Adeus, Eduardo

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Ontem li, no Público, a crónica dele. Tinha graça, mas já não a força de antanho. Vi-o em Maio, na Fnac do Chiado. Ao despedir-me, abracei-o. Era a primeira vez na vida, eu sentia que era também a última.

Neste lugar, que é um bocadinho meu, fica a recordação do homem que disse de mim coisas que não lembram ao diabo, mas acrescentando que, se o V. agora entrasse por aquela porta, teria o maior prazer em recebê-lo.

Agora foi ele quem entrou por essa porta, mais que todas, tremenda. Que ela o conduza ao mais tranquilo e verde dos espaços.

10 thoughts on “Adeus, Eduardo”

  1. É a segunda morte de uma figura pública que me comoveu (a primeira foi a do Vergílio Ferreira). É uma perda tremenda para a cultura portuguesa. Deixa uma obra académica única no panaroma europeu (Os Universos da Crítica) e na imprensa, onde as suas crónicas eram uma companhia diária insusbtituível. Eu, que tinha a esperança de poder vir ainda a ler a sua tão adiada primeira obra romanesca, recebi essa notícia com uma profunda surpresa e uma não menor tristeza. Estamos a ficar velhos, caralho.

  2. Há muito tempo que ele tinha perdido a relevância teórica, mesmo a intelectual. E o tique de polemista tinha-se transformado numa reacção compulsiva, numa caricatura, num modo de (a)parecer patético.

    Antes de ter sido colocado no interior, habitou na última página do Público. Foi a sua melhor fase, desta última fase. Um encanto estevescardosiano perfumava as suas prosas curtas, pop, ígneas. Um tonto qualquer acabou com isso.

    Morreu. Mas viveu. O que nem todos vão poder reclamar.

  3. O EPC estava de facto a destruir a pouco e pouco a aura que durante tanto tempo mereceu. Decerto teria preferido continuar essa destruição, e nós também. Porque, para ele, ao menos isso queria dizer que estava vivo; e, para nós, ainda era melhor lê-lo do que a muitos outros. Apesar de uma não disfarçada convicção de superioridade sobre muitos que deveriam ter merecido mais respeito da sua parte.

  4. e’ verdade que as capacidades se deterioram, muitas vezes, com o envelhecimento. muitos dirao “mais valia que parasse” (outros, maus, dirao ate’ “mais valia que tivesse morrido no auge”, mesmo de si proprios”). mas continuar a pensar, a fazer, ainda que nao tao bem, e’ bem mais meritorio do que parar a bem da vaidade, da gloria. exige humildade, quando se e’ critico.

  5. A mim já me bastava saber que EPC, na sua qualidade de crítico e ‘patriarca’ da coisa, nunca tenha misturado e confundido qualidade literária com amizade e simpatia pessoal.
    Infelizmente para a literatura, não tenho essa certeza.

  6. João Pedro da Costa:

    Cedo aqui ao sarcasmo, que remédio!
    Retirando o caralho, fica o lugar comum de circunstância. Muito compostinho. Esperava-se outra coisa, embora se compreenda.

    A primeira obra romanesca? Não sabe do que se livrou! Já viu o Amor Feliz e outros parecidos?
    Umbertos Eco não abundam!

  7. Uma coisa espantosa agora aconteceu. No dia do funeral do professor Jacinto meu filho Filipe fazia 3 anos e eu pensava «morrer aos 64 anos, que pena…» Dediquei-lhe um poema (A relva em frente)ainda em vida e do qual ele gostou muito. Agora o Eduardo morre com 63 anos. Fiquei chocado; o «record» foi batido e eu não estava à espera.

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