AUTO DO PLÁGIO

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No dia em que o Sporting apanhou três do Gil Vicente, não fiquei lá muito bem disposto. Para me vingar, brinquei a propósito de um poema publicado em dois jornais açorianos. Não haveria nada de mal se esse poema não fosse de António Gonçalves Dias, poeta brasileiro do século XIX, mas assinado por alguém vivo. Apenas apareciam trocados os nomes de “terra” por “ilha” e de “sabiá” por “biguá”, uma pobre ave que nem sobe às árvores nem canta. E palavra de honra que nem sequer me dei conta da ironia: o que eu fiz foi uma imitação, embora mal feita, de Gil Vicente, o de outros dramas… Aqui o deixo.

Observação: o sistema gráfico deste blogue não permite ‘avançar’ os versos quebrados. O leitor o compensará.

Personagens:
Gonçalves Dias;
Anjo da Guarda;
Diabo.
ANJO – Aonde ides tão asinha?
G. D. – Vou ali e volto já.
A – Levais cara muito má…
GD – Mas a culpa não é minha.
A – De quem é, se a cara é vossa,
E tanto vai transtornada?
GD – Meu anjo, não há quem possa,
Ter cara bem figurada
Se nos rouba a canalhada
Uma coisa que é bem nossa
E que custou a ganhar
Ou a fazer…
A – Pois então…
GD – Eu vou ali ensinar
Um descarado ladrão
Que pegou nuns versos meus
E sem vergonha os fez seus.
A – Ensinar um ignorante
É obra bem compensada.
GD – Mas este, que é um tratante,
Ensino-o à bofetada.

DANIEL DE SÁ
.


A – Tende cuidado, que a ira
É muito má conselheira.
DIABO – Vai depressa, vai, atira,
Com pontaria certeira,
Ao focinho do impostor.
A – Não façais caso, senhor
Poeta António Gonçalves.
E se morreis condenado?
D – Que importa que não te salves
Se morreres consolado?
Dou-te boa companhia,
Que nos infernos não falta.
Há lá tanta fidalguia,
Da mais pequena à mais alta.
Há padres, frades e bispos,
Cardeais e arcebispos,
Papas até, podes crer.
GD – Mas com quantas bofetadas,
Gostaria de saber,
Mereço tal companhia?
D – Se forem muito bem dadas,
Com ira e raiva mandadas,
Eu até me atreveria
A dizer duas ou três.
GD – Podes bem contar comigo,
Que, para tão ruim rês,
Eu juro que não consigo
Parar antes de umas trinta
Ou de quarenta talvez.
A – Não deixeis que ele vos minta.
D – Estou dizendo a verdade.
A – Não deixeis que ele vos tente.
GD – Mas não há cristão que aguente
Uma tão grande maldade.
D – Dá-lhe, Dias, dá-lhe forte.
A – Depois, na hora da morte,
Gostareis de ver sentado,
Rindo à vossa cabeceira,
Este maldito enviado
Do inferno mais medonho?
GD – Meu anjo, por vez primeira,
Mais paciência vos peço
Para o empenho em que ponho
Minha ira verdadeira.
Depois, eu juro, confesso
Este pecado e os mais
Em que amiúde tropeço,
Pois sou fraco.
D – Se não vais
Ficas tão enxovalhado
Que dez dias de barrela
Não te deixarão lavado.
A – Por Deus eu vos esconjuro
A ter imensa cautela
E ser mais ajuizado.
GD – Eu afirmo aqui e juro,
Está dito e destinado:
Aquele patife tem
A cara tão descarada
Inteira por tempo pouco.
D – Bem dito!
A – E o vosso bem?
GD – O meu bem é dar-lhe a sova.
A – Bem vejo como estais louco.
Ides condenado à cova.
D – Que este anjo não te iluda.
GA – Eu vou ser é justiceiro.
A – Se assim é, dou uma ajuda,
E sou eu quem dá primeiro.

DANIEL DE SÁ

3 thoughts on “AUTO DO PLÁGIO”

  1. caro amigo

    a milhas e milhas de distância, na saudade de s.miguel e (sobretudo) da maia, veio-me á ideia a terapia saudável da decoração das ruas da freguesia que já fizemos juntos.
    mão amiga fez o inestimável favor de me dar a conhecer esta aspirina, que a minha ignorância deixou passar durante tempo demais.
    não vai voltar a acontecer.
    aqui o lerei, religiosamente, ou se calhar nem tanto.
    mas seguramente com o prazer que se reserva para as coisas seguras da vida.

    um abraço atlântico

    rui vasco neto

    (e já agora: plagiadores, meu amigo, gente sem talento mas com as aspirações nos bicos dos pés ou talentosos preguiçosos sem moral, gente dessa, amigo daniel, é dar-lhes!! mas com força! e de preferência á bengalada, claro. mas uma bengala vicentina para um tal uso é um luxo açoriano! bem achado.)

  2. Meu Caro Rui, a rua ainda continua cá e a amizade também. Não prometo flores quando voltares, mas um abraço não faltará.
    Valupi
    Salvo seja a comparação, mas eu também não sei que conde mestre Gil madou para os quintos do Inferno, e isso não me impede de gostar de um auto a sério.

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