Dueto a uma só voz

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O meu amigo José do Carmo Francisco, um poeta de suave sensibilidade, foi também jornalista do jornal “Sporting”. Costumava acompanhar por todo o País as equipas jovens do nosso clube, e houve uma vez em que começou assim a crónica de um jogo: “Verde pode ser a cor da paixão. O verde das folhas da videira a anunciarem as uvas e o vinho novo. Os verdes anos da juventude que quer apressar a chegada do amanhã. Verde da paixão, paixão do verde. Das folhas da videira que hão-de secar no Outono. Felizes os que os deuses não amam, porque talvez não morram jovens. Felizes os que, como as folhas da videira, não são jovens para sempre. Porque só a morte faz eterna a juventude.” Esta introdução parecia ser mais do que um simples efeito literário. E era, de facto.

Dispondo de umas horas livres, resolvera passear pelos arredores da vila onde os juniores do Sporting iriam jogar, e chegara até uma quinta em cujo portão, ao lado de uma casa carregada de velha dignidade, era anunciado vinho do produtor. Mais como consequência do seu espírito curioso do que por desejo real de comprar algum, embora fosse esse o pretexto com que justificaria o que ali ia fazer, puxou a corda da sineta que servia para chamar quem devesse abrir o portão, mas foi à porta da casa que apareceu um homem de bom aspecto, com cerca de quarenta anos, que o mandou entrar por ali, dizendo depois das apresentações: “Minha mulher não está. Foi visitar a irmã.”

DANIEL DE SÁ

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Para se dirigirem à adega, passaram pela cozinha. Postas sobre uma cadeira, estavam umas calças escuras, azuis, uma camisa de riscas verticais azuis e brancas e meias num tom levemente mais escuro do que as calças. O dono da casa explicou: “A Lucília saiu enquanto eu estava a descansar um pouco e, como sempre, teve o cuidado de me deixar a roupa preparada, para o caso de eu precisar de sair. É que eu sou um desastre a combinar as cores. Nunca atino… Imagino que esta que vesti para andar por casa deve estar terrível…” Usava camisa castanha, calças cinzentas e peúgas verdes. Em cima da mesa havia um bilhete, para que ele lhe chamou a atenção, no qual estava escrito numa letra muito bem desenhada:

“Meu Amor:
Vou a casa de minha irmã. Talvez me demore.
Beijos.
Lucília”.

Pegou noutra folha do bloco de notas e escreveu, com letra meio gatafunhada:

“Meu Amor
Vou mostrar a quinta a um amigo que veio de Lisboa. Se chegares entretanto, vai ter connosco.
Beijos.
Maurício.”

Guardou o recado de Lucília numa gaveta do louceiro, onde estavam muitos outros, explicando: “Sou incapaz de rasgar um bilhete seu. Mas ela tão-pouco rasga os meus. Quer ver?” E mostrou a gaveta ao lado. O José do Carmo Francisco notou um pormenor: todos os bilhetes dela tinham dois pontos a seguir a “Meu Amor”, mas os dele não.

A visita à quinta começou por uma vinha com a inscrição “Quinta de Noé” a indicar-lhe o nome. A vinha seguinte era a de Dioniso. A terceira, a de Baco.

A última vinha tinha o nome de Lucília. “Olhe, meu amigo, aqui está a minha obra-prima. Estas uvas são delicadas, não devem ser magoadas nem levadas à prensa, são espremidas apenas com as mãos, como que acariciadas. Ou então pisadas por pés de crianças. Deixo o mosto fermentar com as cascas, a polpa e o bagaço antes de coar. Depois de decantado, mudo-o. Ofereço este vinho a todas as igrejas ao redor daqui, para a missa. O resto, dou-o aos amigos. Se me permitir a honra, ofereço-lhe também uma garrafa.”

Abriu uma com o nome de Lucília, e ofereceu um copo ao José do Carmo. O vinho era suave, mas depressa se percebia ser forte também, talvez de uns catorze graus.

