotonia dos dias sucessivos e cinzentos.
A paixão de sóror Josefa do Menino Deus
Entre os seus papéis venerados no convento, depois de uma morte em odor de santidade, ao esmorecer da tarde de sexta-feira, dia 21 de Outubro de 1768, havia um soneto à margem do qual estava anotado pela madre superiora: “Soneto que fez a mui piedosa sóror Josefa do Menino Deus, grande devota da nossa Santa Madre Teresa, a quem neste soneto modestamente quis imitar depois que leu e meditou na bondade de Nosso Senhor pelo perdão que concedeu à mulher adúltera.”
A fama de santidade de sóror Josefa terá sido justa. Mas as razões que a levaram a todos os jejuns e penitências que apressaram a sua morte, e às longas orações muito além do que a regra impunha, foram outras que não essas por que é costume fazerem-se os santos. Como prova documental, que a uns servirá de acusação e a outros de exaltação das suas virtudes, leia-se a última carta que escreveu antes de ir para o convento. Guardava dela o rascunho, que só entregou, a dois dias da morte, a sóror Maria do Imaculado Coração para que a revelasse quando lhe parecesse conveniente, e no caso de entender que poderia servir de exemplo para prevenir futuros e desgraçados casos como o seu.
A carta, sem o nome do destinatário, começa com uma saudação simples: “Meu Amor”, e logo no princípio a jovem Josefa deixa perceber claramente as razões por que assim procedia.
DANIEL DE SÁ
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O falso Sporting-Benfica de 1907
No passado dia 29 de Setembro, o jornal A Bola publicava uma foto supostamente «histórica»: os presidentes do Sporting e do Benfica em alegre confraternização num campo pelado de Carcavelos, celebrando o centenário do primeiro derby entre «leões» e «águias».
Ora, a verdade é que o Sport Lisboa e Benfica só foi fundado em Setembro de 1908 e não poderia ter disputado nenhum derby em 1907. Consultando os jornais da época vê-se, na página 2 do Diário de Notícias de 2-12-1907, na rubrica «Vida Sportiva», uma notícia sobre o jogo entre o Sporting Clube de Portugal e o Sport Lisboa, cujo resultado foi de dois «goals» contra um. O jornal O Século dá uma notícia mais desenvolvida, sendo os elementos os mesmos.
Mas o livro Repórteres e reportagens de primeira página, de Jacinto Baptista e António Valdemar, na sua página 41 e sob o título «O primeiro Sporting-Benfica em 1907», vai mais longe. Ao citar as duas notícias do dia 2-12-1907, os seus autores tentam (num certo sentido) emendar a história: acrescentam um parêntesis recto e as palavras «e Benfica». Fazem essa operação duas vezes como quem repreende os zelosos jornalistas de 1907.
Simplesmente, os jornalistas de então limitaram-se a escrever a verdade: em 1907 não havia o Sport Lisboa e Benfica, que só foi fundado em Setembro de 1908. Logo não houve nenhum derby em 1907.
Os basbaques de 2007 (a começar pelos presidentes dos clubes) lá engoliram mais esta patranha do jornal A Bola.
José do Carmo Francisco
Dueto a uma só voz

O meu amigo José do Carmo Francisco, um poeta de suave sensibilidade, foi também jornalista do jornal “Sporting”. Costumava acompanhar por todo o País as equipas jovens do nosso clube, e houve uma vez em que começou assim a crónica de um jogo: “Verde pode ser a cor da paixão. O verde das folhas da videira a anunciarem as uvas e o vinho novo. Os verdes anos da juventude que quer apressar a chegada do amanhã. Verde da paixão, paixão do verde. Das folhas da videira que hão-de secar no Outono. Felizes os que os deuses não amam, porque talvez não morram jovens. Felizes os que, como as folhas da videira, não são jovens para sempre. Porque só a morte faz eterna a juventude.” Esta introdução parecia ser mais do que um simples efeito literário. E era, de facto.
Dispondo de umas horas livres, resolvera passear pelos arredores da vila onde os juniores do Sporting iriam jogar, e chegara até uma quinta em cujo portão, ao lado de uma casa carregada de velha dignidade, era anunciado vinho do produtor. Mais como consequência do seu espírito curioso do que por desejo real de comprar algum, embora fosse esse o pretexto com que justificaria o que ali ia fazer, puxou a corda da sineta que servia para chamar quem devesse abrir o portão, mas foi à porta da casa que apareceu um homem de bom aspecto, com cerca de quarenta anos, que o mandou entrar por ali, dizendo depois das apresentações: “Minha mulher não está. Foi visitar a irmã.”
