História supercurta

homenagem provisória
a confúcio costa

Eu fui, um dia, há muito tempo, o homem que inventou a roda. Ressuscitei, depois,
e inventei o travão. Não digo que têm de se lembrar de mim. Mas agradecia.

11 thoughts on “História supercurta”

  1. Belo texto, Fernando. Andei aqui a ruminá-lo lentamente. Gosto muito do ritmo e da cadência (lê-se bem em 3/4, tipo minueto), bem patente, de resto, na sequência dos tempos verbais (PP, P, II, PI). E, depois, do ponto de vista semântico, há aqui uma demonstração de que a soma de duas preposições complementares equivale, de facto, ao universo.

    (Comentário patrocinado por uma bela garrafa de Duas Quintas 2005. Obrigado.)

  2. Dom Manoel, rey de Portugal e dos Allgarves &. A quantos esta nosa carta virem, fazemos saber que Fernam Venancio, noso subdito, morador na cidade de Amastardam, emsynou o uzo do travam nestes regnos, pollo qual Deos nosso Senhor nos livrou de nos finarmos da vida deste mundo, em uma viagem em a nosa real carrosa em a villa d’Alemquer, pollo qual nos praz de lhe fazermos graça e mercê de nam pagar portagem em nenhumas das estradas destes regnos, e asi mandamos a todollos officiaes e justiças destes regnos que o fasam cumprir loguo que desta nosa carta ajam conhecimento.
    Dada em a nosa cidade de Santarem, oje, xviiij dias d’Agosto, Daniel de Saa a fez ano da era de Nosso Senhor Jesu Xpto de mil bc xiij anos.

  3. O escrivão desta carta foi deportado para os Açores como castigo pelo erro cometido ao chamar “cidade” a Santarém que, nesse ano, já deixara de o ser, só retomando o título no século XIX.
    Daniel de Sá

  4. Excelentíssimo Senhor Daniel de Saa, Estimado Escrivão,

    Lamento a deportação que atingiu Vossa Excelência, mais sabendo quanta indisposição para o trabalho forçado haverão de causar os 27 graus na escala centígrada e os 90 pontos percentuais de humidade previstos para hoje na ilha do Seu degredo.

    Mais porém lamento ainda a confusão de que (haja vista o Seu escrito) eu próprio acabei objecto, mas sem a outorga, menos ainda o gozo, das vantajosas consequências que se antolhavam.

    Um indivíduo de nome suspeitamente semelhante ao meu andará por aí, com coche ou carruagem ou sem eles, baixando ou subindo a despesa pública do Reigno. Haveremos de sabê-lo quando o Superintendente do Tesouro determinar novas contribuições.

    Eu, por mim, cá fico, sempre confiante em que a Roda da Fortuna se detenha um dia sobre o meu humílimo nome.

  5. Senhor
    Onde há muito comércio, há muita riqueza; onde há muita riqueza, há muita cobiça; onde há muita cobiça, há muita ladroeira. Pois tal é a indústria humana que nunca se farta de muito possuir, e quanto mais possui mais busca possuir. Eu mesmo, Senhor, já fui preso nas masmorras da Inquisição, e, não sendo santo senão pecador, pela multidão dos meus pecados haveria merecido mil prisões, mas a ela me levou a minha fraca virtude pela traição de homens sem decência que roubam a liberdade e o trabalho e a saúde e o amor e a vida até de pobres escravos que Deus Nosso Senhor criou à sua semelhança, mas que a olhos desonestos e concupiscentes não parecem haver sido feitos à semelhança das alvas ou morenas peles da Europa.
    Não é pois de maravilhar que lhe hajam furtado a carta do nosso rei Dom Manuel, que Deus tem, e isto lhe deve ser tomado em conta, pelo sofrimento em que o deixa, na conta que o Justo Juiz há-de fazer à sua vida. E que venha longe o tempo em que o tempo se lhe acabe para que possa entrar na eternidade que tanto merece. Fiat voluntas Deo!
    Mas que digo, que má fama dou eu a Deus afirmando a sua vontade onde só o mal existe, como se ele fosse capaz de praticá-lo? Mas são estes o seus insondáveis desígnios, que para que haja quem seja santo tem de haver quem seja pecador, não por ser bom o mal senão porque com o mal se provam as virtudes dos bem-aventurados.
    Sofra, pois, Senhor, com virtude cristã a afronta do furto que lhe foi feito, tal como eu suportei a dos piratas holandeses que nos Açores assaltaram o quase naufragado barco em que eu voltava de Terras de Santa Cruz, levando para a Holanda os meus livros, a coisa que além da minha mesma alma é a mais preciosa que possuo. E que, assim como eu logrei resgatá-los, embora a duras penas, que sempre tive, mas com dinheiro, que nunca tive, conceda-lhe também Deus o resgate da carta que tão merecidamente lhe foi outorgada.
    De Vossa Senhoria servidor
    A. V.

