Os livros nas prateleiras do IKEA

Uma recente e dolorosa experiência em Alfragide nos Armazéns IKEA, durante um dia que parecia nunca mais acabar, levou-me a ver aquela coisa das prateleiras das mobílias em exposição com outros olhos. Há dezenas de prateleiras em dezenas de móveis de cozinha, de sala de estar e de quarto, prateleiras povoadas por livros a sério. Livros verdadeiros. São centenas e centenas de livros escritos em sueco, editados em sueco e de escritores suecos mas não só. Por exemplo há livros de Vidiadhar Surajprasad Naipaul que não é sueco (nasceu em Trindade e Tobago em 1932), mas tens livros seus traduzidos em sueco. E alguns deles estão no IKEA de Alfragide.

Mas a comunicação é impossível. Ninguém lê V. S. Naipaul em sueco no nosso país. Ninguém lê os romancistas suecos que escrevem livros em sueco comprados pelo IKEA para povoar as prateleiras das mobílias de cozinha, de sala de estar e de quarto. Aí é que bate o ponto. Livros suecos em Portugal nas prateleiras do IKEA não foram, não são nem serão nunca lidos por ninguém. Se o efeito era apenas fazer sombra nas prateleiras, não era preciso ser com livros verdadeiros, porque o efeito será o mesmo seja o livro a sério ou seja a fingir. E assim há muita gente na Suécia que não lê esses livros.

A mulher do António Alçada Baptista tinha o hábito de responder quando ele lhe perguntava o que devia fazer a uma coisa fora de uso, como por exemplo uma lista telefónica, «Dê isso a um pobre!». Mas o problema é que não podemos aplicar esse exemplo ao caso do IKEA. De maneira nenhuma. Na Suécia não há pobres.

José do Carmo Francisco

18 thoughts on “Os livros nas prateleiras do IKEA”

  1. A coisa é mais perversa. O mercado é português, porque não fazer publicidade aos livros portugueses. À firma só interessa vender móveis a analfabetos? Não foram ele que “nobellitaram” Saramago?

  2. Também já tinha reparado nessa questão.
    O facto de serem livros em sueco deve ter a ver com a compra a baixo custo por palete, para eles é um elemento de decoração e tal como as mesas da Macdonald’s são feitas algures numa fábrica especializada só nisso dos EUA, o mesmo se passa com os livros IKEA – têm uma e só fonte especializada… no preço.

    Mas não acho que tenham bastante a ganhar com a compra à resma dos nossos fundos de catálogo, eles em geral não são em capa dura, como os deles.

    Eles não devem ter valor e direitos sobre eles, deverão ser livros abatidos só que em vez de guilhotina, servem de bibelot.

  3. Elle avait pris ce pli dans son âge enfantin
    De venir dans ma chambre un peu chaque matin;
    Je l’attendais ainsi qu’un rayon qu’on espère;
    Elle entrait, et disait: Bonjour, mon petit père ;
    Prenait ma plume, ouvrait mes livres, s’asseyait
    Sur mon lit, dérangeait mes papiers, et riait,
    Puis soudain s’en allait comme un oiseau qui passe.
    Alors, je reprenais, la tête un peu moins lasse,
    Mon oeuvre interrompue, et, tout en écrivant,
    Parmi mes manuscrits je rencontrais souvent
    Quelque arabesque folle et qu’elle avait tracée,
    Et mainte page blanche entre ses mains froissée
    Où, je ne sais comment, venaient mes plus doux vers.
    Elle aimait Dieu, les fleurs, les astres, les prés verts,
    Et c’était un esprit avant d’être une femme.
    Son regard reflétait la clarté de son âme.
    Elle me consultait sur tout à tous moments.
    Oh! que de soirs d’hiver radieux et charmants
    Passés à raisonner langue, histoire et grammaire,
    Mes quatre enfants groupés sur mes genoux, leur mère
    Tout près, quelques amis causant au coin du feu !
    J’appelais cette vie être content de peu !
    Et dire qu’elle est morte! Hélas! que Dieu m’assiste !
    Je n’étais jamais gai quand je la sentais triste ;
    J’étais morne au milieu du bal le plus joyeux
    Si j’avais, en partant, vu quelque ombre en ses yeux.
    Victor Hugo

  4. Esta transcrição obviamente não era para este “post”.
    Aqui cabia apenas ironizar sobre os livros como elemento decorativo. E, se o mal dos outros não nos serve de bem, ao menos que se nos atenue o desconsolo de saber (conheço casos concretos) que há livros em Português comprados por causa da capa e do seu tipo de material.

