55 thoughts on “Tavares obrigatório”

  1. O ódio de estimação de um é directamente idêntico à simpatia do outro. O motivo é o mesmo.

    Ainda assim, neste caso, o Valupi acaba por acertar sem querer.

  2. É verdade, tenho gosto em não gostar do que ele pensa. Coisas de puto, eu.

    Mas quando ele pensa bem (ou seja, quando eu concordo), dou o braço a torcer. Ficando, no entanto, o outro sempre livre para o scolarizar na primeira ocasião.

  3. Cada povo ledor tem os analistas que merece; cada blogue os comentários sofríveis de que padece. Tavares nasceu numa manhã escura e por lá tem andado à espera que seja meio-dia e a repetir as ilusões que confunde com factos.

    E eu não li a “portentosa”. Fará se tivesse….

  4. A Zezinha é um caso patologico, ela e o marido aspiravam era ser militantes do PNR, mas como não podem, até porque no seu meio de pessoas BEM, isso seria considerado de mau gosto, ela o a marido, vão tentando lavar a ditadura, sem nunca perderem de vista os cargos que a democracia lhes vai oferecendo….

  5. O artigo é uma estupidez pegada e só tem paralelo com a idioteira da ideia dela.

    Viver em guetos, massacres, trilogia do salazarismo e outros impropérios para se falar de uma mera questão de lojas na Baixa Lisboeta.

    Excelente. Então a parte dos guetos e dos massacres entre guetizados: islâmicos, chinocas e judeus é mesmo de historiador.

    O detalhe que lhe escapa é apenas o CC da Mouraria…

  6. É imbecilidade total. Ele nem precisa de falar em lojas. Basta deixar o jacobinismo à solta e umas pitadas de medievalismo que nem há horários de trabalho ou padrão de lojas no centro de uma cidade.

    Claro que fala assim porque apenas despeja ideologia. E também pode falar assim porque nem se percebe a ideia da Nogueira Pinto.

    Agora a falta de rigor teórico é espantosa. Essa da conflitualidade de comércio levar a massacres e a separação nem ser uma forma de pacificação só pode ter inspiração no neo-trostskismo bushista.

  7. Fica aqui a imbecilidade na íntegra para quem tenha pachorra.

    Claro que para se escrever isto não é preciso ser-se historiador. Basta uma pancada de anti-facismo requentado e o ressabiamento típico de um traumatizado ateu
    ……….
    Salazarinha Nogueira Pinto
    18.09.2007, Rui Tavares

    Em primeiro lugar, vamos despachar uma falácia. Maria José Nogueira Pinto anunciou que, enquanto comissária não-eleita para a Baixa-Chiado, daria prioridade a expulsar as lojas chinesas da Baixa e concentrá-las numa Chinatown. Há gente que minimiza a questão dizendo que “os chineses não se importam”. Não sei em que dados se baseiam. Mas a pergunta aí passa a ser: o facto de uma comunidade aceitar “guetizar-se” torna a “guetização” desejável? Imaginemos quais seriam as reacções se a comunidade em causa fosse, por exemplo, de muçulmanos. Que tal fazer uma IslamTown em Lisboa? Que diriam as mesmas pessoas que acusam os muçulmanos de não quererem “integrar-se”?
    A questão, acima de tudo, não é se as comunidades “querem” ou “não querem” viver em guetos. A questão é se os lisboetas querem guetos para a sua cidade. Ora, Lisboa já teve uma tradição de guetos. A Mouraria nasceu como gueto a partir de 1147: era o território fora das muralhas para onde os muçulmanos tinham de se dirigir após o pôr-do-Sol. Guetos de judeus foram dois: a “judiaria grande” e a “judiaria pequena”, que serviam para impedir que uma comunidade dinâmica e especializada comprasse boas casas (e boas lojas…) fora das fronteiras permitidas. A coisa acabou muito mal: foi por aquelas ruas que, em 1506, lisboetas cristãos massacraram seis mil dos seus
    concidadãos.

