CENAS DA GUERRA COLONIAL

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A borboleta negra

À primeira rajada, a coluna atirou-se para o chão, evitando as bermas da picada que poderiam estar minadas. Mas o furriel Braga permaneceu de pé, inexplicavelmente de pé, sem fazer um gesto sequer para disparar a G-3.
(Na véspera dissera ao furriel Gonçalves: “Nunca hei-de contar a ninguém o que passámos aqui.” O amigo perguntara: “Tens vergonha?” E ele respondera: “Tenho. Tenho vergonha de que me chamem mentiroso.”)
Nuvens de poeira ergueram-se à sua frente e à sua direita.
(Passara quase todo o dia a beber, e, quando o Gonçalves o aconselhara a deitar-se para estar em boas condições de madrugada, porque iriam sair para o mato, disse que preferia aproveitar umas duas ou três horas mais de vida.)
Resistiu ao primeiro impacto de bala, cambaleando.
(À noite, na messe, lera várias vezes o poema de Carlos Drummond de Andrade “E agora, José?” Tentara mesmo que alguém o ouvisse, mas a sua insistência de bêbedo só resultou com o Melo e o Gonçalves. No final, com um ar alheado de ter estado com pouca atenção, o Melo dissera: “Isso nem sequer rima.” Respondera-lhe: “És uma besta!” Mas o Gonçalves mostrara-se admirado com o poema: “Nem sequer dei por isso” e pedira que o lesse outra vez. O Melo fora buscar mais uma cerveja e não voltara à mesa.)
Parecia equilibrar o corpo como se lutasse contra um vento ciclónico.

DANIEL DE SÁ

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(Ficara sozinho na messe, escrevendo um poema. O Gonçalves, que fora o último a ir deitar-se antes dele, riu-se da sua intenção. “Estás mas é doido. Nunca te vi fazer poesia. Anda mas é para a cama curar essa bebedeira, que amanhã há turras para o almoço.”)
Deu a impressão de que só se deixou cair quando teve a certeza de que estava morto.
(Quando o Gonçalves se despediu dele, não respondeu com o seu habitual “até amanhã, se Deus quiser”, mas com os versos de Manuel Alegre: “Amanhã é o dia em que se enterra / O soldado que disse até amanhã.” “Que vá longe o teu agoiro, um raio te parta!”, respondera o amigo.)
Encontraram-lhe num bolso o poema que escrevera na véspera. O Melo e o Gonçalves, os primeiros que o leram, choraram, talvez por alguns remorsos próprios também. Tinha rimas suficientes para agradar ao Melo, que não sentiu falta nenhuma delas onde elas faltavam. E foi a vez de o Gonçalves citar Manuel Alegre, quando acabou a leitura: “O meu amigo cantava, dizem que cantava… E no chão ficaram vinte e cinco pedaços de um homem.” Como no poema de Manuel Alegre, também nas veias do furriel Braga os ponteiros do relógio da vida marcavam vinte e cinco anos.
O poema que escrevera tinha como título “A borboleta negra”. Isso explicava a reacção do Braga quando, aos berros e praguejando segundo o velho ritual militar, mandou apagar o rádio em que se ouvia a ária “un bel di vedremo”, da ópera “Madame Butterfly”, de que ele sempre gostara. A pobre japonesa acreditava no regresso do seu amado, que apenas se servira dela como mulher ocasional num porto de passagem. E, se o poema explicava a razão por que o Braga mandara calar uma das suas melodias favoritas, o título da ópera de Puccini explicava o do poema.

E agora, Manuel?
Na ideia a memória
De dez turras mortos,
Pedaços de escória,
Depois de deitados
E bem amarrados
E bem torturados.
No ar o cacimbo,
Na mesa a cerveja,
No riso o cigarro,
Na mão o retrato
E a carta já lida.
E agora, Manuel?
Um dia qualquer
Será o teu dia.
Ficarás deitado,
Virão dois maqueiros
De maca na mão.
Depois quatro amigos
Pegam no caixão.
A salva de tiros
Não te salva, não,
Nem a reza amiga
Do teu capelão.
Serás medalhado,
Chorado e rezado,
Beijado é que não.
E agora, Manuel?

