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ViMus – José Pinheiro

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A Póvoa de Varzim vai ser a partir de amanhã o palco da primeira edição do ViMus, o primeiro festival internacional de vídeo musical organizado em Portugal. O programa (PDF) é uma verdadeira maravilha: para além dos 36 videoclipes a concorrer na competição nacional e dos 92 na internacional, estarão igualmente em competição seis documentários nacionais: Não me obriguem a vir para a rua gritar (sobre Zeca Afonso) de João Pedro Moreira, Humanos (sobre António Variações) de António Ferreira, Enciclopédia Hip-Hop de Uncle C, NU BAI (sobre o rap negro de Lisboa) de Octávio Raposo, Filhos do Tédio (sobre os Tédio Boys) de Rodrigo Fernandes e Rockumentário (sobre a cena rock de Coimbra) de Sandra Castiço. Fora de competição será exibido o bem conhecido Brava Dança de José Pinheiro e Jorge Pires, uma seleccção comissariada por Luís Cerveró de vídeos musicais realizados em Espanha nos últimos anos sob o título genérico de Ecletia, enquanto que o realizador espanhol Carlos Saura levará ao festival a sua triologia dedicada à canção urbana com os documentários Flamenco, Tango e Fados.

Como no melhor pano cai a nódoa, a malta boa-onda que organizou este magnífico evento lembrou-se aqui do meu desastre de pessoa para escrever um texto para o catálogo sobre a interessantíssima restrospectiva que o festival vai exibir da obra de José Pinheiro, o pioneiro do videoclipe em Portugal. Esse convite, como é óbvio, provocou um grande pânico em mim, pois há vários anos que sou fã da obra do Zé. Mais: quando há cerca de dois anos comecei a colaborar com a MTV Portugal na criação do programa canino que é a menina dos meus olhos, quis o destino que fosse também do Zé Pinheiro o primeiro vídeo que vi nos escritórios da Avenida das Forças Armadas: o belíssimo Apontamento da Margarida Pinto. Deixo aqui de seguida o texto (com hyperlinks, embora não tenha conseguido encontrar todos os vídeos de que falo na net), até porque o seu incipit resulta do aproveitamento do primeiro parágrafo de um post que aqui escrevi há uns meses. Espero que gostem, não propriamente do texto, mas da viagem que lá proponho pela magnífica obra do Zé Pinheiro. Ah: já agora, estão todos convidados para a sessão especial que vai abrir amanhã o festival com uma selecção canina de vídeos lusófonos. A entrada é livre.

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Ligeiros anos

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No eléctrico, a menina, dezoito ligeiros anos, faz questão de levantar-se.
– Não se quer sentar?
O veículo tivera um arranque violento, e eu precisei de deitar a mão, rápido, a uma argola.
Foi aí que ela reparou nos meus cabelos brancos.
– Não, muito obrigado.
E, ridículo, sincero, não pude conter-me:
– É que ainda sou novo, sabe?
Era a maior das verdades. Subo escadas a correr – ainda subo escadas a correr – e desço-as
dois a dois e com um rasto de elegância. Mas ela, a mocinha, nunca poderia adivinhá-lo.
– Mas, se quiser, sente-se.
Menina linda. Bem-educada. Cruel.
Não me sentei. Sorri apenas. Gentil. Vingativo.

