A sonoridade do Português

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Não poderia discordar mais deste post do nosso venerável Fernando Venâncio. E por diversas razões. Em primeiro lugar, porque a sonoridade de uma língua não advém do seu sistema fónico – se a língua é uma música (que é), o sistema fonológico de uma língua é apenas a sua escala e nada mais do que isso. Depois, porque todos os raros vocábulos que o Fernando saca às obras do Aquilino Ribeiro naquele seu belo exercício nem sequer possuem qualquer fonema mais peregrino da nossa língua. Mas há mais: a sonoridade de um língua não depende do seu léxico ou vocabulário, mas sobretudo da sua sintaxe. Ou seja: não é através de um corte e cose de palavras que se consegue dar um aroma do estilo de Aquilino, na medida em que isto apenas fornece algumas notas musicais e não a sua melodia (que, como é óbvio, é ali da exclusiva responsabilidade do Fernando). Finalmente, porque não existe tal coisa como a sonoridade de uma língua: qualquer língua que se preze possui uma infinidade de sonoridades que lhe são conferidas pelos seus falantes. A sonoridade de uma língua está na forma como cada um de nós actualiza a potência da nossa língua, impregnando-a com as idiossincrasias do nosso aparelho fónico (fisiologicamente falando, é claro), a nossa prosódia e sotaque. A literatura até pode ser uma bela partitura de uma língua, mas não passa mesmo disso. Como dizia Sá Carneiro, o que interessa mesmo é o intérprete. Que por vezes toca lindamente de ouvido.

15 thoughts on “A sonoridade do Português”

  1. voces hoje acordaram inspirados. essa ideia de partitura e’ boa. e mesmo tocando de ouvido ha qualquer coisa que se ouviu, certo?
    entretanto, se pegares nas interpretacoes de bach por glenn gould, vais ver como o gajo pega nas notas mas produz algo absolutamente novo, esta’-se cagando para as anotacoes e ornamentos, altera a velocidade, toca stacatto onde era pianissimo. mesmo assim, fica la a melodia, e a melodia e’ tao fundamental como a harmonia.
    o texto do fernando tem um piadao, precisamente porque ouvido nao nos lembra o portugues… mas e’! o’ ironia.

  2. Resposta rápida (aguardando outra):

    JP,

    Se hoje me chamas «venerável», que horrores terei de encaixar daqui a vinte anos?

    Bom, concedo, sabê-lo-emos a 2 de Setembro de 2027. Só não sei como. O mail, a internet, o computador, nada disso funcionará já. Se calhar, os horrores serão espalhados nalgum éter, ondulando mundo afora.

    Mas coisa boa não podem ser.

  3. Vocês estão engraçados com a deriva aquilineana. Deixa estar Fernando, se o JP tivesse dito ‘venerando’ é que era grave, passavas por gordo e abade. Assim, venerável, ainda dá para fazer marotice…

  4. Descansa Claudia, as beiçolas da menina da entrada de baixo também só a ela lhe pertencem e a malta sobrevive a isso.

  5. Primo: estás a falar das escalas. O Blues tem a sua, o Rock idem e o Jazz um infinidade delas. Mas a sonoridade de uma língua não é uma melodia, mas uma harmonia, isto é, um intervalo de acústica de sonoridades. Mas o que define mesmo uma língua é o uso que os falantes fazem dessas sonoridades. E aí, das que conheço, o Português é de uma riqueza impressionante.

    Fernando: pelo menos já cheguei à fase do marau. :)

  6. Vavô é capaz de beber uma bia mesmo que esteja caindo sinó. Aquilo é um tal abrir a frisa todo o dia, e a boca parece um mechim, enquanto vai ouvindo o recapleia. Ele foi sempre assim desde que chegou a Folrível. E quando ia para a estoa levava sempre uma garrafinha de cachaça escondida nos alvarozes para enganar o bossa. Ele tem garrafas de cachaça nas floras todas da casa que é um louvar a Deus. Chegou a draivar com cada piela que vocês não fazem ideia.
    (etc.)

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