Poema das sete viúvas de Moura

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Na rua das sete viúvas
Travessa do Fala Só
À noite tiram as luvas
E vão jogar dominó
Depois de lavar a loiça
Fica um pano a tapar
Um barulho que se oiça
O encontro é o lugar
Das sete viúvas na rua
Sete viúvas no espaço
A luz é dada pela Lua
O encontro é o abraço
Na rua de sombras tortas
À noite pára o trabalho
Depois fecham as portas
E dividem um baralho
São sete falta um parceiro
Para formar duas mesas
Ninguém joga a dinheiro
Nem espera por surpresas
Na rua de sombras tortas
Por causa da geometria
As memórias quase mortas
Procuram a luz do dia
Rua das sete mulheres
Onde me deixo ficar
Num arquivo de saberes
Na vertical do lugar
Rua dos sete sentidos
Em busca da direcção
Tantos amores perdidos
No espaço do coração
Rua das sete virtudes
Dentro de cada casa
Água fria em almudes
Calor de fogo na brasa
Rua das sete canções
Cantadas muito baixinho
Por quem faz dos serões
Maneira de ser vizinho
Rua das sete senhoras
Nesta rua de um só lado
O relógio não tem horas
Todo o tempo é passado
Rua dos sete caminhos
Onde nasce uma moral
Todos dormimos sozinhos
Mesmo em cama de casal

José do Carmo Francisco

9 thoughts on “Poema das sete viúvas de Moura”

  1. JCF,

    Lindo lindo. Com jeitos de autêntico. Mas três (com boa vontade três) versos mancam. Estes:

    Depois fecham as portas

    Dentro de cada casa

    Por quem faz dos serões

    Não se arranjava mais uma silabazinha? É que quem busca autenticidade não pode deixar um pé (et pour cause…) de fora.

    Abraço.

  2. Mais que o Fernando, rendo-me a esta toada do JCF! É o campo dele, não se duvide.
    À nota do Fernando, tomo a liberdade de acrescentar um quarto verso:
    “Ninguém joga a dinheiro”
    Afina-me esse ouvido, José, e obrigado por este encantamento. Compensaste-me a noite atribulada.

  3. Jorge,

    Esse quarto verso também o notei. Esse, e outros. Por isso escrevi «com boa vontade três».

    Acho que, quando se joga, tem de aceitar-se TODAS as regras do jogo. E o Zé não aceita. Por sobranceria, por rebeldia? Tudo bonito. Mas não quando se aceita… jogar.

    Porque a questão – agora, caro Zé – é que os teus MELHORES leitores são também os MAIS EXIGENTES. E é por serem exigentes que eles são bons.

  4. Caro FV
    Percebi bem o teu «com boa vontade três», em toda a abrangência que lhe deste.
    Porque além deste “bando dos quatro”, que o JCF não pode permitir, há realmente dois ou três sobressaltos menores. Mas o leitor não deve armar-se em diapasão. Ele próprio não é virgem imaculada.
    Já me disputo contigo sobre a frase «E o Zé não aceita».
    Eu nunca vi o Zé não aceitar, não sei se tens razão. O que sei é que, se ele não aceita, é o único a perder.
    Para não dizer agora que foi a poesia, que foi a Pátria, que foi sei lá o quê. Seria dizer demais!

  5. Pois é, meus caros, o António Nobre também não era lá dos mais fiéis cumpridores de métricas e rimas, e escreveu poemas magníficos. Mas é óbvio que o JCF não tem necessidade nenhuma destas imperfeições. No entanto, há casos em que o próprio leitor pode dar uma ajuda. Foi o que me aconteceu com o tal verso “Ninguém joga a dinheiro”, não fazendo a contracção fonética dos dois “a”. Que ele avance para a perfeição, pois anda lá perto muitas vezes.

  6. «Perfeição»? Pobre de mim. Já me basta ter alguns leitores qualificados para compensar do outro que dizia «Não o ponha tão alto que ele nem é licenciado!». Safa!

  7. À memória de Fernando Pessoa

    Se eu pudesse fazer com que viesses
    Todos os dias, como antigamente,
    Falar-me nessa lúcida visão
    – Estranha, sensualíssima, mordente;
    Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
    Meu pobre e grande e genial artista,
    O que tem sido a vida – esta boemia
    Coberta de farrapos e de estrelas
    Tristíssima, pedante, e contrafeita,
    Desde que estes meus olhos numa névoa
    De lágrimas te viram num caixão;
    Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
    Voltávamos à mesma:
    Tu, lá onde
    Os astros e as divinas madrugadas
    Noivam na luz eterna de um sorriso;
    E eu, por aqui, vadio da descrença
    Tirando o meu chapéu aos homens de juízo. . .
    Isto por cá vai indo como dantes;
    O mesmo arremelgado idiotismo
    Nuns senhores que tu já conhecias
    – Autênticos patifes bem falantes. . .
    E a mesma intriga; as horas, os minutos,
    As noites sempre iguais, os mesmos dias,
    Tudo igual! Acordando e adormecendo
    Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
    O mesmo ar e em tudo a mesma posição
    De condenados, hirtos, a viver
    – Sem estímulo, sem fé, sem convicção…

    Poetas, escutai-me: transformemos
    A nossa natural angústia de pensar
    – Num cântico de sonho!, e junto dele,
    Do camarada raro que lembramos,
    Fiquemos uns momentos a cantar!

    António Botto

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