A sonoridade do Português

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Não poderia discordar mais deste post do nosso venerável Fernando Venâncio. E por diversas razões. Em primeiro lugar, porque a sonoridade de uma língua não advém do seu sistema fónico – se a língua é uma música (que é), o sistema fonológico de uma língua é apenas a sua escala e nada mais do que isso. Depois, porque todos os raros vocábulos que o Fernando saca às obras do Aquilino Ribeiro naquele seu belo exercício nem sequer possuem qualquer fonema mais peregrino da nossa língua. Mas há mais: a sonoridade de um língua não depende do seu léxico ou vocabulário, mas sobretudo da sua sintaxe. Ou seja: não é através de um corte e cose de palavras que se consegue dar um aroma do estilo de Aquilino, na medida em que isto apenas fornece algumas notas musicais e não a sua melodia (que, como é óbvio, é ali da exclusiva responsabilidade do Fernando). Finalmente, porque não existe tal coisa como a sonoridade de uma língua: qualquer língua que se preze possui uma infinidade de sonoridades que lhe são conferidas pelos seus falantes. A sonoridade de uma língua está na forma como cada um de nós actualiza a potência da nossa língua, impregnando-a com as idiossincrasias do nosso aparelho fónico (fisiologicamente falando, é claro), a nossa prosódia e sotaque. A literatura até pode ser uma bela partitura de uma língua, mas não passa mesmo disso. Como dizia Sá Carneiro, o que interessa mesmo é o intérprete. Que por vezes toca lindamente de ouvido.

Como soa o português?

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Sim, como soa o português? Nenhum de nós sabe. Tal como a água não tem sabor nem o ar cheiro. Isto, normalmente. Mas é verdade: não podemos sair do português e saber como ele soa. Ouvi-lo de fora, digamos.

Não podemos? Ora experimente. Leia este texto a um amigo. Ou, mais exactamente, peça-lhe que lho leia a si. Você não vai entender nada. Mas saberá, finalmente, qual o cheiro, e o sabor, e o som do seu idioma.

O VAGANAU

Quando, nesse dia, a grande zorata se escabajou, fachona e esampada, lastraram-se os macanjos, não os mais coitanaxes, mas os futres. As récegas, ainda mal forjicadas por uns chambris sem galilé, experluxavam todas murzangas e resulhas, debaixo do mesoneiro.

Perto, esbagoavam-se as caiporas no seu ousio brês e solerte, empanzinando o mandil das chedas mais cainhas, enquanto o bom do gerifalte, cada dia mais zambro e somítego, estroncava zarcamente o bajoujo.

Onde se entroncava a sancadilha, onde? Empanizava ela com os pegamaços ainda cóscoros, ou alapardava-se nos pelouzanos do galaroz? Malditas búseras, a que nem os piores malcatrefes refertavam. O jagodes choutou novamente as rópias de seu já velho taró e engabelou-se no ralão de codeço.

Nunca mais se eslavoiraram as lagóias. E desde esse dia a calhatroz esmoeu toda a sirga que matejara nos olharapos ladravazes da pandorga.

Este texto foi composto com vocábulos retirados de obras ficcionais de Aquilino Ribeiro.

«Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Este livro de crónicas descreve uma viagem no tempo português dos anos 50 e 60 em duas cidades: Horta e Lisboa. Na Horta os filmes vistos no Salão do Sporting Clube da Horta vinham revelar um mundo «vasto e variado onde havia muito mais na vida que frequentar as aulas, regressar a casa no cortejo dos alunos do Liceu, vestir o fato aos domingos, pentear o cabelo, escovar os sapatos, espera as meninas depois da missa.» Já em Lisboa o autor vem encontrar cafés não iguais ao Internacional ou ao Volga mas onde era ainda possível «trocar ideias, impressões, experiências, contar anedotas, comentar estreias, novas publicações, jornais, discutir, conspirar, escrever poemas e manifestos».

Mas escrever sobre a «maior cidade pequena do Mundo», como lhe chamou Pedro da Silveira, é também lembrar os mestres e maquinistas dos barcos do Canal que arriscaram as suas vidas para salvar outras vidas, doentes em perigo, mulheres em trabalho de parto: Mestre Guilherme, mestre Alfredo Saca, mestre Augusto Pau de Lérias, mestre Simão.