DANIEL DE SÁ
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Um inesperado poema de Óscar Lopes
Em 1984, a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto editou o livro A Ilha dos Amores. Foi aí que descobri o único poema que conheço de Óscar Lopes. Chama-se «Segunda pessoa» e aqui fica para os leitores do Aspirina.
Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça
à certeza de uma longínqua razão.Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-te na boca.
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.
Óscar Lopes
(recolhido por José do Carmo Francisco)
CENAS DA GUERRA COLONIAL

A borboleta negra
À primeira rajada, a coluna atirou-se para o chão, evitando as bermas da picada que poderiam estar minadas. Mas o furriel Braga permaneceu de pé, inexplicavelmente de pé, sem fazer um gesto sequer para disparar a G-3.
(Na véspera dissera ao furriel Gonçalves: “Nunca hei-de contar a ninguém o que passámos aqui.” O amigo perguntara: “Tens vergonha?” E ele respondera: “Tenho. Tenho vergonha de que me chamem mentiroso.”)
Nuvens de poeira ergueram-se à sua frente e à sua direita.
(Passara quase todo o dia a beber, e, quando o Gonçalves o aconselhara a deitar-se para estar em boas condições de madrugada, porque iriam sair para o mato, disse que preferia aproveitar umas duas ou três horas mais de vida.)
Resistiu ao primeiro impacto de bala, cambaleando.
(À noite, na messe, lera várias vezes o poema de Carlos Drummond de Andrade “E agora, José?” Tentara mesmo que alguém o ouvisse, mas a sua insistência de bêbedo só resultou com o Melo e o Gonçalves. No final, com um ar alheado de ter estado com pouca atenção, o Melo dissera: “Isso nem sequer rima.” Respondera-lhe: “És uma besta!” Mas o Gonçalves mostrara-se admirado com o poema: “Nem sequer dei por isso” e pedira que o lesse outra vez. O Melo fora buscar mais uma cerveja e não voltara à mesa.)
Parecia equilibrar o corpo como se lutasse contra um vento ciclónico.
DANIEL DE SÁ
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Pequeno romance de António e Luísa
Bom dia em Portimão
Boa noite em Alcoutim
A força de uma paixão
Que parece não ter fim
Bodas de prata, cruzeiro
Entre Mar e Guadiana
Amor fica em primeiro
Sete dias por semana
O que António precisa
Para sorrir de alegria
Está na voz de Luísa
Onde a paixão principia
Quando foram à procura
Sementeira de esperança
E a vida foi muito dura
Lá por terras de França
O tempo passa e corre
Em todos os dias da vida
Mas nos filhos não morre
Esta paixão perseguida
Numa filha que continua
No ofício e na profissão
A vida que sendo sua
É um fruto desta paixão
No filho que joga e estuda
Quatro linhas dum relvado
E todos os dias se muda
A expressão do resultado
Com António, com Luísa
Mãos dadas passo a passo
Esta paixão é uma divisa
No tempo e no seu espaço
José do Carmo Francisco
Factos e protagonistas dos tempos da FLA

O jornal “Açores” era uma espécie de órgão oficioso da FLA. O tempo que se vivia era de autêntica pré-guerra civil, pelo que as mentiras ao serviço do movimento, como aquela notícia absolutamente fantasiosa com que comecei o «post» anterior, faziam parte da acção psicológica. O seu director, Gustavo Moura, veio a ser preso por causa disso e foi, honra lhe seja feita, o único até hoje, em cerca de trinta, que publicamente em entrevista na RTP ouvi reconhecer a justiça da sua prisão (na sequência do 6 de Junho, a que me referirei adiante.)
Porquê eu?
Eu, simplesmente porque estou a contar a história. Mas outros sabem tanto ou mais do que eu, e foram tanto ou mais protagonistas de um lado e outro das duas frentes.