    A leviandade com que Maria José Nogueira Pinto fala destas coisas é
    só aparente. Levianos são os que tratam o assunto como meras “provocações” da “Zezinha”. Por detrás está uma estratégia política e não é por acaso que ela já voltou a subir a parada. Numa entrevista ao último Expresso, declarou enfaticamente o seu voto em Salazar no concurso dos Grandes Portugueses – “claro!” -, derretendo-se em elogios ao ditador que “sabia mandar”, cumpriu “os objectivos que tinha” e “preservou aquilo que queria preservar”, para rematar afirmando aos jornalistas a sua paixão pela trilogia da ditadura. “Pode pôr: Deus, Pátria, Família”.
    Para quem ainda ache que isto é só um acaso, lembre-se que Nogueira Pinto deixou como vereadora da Câmara de Lisboa um regulamento de bairro municipal a que os imigrantes estavam impedidos de concorrer. Porquê? Porque, como disse então Nogueira Pinto, “isto não é uma fruteira onde se possam meter bananas, maçãs e laranjas e dizer que está tudo bem”.
    Maria José Nogueira Pinto tem boa imagem e boa imprensa, o que ajuda a disfarçar o facto de ser a salazarista mais assumida da política portuguesa. O problema é querer levar a imitação do seu ídolo ao ponto de querer mandar sem ter levado as suas ideias a votos.
    A este jogo chama-se “esticar a corda” e o resultado é saber, como diria Salazar, “quem manda”. Maria José Nogueira Pinto quer a Baixa–Chiado para ela e, para começar, marca já as suas fronteiras forçando os limites da indecisão de António Costa. Se ele voltar atrás na decisão de a nomear, Nogueira Pinto fará o papel de vítima a que está acostumada: só no último ano já o desempenhou por três vezes. Se for nomeada, tem António Costa na mão e já deixou claro que ninguém lhe põe limites. Se for nomeada e não apresentar resultados, o que também vem sendo hábito, pode voltar ao seu desempenho na última vereação: arranjar uma desculpa qualquer e saltar fora.
    Já vimos isto antes. É coincidência? Não: é o seu modus operandi. Há método nesta loucura.

  8. O gosto em não gostar pode ser mais salutar que o gosto em aplaudir.

    O critério de embirração precisa de rigor para se justificar.

    Já a aprovação bacoca até dispensa explicar do que gostou.

  9. Por exemplo.

    Por rigor devia fazer auto-crítica porque ele aqui nem teve oportunidade para o jacobinismo ateu.

    Ficou-se pela ficção racista.

    É assim. Conhece-se o melro, tira-se-lhe o retrato. Uns para bater palmas, outros prontos a dar o soco.

    O soco merece-o pela borrada do que escreveu. Comércio comparado a despejo de habitação de uma “minoria”. O resto é palhaçada do “anti-faxismo”.

    Nem tinha nada para dizer. Quem não soubesse do que se tratava ficava na mesma.

  10. Os 6 mil judeus massacrados em Lisboa é que é mais outra boutade espantosa.

    Seis mil. A caberem naquela Lisboa medieval feita New Yorque dos nossos dias.

    E foram massacrados por causa do comércio. Há-de ter sido. A peste e mais a histeria à custa da fuga de uma data deles de Espanha, não vem ao caso.

    Nem vale e pena.Eu não gosto por isto. Porque é um trafulha de um historiador. Manipula os dados, manipula o que for preciso para vender a mensagem.

  11. Só por causa das coisas e para que não me chamem cobarde, até vou assinar.

    Zazie

    (ele sabe quem eu sou).

    Lá se foi o gosto pela cusca do IP.

    Fica para a próxima.

  12. Essa matança dos judeus, que começou no Domingo de Pascoela e se prolongou por mais dois dias, é talvez o episódio mais asqueroso da História de Portugal. Nela tiveram parte muito activa marinheiros estrangeiros cujos barcos estavam fundeados no Tejo. Mas o número de seis mil é provavelmente o dobro do verdadeiro. O que não atenua a monstruosidade do crime. Valha-nos, ao menos, a exemplar justiça que D. Manuel mandou executar, havendo culpados que foram perseguidos durante muitos anos até serem apanhados. Essa justiça foi tão exemplar que mesmo àqueles que nada fizeram (mas D. Manuel entendeu, e bem, que poderiam ter tentado acalmar a populaça enlouquecida) foi confiscada a quinta parte dos seus bens.

  13. Vais ter de entreter com os teus que eu para as vossas parvoeiras é que já dei.

    Amanha-te lá com esta treta deste texto que tanto apreciaste.

  14. Para o Daniel Sá tem um relato coevo no Cocanha que talvez lhe ajude a perceber (ligeiramente melhor) esse tal massacre e quem o cometeu e quem o instigou em que circunstâncias.

    Agora escrever-se num jonal que foram cristãos que mataram 6 mil judeus é que é crime teórico de tal afronta que, só por aí, se vê que espécie de historiador é este senhor.

    Dá vontade de lhe perguntar onde foi buscar esses nºs e com base em que dados medievais da população Lisboeta.

    Porque, o que fica, é a mentira com finalidade retórica bem facciosa, fora do contexto de uma política de comércio para realbilitar a baixa Lisboeta.

    Mas claro, há sempre artistas que preferem as macumbas de professores karambas ao menor rigor e racionalidade informativa.

  15. Quanto ao resto, ao tal “projecto” da MJNP, até bastava perceber de onde vem. Não vem de qualquer salazarismo e muito menos de inspiração medieval em guetos.

    Vem de um “modernismo” de turista. Da Chinatown Londrina e mais de uns bairros populares judaicos (com bons petiscos) de Paris.

