Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

«Tu»

A presidente da maior confederação de sindicatos holandeses trata por tu o ministro do Trabalho. O presidente do conselho de universidades holandesas (que vai sempre de bicicleta para o trabalho) trata por tu o ministro da Educação. Vários presidentes de grandes bancos holandeses tratam por tu o ministro das Finanças.

E julga alguém que este Reino, de onde vos escrevo, amanhã se desmorona?

Studio: WEST COAST (reprise)

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Como prometido, volto à carga com o magnífico WEST COAST dos Studio, até porque não tenho ouvido outra coisa desde que publiquei o último post. Desta vez, vou ser porquito e deixar aqui aquela que considero ser a grande faixa do álbum: o longo e hipnótico tema instrumental que abre o disco: «Out There». Não tenho palavras para descrever a euforia que me provoca a audição desta absoluta maravilha de ritmo, groove e bom-gosto. Ele é guitarras pós-punk cheias de gorduras polinsaturadas, pitadas de disco-sound, apontamentos de produção que fazem lembrar os momentos áureos dos New Romantics e ainda uma linha melódica que (mais uma vez) parece invocar os fantasmas da santíssima trindade Marr, Rourke e Joyce (fase MEAT IS MURDER). Depois, a meio do tema, e quando um gajo já está totalmente rendido, somos atirados ao tapete por um baixo do tamanho da Avenida dos Aliados e, aí, ele é afro-beats, reggae, dub e a real puta que os pariu. A sério. Acho que é o melhor tema que ouvi na minha vida. E o mais incrível é que esta faixa se move por territórios que estão longe (muito longe) de serem os meus predilectos na cartografia pop. Eu sei que a solidão nestas merdas é sempre uma doce e fiel companheira, mas ainda assim, arrisco a pergunta: serei eu o único doido a venerar esta merda?

Laurent Filipe

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Tal como este som que me chega devagar
De uma fonte que o ouvido não determina
Mas capaz de alterar o espírito deste lugar

O som da trompete leva-me numa viagem
E estou de novo no coreto de uma aldeia
Numa festa de Verão mas uma paisagem
Tão diferente desta outra, mais fria e feia

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Com as sílabas dispostas numas camadas
Numa vagarosa construção que dissemina
Uma luz capaz de abrir as salas fechadas

Não me vou cansar de ouvir estas canções
Onde a música é um calor de fogo e brasa
O fraseado acumula os motivos e as razões
Uma trompete veio modificar a luz da casa

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Foi comprada no Custódio Cardoso Pereira
A música continua quando o resto é a ruína
Aquece a minha vida no Inverno sem lareira

José do Carmo Francisco

Studio: WEST COAST

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2007 está a ser um ano estupidamente frutífero para a música de dança. Para além do mainstream estar inundado de coisas bem recomendáveis como os Justice, Simian Mobile Disco ou Digitalism, chegou-me esta semana às mãos uma maravilha chamada WEST COAST dos Studio. O que é verdadeiramente admirável neste duo seco é o facto de eles reinventarem um dos estilos de música mais azeiteiros dos últimos anos, a música de dança balear da década de 80 (pensem em Ibiza, Maillorca, Menorca e sobretudo em Paul Oakenfoald) e acrescentar-lhe um pouco de dub, house, krautrock e camadas generosas de post-punk (olá Vini Reilly) para produzir um dos discos simultaneamente mais classificáveis e fascinantes que ouvi nos últimos anos. A coisa, como não poderia deixar de ser, também faz lembrar a Madchester e projectos como os The Stones Roses (sobretudo a parte rítmica) ou os Happy Mondays (tudo o resto), mas os Studio vão definitivamente mais além e conseguem desbravar os poucos terrenos que os Underworld não exploraram nos seus dois primeiros álbuns. Para já, ocupam um lugar mesmo ao lado de The Field e dos Of Montreal na minha lista dos melhores do ano, mas algo me diz que não por muito tempo. Deixo-vos de seguida com o solarengo «West Side» e prometo carregar logo que possível a Box com mais perolazinhas. Um conselho: nas primeiras audições, tentem ouvir esta maravilha como banda sonora das vossas navegações pela Internet, de preferência com auscultadores que é para se aperceberem da forma estupenda como o disco está produzido e, sobretudo, misturado. Só depois é que deverão passar para a fase «BT, a gente vê-se daqui a 72 horas». Um miminho.

