Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

Um simples apito salvou a vida do Acácio Paulino

ecf14ad3.jpg

A vida é a arte do encontro – já dizia o Vinícius de Moraes, o branco mais negro do Brasil. Outro dia encontrei por acaso o Acácio Paulino que já não via há uns anos. Fomos colegas no BPA e já desse tempo eu sabia da sua paixão pelo mergulho. Mas não sabia que ele tinha estado, em Dezembro passado, mais de oito horas arrastado pelo mar no pequeno conjunto de ilhotas dos Farilhões, ali perto de Peniche. Mergulhando no Rabo de Asno, foi levado pelas correntes na direcção oposta a Peniche e lá conseguiu voltar para trás até ao Farilhão do Nordeste.

Entretanto a mulher insistia, mas as autoridades do Maritime Rescue Coordinatiom Centre diziam que a utilização do helicóptero está «sob consideração». Quando souberam que ele estava vivo e que tinha sido localizado por uns biólogos que ouviram o seu apito, ficaram surpreendidos. Julgavam-no morto, como mortos ficaram, dias mais tarde, os tripulantes do «Luz do Sameiro» perto da Nazaré. Depois de saberem do alerta dos biólogos, lá mandaram um barco dos Socorros a Náufragos, mas sem cobertores nem oxigénio. Enfim.

Dias depois li que uma senhora, lá para cima para Lamego, comunicou que estava perdida e tinha tido um acidente, e levantou logo um helicóptero a procurá-la. Depois soube-se que estava em casa de uma amiga sem qualquer beliscadura. Para essa senhora, praticante do desporto líquido, não houve hesitações. Para o Acácio Paulino ainda estavam a ponderar, ainda estava sob consideração… Um simples apito que lhe custou apenas cinco dólares nos EUA salvou-lhe a vida. Esta vida. Que não tem outra.

Este nosso pequeno país tem mesmo duas velocidades. É conforme…

José do Carmo Francisco

Novela do estudo científico das línguas reais – II

ferdidi.jpg

Foram neo-gramáticos do calibre de K. Brugman, H. Osthoff e Hermann Paul que desenvolveram o legado dos histórico-comparatistas ao sublinharem o carácter mecânico e absoluto das leis fonéticas:

– Lindinhos, as leis fonéticas não têm excepções.
– Nunca-nunca-nunca?
– Ok, quase nunca.
– Bem me parecia…
– Mas, nessas raras excepções, é possível encontrar outra lei fonética complementar que as explique.
– Sempre-sempre-sempre?
– Ok, quase sempre.
– Bem me parecia…
– Mas, nesses casos ainda mais raros em que não se concretizam as leis fonéticas, é porque houve uma analogia.

A analogia foi definida pelos neogramáticos como um mecanismo de compensação que actua no plano gramatical e que restaura distinções ou paralelismos que cegam (tadinhas) as leis fonéticas. Neste mecanismo (muito presente em certos «erros» da linguagem infantil, como o não cumprimento das excepções gramaticais), está implícito uma distinção muito clara entre o plano fónico (fisiologia dos sons) e o plano psíquico (analogia) da linguagem humana verbal. Na verdade, até sou gajo para dizer que já se encontram aqui latentes os princípios da teoria sausseriana do signo linguístico.