O “Açores” foi o jornal em que comecei a escrever como colaborador gratuito, e mantive-me lá até ao Verão quente de 1975. Por essa altura publiquei um artigo contra a independência que foi mal aceito. Depois escrevi outro cuja publicação foi recusada, mas que foi levado para uma reunião da FLA em que disseram de mim (soube-o por um dos participantes, que fora redactor do “Açores”) o pior que se pode imaginar. Ainda escrevi um artigo contra a política gonçalvista dos saneamentos selvagens, que foi publicado, o que não aconteceu a um segundo, por medo das represálias. Por causa disso, deixei de colaborar lá e passei para o “Correio dos Açores”. Um dos artigos que neste escrevi provocou duas ameaças de bomba, a suspensão de catorze assinaturas e o pedido de sete novas.
Quando a FLA começou a ganhar cada vez mais força, organizei aqui na Maia duas manifestações contra a independência. Foi a única freguesia dos Açores a fazê-lo, o que foi um golpe incómodo para a unanimidade que a FLA fingia recolher dado o silêncio da contestação popular. Havia resistências pontuais em Ponta Delgada, por parte de comunistas e socialistas, mas nenhum movimento de massas. Foram postas bombas artesanais feitas com botijas de gás, várias pessoas foram agredidas, automóveis queimados, a sede de alguns partidos e a casa da família do Jaime Gama incendiada. (Os primeiros incendiários foram extremistas de esquerda, que pegaram fogo à sede do Movimento para a Autodeterminação do Povo dos Açores, antecedente “legal” da FLA, fundado por gente do PPD.) Quando o director do “Açores” arrefeceu o seu apoio à causa também apanhou com uma bomba em casa por represália, bem como Américo Natalino de Viveiros, secretário do governo regional, pelo mesmo motivo.
DANIEL DE SÁ
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Daniel de Sá e a Frente de Libertação dos Açores

Daniel de Sá (à esq.) com o realizador brasileiro Douglas Machado. As janelas da casa do Daniel, na esquina, com barras verdes, foram reforçadas contra possíveis atentados à bomba por parte da FLA.
A casa foi ainda protegida a partir da escola à direita, de que se vê o gradeamento.
Num comentário, foi pedido ao Daniel de Sá alguma informação sobre as suas relações com a FLA (Frente de Libertação dos Açores). O Daniel fixa-se num episódio, que foi relatado no jornal Açores, em Outubro de 1975.
Foi queimada uma bandeira da FLA, na Maia. O autocarro da carreira Ponta Delgada – Maia chegou meia hora mais cedo para os passageiros assistirem ao acto. A bandeira fora hasteada às escondidas, durante a noite, numa casa desabitada em frente da igreja por um grupo de socialistas, dos quais faziam parte eu e um colega chamado Francisco Sousa [veio a ser presidente nacional do Sindicato de Professores]. Essa queima fora preparada em minha casa, durante um lauto banquete, com a presença de dois altos dignitários do PS. A bandeira terá sido arrastada pelo chão, pisada, lançada à lixeira, e depois queimada.
DANIEL DE SÁ
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Continuar a lerDaniel de Sá e a Frente de Libertação dos Açores
MANIFESTO
A estupidez ganhou mais uma batalha. Cristo aconselha a dar a outra face, e já o fiz aqui uma vez. Mas isso foi com o Jorge Carvalheira, homem de grande talento e que, no caso, tinha alguma razão. Todavia, a face que podemos dar, se a tanto nos chegue a tolerância, é a nossa mesma. A dos outros, devemos defendê-la o melhor de que formos capazes. E vocês escolheram o momento errado para o fazerem, ó acéfalos dos pseudónimos multiplicados. Porque, monstros do absurdo, atingistes uma família exemplar. E já aí vinha aparecendo o mote da menoridade mental das ilhas. Ilhas onde nunca se queimou uma rapariga por ter fama de bruxa, como na zona geográfica, e umas duas décadas antes, do conto que não passa de um capítulo truncado de um livro meu. E, enquanto socialistas e comunistas lutavam em Lisboa pela divisão do país entre si, aqui sofríamos juntos prejuízos graves na integridade física e risco real de vida, para que Portugal, ao menos no mapa, continuasse unido. Eu fui um dos principais alvos, e nunca virei a cara à luta. Mas essa era uma luta que valia a pena, embora, perante casos como o desta turba ululante que andou a morder-me, chegue quase a duvidar de que sim. Ser português com gente desta envergonha. Porque foi gente assim que fez dos liberais ditadores tão violentos como os partidários de D. Miguel, que espatifou o ideal republicano, que ofereceu a cadeira onde haveria de sentar-se o homem de Santa Comba.
