Como soa o português?

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Sim, como soa o português? Nenhum de nós sabe. Tal como a água não tem sabor nem o ar cheiro. Isto, normalmente. Mas é verdade: não podemos sair do português e saber como ele soa. Ouvi-lo de fora, digamos.

Não podemos? Ora experimente. Leia este texto a um amigo. Ou, mais exactamente, peça-lhe que lho leia a si. Você não vai entender nada. Mas saberá, finalmente, qual o cheiro, e o sabor, e o som do seu idioma.

O VAGANAU

Quando, nesse dia, a grande zorata se escabajou, fachona e esampada, lastraram-se os macanjos, não os mais coitanaxes, mas os futres. As récegas, ainda mal forjicadas por uns chambris sem galilé, experluxavam todas murzangas e resulhas, debaixo do mesoneiro.

Perto, esbagoavam-se as caiporas no seu ousio brês e solerte, empanzinando o mandil das chedas mais cainhas, enquanto o bom do gerifalte, cada dia mais zambro e somítego, estroncava zarcamente o bajoujo.

Onde se entroncava a sancadilha, onde? Empanizava ela com os pegamaços ainda cóscoros, ou alapardava-se nos pelouzanos do galaroz? Malditas búseras, a que nem os piores malcatrefes refertavam. O jagodes choutou novamente as rópias de seu já velho taró e engabelou-se no ralão de codeço.

Nunca mais se eslavoiraram as lagóias. E desde esse dia a calhatroz esmoeu toda a sirga que matejara nos olharapos ladravazes da pandorga.

Este texto foi composto com vocábulos retirados de obras ficcionais de Aquilino Ribeiro.

20 thoughts on “Como soa o português?”

  1. O meu avô Zé Almeida além de músico e carpinteiro, era apaixonado pelas palavras. Chamava pandorga à minha irmã do meio, chamava briol ao vinho e baiúca à taberna. E dizia coisas como «o homem come para viver, não vive para comer»…

  2. ai jesus, e isso e’ portugues.
    ontem lia sobre chaucer, e soube que tinha um vocabulario de oito mil palavras, triplicado por shakespeare. o segundo beneficiou do patrimonio do primeiro; felizmente, ainda ha quem va’ tomando conta do nosso…

  3. Por acaso não sabia o significado da palavra “baíuca”. Na aldeia onde eu vivi e onde ainda vivem os meus pais existe uma ponte a que chamam da “baíuca”, a “baíuca” que deu o nome à ponte é que já não existe.

  4. Recebi do escritor J. Rentes de Carvalho (veja-se o seu blogue «Tempo Contado» com link na entrada do Aspirina) este mail, que agradeço e com gosto aqui divulgo:

    Caro Fernando,

    Lendo há momentos a sua compilação aquiliniana, recordei que em tempo remoto me tinha dado a uma brincadeira, pela simples razão de que me enfastiava ler e ouvir dizer que o vocabulário de Aquilino era o puro da gente das Beiras. Em minha opinião não era, nunca foi, sim invenção dele.

    Procurei entre a minha papelada e achei o que, no dia 6 de Março de 1964, tinha sido uma das maneiras de despoletar a minha irritação contra o linguajar do homem do “Malhadinhas”. Reza assim:

    À moda de Aquilino Ribeiro

    Pituegas ceifadias chuteavam em garupos de dezena, trinta, cinquenta, algumas já desbitoradas, pagueanas, torlocidas por andilações nos estamunhos de Seca e Meca, gorifando aqui, tipatecando alhures, bértolas tripudas que ningum nem alium teria galifantes bestirados ou capazes de, com susfitura de miná e teruenças protes, bajunear desfitocado a mérrima estevaloca dos albrengues fungatiços e demais cafins.

    Dolá! Catifabas sibadavam porliures, bastofas, trudiposas, catinas, de manjeira dotapista, a ponto que num albucerque tiradino o jurifaltas se rebirbarou arratocado, apegando na jogalona dos tirantes paternotes, mais borra que bosta, butifado nas jenocas do intério.

    Alvadêses, sedíferos, esfomatados, todos eles fartos de ironguiças, tripétes e alundes.

  5. Este texto é um caso clínico.
    Valupi, acho que ele tem sido subvalorizado. Li algumas obras. Gostei bastante. O Lobo Antunes custa-me mais. Acho que vou morrer sem apreciar a obra do Antunes. Não dá, não dá.

  6. Valupi,

    Aquilino foi, em vida, amplamente sobrevalorizado. Grande romancista? Ele andava perdido naquela imensidão. (Caso de outros, de resto, como Lobo Antunes, valha esse óptimo exemplo). Ok, «A Casa Grande de Romarigães» é um belo livro, mas pouco mais lhe saiu assim. «O Malhadinhas» é um exercício de estilo.

    Mas escrevia com garbo, era um excelente estilista – quando não se punha a escrever «à povo».

    Cláudia,

    Esse texto não é um caso clínico. Lê bem. O texto não é de Aquilino, se acaso o pensaste.

  7. Muito bom mesmo. Importas-te que “roube” isto lá para o meu tasco? Não te preocupes que a autoria será respeitada, porque o respeitinho é muito bonito.

    Abraço.

  8. Epás, e então ‘Quando os lobos uivam’? Que belo livro achei eu, ainda por cima mexia com o que eu estudava, ainda hoje bato palmas, ficaram a ecoar…

  9. Luís Romudas,

    Está feito, não é? E ainda por cima está bem feito. Um abraço.

    Sem-se-ver,

    Não se acanhe. Outro.

    Z,

    Se calhar foi isso: o livro mexia com o que estavas a estudar. Porque, por ele, é um bocado enfadonho, não sei se concordas. Mas guarda, guarda essa boa recordação.

    JP,

    Sobrevalorizado, decerto, o FdeC. Mas lembro-me da emoção com que li, pelos dezasseis anos, «A Lã e a Neve». Mas lá está. Deve ter sido da idade.

  10. Não digas asneiras, João Pedro. Adoro A Selva.
    fv, nunca pensei isso! Aquilino é escrita! Outros também subvalorizados é o Soeiro e Alves Redol.

  11. Olá maninos lindos do meu curaçon! Retornei ao servicinho de vocemecês… Para trás deixei os gigos e os canistreis limpinhos e prontos para a apanha do branco, lá para o fim deste satembro, onde o senhor malhadihas bateu com o cu nos corregatos da várzea. Espero uma mãozinha vossa…

  12. Não, Fernando, não achei nada enfadonho. Li quando tinha vinte e poucos e reli uns dez anos depois ou assim. Está excelente a descrição da paisagem das atitudes e mentalidades que empinheiraram o centro do país por volta do meio do século passado.

    Com a vantagem que ele conhecia o nome das plantas silvestres todas…

    Mas não tiro que eu poderia ter um interesse profissional e político no assunto, a componente subjectiva da recepção, que amplificou o impacte

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