Continuar a lerNovela do estudo científico das línguas reais – II

Diálogo loco entre Don Quijote y Sancho Panza

316027_quijote1.jpg

Después de haber leído una carta de Fernando Venancio a José Saramago

– Sancho, hace falta que vayamos a Portugal.
– Señor mío, yo creía que jamás habríamos de salir de Castilla…
– ¿Porqué lo piensas? Si acaso piensas…
– Pues ¿cómo vamos allá? Nuestros animales, estas almas de Dios, no podrán llegar tan lejos.
– Eso será tu burro que no lo puede.
– Si mi señor llama burro a mi borriquillo, yo llamaré caballo a su Rocinante.
– Si llamas borriquillo a ese montón de huesos…
– Más grande es el montón donde mi señor pone el agujero donde terminan sus gloriosas espaldas.
– Que nunca jamás un enemigo ha visto, fíjate bien.
– Pero ¿porqué Portugal?
– Porque, en lucha por nuestro glorioso rey Felipe II, allí estuvo nuestro creador.
– ¿El mismo Dios habrá combatido por nosotros?
– ¡No hagas el tonto!
– No hace falta. Pues si mi señor dice que lo soy…
– Hablo de don Miguel de Cervantes Saavedra.
– Y después a lo mejor querrá irse también a Nápoles, a Venecia, a Chipre… lo que sea…
– ¡Ni pensarlo! Yo no quiero más que hacer peregrinación a Aziñaga, la tierra de un gran español que el mundo no conoce todavía.
– ¿Quién es la criatura?
– Un genial escritor, más que don Miguel. Dicen que si se lleva unos veinte años más viviendo en Lanzarote acabará hablando castellano mejor que nuestro rey Felipe III.
– Pues no le hacía falta ir para en medio de los guanches. Dicen que ahora se enseña el castellano en Portugal más que el francés.
– No pienses que será por amor de España. Es para que se cumpla mejor el problema de las estadísticas del gobierno. El castellano como segunda lengua extranjera dará más altas clasificaciones a los chiquitos. Y, además, les hace falta para comprender la Barca del Infierno.
– ¿Qué es eso? ¿Portugal está así de mal?
– ¡Come hierbas, Pancho!
DANIEL DE SÁDaniel de Sá (São Miguel, 1944) é romancista, contista e ensaísta.

A angústia do cliente da TMN no momento do pagamento

PREFIRO ARREPENDER-ME DO QUE FAÇO, DO QUE DAQUILO QUE NÃO FAÇO. SE ME ARREPENDER, PODEREI CORRIGIR O ERRO. SE NADA FIZER, NÃO PODEREI CORRIGI-LO – SÓ PODEREI ARREPENDER-ME.
Soledade Martinho Costa

Ontem não paguei a conta da TMN e, hoje de manhã, deixei cair o telemóvel na sanita. Arrependo-me de ambos os gestos, é claro: deveria ter feito o pagamento e não deveria ter feito cair o telemóvel na sanita. Mas como fiel súbdito da nossa querida Soledade, fermenta agora em mim uma esperança e um medo. Esperança de voltar a pôr o meu telemóvel a funcionar (não sei muito bem como, mas sei que ela virá aqui esclarecer-me) e medo de pagar hoje (o prazo, afinal, termina amanhã) a conta da TMN: se o fizer, não estarei eu a colocar em risco a delicada ordem do universo?

Perguntas sem resposta

Hoje acordou cedo o viajante, que tem as horas contadas. Esperam-no ao fim da tarde os cavalinhos rupestres no baixo Côa, há que meter pés ao caminho, que há-de ser longo. Já se despediu das muralhas da cidade, já deixou para trás a porta do Carvalho, já segue para norte pela estrada da Meda. Para trás ficou também a capela de Santa Luzia que não pôde visitar, tão fechada que estava debaixo do seu arco românico.

O bairro da mesma santa, estendido pelo arrabalde que se dispersa na encosta, é uma pequena parte da cidade moderna. Mas não há ponto cardeal que a febre da construção tenha poupado. O viajante perdeu-se ontem à noite nos dilatados subúrbios e não pode imaginar donde vem tanta gente habitar estas casas. Por força haverá muitas vazias, que todos os munícipes concentrados aqui não haviam de chegar para as ocupar. Mas a perplexidade do viajante é sem motivo. Havendo dispersas no país inteiro meio milhão de casas devolutas, sempre uma parte caberia à cidade, a menos que houvesse um milagre qualquer. A especulação imobiliária fez-se galinha de ovos doirados há uns anos, não há terra em que o betão e uma ideia peregrina de progresso não andem de braço dado. Os construtores trocam as leis e os planos por peitas e ganhuças, os edis fazem o mesmo por taxas e derramas, e os governos, sobre todos, abdicam do país por impostos e sisas. Os banqueiros multiplicam capitais, como é da sua função. E alguém há-de pagar um dia esta factura, se não estiver já hoje a pagamento.