  5. Mesmo em suecos, são livros, melhores para a vista, que aqueles pedaços de madeira, com lombadas de papel coladas, para decorar, José Francisco…

  6. Maravilhoso comentário: “Dê isso a um pobre!”. A lista telefónica velha… Ou seja, atire esse lixo para cima dum pobre. Sem que percebesse, santa senhora.Lembram-se do dito Alçada? Baptista? Um senhor com um ar simples, modesto, falando como se trocasse bilhetes bons com Deus? Com humildade, com doçura? Como se Deus fosse resolver tudo, para ser justo com ele? Um camarada simpático, como o Venancio. Gajo fixe, como o Fernando.
    Já agora, uma informação que apanhei por acaso numa viela: os pobres já começaram a matar.
    E não vão ler nunca nem suecos nem santas almas.

  7. Se estes comentários fossem uma amostra representativa do estado de lucidez e faculdades correlativas em Portugal, a coisa estaria preta! (com a excepção do Luís Eme). Desde este fetichismo saloio do livro até à ideologia brigadista daquele que já vê as massas populares a degolar a burguesia, a perturbação campeia. Os livros suecos são em sueco para não serem roubados e, mesmo assim, são-no! Há-de haver aí meninos já com lindas prateleiras suecas em casa, à espera de serem trocadas por psicotrópicos. Dado serem restos invendáveis de stocks editoriais, esses livros saem mais baratos ao IKEA (que é uma empresa que trabalha para o lucro) do que se mandassem fazer uns volumezinhos catitas a imitar (mal) os livros. Só cá em Portugal é que se armazenam monos durante 40 anos, para serem vendidos na 41ª feira do livro ao preço do papel. Depois, os suecos não têm ex-colónias onde despejar generosamente o lixo que não se vende em casa. Tenham juízo!

  8. Há aí uma niki pouco quente que vê brigadistas a andar aqui pelo parque?
    E eu é que sou “sem falo”!…
    A pobre pequena não viu que era ironia, além de ser uma oportunidade de pingar no pedante Alçada mai-la senhora e dar um propinanço no robusto fv?
    Ai a minha vida!

  9. Livros que ninguém lê?
    Para quem trabalha com eles é o habitual. Os livros estão 2 semanas ou três na loja e, se não venderem, são devolvidos à editora. Depois, esse 1000 começam o périplo das feiras um pouco por todo o lado. E, de facto, porque haveria alguém de os ler? Só porque existem? Que desgraça é essa das pessoas não lerem esses livros que não valem nada? O livro é um suporte de informação. Em sueco, português ou guarani, que interessa se não os leêm? Já não há pachorra para a religiosidade do livro. Isso foi no século passado, em que o pouco que se editava, tinha de ser à força relevante. Naipul? Por amor de Deus…

  10. Há alguém aqui com ideias construtivas?
    Será que podemos de alguma forma pensar como aconselhar o IKEA a colocar livros em português? E de preferência, autores Portugueses.
    Pelo que seria bom para aqueles dias em que temos que estar numa fila, mais de meia hora para saber se os móveis que desejamos comprar estão disponíveis.

  11. Tenho pena que sejam incultos!
    A IKEA é uma empresa que vende mobiliário e “dá ideias”, para as pessoas que têm pouco espaço útil em casa,e a possam decorar e organizar da melhor forma.
    Os móveis da IKEA dão áqueles que menos posses tenham a possibilidade de ter móveis úteis, funcionais e baratos com qualidade.
    Em relação aos livros…eles não vendem livros!!!!!
    já agora, se gostam de ler e são amigos do ambiente….leiam PDF’s em vez de gastarem dinheiro em livros que ainda por cima, não são feitos de certeza de papel reciclado.

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