Eu admiro há muito tempo o Fernando Venâncio, e há uns vinte anos sou amigo do José do Carmo Francisco, que também admiro. E depressa me tornei um entusiasta da escrita do Jorge Carvalheira e do Valupi, e das aparições da doce Susana. Mas não suporto o grau zero da inteligência afectiva da turba acéfala de comentadores. Por isso lhes deixo o meu desprezo. Sem um pingo de remorso nem uma gota de ódio. Porque o não merecem.
Ficai-vos na sombra de onde espreitais as vítimas que aleatoriamente escolheis. Sede felizes em assassinar moralmente quem vos apetecer. Já sabeis o meu nome, embora pouco saibais de mim. Não procureis conhecer muito mais, para vos sentirdes mais à vontade a continuar ferindo, se vos der na gana.
Tenho pena de que um blog tão bem concebido atraia tal multidão de porcos. Que hão-de continuar a abocanhar as pérolas frequentes que aqui aparecem. O problema é com os bons joalheiros que cá existem. Que continuem, se a tanto lhes bastar o ânimo. Por mim, a experiência foi já suficiente.
Não quis reagir a quente, mas afinal a lucidez foi-me perturbando cada vez mais. E pela última vez peço desculpa: àqueles cujos nomes referi, sobretudo ao Fernando Venâncio.
Para eles, o meu abraço e a minha disponibilidade total. Mas não aqui.
DANIEL DE SÁ
Laura

Laura, a mais maldita e mais desejada em toda a serra… Olhos como os seus Deus não deveria dar a uma mulher destinada a ficar viúva tão moça ainda. Ou teria ela de os não ter ou teriam os homens de andar cegos para que não vivesse sempre em risco de perdição. E tudo no seu corpo estava-lhe feito à medida, ou pelo mesmo valor das duas pérolas negras que faziam coruscar desejos.
A única fortuna que lhe ficara, depois de o marido morrer, foram aquele corpo e aqueles olhos que já levara no dote. “Negros como os do Diabo”, diziam as velhas pudicas, compondo as saias nas pontas dos pés, ou as raparigas invejosas de os seus não serem iguais. Para elas, beleza e pecado eram causa e consequência, lodo e lódão sinónimos absolutos. Em reservada lura se acoitaria ela, sem nunca se ver o efeito da devassidão. Pois pudera! Se vivera quatro anos com o marido sem gerar alma viva… Era estéril, erma como os penhascos da serra, podia dar-se a gostos sujos sem nunca ter de lavar cueiros.
DANIEL DE SÁ
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Os livros nas prateleiras do IKEA
Uma recente e dolorosa experiência em Alfragide nos Armazéns IKEA, durante um dia que parecia nunca mais acabar, levou-me a ver aquela coisa das prateleiras das mobílias em exposição com outros olhos. Há dezenas de prateleiras em dezenas de móveis de cozinha, de sala de estar e de quarto, prateleiras povoadas por livros a sério. Livros verdadeiros. São centenas e centenas de livros escritos em sueco, editados em sueco e de escritores suecos mas não só. Por exemplo há livros de Vidiadhar Surajprasad Naipaul que não é sueco (nasceu em Trindade e Tobago em 1932), mas tens livros seus traduzidos em sueco. E alguns deles estão no IKEA de Alfragide.
Mas a comunicação é impossível. Ninguém lê V. S. Naipaul em sueco no nosso país. Ninguém lê os romancistas suecos que escrevem livros em sueco comprados pelo IKEA para povoar as prateleiras das mobílias de cozinha, de sala de estar e de quarto. Aí é que bate o ponto. Livros suecos em Portugal nas prateleiras do IKEA não foram, não são nem serão nunca lidos por ninguém. Se o efeito era apenas fazer sombra nas prateleiras, não era preciso ser com livros verdadeiros, porque o efeito será o mesmo seja o livro a sério ou seja a fingir. E assim há muita gente na Suécia que não lê esses livros.
A mulher do António Alçada Baptista tinha o hábito de responder quando ele lhe perguntava o que devia fazer a uma coisa fora de uso, como por exemplo uma lista telefónica, «Dê isso a um pobre!». Mas o problema é que não podemos aplicar esse exemplo ao caso do IKEA. De maneira nenhuma. Na Suécia não há pobres.