  6. Cá está o escriba a penitenciar-se uma vez mais. Não sei a que pena de exílio me condenará Deus no Purgatório, pois ao transcrever o latim imaculado de A. V. transformei um genitivo num dativo. Que me seja leve a pena!
    Fiat voluntas Dei!

  7. Cavalheiro,

    Vejo que viveu vidas, mudou de nomes, e que das vidas que viveu guardou linguagens. Muita piada tiveram essas falas da moda. Umas onduladas, outras dengosas, todas deprimentes.

    Hoje fala-se a despachar. Trás pás, e andor. Há lá pachorra para ademanes, para rendilhados, para salama… Comé que se diz? Ora. Coisa assim.

    Pois, leva você multa suspensa pelo latim. Eu inda discuti com o colega que me lê os mails e mos classifica, se aquele dativo não era de respeitar. Disse-lhe que o latim, pelo menos o vulgar, bem podia conhecer já aquela sintaxe, afinal indo-europeia, do tipo assim: «Eu conheço-te as manhas». Faça-se, pois, a vontade… a Deus. Há em todas, ou quase todas, as línguas aqui do continente (sem desprezo pelas ínsuas). Mas ele, o meu filtrador, não se convenceu.

    Enfim, ao que íamos. Já nem sei.

    Pois fique bem, amigo. Ou, já me lembro. Para castigo, mande lá ao Fernam aquele uma cartinha em baixo latim já galeguizado. Teve alguma vida por ali? Ele, com uns infólios que guarda cioso, há-de lá chegar.

    Fique bem. Ou já disse? Bem. Bem mesmo.

  8. Pois sim, meu Caro Sr., eu tive muitas vidas e o meu amigo é bruxo. Numa dessas vidas fui Rodrigo de Aguilar, trovador da corte de D. Sancho, o tal cujo amor tanto tardava na Guarda. Desse amores chegaram descendentes aqui à Maia, onde nasci e vivo, e alguns são meus primos e duas são minhas sobrinhas, mas de mim, pelo menos até ao século XVI, não consta que amantes tenham parido filhos de que eu descenda. Gente séria, da mesma mesa e da mesma cama, sempre. Garante-mo um amigo que estudou estas coisas.
    Pois bem, amei também não a famosa Ribeirinha, mas D. Maria Aires de Fornelos, a quem dediquei uma cantiga. Informo-o de que D. Sancho me tolerava, e até tentou humilhar-me um dia dizendo: “Vós non sabedes amar, / Don Rodrigo d’Aguilar.” E apontava para D. Maria Aires. Eu respondi-lhe: “Quitad’o manto real, / e veeremos a qual.” Saiba que nasci em Aguilar de Campoo, o nobre burgo de Rodrigo Díaz de Bivar, em honra de quem meu pai me deu nome. Mas é tempo de lhe deixar aqui a cantiga, não sem dizer quanta coita me causou que “senhor” deixasse de servir para dizer “senhora”, e assim nunca mais pude rimar “amor” com “fremosa senhor”, o que foi o maior prejuízo que a língua mudada causou aos poetas.
    Eis o poema. Sei que o compreenderá, e por isso não mando transcrição. Só gostaria de saber se o recebeu aí na hanseática cidade.
    Ai fremosa senhor,
    Por vos aver amor,
    Que mal ei eu?

    Sen vós non cuido ren,
    Ei mal por querer ben.
    Que mal ei eu?

    Per vostr’amor perfia
    Tomei eu en mal dia.
    Que mal ei eu?

    Non sodes d’amor migo
    Ca avedes amigo.
    Que mal ei eu?

    El sol vos quer amar,
    Non vos quer en’altar.
    Que mal ei eu?

    Voda vosco non pon,
    Sabedes sa razon.
    Que mal ei eu?

    En’altar non verei
    A frol a qu’amor ei.
    Que mal ei eu?

    Senhor, non direi ar
    Qu’assi vos quix amar.
    Que mal ei eu?

  9. Mal andei eu que, ao pedido de vos enviar uma carta, repondi com uma cantiga de amor do tempo em que andei pela corte de D. Sancho.
    Abaixo vai a carta, e nela me espanto de que, a respeito do ar da minha terra, pudésseis ter-me dito o seguinte: “os 27 graus na escala centígrada e os 90 pontos percentuais de humidade”.
    Senhor, son maravilhado ca sedendo vós mui alongado d’aquesta terra u soio seer podessedes mi dizer quantas canadas d’auga avia eno seu aar e a guisa de como el siia caente. De pran con muito sen sabedes aquestas rens de muito maravilhar. Loemos Deus ca á dado aa molher conhocer o bem e o mal e en non averá o ome de lazerar aver conhocido per ela aquesto que non ouvera conhocido per son sen.
    Son mui ledo de m’averdes quitado o castigo eno fogo.

  10. Querido Daniel e senhor Fernando Venâncio
    Obrigada pela gostosura de vosso genial e divertido diálogo.
    Um beijo, Lélia

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