O viajante vai ficando cansado destes embates com a realidade, sempre espessa e concreta e angulosa. Ouriçada de esquinas afiladas, que deixam feridas nas mãos. O que dava jeito a este viajante era acreditar em trovas e refugiar-se nelas, se para consolo de almas foram inventadas. Mas não tem ele essa sorte. Há-de parecer que anda à procura de quebra-cabeças e não é verdade. São os quebra-cabeças que vêm ter com ele. Parou aqui à saída, para ver as instalações do mercado dos gados, sem sinais de ocupação há muito tempo. Num lugar de ruralidades dominantes é sempre um gosto vê-las, mesmo assim vazias, que já estarão à espera se um dia o gado voltar. Mas não estão sós no desamparo, pois logo ali à direita, espraiados no vale, andam vinte hectares de pomar abandonados. O viajante pára o carro num caminho de saibro, pula uma parede a observar melhor. O matagal pagão assoberbou as árvores, que lá vão resistindo aos gritos pela encosta. Algumas já secaram, outras lambeu-as o fogo, muitas granjearam frutos enfezados que tornaram à braveza natural. Na vastidão da tapada ficou a branquejar uma inútil estação de tratamento.

Umas vezes protesta o viajante contra a própria ignorância e falta de entendimento. Outras muito suspeita que dez cursos de economia não haviam de chegar para lhe tornar compreensível este mundo. Dá consigo a perguntar o que o faz correr assim, andar por montes ardidos, e pomares abandonados, e terras adormecidas donde a vida desertou. Vinha à procura dum país, a ver se lhe encontrava ao menos as raízes, e só esbarra em perguntas que lhe ficam sem resposta. Anda por ali a restolhar no capim, a tropeçar em antigas tubagens de rega, a arranhar-se nos silvedos. Abre os braços à carícia do sol, oferece o peito ao ar de vidro da manhã, e com tanto se dará por satisfeito. É um tolo, este viajante, a querer entender o mundo. Deu com a fronteira da parede, esbarrondou umas pedras, saltou para a carreteira e foi-se embora.

Jorge Carvalheira

Um inesperado poema de António Lopes Ribeiro

A livraria-alfarrabista «1870» (ali à Praça das Flores) proporcionou-me o encontro com um livro no mínimo curioso: trata-se da reunião em volume das crónicas que António Lopes Ribeiro publicou a partir de Abril de 1963 no jornal O Primeiro de Janeiro do Porto.

Para quem tenha a memória apenas do apresentador do «Museu de Cinema» ao lado do inefável António Melo e do seu sumido «boa nôte», não deixa de ser uma surpresa este poema sobre um menor atropelado no seguimento de opiniões sobre a nossa civilização perfeitamente actuais, passados 44 anos: «No Domingo de Páscoa registou-se maior número de mortos e feridos nas estradas de França do que nas cidades violentadas a ferro e fogo de Argel e de Orão. O automóvel bateu aos pontos o terrorismo. Sem falar nas corridas de morte com automóvel nos países que proíbem as corridas de touros. Um carro marra muito mais do que um Miura ou um Palha mas as sociedades protectoras dos animais não querem saber da sorte do bicho homem.»

Mas vamos ao poema «Menor atropelado»:

Ia a correr atrás de um arco
(Corria como ninguém!)
Na véspera andara de barco
E levara um sopapo da mãe.

Agora, jaz estendido
Naquela curva da estrada
Tens os bracitos ao comprido
E a cabeça esmigalhada.

Que foi? Foi um automóvel
Que passou em correria
Ele é que já não corre; jaz imóvel
(Padre nosso, Ave Maria…)

O condutor deu um grito
Ele – não soltou um ai
(Vai ser o bom e o bonito
Quando disserem ao pai)

Nossa Senhora nos valha!
Pois não tinha anjo da guarda?