José do Carmo Francisco
Um hino à vida
No Correio da Horta de 26 de Outubro de 2006, li um “Agradecimento” que me emocionou muito. Vinha acompanhado da fotografia de um menino, chamado Guilherme, e referia duas datas: 10/08/2001 – 27/09/2006. Nada mais. Mal acabei a leitura, peguei numa folha de papel e numa esferográfica, e improvisei um breve poema.
Depois vim a saber que aquele menino era neto de Antero Gonçalves, um dos nomes míticos do desporto açoriano. Atleta de várias modalidades, foi no futebol que se tornou famoso. No Fayal Sport, o clube mais antigo dos Açores. Um Homem extraordinário. Enviei-lhe o poemazinho, e ele acabou por me pedir autorização para o gravar numa lápide em memória do neto. Aqui vos deixo o “agradecimento” como lição de vida, ou do sentido da vida, só possível em espíritos de eleição. E o poemeto.
“AGRADECIMENTO. Aos meus queridos avós, primos, padrinhos, tios e familiares. A todos os da minha orgulhosa Escola B1/J1 da Vista Alegre – coleguinhas, professores e auxiliares de educação. Aos meus companheiros de futebol e aos treinadores da Escolinha de Futebol do FSC. A todos os amigos dos meus pais que simpatizaram comigo. Aos médicos, enfermeiros e funcionários do Hospital da Horta que sempre foram muito carinhosos comigo sempre que precisei de lá ir. Aos meus grandes amigos médicos Drª. Isabel Gonçalves, Drª. Carla Veiga, Dr. Emanuel Linhares Furtado e restante equipa, enfermeiros, auxiliares de acção médica, professores da salinha de actividades e funcionários do Hospital Pediátrico de Coimbra, e por último a todos aqueles que me acompanharam na igreja Matriz da Horta numa maravilhosa celebração eucarística no dia em que cheguei ao meu querido Faial, o meu agradecimento por me terem permitido ser tão feliz durante os meus 5 anos de vida.”
UM HINO À VIDANem flor efémera, leve
Como um sorriso perdido.
Nem borboleta tão breve
Que num voo só alcança
O tempo de ter sido,
Num bater de asa que dança.
Nem um até amanhã,
Que amanhã é outro dia,
É dia de outros, mamã,
E com a mesma alegria.
Nem mil beijos ou abraços.
Nem mais passos… nem mais passos…
Nem flores de despedida,
Nem vozes contra o destino.
Só isto: mudei de vida
E serei sempre menino.
DANIEL DE SÁ
Fábula
Entraram à noitinha na taberna, mandaram encher dois copos. Vinham de longe, quiseram impressionar.
– E aquela ribeira que passámos, onde havia um moinho no bico dum choupo?! – atirou ao moço o almocreve.
– Não vá, senhor, sem resposta! Nesse lugar vi um dia dois machos eguariços, carregados de fanegas, a trepar choupo acima! – isto retorquiu um aldeão.
– Pois hoje mesmo topámos nós um ganapo de sete braços! Está aqui o moço que não me deixa em mentira!
– Minta mais a modo, meu amo! Que o rapaz de sete braços não chegámos a topá-lo! Vimos-lhe foi a camisa de sete mangas, pendurada no estendal!
Transigiu o almocreve, e pagou uma geral.
Jorge Carvalheira
Servir
Homenagem, na pessoa do Professor Moniz Pereira, a todos os que dão muito mais do que aquilo que esperam receber.
Foi há mais de vinte anos. Carlos Lopes acabara de chegar à meta da glória na Cidade dos Anjos. A emoção apertou-me a garganta e espremeu-me as esponjas das lágrimas.
Pensei no Professor Moniz Pereira. Deveria estar sofrendo a solidão dos treinadores quando os atletas vencem na pista e recebem todos os aplausos. Como se fosse possível aplaudir uma obra-prima esquecendo o seu criador.
Então, e apesar de mais de duas mil léguas nos separarem, imaginei que me aproximava dele e dizia: “Já pensei em si.” Ele olhou-me, sorriu e respondeu: “Pois eu ainda não.”
DANIEL DE SÁ
VERTIGEM
FRANCISCO GUEDES, tradutor, e exímio organizador dos encontros Literatura em Viagem, em Matosinhos (e co-organizador das Correntes d´Escrita, da Póvoa de Varzim), ofereceu ao Aspirina um dos seus contos. Aqui vai, com um muito obrigado.