Ramón vermelho

À beira da estrada, num pequeno café, encontra o viajante refrigério. Que além de professora reformada e boa conversadora, a dona Mariazinha é a gentileza em pessoa. Os clientes são escassos, para não dizer nenhuns, salvo este velhote que tem bócio e veio encher a garrafa do tinto. E ela está entretida no croché, enquanto a irmã lá dentro traquina na cozinha. Logo quer saber a que anda o viajante, assim exposto ao calor, e o que faz ele na vida, e donde vem. Mas depressa aparece a cozinheira, a dar fé do que se passa. E acabam, ambas as duas, a contar ao viajante a história de Ramón.
O homem dormia na casa da escola, num quarto que ficava por trás do quadro preto. A dona Mariazinha e a irmã eram crianças na altura, e nunca mais se esqueceram do mistério. A professora encostava todos os dias o quadro àquela porta, e proibia alguém de lá entrar. Um dia em que a apanharam distraída houve quem a fosse abrir, e todos viram Ramón, que estava a dormir lá dentro. Logo nesse dia soube a aldeia inteira que havia um homem na casa das professoras.
Elas eram três irmãs. Uma trabalhava na costura, outra ocupava-se da casa, e a terceira dava aulas aos garotos. O homem era galego, dos vermelhos, andou na guerra de Espanha. E quando caíram as portelas da serra de Guadarrama, e a Casa de Campo sucumbiu às investidas, perderam-se também as esperanças de Ramón. Com o batalhão destroçado, em vez de recolher à ratoeira de Madrid, enterrou a escopeta por trás duma ruína e pôs-se a andar na direcção contrária. Mais de noite que de dia, mais por carreiros de bichos que por caminhos de gente, viu ao longe a serra de Ávila, depois os montes de Francia, passou dias escondido em casebres de pastores, um era de Alba de Tormes, outro era de Santo Estêvão, três vezes morreu de fome, e já lá iam dois meses quando uma noite saltou o rio Águeda e chegou a Portugal. Alguém lhe deu inculcas em Almendra, e só assim ficará explicado que o homem tenha vindo bater à porta do padre Júlio, aqui nos confins do mundo.
Durante muito tempo não saiu Ramón de casa, que o padre Júlio não era tolo nenhum. Até que um dia calhou ele morrer, e o Ramón foi ao enterro. Desde então deu em sair à rua, que já não aguentava a solidão. Juntou-se às fainas do campo, pôs-se a trabalhar à jorna, fez amigos aí no povo. No final já se mostrava pelas festas, não faltava a um bailarico, era mais um entre a gente. Sabia a guarda do caso há muito tempo, e as ordens eram severas. Mas sempre que ela aparecia, alguém havia a passar a palavra. E sumia-se o Ramón, no quarto por trás do quadro.
Um dia apareceu no povo um amola-tesouras que ninguém conhecia. Ficou dias por aí, rua abaixo, rua acima, a soprar numa flauta esganiçada. Foi ao Zabro, às Moreirinhas, aos Moinhos das Cebolas, a meter-se no coração a toda a gente e a dar fé das passadas de Ramón. Já não havia mais facas para aguçar, nem mais tesouras da poda, nem navalhas da enxertia, quando a guarda cá voltou. E o amolador, que afinal era espião, delatou-lhe o segredo de Ramón.
O padre já cá não estava, que era duro de roer. O Ramón foi parar ao calabouço, antes de o devolverem ao Vale dos Caídos, onde acabaram com ele. E a dona Mariazinha e a irmã ficaram sem escola, que as professoras desapareceram daí.
À saída, depois das alongadas despedidas, passa o viajante por uma escola abandonada. Mas não era a desta história. E pensando um pouco mais, conclui o viajante que o rei que Moreira teve não foi o pobre Dom Sancho.

Jorge Carvalheira

CÔRTE? CÓRTE? UM ESPANTO.

Eu já tinha lá passado, no blogue Intermitências da Corte. Lá. Aqui. Mas agora foi para ficar.

A história curta, e mais ainda a supercurta, pode ser um espectáculo. Alguns dos seus cultores habitam o meu Olimpo privado. Como este. E este (comentado aqui). E este.

Os melhores momentos da arte de Confúcio Costa é em tudo comparável aos melhores momentos da arte desses outros. Com uma diferença: a do seu lado cru, com dedos a voarem, com ossos a estilhaçarem-se. É para aficionados – que sempre, incompreensivelmente, os há. Mas é arte, da mais pura, da que mais nos aquece a alma por vê-la feita no nosso idioma.

Fez-se aqui uma homenagem ‘provisória’ a Confúcio Costa. Esta, agora, é definitiva.

Tipo assim

Sou um viciado em linguagem da plebe. Da plebe culta, esclareço, aquela onde mais acontece roçar-me. Assim tipo… Atenção, isto não anuncia nada. «Assim tipo» é já linguagem da plebe que se cultiva.

É assim. Um gajo senta-se incógnito, à escuta, junto a uma mesa com umas… Como? Eu escrevi «É assim»? Não posso crer, isto nunca me aconteceu. Como? Escrevi também «Não posso crer»? Bom, senhores. Esqueçam. Eu não disse nada. Tchauzinho e até mais.