    Claro que isto nada tem a ver com racismos e muito menos com guetos onde se enclausariam os emigrantes.
    A ideia dela é taralhoca, mas este historiador ainda é mais.

    Isto não foi uma ideia de urbanismo de habitação, mas uma tentativa de resolver um problema real que é a desqualificação do comércio de um centro histórico de uma capital.

    E aí sim, é que esta´mal formulado. Porque, a instaurarem-se padrões de comércio, nem era preciso falar apenas dessas lojas de quinquilharia chinocas. Era de todas, e das nossas que também já lá estão.

    O VPV escreveu sobre o assunto. Ainda que também não subscreva tudo o que disse, pelo menos escreveu sobre o assunto. Não fez uma novela de emigrantes com pitadas de anti-faxismo requentado.

    E calinadas históricas gigantescas.

    (mesmo acerca das políticas de pacificação de convívio entre gente com culturas diferentes, hoje em dia não está provado que a mistura seja melhor.
    Antes pelo contrário. Há estudos que explicam que é no convívio mais demarcado que os conflitos se atenuam.

    Em grande escala dá para perceber. Segundo o Tavares, a exportação da democracia à força, na política intervencionalista neo-con, até seria óptima. Não é segregacionista.

    Vê-se o resultado.

    Mas é claro que, para se entrar por aqui, tem de se cair na mesma bestialidade dele. Transformar as lojas em urbanismo e o urbanismo em xenofobias.

    O FV aprecia porque a destrambelhada sou eu. Não é ele nem este historiador.

  16. A zazie, com a sua costumeira pertinácia para a descasca na esquerdalha arrivista, já compôs o ramalhete. Para mim, resta dizer que o Rui Tavares confirma com este texto tudo o que de pior lhe aponto: total desrespeito pela verdade, cegueira pseudo-ideológica e inteligência asinina.

    Repare-se, o Tavares escreve: «Há gente que minimiza a questão dizendo que “os chineses não se importam”. Não sei em que dados se baseiam.»

    Concluímos desta passagem que o Tavares não sabe quem é Choi Man Hin, não sabe que é presidente da Associação de Comerciantes e Industriais Luso-Chineses, e não sabe o que o senhor disse a respeito.

    Mas o mais grave, o escabroso – porque é uma lição de desonestidade intelectual -, está no sofisma que postula ser uma “chinatown”, na Lisboa de 2007, o equivalente político, sociológico e moral de um gueto. Todo o texto se apoia neste vómito esguichado da sua cabeça.

    Como é que pessoas com responsabilidades mediáticas em órgãos de referência se permitem tamanha má-fé? Não sei, mas nunca lhes emprestaria um martelo sob pena de ser de imediato agredido com ele. O que eu sei é que o seu “modus faciendi” revela um “modus vivendi” que odeia a Cidade. Ir buscar Salazar e os acontecimentos de 1506 a propósito de uma legítima tentativa de solução de um problema económico, e só económico, é aviltante. Se alguém no Público lhe anda a ler o lixo, era mais do que razão para o despachar. Porque este lunático nem sequer compreende como ofende todos as vítimas que citou apenas para encher papel.

    Salva-se, no entanto, uma boa ideia: islamtown. Embora idiota – a China ainda não é uma religião, apesar de tudo -, tem o mérito de fazer sentido. De facto, do que nós precisamos é de um local onde nos possamos encontrar com aqueles que desconhecemos. O comércio permite esse encontro, desde os primórdios da humanidade. Mas o historiador Tavares deve também ignorar esse fenómeno, pois o seu nojo ao capitalismo é-lhe mais querido do que a sanidade mental ou ética.

  17. Há um detalhe que eu, ainda assim, considero proveitoso.

    Quando ele alterna com a Helena Matos num jogo de espelhos de má-fé e histerismo manipulador, pelo menos ambos servem como testemunho arqueológico da “intelectualidade” que Abril pariu.

    Ele tinha dado um excelente maoista no tempo dela; tal como ela tinha dado uma excelente esquerdalha de causas fracurantes se não fosse o problema da reciclagem no tempo.

    Mas, pelo menos, lendo-os toma-se o pulso à mediocridade sem escrúpulos que vai parar aos jornais e percebe-se o motivo do agenciamento.

    Claro que, em ambos os casos, a História ou o Jornalismo foram apenas acidentes de precurso.

  18. Zazie
    Confesso que não percebi o alcance da sua farpa. Dá a impressão de que imagina que eu não sei do caso mais do que escrevi. Para que me recomenda a Cocanha, se eu tenho o que a esse respeito escreveu Damião de Góis? No entanto, aproveito para acrescentar mais um erro do Tavares, que um “historiador” não deveria cometer. A maior parte das vítimas dessa catástrofe eram cristãos-novos, que não viviam, portanto, nos guetos que ele invoca.
    Por outro lado, parece que a Zazie lhe repugna dizer que foram cristãos que massacraram esse judeus. Alguns entre os marinheiros estrangeiros não o seriam, mas a iniciativa foi de um frade louco que acabou na forca. Tudo isso justificaria um longo comentário, o que não é próprio destas “caixas” em que a síntese se aconselha. Para coice por causa de me exceder já basta o que levei.

