A paixão de sóror Josefa do Menino Deus

Entre os seus papéis venerados no convento, depois de uma morte em odor de santidade, ao esmorecer da tarde de sexta-feira, dia 21 de Outubro de 1768, havia um soneto à margem do qual estava anotado pela madre superiora: “Soneto que fez a mui piedosa sóror Josefa do Menino Deus, grande devota da nossa Santa Madre Teresa, a quem neste soneto modestamente quis imitar depois que leu e meditou na bondade de Nosso Senhor pelo perdão que concedeu à mulher adúltera.”

A fama de santidade de sóror Josefa terá sido justa. Mas as razões que a levaram a todos os jejuns e penitências que apressaram a sua morte, e às longas orações muito além do que a regra impunha, foram outras que não essas por que é costume fazerem-se os santos. Como prova documental, que a uns servirá de acusação e a outros de exaltação das suas virtudes, leia-se a última carta que escreveu antes de ir para o convento. Guardava dela o rascunho, que só entregou, a dois dias da morte, a sóror Maria do Imaculado Coração para que a revelasse quando lhe parecesse conveniente, e no caso de entender que poderia servir de exemplo para prevenir futuros e desgraçados casos como o seu.

A carta, sem o nome do destinatário, começa com uma saudação simples: “Meu Amor”, e logo no princípio a jovem Josefa deixa perceber claramente as razões por que assim procedia.

DANIEL DE SÁ

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“Não dizer sequer o teu nome é mal pequeno em si mesmo, mas muito grande pelas causas que me fazem calá-lo. Não confio nas mãos por que pode passar esta carta antes de alcançar as tuas. E não quero, meu Amor, que por esta paixão que é nossa pagues também culpas que não tens, como as não tenho eu, pois um amor assim ninguém escolhe nem dele foge, porque, se corro o risco de castigos em que nem pensar me atrevo pela aflição em que tal me põe, não te levarei nunca à perdição, que meu pai de tudo seria capaz para que fique mais perto de ter satisfeitas as suas ambições. Se o destino nos atraiçoar, a minha boca não dirá o teu nome, que no meu coração guardarei repetindo mil vezes, até que para sempre se me cale aquela e deixe este de bater, ainda que esteja perante o mais cruel dos verdugos que seja capaz de inventar os mais desatinados tormentos.

“Sebastião José quer que meu pai me dê em casamento a um dos representantes de Espanha nos negócios com Portugal por causa do tratado feito em Madrid, Don Fernando del Pardo, que dizem ter-se apaixonado loucamente por mim quando me viu no baile que sua majestade ofereceu aos enviados de Carlos III. Pretende o conde agradar em tudo aos espanhóis, para que mais facilmente os erros do tratado sejam corrigidos a favor de Portugal.

“Vê tu que depravados espíritos se juntam para nos perder! Meu pai, que Deus me perdoe, nunca soube o que era amar, ou talvez só alguma das suas amantes mereça o que a pobre mulher que me gerou não mereceu ou, se mereceu, não recebeu jamais. E de Sebastião José, meu Amor, desse ferocíssimo senhor que toda a Europa conhece como criminoso da pior espécie, que pode esperar-se? Que sabe ele de amor e de amar, se só lhe interessam honras, ainda que as não mereça, e fortunas, ainda que as não deva?

“Não sei o que nos próximos dias poderá acontecer. Temo que meu pai cumpra a ameaça e me feche no mais rigoroso dos conventos, para que assim eu pague os pecados de não poder contribuir para o bem de Portugal, dizem ele e o renegado conde, embora a um e outro só importem os louros de um lugar na corte ou de uma vitória nas negociações com Espanha.

“Como terei forças para me despedir de ti dizendo que talvez só no Céu nos encontraremos um dia, pois este é o futuro que por mais certo temos? Que Deus me perdoe, mas, se o convento me servir de prisão, não apagará nunca a paixão imensa que me une a ti e para sempre há-de unir. E decerto se dará em mim uma mudança que, aos olhos de Deus, não sei o que valerá contra a minha salvação. Se agora, estando no mundo, sou muito apegada a Nosso Senhor por orações e amor filial, fora do mundo não poderei ter coração e sentimentos para mais do que amar-te. E, se já pouco confio em que o próprio Céu consiga vencer a maldade da Terra que se move contra nós, de Deus ao menos espero que me não negue, na outra vida, a felicidade que nesta sem ti não alcançarei nunca.
“Se podemos ser infinitos em alguma coisa, acredita que por ti é infinito o meu amor.”

A carta terminava com “Infinitamente tua, Josefa”.

Sóror Josefa preservou as suas virtudes no convento de maneira exemplar. Os jejuns eram diários, porque nunca se lhe aliviou na garganta aquele teimoso nó que os grandes desgostos provocam sempre. E jamais foi ouvida em conversas fúteis ou vista em devaneios amorosos, porque a sua alma e o seu corpo só poderiam pertencer ao homem que continuava a amar.

Eis o soneto, a que chamou “Infinito Amor”.

Se não fosses meu Tudo, eu te aumentava,
Se não fosses meu Bem, eu te queria,
Se não fosses a Vida, eu morreria,
Se não fosses Amor, inda te amava.
Se não fosses Caminho, eu caminhava
Nunca sentindo a dor que me doía.
Se não fosses Verdade, eu aprendia
A ver na noite a luz que me cegava.

Se não fossem teus olhos a buscar-me,
Os meus em ti eu punha, enamorada,
Por mais que poucas forças me faltassem.

E se fosse preciso sujeitar-me
A ser por tua causa apedrejada,
Eu beijaria as mãos que me matassem.

DANIEL DE SÁ

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