Há aqui memórias de livros e autores, etapas de uma outra viagem de Mário Fraião: Jorge de Sena, Fernando Arrabal, Gonzalo Torrente Ballester, Teixeira de Sousa, Francisco Coloane, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Carlos Faria, José Martins Garcia, Rui Duarte Rodrigues, Almeida Garrett, Pedro da Silveira. Mas sempre, acima de tudo e para além de tudo, o fascínio das viagens: «Pedaços de nós mesmos que sugerem o dia de São Vapor nas ilhas pequenas, as partidas na doca da Horta, as despedidas, mulheres a chorar, um caixeiro-viajante a contar anedotas, os bagageiros transportando as malas e os sacos de viagem pelas escadas íngremes e muito estreitas, os diversos sinais de aviso aos passageiros, a espumas das hélices. O apito final. Largaram-se os cabos, «adeus, adeus», soltam-se os lenços, chapéus e cachecóis. Alguns vão a Lisboa tratar de assuntos particulares. Outros, talvez, não voltam nunca mais.»

Um livro para ler e devorar, tal a paixão quer percorre as suas páginas.

Fotos: Júlio Vitorino da Silveira
Edição: Albagrafe Lda.

José do Carmo Francisco

Poema das sete viúvas de Moura

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Na rua das sete viúvas
Travessa do Fala Só
À noite tiram as luvas
E vão jogar dominó
Depois de lavar a loiça
Fica um pano a tapar
Um barulho que se oiça
O encontro é o lugar
Das sete viúvas na rua
Sete viúvas no espaço
A luz é dada pela Lua
O encontro é o abraço
Na rua de sombras tortas
À noite pára o trabalho
Depois fecham as portas
E dividem um baralho
São sete falta um parceiro
Para formar duas mesas
Ninguém joga a dinheiro
Nem espera por surpresas
Na rua de sombras tortas
Por causa da geometria
As memórias quase mortas
Procuram a luz do dia
Rua das sete mulheres
Onde me deixo ficar
Num arquivo de saberes
Na vertical do lugar
Rua dos sete sentidos
Em busca da direcção
Tantos amores perdidos
No espaço do coração
Rua das sete virtudes
Dentro de cada casa
Água fria em almudes
Calor de fogo na brasa
Rua das sete canções
Cantadas muito baixinho
Por quem faz dos serões
Maneira de ser vizinho
Rua das sete senhoras
Nesta rua de um só lado
O relógio não tem horas
Todo o tempo é passado
Rua dos sete caminhos
Onde nasce uma moral
Todos dormimos sozinhos
Mesmo em cama de casal

José do Carmo Francisco

Perplexidades de deus

Tinha jurado a mim mesmo que o não iria maçar com a tal opiniãozinha. Por uma questão de pudor. Mas quando larguei a obra, entrou-me na cidadela uma suspeita, por alguma porta da traição.
Deixou-me num desalento. Com a compostura da forma, com a pertinência do tema, com a estrutura bizarra, com o hibridismo do género, com o título duvidoso. Senti-me um aprendiz de feiticeiro. De modo que agarrei no manuscrito e fui meter-lho na mão.
Para meu conforto só restava uma certeza. A de que ao sétimo dia Deus não dormira a sesta, como dizem. Antes se foi à fala com o diabo, a ver se estava em ordem o correr dos rios, a fúria das ventanias. A ver se batiam certas as dunas e as marés, a tirar alguma pinga do telhado. E a perguntar que nome dar àquilo.
Jorge Carvalheira

pueril

As copas dos choupos estacaram a escutar o fim do dia. Acima do rubor no horizonte ha’ nuvens. Duas vogam em sentidos opostos, misterios do vento, viração. Uma e’ compacta, robusta. A outra fragil, longilinea. Ambas de chumbo e de cobre.
Mudam, torcem-se, no caminho. O encontro na retina de quem olha. Entram uma na outra, desfazem-se. Transformam-se e prosseguem, desdobradas, para nascente. Decompostas, seguem as rosas na frente, arrastando o peso plumbeo sem esforço. Vão leves.

susana

Benesse dos deuses

Posto de conversa com Jorge Carvalheira, descobriu Daniel de Sá, num recuncho da sua manjedoira, este manuscrito. Não sendo todos os nossos leitores destros furões (mas alguns são-no), puxámos o valioso texto para aqui. Eis:

