Um inesperado poema de António Lopes Ribeiro

A livraria-alfarrabista «1870» (ali à Praça das Flores) proporcionou-me o encontro com um livro no mínimo curioso: trata-se da reunião em volume das crónicas que António Lopes Ribeiro publicou a partir de Abril de 1963 no jornal O Primeiro de Janeiro do Porto.

Para quem tenha a memória apenas do apresentador do «Museu de Cinema» ao lado do inefável António Melo e do seu sumido «boa nôte», não deixa de ser uma surpresa este poema sobre um menor atropelado no seguimento de opiniões sobre a nossa civilização perfeitamente actuais, passados 44 anos: «No Domingo de Páscoa registou-se maior número de mortos e feridos nas estradas de França do que nas cidades violentadas a ferro e fogo de Argel e de Orão. O automóvel bateu aos pontos o terrorismo. Sem falar nas corridas de morte com automóvel nos países que proíbem as corridas de touros. Um carro marra muito mais do que um Miura ou um Palha mas as sociedades protectoras dos animais não querem saber da sorte do bicho homem.»

Mas vamos ao poema «Menor atropelado»:

Ia a correr atrás de um arco
(Corria como ninguém!)
Na véspera andara de barco
E levara um sopapo da mãe.

Agora, jaz estendido
Naquela curva da estrada
Tens os bracitos ao comprido
E a cabeça esmigalhada.

Que foi? Foi um automóvel
Que passou em correria
Ele é que já não corre; jaz imóvel
(Padre nosso, Ave Maria…)

O condutor deu um grito
Ele – não soltou um ai
(Vai ser o bom e o bonito
Quando disserem ao pai)

Nossa Senhora nos valha!
Pois não tinha anjo da guarda?

Antes fosse de um tiro de espingarda
Mais tarde para ganhar uma medalha.

recolhido por José do Carmo Francisco

4 thoughts on “Um inesperado poema de António Lopes Ribeiro”

  1. Resumindo: um soldado que se perdeu para a guerra colonial. Não chupo, salvo seja, o António Lopes Ribeiro nem com molho de lágrimas.

  2. A verdade é que ele tem razão: a nossa civilização tem várias doenças e a zoofilia excessiva é uma delas. Safa!

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