  19. Daniel,

    estou sem tempo e não vou perder o que me resta a responder a julgamentos de carácter feitos a la minute como esse do “à zazie que repugna dizer que foram cristãos que massacraram judeus”.

    Isso é ver-se ao espelho em qualquer outra pancada que não é da minha responsabilidade.

    Mas também não me importo e não sou sua maezinha.

    Cada vez ando mais cool com pancadas de analfabetos.

    Fica aqui apenas o link com uma fonte que publiquei no Cocanha. De resto ha´estudos de censos da população lisboeta na altura mas creio que também não é isso que lhe interessa.

    http://cocanha.blogspot.com/2006/04/matana-dos-judeos-em-lisboa.html#comments
    …………

    Uma nota: não acredite em tudo o que lê nos jornais. Escreveram-se autênticas barbaridades por causa da palhaçada das manif das 4 mil velas.

    Algumas de tal modo graves que até custa a crer de onde vieram. A da Inquisição, por exemplo, pelo Francisco José Viegas.

    O resto foi o folclore do politicamente correcto com imbecilidades de diabolização de palavras que estão perfeitamente desactivadas e nada têm a ver com provocações xenófobas.

    Mas há quem sonhe com elas. Ò se sonham. Não conseguem viver sem o alimento. O que eles não davam por uma porrada xenófoba em pleno Rossio dos nossos dias, por causa de ex-militante do PP.

    Até a pagavam, se pudessem fazê-lo sem dar muito nas vistas.

    Era desta que se tinha de voltar à resistência armada contra o fascismo.

  20. Para se corrigir os Tavares, ainda assim é preciso um bocadinho de conhecimento histórico.

    Caso não saiba, os “cristãos-novos” continuaram a viver onde viviam desde sempre e toda a gente sabia que eram judeus. Incluindo os próprios. Áté continuaram a entrar nas festas citadinas em justas e danças pagas pela coroa.

    Quando dava muito nas vistas a transformação desse folclore com marranos, preferia-se ir buscar os pretos ou os canarinos para se mascararem de judeus e mouros.

    De qualquer forma, o pouco que se sabe desse massacre (dos mais brandos comparado com outros bem anteriores, em França ou em Espanha) já para não falar nas razias reformistas; prende-se com a expulsão de Espanha e a vinda de muita vagabundagem à mistura. Nem eram propriamente antigos habitantes lisboetas. Depois houve a peste, o poder fora, em fuga da peste, uma situação de semo-vazio legal, muita marinhagem no cais a aproveitar o saque e, é claro, os dominicanos que já andavam a instruir essa perseguição ainda que antes, apenas teórica.

    o que se seguiu também dá para ver como os ajustes de contas aos que sacavam os impostos ao povo não foram apenas “xenofobia” moderna. E também dá para ver que o D. Manuel repôs a ordem com toda a brutalidade necessária porque viu que era o poder e a ordem que tinham caído na rua.
    ………

    Qualquer semelhança desta história com o comércio lisboeta não sei se é prova do meu pretenso anti-semitismo, como vs. quis dizer, se de algo bem mais descaradamente desavergonhado na comparação.

    Não sei. Mas isso é coisa que fica ao v. critério que v.s é que costumam ser os moralistas sociais desta treta de fobias da moda.

  21. Ó Zazie, mas quem é que a julgou anti-semita? Eu até fiquei com a ideia contrária. Do que eu escrevi, só depois reparei que cometera um erro. Falei num frade, e foram dois; falei em forca, e foi fogueira.
    Claro que não vamos fazer uma sabatina acerca do tema nem da Inquisição. Pode crer que conheço o assunto bem. Nem vou divagar sobre as razões da expulsão dos judeus de Espanha nem da dificuldade que tiveram em fixar-se em Portugal. (O que mete muitos mais culpados do que é normal pensar-se. Entre eles – e isto custa-me a dizer, porque aprecio muito o povo judeu – os próprios judeus já cá instalados.)
    Quanto a acreditar em jornais, nada do que eu disse foi baseado em artigos de jornal.
    Desculpe se dei a entender que a julguei mal. Foi pressa de tentar ser sintético, porque estou com esta cisma da brevidade metida na cabeça.

  22. Tem razão, Daniel.

    Já depois de ter escrito reparei que tinha sido ursa e exagerado consigo.

    Até voltei cá a pensar em dizê-lo e pedir-lhe desculpa.

    Sou uma tonta apressada e um tanto brutinha.

    Ainda por cima estava noutro debate ao mesmo tempo e a porrada era para lá, não era para si.

    Sorry. Mas ficou o link. Claro que tenho fama de ser anti-semita e todas as restantes fobias da moda.