“Devo ser um dos poucos homens a quem a mulher faz versos, veja lá.” Foi a um nicho na parede da adega e pegou numa paca de fotocópias. “Estes são os poemas de Lucília. Gosto de os ler de vez em quando, enquanto bebo um copo do seu vinho, e por isso trago para aqui as fotocópias que faço do caderno em que ela os vai escrevendo. Aliás, ela escreve-os em dois cadernos: um para mim, e outro para si mesma.” Fez uma pausa, talvez à espera de que o José do Carmo lhe pedisse para ouvir algum poema, mas este sentiu pudor de lho dizer. No entanto, ofereceu: “Não se importa que eu leia este?… Ela chamou-o ‘Primícias’. Lucília tem uma predilecção especial pelos frutos novos. Os primeiros que amadurecem são sempre para ela, que os espera com a ansiedade de uma criança. Leu o soneto devagar, sem forçar a emoção nem o tom declamatório:

“PrimíciasSempre esperaste, amor, que eu te beijasse
Como a primeira vez de ser beijado.
E eu sempre espero como se esperasse
Um pedido de amor não declarado.

Sempre esperaste, amor, que eu muito amasse,
Como ninguém, jamais, foi tão amado.
E eu sempre esp’rei que o meu amor bastasse
A quem tão grande amor tem desejado.

Que mais te posso dar, se tudo dou,
Desde as flores colhidas pelos campos
À minh’alma e ao meu corpo quando vou

Nas fugas infantis de estarmos sós?…
E serão sempre como frutos lampos
As carícias trocadas entre nós.”

Ouviu um elogio do José do Carmo Francisco, escolheu então uma garrafa do vinho prometido, e, como se o fizesse distraidamente, embrulhou-a na folha em que estava escrito o soneto. O José do Carmo fingiu que não reparou, porque entendeu que ele talvez tivesse vontade de que o levasse consigo.

O meu amigo agradeceu e despediu-se sem pensar sequer no garrafão de vinho que dissera querer comprar, e seguiu de imediato para o campo de futebol, ao lado do qual havia um cemitério cujas flores o faziam parecer mais um jardim de sonho do que um lugar de sono eterno. Como ainda tinha algum tempo livre, resolveu entrar e, por não levar um ramo de rosas ou de cravos para oferecer àqueles mortos, apesar de não conhecer nenhum deles rezou-lhes um Pai-Nosso e uma Ave-Maria e percorreu campa a campa com a mesma devoção com que contemplaria cada altar de uma catedral gótica. Numa delas havia o retrato de uma jovem de grande beleza. Pelo aspecto do túmulo, muito bem cuidado, percebia-se que a jovem fora, e seria ainda, muito amada. Só depois reparou na legenda, meio tapada por um ramo de flores azuis e amarelas:

“Lucília
Nasceu a 24 de Junho de 1958”

DANIEL DE SÁ

11 thoughts on “Dueto a uma só voz”

  1. Saudades tuas, Daniel!
    É das artes mais invejáveis, esta de contar os nadas da vida de todos os dias com mão segura de mestre de todas as emoções.
    Salvaste o meu dia, meu amigo.

    Perguntas, já com tudo dito, só uma: que diabo fazia esse teu amigo no jornalismo desportivo, a escrever introduções dessas? Deixa, não me digas. Eu também tenho que ganhar a vida.
    Abraço-te.

    RVN

  2. Umas férias bem merecidas depois do trabalho forçado com a leitura do peixe podre de comentários ao post da Susana. Verá o Sr. Daniel, agora, que os seus escritos também são apreciados? Se isto envolve dois narradores, tanto melhor. Originalidade é o que mais falta faz nesta casa.

  3. Meus caros amigos, obrigado.
    Costumo dizer, e é verdade, que basta-me um leitor que aprecie algo escrito por mim para que eu dê o trabalho por bem empregado. E aqui apanho um bom punhado deles.
    Este conto foi uma homenagem ao meu amigo José do Carmo Francisco, como facilmente se percebe. A própria introdução, meu caro RVN, foi inspirada em referências frequentes que ele faz ao verde. Claro que, antes de o publicar (aqui em versão reduzida) na revista “Atlântida”, do Instituto Açoriano de Cultura (da Terceira) lhe pedi autorização para abusar do seu próprio nome.
    O conto faz parte de uma série sobre poetas imaginários, tal como “A Borboleta Negra”, em que tento imitar poetas concretos. Neste não sei se deu para perceber que, em intenção, rabisquei mais ou menos o estilo da Florbela Espanca. Que a sua memória mo tenha perdoado.

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