SenhorHesta verdade he puvriqua e bem sabida que asy como a sargento que sube de segundo a prymeiro loguo lhe outhorga Deos que elle aja intelligencia de prymeiro, asy a nosos ministros da noso Senhor intendimento de ministro, pollo quall cada acto de mandar podeloham fazer muim bem feito; e mais he sabido que o Regno do Allgarve era asy dito, como se lee em o titolo de nosso glorioso rey – Dom Manuell, per graça de Deos Rey de Portugall e dos Allgarves daquem e dalem maar em Africa senhor de Guinee e da conquista e navegaçam, commercio de Ethiopia, Arabia, Persya e da India; pollo que se vee que o ministro Manuell Pinho tem muyta rezam em mandar que o Algarve seja Allgarve, mas quamto a querer tambem mandar o Regno pera ese tempo em tall nam quero cuidar, e esto contra todallas e quaesquer openiõoes que o governo do doutor Santanna Lopes nam ouve tempo de fazer sandices senão de dizelas, e este governo já vae avendo tempo de dizelas e de fazelas.

Moda campaniça

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado
As casa e os corações
Sempre tudo anda lavado

Popular – Baixo Alentejo

Nesta tarde de nevoeiro
Onde o olhar se espreguiça
Vem do lado do Barreiro
O som de uma campaniça
Vem do lado do Barreiro
Passa por cima do Tejo
Mas o som chega inteiro
Como no Baixo Alentejo
Oiço o coro já se arrasta
No fundo da minha rua
Mas o coro não me basta
Quero ouvir a voz que é tua
Eu faço de cada poema
As cordas de uma viola
E escondo-me no cinema
Sempre que falto à escola
Julgo ver o teu olhar
Na linha do horizonte
Silhueta a atravessar
A estrada para o monte
São casa, são corações
Onde quero ser habitante
Procuro nestas canções
Chegar ainda mais adiante
Quero ouvir-te em directo
Sem recurso ao diferido
Quero um poema concreto
O título está estabelecido
O título está no teu nome
Os versos são os teus dedos
Os meus olhos têm fome
Do doce dos teus segredos

José do Carmo Francisco

Simon Le Bon

Porque o futebol e’ uma cultura de massas (ganha-se muita), Moutinho nao vai do estadio para a sucata. Nada se perde e tudo se transforma: sera’ desmontado e vendido ‘a peça.
Isto nao contextualiza o titulo, bem sei. Precisava, contudo, de assinalar a bondade do rapaz. E’ optimo – sobretudo de costas.

susana

O ironista

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Detenhamo-nos um instante nessa quinta-feira, 2 de Junho de 1994. São nove e meia da manhã. Eduardo Prado Coelho barra concentrado o seu croissant, de olhos distraídos no Libê, quando se apercebe do ronronar do fax. Aquilo acontece mais vezes, editores e outros amigos não o deixam meia hora ínscio da imprensa nacional.

Eduardo aguarda pois, e só consumido o folhado se dirige, em passo rotineiro, para a fonte dos escândalos. «Isto é comigo», pensa sempre. Ali, era. Eduardo enterra-se no sofá e percorre o texto. Cresce nele uma doce hilaridade, qualquer coisa lhe diz: «Agora caladinho, porque só os tontos que me detestam se hão-de divertir com isto, e eu sou aqui o último a rir, depois de ter sido o primeiro.» Ora, por incrível que pareça, Eduardo desprezou este momento de graça.

Foi publicado no JL em 1995
e republicado em Maquinações e bons sentimentos em 2002
Leia, abaixo, «O ironista» completo
.