    E da fama já não me livro. Mas é assim, também não vou fazer vontade a ninguém com coisas de palavras.

    E o massacre não foi brincadeira nenhuma, claro. O clima de confronto já andava no ar e é uma verdade inegável que foram os dominicanos os principais a instigar. De qualquer forma, uma coisa também é certa. Mais tarde a Inquisição entra e é a pedido da coroa. Não há envio do Papa para nada disso.

    Ou seja, nestas coisas é preciso estudar-se. Não basta arranjar um nome e arrumar tudo.

    Agora uma coisa é certa: 6 mil mortos é mentira que descredibiliza qualquer um, quanto mais um historiador que nunca apresentou a menor fonte sempre que fala destas coisas.

    Eu não me atrevia a escrever sobre o assunto e até lido mais com essa área. Mas não me atrevia sem ter investigação séria e profunda.

    Neste caso, a minha dama até anda mais perto da do FV. Ele importa-se com a língua e com rigores teóricos a esse propósito. Eu importo-me com estes.

    E nunca desculparei qualquer académico por manipular dados para vender uma mensagem política.

    Isto dito assim parece romantismo descabelado mas é mesmo. Há limites para tudo e sem isenção não há crédito para alguém invocar um saber específico.
    ………

    O problema destas crónicas é que nem são carne nem peixe. Ele podia ter largado o manifesto anti-MJNP numa crónica e guardado o tema da xenobia e do racismo para outra que ainda ficava livre para escrever sobre a questão do comércio na Baixa.

    Mas, tal como a HM, prefere a caldibana da mistura, transforma sempre tudo numa fábula e, pelo meio, larga umas pitadas de suposta informação histórica que até é mentira.

    È só para justificar o título da assinatura. No caso da HM, é pena nunca ter conseguido encontrar um saber específico para abrilhantar a “jornalista”.

  23. «Guetos de judeus foram dois: a “judiaria grande” e a “judiaria pequena”, que serviam para impedir que uma comunidade dinâmica e especializada comprasse boas casas (e boas lojas…) fora das fronteiras permitidas. A coisa acabou muito mal: foi por aquelas ruas que, em 1506, lisboetas cristãos massacraram seis mil dos seus concidadãos.»

    Se as pessoas lessem o trecho em causa, que é rigoroso, havia menos razão para erro (para insultos há sempre razões, que definem o temperamento de cada um, e às quais não vou responder).

    Não eram cristãos os perpretadores? Pelo menos, foi com essa justificação e identificação que agiram, saindo a partir da Igreja de São Domingos, depois de um sermão de dois frades dominicanos.

    Não eram judeus as vítimas? Mas não é isso que eu digo. Eu digo que foi pelas ruas da antiga judiaria que foram massacrados. Não lhes chamo cristãos-novos ou velhos, marranos ou judeus. Chamo-lhes apenas “concidadãos”. Sei bem que depois de 1496 não havia judeus “oficiais” no reino.

    Não foram 6000 os mortos? É o número que dá Garcia de Resende. Damião de Góis dá menos, mas não é coevo.

    As judiarias não tinham objectivos imobiliários? Claro que tinham. Eles eram essenciais à própria ideia. Era um objectivo central que os judeus não pudessem comprar casas e lojas fora da judiaria, e após a “conversão” de 1496 este foi sempre um dos grandes motivos de tensão entres “cristãos velhos e novos”. Facto conhecido e referido pelos especialistas do tema.

  24. Obrigado, Zazie, por esta explicação. É que eu começava a duvidar da minha capacidade de expressão. Tanto mais que me deu sinceramente a impressão de que a Zazie lamentava seriamente a barbaridade, o que alguém anti-semita não faria. As várias fontes que conheço sobre o número de assassinados apontam para algo entre os 2500 e os 3000. E, quanto à Inquisição, a Zazie chama a atenção para um “pormenor” em que muitos não pensam, mesmo que “histriadores”. Clemente VII negou a D. João III o Santo Ofício, e Paulo III resistiu o mais que pôde. E um e outro pelas mesmas razões: temiam o zelo grosseiro do “Piedoso”. Aliás, o papado chegou a excomungar os inquisidores de Toledo e a repreender seriamente os portugueses, devido a abusos.
    Foi pena D. Manuel ter manchado a sua boa imagem pela justiça feita em 1506 com comportamentos absolutamente horrorosos depois.

  25. Olha que engraçado!

    Bem, eu também já fiz lapsos, não é bom, mas ninguém está imune. Só quem não escreve nada, e o não é redundância.

    Vejam lá o que fazem, senão vou buscar romanos ali à mata e não garanto ter poção pronta na hora…

  26. É sempre depois de “publicado” que se notam os erros cometidos… Nos comportamentos de D. Manuel eu devia obviamente ter dito “antes e depois”.
    Quanto ao número dado por Garcia de Resende, talvez os contemporâneos não sejam mais correctos do que os que vieram não muito mais tarde. Mas, de qualquer modo, o número pouco importa quando os “pogromistas” mataram quantos puderam, pelo que, se mais tivessem podido matar, mais matariam.