Antes fosse de um tiro de espingarda
Mais tarde para ganhar uma medalha.

recolhido por José do Carmo Francisco

A cidade sem monumentos

amsterdam-apartment-709.jpg

Sempre dormi descansado sabendo não estar o meu sono rodeado de monumentos. Sim, porque os monumentos são um peso. Não estou a referir-me a esse peso, leitor, mas também não o subestimo, descanse.

Sempre tinha ouvido dizer que Amsterdão era ‘uma cidade sem monumentos’. Acreditei e assenti. Com efeito, chega-se a Bruxelas e sente-se um gajo pequeno. Chega-se a Paris e sente-se esmagado. A Londres e olha-se à volta onde-é-que-eu-fiquei. E mesmo Lisboa… Bom.

Pois acabou-se a tranquilidade. Li ontem no friso publicitário dum eléctrico que a minha cidade conta 7650 monumentos. Levou algum tempo a perceber o que lia, depois procurei algures uma vírgula (as décimas ou centésimas seriam o mais criativo), mas não. Eu tinha visto bem.

Amanhã volto ao centro, onde trabalho (alguém falou em férias?), e vou procurar. Sou capaz de dar por lá com algum monumento, escondido nesse espaço urbano que, até hoje, eu sempre pensara construído «à escala humana». Vou-me sentir pequeno, isso é de prever. Se de mim sobrar alguma coisa pensante, direi o que se conseguir. Se não, já sabem.

Paraísos perdidos

ao José Rentes de Carvalho

Nesta casa já se dançou a pavana, num tempo em que as damas da família sabiam dissimular o queixo delicado atrás de leques andaluzes, à sombra frondosa das nogueiras. Havia um piano vertical na sala das visitas. E entre a leitura dos folhetins recortados d’O Século, e a bruma evanescente de paisagens campestres a amanhecer no cavalete das aguarelas, por certo alguém, à tarde, punha a rodar na vitrola de corda uma ária do Caruso, uns acordes de zarzuela, enquanto duas donzelas ensaiavam coreografias de salão, entre javas e habaneras. Cheirava a terra a chuva de Setembro e os galos cantavam no ar de vidro de Janeiro, assim terá sido há muitos anos, antes de o mundo dar sinais de começar a morrer.
Quem primeiro morreu foi o patriarca que construiu a casa, ou a mandou fazer assim tão regular e adequada. Havia nela um tão exacto casamento entre função e forma, que por trás se lhe adivinha grande paixão e muita sabedoria. Depois foram as damas que partiram, e consigo levaram o piano, o Caruso e os anelos adocicados, para terras menos agrestes e remotas do que estes fins do mundo.

Jorge Carvalheira

Continuar a lerParaísos perdidos

Fernando Venâncio no «Retrato de Portugal»

Ainda não foi publicado mas eu tive acesso antecipado ao livro Retrato de Portugal. Com o subtítulo de «Factos e Documentos», editado pelo Círculo de Leitores e coordenado por António Reis, este volume de 350 páginas será editado em português e em inglês, sendo apoiado pelo Instituto Camões e pela Presidência (portuguesa) do Conselho da União Europeia.

Os capítulos são: O Estado, a sociedade, o território, a língua portuguesa, a comunicação social, a sociedade do conhecimento e da informação, o desporto, o ambiente, a economia, a educação, o património cultural, a literatura, a arquitectura, as artes visuais, as artes do espectáculo, o cinema, o design e a moda. Basta uma rápida olhadela pelos nomes dos colaboradores e colaboradoras (uma delas é a inefável Maria de Lurdes Rodrigues) para se perceber que é o olhar totalmente «pê yes» que formula este retrato de Portugal.