Tá vendo?

Tratam-se todos por você…

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Em 1908, Raul Brandão escreveu um capítulo muito curioso das suas Memórias (publicadas em 1919) que terá algum interesse recordar aqui. Quando nos queixamos de que a malta nova hoje não se preocupa em falar ou escrever utilizando o português escorreito e limpo, faz sorrir esta nota sobre aquilo que alguém definiu ao tempo como gente «smart». Vejamos.

«Distingue-se das outras por várias coisas; por exemplo: desprezo absoluto pela prudente instituição do chaperon (esses entretêm-se com o bluff) – desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortesia corrente (só se cumprimentam as pessoas que passam de perto e essas mesmas com marcada indiferença) – ignorância completas das regras da gramática (isso seria falar difícil) e da ortografia. Cultivam só o corpo diplomático e a religião; vestem bem, jogam muito, dançam muito e bem e flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo algumas palavras que nós dizemos e que são possidónias como: chávena, trem, farmácia, Carnaval, etc. Tratam-se todos por você, alguns têm muita piada e usam todos um ar muito chateado. É da praxe, o calão.»

E para completar, aquilo a que hoje chamamos comunicação social:

«Esta sociedade que anda todos os dias nos jornais, vem do alto até baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindável, tem um cronista célebre, o senhor Luiz Trigueiros e pode ser vista às tardes no Dia e de manhã no Diário Nacional…»

José do Carmo Francisco

Um largo atordoado

As ruas de Moreira têm calçada antiga, do bom tempo, não ficaram à espera que os fundos europeus viessem cuidar delas. E depressa chega o viajante ao largo do pelourinho, vistoso exemplar manuelino com cinco degraus. Cercado de fraguedos e hortas secas, o povoado é pequeno. Filho de estratégias muito antigas, nasceu à sombra do castelo que além está, no alto dum penhasco. Ganhou em esplendores e amplidão de vistas o que perdeu em espaço vital. Afora as casas, algumas modernizadas, tudo o que se pode ver neste adro minúsculo são antiguidades de outro tempo. A primitiva igreja de Santa Marinha, há muito sem usos litúrgicos, ainda hoje tem à porta o padrão das medidas correntes, entalhado nas colunas. Bastando a qualquer um dois côvados de burel para cobrir os ombros, estava aqui a justa medição. E se estes primores de pedra do pelourinho impressionam o viajante, mais o comove a secular gravidade do negrilho ali ao lado. Já sustentou uma frondosa copa, já a perdeu, e agora ganhou outra renovada. Só a frescura da sombra, que o viajante aproveita, é que se mantém igual.
Mais antigas do que o largo, e o castelo, e o negrilho, são estas sepulturas cavadas a picão, na fraga dura. A igreja de Santa Marinha foi-lhes construída em cima, e muitas outras ficaram por aí, disseminadas no largo. Há sepulturas debaixo das casas e dos canteiros de flores, algumas estão cobertas pela base do pelourinho, outras foram ocupadas pelas raízes do negrilho. A julgar pela dimensão e a fundura, dormiram nelas o sono derradeiro adultos e crianças, infantes e anciãos. Fossem eles justos, fossem pecadores, adormeceram todos a contemplar o sol, que todas elas foram escavadas na direcção exacta do nascente. Estão aqui, ombro com ombro, na grande igualação da morte. Mas porque o nascer do sol varia de lugar no horizonte, nem todas são paralelas. Este aqui morreu dos frios do inverno, aquele além sucumbiu às estiagens do verão, põe-se a imaginar o viajante. Se as contas baterem certas, logo aqui se pode ver a falta que faz ao mundo a sombra refrescante dum negrilho, e o fogo dos ramos dele.
Para chegar ao penhasco do castelo tem este viajante que subir uma empinada ladeira. Já passou à porta duma mulher de preto, que tem os figos a secar num tabuleiro, enquanto malha o feijão à sombra dum alpendre. Mas vinha tão afoito e decidido, à procura da cadeira do rei Sancho, que o viajante mal lhe deu a salvação. Muito a custo subiu à cidadela, ao pouco que dela resta, com este sol desapiedado a morder-lhe nos costados. Não viu cadeira nenhuma, e as bagas de suor que já lhe escorrem da fronte põem-no descorçoado. Manuel não está aqui para o ajudar. E apesar do panorama deslumbrante, decide bater em retirada, para escapar à canícula.
Bom refúgio era a sombra do negrilho, se não estivesse ocupada por duas famílias buliçosas, à volta dum farnel improvisado. Vêm dos lados de Aveiro, e andam à procura de alguma casita velha que possam reconstruir, cativas deste silêncio e do sossego da aldeia. Mas fazem tal barulheira que logo veio um vizinho, a explicar as qualidades dum queijo que lá tem para lhes vender. As mulheres falam tão alto que deixam o adro inteiro atordoado, era uma vez o sossego dum largo. E o viajante despede-se do negrilho, algum lugar há-de haver onde matar a sede.