Era domingo. O verão entrava lento pela janela entreaberta afagando o corpo nu e magro de Silvino estirado em cima dos lençóis. Desenrodilhou-se. Esticou as pernas, espreguiçou-se, bocejou, sentou-se na cama e pôs os pés no chão. Alisou o cabelo com as duas mãos, espreguiçou-se uma vez mais, pensou na liberdade conquistada desde ontem (Sim, decidira não mais escutar a voz sebosa de Rodrigues, seu patrão, nem os risinhos amarelos de Gertrudes, telefonista emaranhada nos seus braços e apetites); e foi com um sorriso a aflorar os lábios finos que se dirigiu para a casa de banho. Mirou-se no espelho antes da primeira urina. As olheiras faziam prova da noite dormida em tracejado. Noite de insónia entrecortada pela excitação e pela ansiedade. Aliás, desde que lera o anúncio, o cérebro não mais parara: iria daqui para acolá, sempre a viajar, mostrando a sua arte. O mundo abriria os braços, aplaudiria em pé, faria manifestações e reconheceria com espanto o seu maravilhoso trabalho, sonhou. Sob a água tépida ensaboou-se e duchou-se longamente. Depois escanhoou-se, massajou a cara com after-shave. Demorou tempo a vestir-se, mas quando se olhou pela última vez ao espelho — o outro eu, dizia, há mais de duas décadas —, Silvino viu-se reflectido como sempre imaginara: de fato escuro, sem uma dobra fora do sítio, a quilha era o nó da gravata azul-meia-noite, de malha de seda, a meio, exactamente a meio, do corpo, dava-lhe um ar distinto. Faltavam os óculos, de aros de tartaruga. Colocou-os e, pela última vez, olhou-se na superfície fria do espelho. Gostou do que viu, pegou na pasta, que sempre o acompanhava, e saiu da Residencial, sua casa desde que aos vinte anos viera para a cidade trabalhar como contabilista. Sentiu a brisa ainda fresca das primeiras horas da manhã, eram nove e trinta. Os pés arrastaram-no para o Café ao fundo rua. Pediu um cimbalino em chávena quente, como gostava, e uma torrada de pão bijou com muita manteiga. Um gole de café uma pequena trinca na torrada sucessivamente, até acabar de ler o jornal. Pagou ao balcão. Em passos tranquilos voltou ao seu trajecto e ao amor eterno de Maria, lacrimejado e jurado naquela última tarde calorenta de Dezembro. Reencontrou-a dez anos mais tarde, no cemitério da terra, quando Silvino pai foi a enterrar. Uma ninhada de filhos a rodearem-lhe os olhos, já sem laivos de esperança nem de futuro. Continuou a descer a rua em direcção ao local. De quando em vez avistava-se por entre o granito do casario a luz doirada do rio. Só no verão, e a esta hora, o rio tinha esta cor, pensou.
FRANCISCO GUEDES
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AUTO DO PLÁGIO

No dia em que o Sporting apanhou três do Gil Vicente, não fiquei lá muito bem disposto. Para me vingar, brinquei a propósito de um poema publicado em dois jornais açorianos. Não haveria nada de mal se esse poema não fosse de António Gonçalves Dias, poeta brasileiro do século XIX, mas assinado por alguém vivo. Apenas apareciam trocados os nomes de “terra” por “ilha” e de “sabiá” por “biguá”, uma pobre ave que nem sobe às árvores nem canta. E palavra de honra que nem sequer me dei conta da ironia: o que eu fiz foi uma imitação, embora mal feita, de Gil Vicente, o de outros dramas… Aqui o deixo.
Observação: o sistema gráfico deste blogue não permite ‘avançar’ os versos quebrados. O leitor o compensará.
Personagens:
Gonçalves Dias;
Anjo da Guarda;
Diabo.ANJO – Aonde ides tão asinha?
G. D. – Vou ali e volto já.
A – Levais cara muito má…
GD – Mas a culpa não é minha.
A – De quem é, se a cara é vossa,
E tanto vai transtornada?
GD – Meu anjo, não há quem possa,
Ter cara bem figurada
Se nos rouba a canalhada
Uma coisa que é bem nossa
E que custou a ganhar
Ou a fazer…
A – Pois então…
GD – Eu vou ali ensinar
Um descarado ladrão
Que pegou nuns versos meus
E sem vergonha os fez seus.
A – Ensinar um ignorante
É obra bem compensada.
GD – Mas este, que é um tratante,
Ensino-o à bofetada.
DANIEL DE SÁ
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