Mas a mim em particular interessou-me o capítulo respeitante à Literatura, assinado por Fernando Pinto do Amaral. Lá aparece Fernando Venâncio «encaixotado» entre Catarina Fonseca e Miguel Esteves Cardoso. A primeira tem uma «fértil imaginação romanesca» e o seguindo tem um «humor corrosivo». Quanto a Fernando Venâncio cabe-lhe o espaço catalogador de «inspiração subtilmente queirosiana». Motivo de orgulho para o «aspirinab» penso eu. Por isso aqui divulgo esta notícia. Porque as notícias não devem ficar fechadas nas gavetas das secretárias. E se os blogs são os descendentes das tertúlias aqui fica matéria para animada conversa de tertúlia.

José do Carmo Francisco

Paulo Bragança

paulbrag.jpg

Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é (ela mesma) a nossa origem
Há um país, uma nação dentro do peito
Estar a ouvir é estar à beira da vertigem

Há uma luz que se prolonga na extensão
Há uma viagem a fazer dentro da voz
Ouvir-te é ser o destino de uma oração
A ligar de novo quem se julgava a sós

Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é a que sabe juntar água e terra
Cantas e és o rio que fugiu já do seu leito
À procura de novos campos para a guerra

Quando tu cantas não há águas paradas
Na terra fértil da humidade, teu terreno
E há uma guerra, batalhas, emboscadas
Lá onde chega a tua voz e o teu veneno

José do Carmo Francisco

Novela do estudo científico das línguas reais – I

figurasdd.jpg

O estudo científico da linguagem humana verbal começou tarde e a más horas: apenas no século XIX com a Linguística Histórico-Comparativa. Até lá, como é óbvio, não se pode afirmar que a malta toda andou a apalermar (muito pelo contrário), só que, até aos histórico-comparativistas alemães, uma série de características enfermaram o estudo da linguagem humana verbal e o afastaram da cientificidade. Estas características foram, sobretudo, o pragmatismo (ver a descrição utilitária do sânscrito feita por Panini), a preocupação filológica (cheirar os estudos de Eratóstenes e de outros autores da Escola de Alexandria sobre os textos homéricos), a normatividade (audível, de forma geral, em todos os textos dos gramáticos até ao séc. XIX) e a subordinação à Filosofia da Linguagem (sobretudo no travo prolongado da questão do Crátilo de Platão sobre a origem convencional ou natural da linguagem, cujo paladar se prolongou de forma áurea até Santo Agostinho e São Tomás de Aquino). Como é óbvio (não é nada óbvio, eu é que gosto de me armar), não está aqui em causa os importantes contributos de todos estes autores no estudo da linguagem humana verbal, mas o facto de nenhum deles a terem promovido a objecto formal do seu estudo. A linguagem surge em todos eles com uma espécie de medium, cujo estudo era sempre motivado por questões extra-linguísticas.

Após os séculos XV e XVI, época em que se acentuou o contacto com novas civilizações e linguagens, começou-se a esboçar uma teoria monogénica da linguagem de cariz bíblica, em que se elevava de forma babélica o Hebreu a língua adâmica ou edénica. É apenas nos séculos XVII e XVIII que surgem os primeiros autores que me interessam (logo, que deverão interessar a toda a gente) para um estudo científico da linguagem humana verbal. Os dois primeiros são Antoine Arnauld e Claude Lancelot, autores da Gramática de Port-Royal, cujas páginas desenvolve a noção inovadora de universais linguísticos: se a linguagem é estruturada segundo a razão humana, é natural que se possa definir uma Gramática Universal comum a todas as línguas (o Chomsky viria, séculos mais tarde, a chamar um figo a essa inovação). O terceiro autor é Leibniz, que foi o primeiro a pôr em causa a teoria monogénica de que o Hebreu seria a língua-mãe de todas as línguas, argumentando com a impossibilidade dessa língua camito-semita ter dado origem a línguas com estruturas tão díspares. O rapaz era uma montanha de virtudes.