Pretinha chegou
Do meio da mata.
Trazia na mão,
Na esquerda, uma lata.
A outra vazia.
A lata vazia,
Barriga vazia,
Fome de três dias.
Não falou, só disse,
De boca fechada.
Não chorou, só disse,
A cara molhada
Do suor dos olhos,
Que negra não chora,
Que em negro não dói.
Manuel, e agora?
Agarra na lata,
Põe restos do rancho,
Bocados de pão.
Segue-a para a mata
E deita-a no chão.
Preta agradecida
Não nega ao soldado
Tão bem educado.
Só quer que despache
P’ra comer seu pão.
E agora, Manuel?

Pretinha voltou.
Senhor furriel,
Quando vai embora?
Será muito em breve.
Negra não chorou,
Só suor suou
Nos olhos cansados.
A preta voltou
Ao meio da mata.
A preta deitou
Ao lado da lata.
Suas mãos vazias,
A boca vazia,
Barriga vazia,
Fome de três dias.
Despacha, soldado.
E agora, Manuel?

Pretinha voltou.
Só suor nos olhos.
Não trazia lata
Que a fome era pouca,
Comera há dois dias.
A lata, pretinha?
Ela não traz lata,
Não deita no chão,
Hoje, não, patrão.
Nunca mais me deito
No meio do chão.
Nem dou o meu peito
Para apalpação.
Você vai embora,
Depois quem dá pão
Ao filho da gente?
E agora, Manuel?

Não sabe, não sente,
Senhor furriel?
Não sentiu seu corpo
Doendo no chão?
Sua pele fina
Cedendo ao puxão?
Não viu que a menina
Tinha doze anos
Pelo Sol contados?
É turra, a menina,
Para estar deitada,
Deitada no chão?
Machucou seu corpo,
Que negro tem corpo
Só alma é que não.
Por isso nos olhos
Lhe vê só suor,
Não sabe mais nada.
Quere-a deitada?
E agora, Manuel?

Relembra a menina,
Suor de cansada
Nos olhos somente,
Ao lado da lata
Que nunca se encheu.
Encheu-se a barriga.
Cresceu a barriga
Do meio do chão.
E agora, Manuel?
Manuel, e depois?
Agora a menina
Tem fome de dois.
Ai Manuel, e agora?

A pobre menina
É carta já lida,
Cerveja bebida.
A carta rasgou,
A sede passou,
A mata calou,
A negra suou
Nos olhos cansados.
Remorsos dos mortos
Tão bem torturados?
São negros, não sentem.
São negros, merecem.
E então já Manuel,
Que não tem remorsos
Das mortes que fez,
Já sente remorsos,
Remorsos da vida,
Da vida que fez.
Quer fugir de si,
Não tem para onde.
E agora, Manuel?

O tal qualquer dia
É já amanhã.
Rezaram por ti,
Choraram por ti,
Que és branco e mereces.
Não valeu de nada.
É a tua vez
De deitar no chão,
Deitado de vez.
Vêm dois maqueiros
De maca na mão.
Depois quatro amigos
Pegam no caixão.
A mata, calada.
A preta, suada.

DANIEL DE SÁ

14 thoughts on “CENAS DA GUERRA COLONIAL”

  1. Valupi, eu também não gosto desta história. Porque negrinhas daquelas houve milhares, e, alguns dias depois de ter escrito o poema, li num jornal memórias de um furriel miliciano narrando uma cena muito semelhante à dos dez “turras”, passada na Guiné. Com a diferença de que eram quinze…

  2. Está tudo bem com a história, Daniel, e ainda bem que a contaste. Até me descobri ligado à realidade na origem da inspiração poética – mérito da tua escrita.

    Do que eu não gostei apenas remete para mim. Para o meu gosto. Ou seja, eu não teria tratado o assunto com a mesma estética.

  3. Um xatoo é um chato, é um chato, é um chato. E a Guerra do Ultramar nunca existiu. Nem sequer existiu Ultramar. Portanto, muito menos negrinhas violadas ou pretos torturados.
    Meu caro RVN
    Fui visitar o teu blog, tentei deixar lá recado, mas volatilizou-se, não sei como. Tentarei de novo a uma hora menos tardia.

  4. ” Podes vir quando quiseres / cá estarei para te ouvir / o que tenho para fazer / posso fazer a seguir ” (Rui Veloso/Carlos T. in ‘todo o tempo do mundo’)

    estamos conversados.

    rvn

  5. Natália Correia disse ” A poesia é para se comer”. Mas, caro Daniel de Sá, há beiços demasiado ásperos para a poesia. Perdoe-lhes “que não sabem o que dizem”.
    O meu obrigado por me ter proporcionado um tão belo momento.

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