  27. O Resende fala em 4 mil mas o texto mais próximo do acontecimento é do Gaspar Correia, que até conta a história de maneira diferente não adiantando números.

    Os estudos com base em censos falam na hipótese entre 2 mil a 4 mil; 6 mil é uma ficção inviável e, mesmo assim, nesses mortos não está apenas a tal característica população lisboeta de marranos de guetos.

    A chegada a Lisboa dos refugiados de Espanha há-de ter aumentado muito o número.

    De todo o modo essa era questão que podia ter pertinência para se falar quando também saíram as barbaridades conhecidas nos jornais, no seguimento do velório proposto pelo Nuno Guerreiro.

    Como é óbvio, nunca ninguém encontrou a explicação para o massacre no comércio dos guetos. E ele até é tão excessivo e sem antecedentes aproximados que só o factor da peste e do poder ausente podem ajudar a compreender alguma coisa.

    No caso da proposta da MJNP não sei se ela também alvitrou deslocação do poder político da capital para Abrantes.

    Apenas tenho acompanhado algumas propostas mais curiosas, como seja a da trasladação do Parlamento para o Panteão, em cinzeiro.

  28. A única questão verdadeiramente importante, em termos teóricos, é a que diz respeito à relação entre católicos e minorias e como é que aparece este massacre.

    E aí é que tudo se altera. E altera ainda mais do que se possa pensar, mesmo depois da expulsão dos judeus e obrigatória conversão.
    Há tamanhas contradições nessas relações que é absolutamente impensável querer fazer paralelo com algo idêntico aos nossos dias.

    Não se pode dar este salto da Idade Média para o século XXI, apenas usando o vocabulário dos estigmas das xenofobias e racismos.

    São mundos distintos. De tal modo que até se encontram permanências de bom convívio a par de hostilidades e denúncias, e essas é que só aparecem com a Inquisição.
    Um dos erros mais graves que andou pelos media foi ter-se dito que este massacre foi produto da Inquisição. Não existia qualquer Inquisição na altura.

    Pela minha parte até tenho encontrado outras surpresas bem mais pertinentes, nesta duplicidade entre o que é oficial e o que permanece nas margens, com tradições que se mantêm.

    Incluindo nesses guetos que eram locais de convívio entre artífices, muito antes de serem locais de qualquer exclusão deliberada por parte do poder.

    Aliás, é aqui que reside o grande calcanhar de Aquiles de propostas de raiz e criação de “chinatowns” por decreto. Todas elas foram criadas naturalmente pelos próprios.

    E é claro que a questão do comércio de Lisboa, mais uma vez, nem vem ao caso.

    O que até vinha ao caso era outra questão. As rendas das casas da Baixa, a desertificação e os preços de pechincha nos trepasses.
    O problema é circular. Se não é loja de 300 é banco. A descaracterização já existe e travá-la há-de ser obra que nem com mando absoluto se vai conseguir.
    A última loja que fechou foi a Loja das Meias. Não vamos ter outra nos próximos tempos.

    E é bem pertinente resistir à descaracterização. Abrir mão disso é abdicar do gosto pelo espaço onde se vive.

    Tinhmos muito a aprender com o Norte da Europa que tanto se cita para outras coisas e se esquece para as mais simples.

    O urbanismo há-de ser tema vital no convívio possível com os graves problemas decorrentes do excesso de imigração. E aqui os chineses são os mais inofensivos. O problema que acarretam é apenas essa concorrência de comércio de loja de 300.

  29. Pois é, afinal acabámos por ficar de acordo no essencial. E refiro-me à Zazie, ao Rui Tavares e a mim mesmo. Cometemos erros pela pressa de escrever (decerto por razões semelhantes: outras coisas para fazer), mas não vejo já pontos de desacordo importantes. Só me faltou corrigir algo que agora, fazendo a releitura geral da discussão, notei. Eu deveria ter dito que muitos dos assassinados já não viviam em guetos, e não falar como se já nenhuns houvesse lá. Nisto parece que a Zizie concorda comigo, e o Rui Tavares não. Mas a minha conclusão parte do interesse de D. João II e de D. Manuel, bem como dos próprios judeus, em que estes não parecessem ser o que de facto eram. Posso estar errado, mas o Rui exagera ao confinar à judiaria as perseguições. E talvez a Zazie exagere também ao dizer que as judiarias foram criação livre ou espontânea dos judeus. Então por que razão havia “recolher obrigatório” e portas das judiarias fechadas durante a noite? Mas gostei da conversa.

