Perguntas sem resposta

Hoje acordou cedo o viajante, que tem as horas contadas. Esperam-no ao fim da tarde os cavalinhos rupestres no baixo Côa, há que meter pés ao caminho, que há-de ser longo. Já se despediu das muralhas da cidade, já deixou para trás a porta do Carvalho, já segue para norte pela estrada da Meda. Para trás ficou também a capela de Santa Luzia que não pôde visitar, tão fechada que estava debaixo do seu arco românico.

O bairro da mesma santa, estendido pelo arrabalde que se dispersa na encosta, é uma pequena parte da cidade moderna. Mas não há ponto cardeal que a febre da construção tenha poupado. O viajante perdeu-se ontem à noite nos dilatados subúrbios e não pode imaginar donde vem tanta gente habitar estas casas. Por força haverá muitas vazias, que todos os munícipes concentrados aqui não haviam de chegar para as ocupar. Mas a perplexidade do viajante é sem motivo. Havendo dispersas no país inteiro meio milhão de casas devolutas, sempre uma parte caberia à cidade, a menos que houvesse um milagre qualquer. A especulação imobiliária fez-se galinha de ovos doirados há uns anos, não há terra em que o betão e uma ideia peregrina de progresso não andem de braço dado. Os construtores trocam as leis e os planos por peitas e ganhuças, os edis fazem o mesmo por taxas e derramas, e os governos, sobre todos, abdicam do país por impostos e sisas. Os banqueiros multiplicam capitais, como é da sua função. E alguém há-de pagar um dia esta factura, se não estiver já hoje a pagamento.

O viajante vai ficando cansado destes embates com a realidade, sempre espessa e concreta e angulosa. Ouriçada de esquinas afiladas, que deixam feridas nas mãos. O que dava jeito a este viajante era acreditar em trovas e refugiar-se nelas, se para consolo de almas foram inventadas. Mas não tem ele essa sorte. Há-de parecer que anda à procura de quebra-cabeças e não é verdade. São os quebra-cabeças que vêm ter com ele. Parou aqui à saída, para ver as instalações do mercado dos gados, sem sinais de ocupação há muito tempo. Num lugar de ruralidades dominantes é sempre um gosto vê-las, mesmo assim vazias, que já estarão à espera se um dia o gado voltar. Mas não estão sós no desamparo, pois logo ali à direita, espraiados no vale, andam vinte hectares de pomar abandonados. O viajante pára o carro num caminho de saibro, pula uma parede a observar melhor. O matagal pagão assoberbou as árvores, que lá vão resistindo aos gritos pela encosta. Algumas já secaram, outras lambeu-as o fogo, muitas granjearam frutos enfezados que tornaram à braveza natural. Na vastidão da tapada ficou a branquejar uma inútil estação de tratamento.

Umas vezes protesta o viajante contra a própria ignorância e falta de entendimento. Outras muito suspeita que dez cursos de economia não haviam de chegar para lhe tornar compreensível este mundo. Dá consigo a perguntar o que o faz correr assim, andar por montes ardidos, e pomares abandonados, e terras adormecidas donde a vida desertou. Vinha à procura dum país, a ver se lhe encontrava ao menos as raízes, e só esbarra em perguntas que lhe ficam sem resposta. Anda por ali a restolhar no capim, a tropeçar em antigas tubagens de rega, a arranhar-se nos silvedos. Abre os braços à carícia do sol, oferece o peito ao ar de vidro da manhã, e com tanto se dará por satisfeito. É um tolo, este viajante, a querer entender o mundo. Deu com a fronteira da parede, esbarrondou umas pedras, saltou para a carreteira e foi-se embora.

Jorge Carvalheira

5 thoughts on “Perguntas sem resposta”

  1. No post anterior era o “ar de vidro de Janeiro”. Hoje temos o “ar de vidro da manhã”. Para quando, umas aragens metafóricas a puxarem para o morno não repetitivo?

  2. Não posso senão deixar-te assim perplexo, Valupi. Pendurado.
    Este é um texto de verão, de circunstância. Excerto de algo mais longo, por força lhe há-de ficar alguma porta no trinco, a janela entreaberta…
    E agora me lembro eu duma questão em que já tropeçámos. A subjectividade do leitor não poderá servir de salva-vidas?!

  3. Jorge, não me sinto pendurado, antes encostado. Encostado a ver um texto passar. Daí a pergunta: e a seguir? Mas não tenho pressa alguma pela resposta. Sei bem que entender o mundo leva o seu, o teu e o nosso tempo.

  4. É o que dá procurar um país que existe só na memória ou, pior, no ideal. Para entender o mundo, até para o mudar, é preciso começar por aceitá-lo tal como ele é. O difícil equilíbrio está em aceitá-lo sem perder a memória nem trair o ideal. Tenho dito.

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