Jorge Carvalheira

really silly seasoning

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Tive um coração de batata, palpitante de possibilidades. Cheio e róseo.
De volta à cozinha abandonada descubro o coração mirrado, encarquilhado. Nem foi capaz de grelar, de lançar raízes. No cesto, um trio de limões, sem sumo nem cheiro, reunia amarelos diversos por fios alvos de bolor.
O meu coração repousa agora num fundo amarelo e fofo. Bem fundo. Chorei bastante, mas foi da constipação. Daquelas estúpidas, de Verão. Sempre se mantém a coerência.

susana

Dança comigo

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sobre um óleo de António Carmo

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiros, soltos, e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei, mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar, mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

José do Carmo Francisco

Vão ajudar, sim senhor.

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Em vésperas de partir para férias, ando a carregar o meu i-pod com diversos discos que, por razões diversas, não fizeram vibrar a minha corda sensível em 2007. Um deles é o novo We Are The Night dos The Chemical Brothers, ao qual tenho resistido de uma forma verdadeiramente parva. Ando há três dias a ouvi-lo de forma intensa e, de facto, este é o disco mais irregular dos rapazes, que tanto tem temas verdadeiramente dispensáveis (ver os singles «Do It Again» e «The Salmon Dance) como canções que, com a necessária dose de irresponsabilidade que me caracteriza, não hesito em apodar de pequenas obras-primas. É o caso de «The Pills Won’t Help You Now», um tema lento e preguiçoso que parece ser um filho bastardo de Kid A dos Radiohead e de The Campfire Headphase dos Boards of Canada. Tim Smith dos Midlake dá, de forma muito competente, a voz ao tema, mas um gajo fica sempre a pensar o que o Thom York teria feito com esta maravilha. Meninos e meninas: a minha música oficial do Verão 2007.

A cadeira do rei Sancho

A Moreira de Rei já chamaram ninho de águias, sobre um montão de rochas. E o viajante concorda. Se das águias não encontra sinal, que o tempo as levou para outros ares, já o ninho cá ficou e rochedos não faltam. Só a história, e a teimosia dos homens no que é seu, explicam um lugar assim. A igreja, logo à entrada, é de antiga fábrica românica, com bárbaros cachorros zoomórficos. O viajante encontrou a chave na porta lateral e foi cumprimentar a padroeira, que é Santa Maria. Já viu os caixotões do tecto, pintados com cenas devotas, e os painéis com figuras de santos, que são uns regalões. No mais ignoto lugar sempre lhes cabe a moradia mais aprimorada, e nunca lhes faltam esmeros e frescuras, como agora podemos ver. As talhas reluzentes de castanho genuíno trazem ao viajante lembranças do padre Júlio, que antes de tomar aqui os paramentos descarregava as pistolas na mão do sacristão.
Do padre já se não lembra Manuel, nem a mulher, que atravessam o largo atrás duma carroça. São velhos, mas não tanto. Só lhes constam as boas famas que ficaram no povo, e ainda se lembram bem da Carlotinha e do irmão, que eram filhos. Ela há muito que se ficou num parto, ele morreu há poucos anos. Mas agora já não têm padre residente, que os não há. Chegou a haver esperanças num rapazola aí do povo, que andava no seminário. Mas um dia tomou-se de amores e resolveu desistir, Deus é quem sabe.
Saberá ou não, isso é outra conversa. O burrico é que parece não ter dúvidas, já lá vai adiante com três sacos de milho e uns molhos de feijão para secar. Os donos seguem atrás e o viajante vai com eles. Manuel andou uns anos na emigração, como toda a gente. Foi onde ganhou dinheiro para comprar esta casa e arranjá-la, aqui à vista do castelo. Mas era uma vida desgraçada, aquela, uns escravos do trabalho. Os filhos lá cresceram, lá casaram, ainda hoje lá vivem. Ele, quando pôde, escapuliu-se, que não há como viver na nossa terra.
– Tivemos cá rei e tudo! Se passar no castelo, há-de lá ver a cadeira!
Manuel esvazia a carroça e recolhe o jumento, que o afligem o calor e a mosca. E a mulher fica a espalhar ao sol as maçarocas, na laja que se estende logo ao traço da porta. A canzoada que ladra ali ao lado é do pároco da vila, que vem rezar os ofícios quando calha. E está tão belicosa a cainçada, que nem deixa conversar. Com batedores assim, o padre há-de ser bom caçador. Mas o viajante fica a pensar que o padre Júlio caçava muito melhor.

Jorge Carvalheira