  30. Eu não disse que foram criação livre e espontânea. Porque nem começaram assim. Quando foram guetos nem houve problema, porque esse até é o período de convívio pacífico (de acordo com o sentido de pacífico para época). Pouco tempo antes do motim ainda eram todos os judeus convidados por D. João II para as festas do casamento do filho com a princesa espanhola. Com toda a estadia paga, fatos para bailarinas e gigantesco banteque oferecido pela cidade de Évora. E era assim em todo o lado. Judeus e mouros estavam integrados precisamente com essas demarcações de território.

    As próprias sinagogas eram uma forma de lhes permitir um culto privado, não uma “guetização” no sentido em que o texto quer empregar e que é uma adulteração moderna.

    Eu apenas falei na criação “natural” das ditas “chinatowns”. E aqui estava a pensar na inspiração da MJNP nos bairros étnicos europeus. Em Londres, por exemplo, não é só a Chinatown, também existe Camden Town que tem essa função de comércio alternativo e, ao mesmo tempo, turístico.

    O próprio Eduardo Nogueira Pinto, quando foi o atentado no metro Londrino, a primeira ideia que lhe ocorreu foi lembrar-se de Berwick street. O que faz todo o sentido.
    Deu-me ideia que seria mais este o modelo que a mãe tinha na mente e que nada tem a ver com ditadura e papões do “faxismo”. Sendo que mesmo aí existe um preconceito que comete mais outro erro teórico: o salazarismo foi lusófono, não foi xenófobo.

    Mas fiquemos por aqui. A única questão que penso que deveria ser feita era um acrescento no Jornal, com a correcção dos números.

    Corrigir o blogue não tem significado proporcional.

  31. Mas, ficando apenas pela mera intromissão medieval e nem indo ao descabido da sua extrapolação para o presente, também há outro erro na formulação dos ditos conflitos que levariam ao massacre da Pascoela. Não é possível atribuir um massacre daquela ordem (mesmo ficando por 2 mil vítimas) como culminar de desgaste de confrontos que se explicariam por rivalidades imobiliárias. Se assim fosse tinham existido muitíssimos mais e muito antes. E apenas existem referências a conflitos menores sem qualquer paralelo com este.
    Foi daqui, deste erro histórico que se partiu para a analogia com uma ficção contemporânea e nessa nem vou tocar, porque já disse tudo o que tinha a dizer. Mas aí a História nem vem ao caso.

  32. Quanto à questão de não existirem judiarias porque era proibido ser-se judeu é mais um problema de palavras.

    Não existiam como judiarias com sinagogas e culto livre porque era proibido ser-se judeu. Mas é claro que as ruas não mudaram de sítio e os que ficaram, passe a lapalissada, foram os que não foram expulsos.

    Na altura, a grande barbaridade foi mesmo a obrigação ao culto católico. Que era semi-cumprido com prática do judaismo às escondidas e gosto de achincalhamento do catolicismo obrigatório. Esse achincalhamento até era bem mais antigo e recíproco, mas depois tornou-se reacção provocatória por parte da minoria. Foi daqui que o mal estar se desenvolveu, pelo menos em termos de fundo religiosos e não apenas entre elites ou vinganças por impostos contra os marranos de elite.

    Para se entender a longevidade desse trauma há textos e estudos com testemunhos ainda recentes dos judeus de Belmonte.

    Sendo que acerca destes nem há prova que sejam descendentes de medievais.
    De resto, todos os textos confirmam que houve um grave problema de marginalidade com judeus que nem eram portugueses e muito menos Lisboetas tradicionais- é o tal clima dos refugiados mal recebidos pelos que cá estavam e segregados pelos próprios. Questão que até se torna comum, sendo posteoriormente muitos marranos os próprios denunciantes.

  33. Há um outro aspecto onde o texto do Tavares me é abominável. É na parte em que vai respigar as declarações da Maria ao Expresso. Nelas, lêem-se umas banalidades, sem qualquer relevância. No entanto, o fanático historiador vê ocasião de purga por causa da charla ter terminado com chiste: “Deus, Pátria, Família”.

    Esta fórmula aparece-lhe como a manifestação de uma “estratégia política” que, no mínimo, estaria destinada a provocar outros 6.000 mortos. Por isso a denuncia no texto, por isso nos lembra de massacres de malvados da mesma cor (no seu daltonismo sem remissão), salazares de quinhentos com as mãos a escorrer sangue. Para lá da imbecilidade de quem assim se expõe na sua miséria intelectual, vejo nisto também uma estratégia outra – e esta sim – de anulação de um qualquer debate sobre o salazarismo que se pretenda democrático. Para esta gentalha, só se pode falar do Estado Novo a partir do ponto de vista moral de Nuremberga.

    É um péssimo serviço prestado à Nação, causa também do seu subdesenvolvimento. Porque precisamos de entrar cientificamente na História de Portugal no século XX, e estes censores continuam a fogachar ódio sempre que alguém se apresenta diferente no acesso a essa temática.