Continuar a lerNovela do estudo científico das línguas reais – I

É Tarantino? Não, são os Wilco

wilcosky.jpg

Tinha hoje prometido a mim mesmo escrever sobre o fantástico Death Proof de Tarantino e acrescentar alguma gravitas à avalanche de parvoíces que se tem escrito sobre o filme: nem são bem os gajos que detestaram o filme que me irritam, mas os iluminados que utilizam expressões tipo «lixo de luxo» ou «alta baixa cultura» para descrever essa obra prima. No entanto, como estive hoje todo o dia a ouvir pela primeira vez o novo Sky Blue Sky dos Wilco, não vou poder, hélas, demonstrar os meus dotes de demiurgo circense e vão apenas ser brindados com dois MP3zitos no HTML que é para aprenderem a não desviar o vosso browser para blogues tão mal frequentados como o Aspirina B. A crítica tem cascado um pouco no álbum (repararam na forma Pacheco Pereira como mudei de assunto? Isto não é para todos), sobretudo pelos rapazes terem deixado de lado a veia mais experimentalista de discos como Summerteeth (vénia) ou Yankee Hotel Foxtrot (dupla vénia). Apesar disso, Sky Blue Sky contém uma bela dúzia de grandes canções, estupidamente íntimas e megalómanas, recheadas de solos de guitarra que provam que a azeiteirice, quando possui o grau certo de acidez, é algo de muito audível e recomendável (os fãs dos My Morning Jacket sabem do que estou a falar). Deixo-vos aqui dois belos exemplos: «Impossible Germany» e «Side with the Seeds». Nem os Lynyrd Skynyrd se atreveram a levar o rock tão a sul.

Vale o desvio

Mértola-B.Alent.bmp

Quem, descendo o mapa, vai para Monte Gordo, ou para toda a metade leste do Algarve, pode deixar a auto-estrada e ir conhecer mais um recanto do país: Mértola, o maior museu do Alentejo. Ali o espera, há bem dez séculos, uma das maravilhas de Portugal.

O autor do «post» é, concedamos, suspeitíssimo. Calhou-lhe nascer lá. Mas vá, você mesmo, tirar teimas.

A deusa em Monte Gordo

IngridBergman.jpg

Paulo Moura é, decididamente, um grande talento da história breve. Uma delícia, lê-lo ao domingo
no Público. Hoje, o episódio leva-nos ao algarvio Monte Gordo (que ele grafa estranhamente «Montegordo»), em 1963, quando Ingrid Bergman aí apareceu em biquíni e foi multada pelo
cabo-de-mar.

Há – há sempre, num grande escritor – alguma efabulação à mistura. Há, também, algum exagero nas cores negras do Portugal da época. Paulo Moura nunca o conheceu, e só o entende como tragédia da manhã à noite.

Mas é um raro prazer lê-lo. Ao magnífico criador de cenários.

Dê-lhes rijo, Arquitecto!

21241_jasaraiva.jpg

Hoje, no «Sol», escreve José António Saraiva, o director, a propósito do Iberismo
e de Saramago:

«A classe média portuguesa olha para o enorme desenvolvimento que a
Espanha registou nas últimas décadas, compara-o com o marasmo português
e conclui: integrados na Espanha seríamos mais prósperos, mais ricos e
mais felizes.
Ora, é uma ilusão pensar assim.
Basta olhar para o que aconteceu em muitas empresas portuguesas que
foram compradas por espanhóis: a investigação deixou de ser feita em
Portugal e passou a ser feita em Espanha, os quadros superiores
portugueses foram substituídos por espanhóis nos lugares-chave, os
portugueses ficaram em posição subalterna e acabaram por se sentir
estranhos no seu próprio país.»

«Quando Saramago disse que a integração na Espanha é inevitável,
estava implicitamente a dizer que os portugueses não têm vontade de
continuar a ser independentes (ao contrário dos bascos ou dos catalães,
que no próprio dia em que o franquismo caiu ressuscitaram os seus
valores).
Portugal poderá perder a independência.
Mas só se os portugueses quiserem.
Daí que a posição mole, distraída, desinteressada, capitulacionista
ou abertamente anti-nacionalista da esquerda portuguesa seja um mau
sinal.»

Com um obrigado ao Carlos Luna.