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Epifania

A frase primitiva é benesse dos deuses, há-de ser verdade, se o disse um francês. Aparece à hora mais acidental, e fica a iluminar o que obscuro andava, a ruminar saída na treva original. Umas vezes é primeira. Porém outras a última será, mas sempre definitiva e terminal.
Depois é dar as outras ao papel, que saem em torrente, antes que um vento as leve. É roçá-las nos lábios, devagar, para arredondar arestas. É impor uma cadência, sondar uma harmonia, tentear-lhes o ritmo, forçar um andamento. A língua do leitor há-de lambê-las com volúpia, e essa não é contorcionista, nem gosta de fazer saltos mortais.
Dizem que tudo parte dum bafejo dos deuses, e eu não sei como se avêm os ateus. Mas já me fui deixando de ateísmos.

Jorge Carvalheira

Adeus, Eduardo

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Ontem li, no Público, a crónica dele. Tinha graça, mas já não a força de antanho. Vi-o em Maio, na Fnac do Chiado. Ao despedir-me, abracei-o. Era a primeira vez na vida, eu sentia que era também a última.

Neste lugar, que é um bocadinho meu, fica a recordação do homem que disse de mim coisas que não lembram ao diabo, mas acrescentando que, se o V. agora entrasse por aquela porta, teria o maior prazer em recebê-lo.

Agora foi ele quem entrou por essa porta, mais que todas, tremenda. Que ela o conduza ao mais tranquilo e verde dos espaços.

Canção da Musa*

Dê-os, Leda
Dê selado:
sela dedo
– dedo lesa.

Dele doas
Sado dele.
Dás de elo
dose dela.
És do dela,
soda dele.

Refrão
Desde olá
Sade de ló
Sede do lá
De sal e dó
(repeat)

Ode de sal
a do deles.
É de solda
e de saldo.

Ode delas
Dê de loas
(deles doa).
Sele dado.
Se de lado
dê de sola.

Refrão

susana

*Anagramas, acentos e pontuação patrocinados por Swimmer’s Digest e sanitários Roca

Foz do Arelho, ouvido cândido

São mais cás mães, pá. E aparecem, sem avisar, em tudo quanto é sítio, mesmo público, mesmo assim tipo discreto. O que mais por aí há são héteros, é o que eu te digo. Héteros. Nunca ouviste falar? Daqueles gajos que…, eh pá, tu percebes, não disfarces. E vêm, sim, vêm como calha: sozinhos, juntos, aos pares, claro, mas não se ensaiam por virem também aos magotes. Um gajo topa-os logo.

Também, pá, não escondem. Nem um nadinha de decoro. De urbanidade, digamos. Dantes não era assim. Dantes essa malta escondia um bocadinho. Fachada, meu, pois era, fachada pura, tá-se a ver. Mas sempre era outra coisa. Agora até os miúdos reparam, já viste? Até os miúdos. Que é que um pai vai dizer, se vêm com perguntas? Sim, um tipo não vai… Tá bom, há maneiras de rodear a coisa, eu sei. E os putos entendem. Às vezes entendem até mais que sei lá o quê.

Mas não devia ser. Não devia, pá. Quer dizer, eu nem sou contra. Nunca fui. Cada um lá… Ãh? Pois, pois falam, falam muito em liberdade, em assumirem, em «todos diferentes», comé quié? «Todos diferentes»… Isso, «todos iguais» tarantã. Mas depois um gajo é que os grama.

E são, são uma data deles. Vai por mim, meu. Mais cás mães.

Os olhos de Rosário

É nos olhos de Rosário que se principia
Todo o ritmo dos momentos desta casa
Há neles o verde do pinhal, a ventania
E a chama da lareira, sempre em brasa

Nunca desiste do seu olhar, preocupada
Para que tudo seja para todos harmonia
Acorda sempre com a luz da madrugada
E só descansa quando chega o fim do dia

E mesmo a voz é no olhar que se desenha
E até as mãos partem do olhar à procura
Trazendo nas palavras um calor de lenha
E nos seus gestos um bálsamo de ternura

São faróis que durante uma tempestade
Ajudam os outros a encontrar a bonança
Os olhos de Rosário são a luz e a verdade
Que nasce todos os dias – e não se cansa

José do Carmo Francisco