  34. Já que se insiste então vamos à síntese:

    1- Invoca-se um suposto racismo e xenofobia ao dizer-se que se vai descriminalizar chinocas em guetos.

    2- Para isso faz-se uma comparação absolutamente desastrosa com os guetos medievais

    2.a) Nessa comparação deduz-se um perigo de racismo e confrontos étnicos com base nas judiarias do século XI- que foram o melhor exemplo da possibilidade de convívio pacífico entre religiões e raças diferentes (incluindo o bom entendimento entre judeus e mouros, que viviam essencialmente em bairros de artesãos)

    2. b) Esse bom entendimento é deturpado apenas à custa de uma semântica errónea da moda: a palavra gueto.

    3. Ainda se consegue outro erro, ao ligar as judiarias medievais a um massacre depois de as judiarias de gueto até terem acabado (uma vez que os judeus foram convertidos ao catolicismo e o gueto só ficou por tradição dessa alteração ser recente na altura.

    4- Passa-se por cima de um real problema de motim e mortandade, quando a miscigenação até foi obrigatória e uma das causas, para além da principal- a peste, até foi um excesso de imigrantes não integrados em guetos que já nem tinham essa forma com portas fechadas e separação racial ou religiosa (apenas a mantinham por natural permanência no mesmo local)

    5- Daqui consegue-se fazer a pirueta para outro racismo xenófobo da ditadura salazarista com mais um erro teórico- o salazarismo foi lusófono

    6- E depois vende-se a mensagem básica de bestunto ideológico e desconhecimento de tudo: a MJNP é uma facista; o facismo anda a levantar a cabeça- quer criar um gueto em Lisboa por ser racista, só falta agora mais outro gueto de descriminalização social para os muçulmanos (possivelmente por serem potenciais terroristas).

    E foi este um portentoso texto aplaudido aqui como reflexão acerca da reabilitação do comércio da Baixa. Pergunto-me se alguém que desconhecesse o tema dava conta dele.

  35. De tudo isto apenas foi reconhecido o erro dos 6 mil mortos para o qual não existe qualquer fonte.

    Muito sinceramente espero que venha a correcção na próxima crónica.
    Pelo menos deste ponto- mais era dizer que o texto estava todo errado.

    E digo que deve ser corrigido com toda a naturalidade, porque a blogosfera também serve para isto.

    Já aconteceu um debate idêntico com o Carlos Lima da Grande Lona do Queijo Limiano, onde se detectou outro erro em texto de jornal.
    Ele perdeu uma tarde em debate, raciocinou, depois foi pesquisar, chegou à mesma conclusão que nós- que tinha escrito um erro e corrigiu-o na crónica seguinte.

  36. Quanto ao resto, o dos censores do salazarismo até nem me preocupo.

    Vou ser mais cínica. Ainda bem que o Tavares até se dedica apenas ao Marquês e ao anti-fascismo actual.

    Mal seria se, por azar da natureza, tivesse querido ser medievalista e alcançado cargo na conservação do Património.

    É que aí não havia foral com mouro degolado que escapasse. As massas populares teriam todo o direito de retirar estas afrontas xenófobas quando o quisessem- assim o explicou uma vez nos barnabés.

    Ia dar num novo Afonso Costa; agora sob o manto diáfano do multiculturalismo.

  37. Pois é, Valupi, também nos damos mal, mas o espírito críico faz muito melhor à saúde que as palminhas que se escapam como cão por vinha vindimada.

  38. Valupi,

    Não sei quem se dá mal. As «palminhas que se escapam» é que devem (bom, podem) ser as minhas.

    Mas a Zazie deu aqui um belíssimo espectáculo. Acho que as palminhas têm de voltar ao sítio. Pelo caminho feito na vinha vindimada.

  39. Pois, Fernando e zazie, eu também não sei quem é que se dá mal.

    Quanto às palminhas, todas para a zazie – conteúdo e forma.

  40. concordo que se deve poder falar do Estado Novo e do salazarismo sem preconceitos, mas não sem conceitos

    Não concordo que se diga que o salazarismo era lusófono, a não ser num sentido muito estreito do termo: ‘o orgulhosamente sós’ e o defender Goa até ao último homem.

    O meu conceito de lusofonia é de ordem mais integrativa

    Entre 4000 e 6000 não há erro de ordem de grandeza, embora eu também não goste que se exagere nos números, além de que se volta sempre contra o autor

  41. O Massacre de Lisboa de 1506 ficou como que apagado da memória colectiva, um pedaço de vergonha esquecida que não está nos livros de História, caiu no esquecimento e são poucos os historiadores que lhe fazem referência. O horror e a violência foram descritos e reproduzidos por Damião de Góis, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Garcia de Resende, Salomon Ibn Verga e Samuel Usque.

    Damião de Góis in «Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória»:

    «No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, …tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. …tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.»

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